domingo, 26 de julho de 2009

Sobrevivência Humana: Petróleo e Nossos Hábitos

Vamos todos confessar um para o outro aqui: qual é a principal pergunta feita por nós mesmos quando se fala em uma possível crise mundial?

A resposta: “
Quando isso vai acontecer?!

E as respostas que sempre recebemos em seguida são expressas em milhões de anos para o fim do Sol e até décadas para o fim das reservas de petróleo. O que acontece depois? Fazemos uma longa expiração ("
Ufa!"), sorrimos e deixamos a vida continuar do jeito que está! Afinal, isso será preocupação das gerações futuras.

Do mesmo jeito que herdamos problemas de nossos antepassados (desigualdade social, poluição e destruição de ecossistemas), parece que nós estamos sempre repetindo os erros e negando-se ao mínimo de esforço por um futuro melhor, apesar de não estarmos vivos nele.

Antes de falar do petróleo, o principal ponto deste post, segue um exemplo de como nós temos sido covardes em enfrentar de verdade os mais graves problemas ambientais. No ano passado, eu, os professores Plínio Delatorre (biofísico), Beatriz Tupinambá Freitas (bioquímica), José Carlos Freitas (químico analítico) e nossos alunos fomos convocados pela Justiça Federal para realizarmos uma avaliação técnica-científica de diversos aspectos do depósito de lixo (sig., lixão e não aterro) da cidade de Juazeiro do Norte/ CE (Proc. No. 2000.81.00.014535-6/ Ação Civil pública movida pelo Ministério Público Federal e IBAMA contra o município de Juazeiro). À parte de todos os aspectos técnicos, as fotos abaixo, tiradas no depósito de lixo de Juazeiro do Norte pelo meu orientado, Samuel Cardozo Ribeiro, são bem mais informativas do que qualquer coisa que eu tenha escrito:

Esse é um dos nossos maiores problemas que se repetem no mundo inteiro, décadas a fio. Há dias vimos estarrecidos na TV a importação ilegal de lixo da Inglaterra para o Brasil, prática que reflete bem o início do post: estando eu bem, que se explodam os outros! Nesse caso, uma Inglaterra limpa, um Brasil sujo!

Quero que vocês, meus queridos amigos, entendam definitivamente que se forem em um estabelecimento qualquer e lá estiverem numa campanha contra as sacolas plásticas pela natureza, saiba que deveríamos fazer o mesmo com todos os recipientes plásticos, ou de nada adianta. Você não joga uma sacola, mas alimenta o lixão acima que continuará lá como um leviatã devorando rios, intoxicando os lençóis freáticos da água que bebemos.

Ou temos um programa de reciclagem sério e de larga extensão, ou o que fazemos não passa de uma atitude pequena burguesa. Calma, explico, uma atitude assim é se sentir bem não fazendo quase nada, tipo "
pronto não joguei uma sacola fora hoje", mas os mesmos hábitos no geral continuam. Sendo mais explícito ainda, nós todos sabemos que ninguém deixa de engordar por comer em um rodízio. Empanturrar-se de carne e gordura, depois tomar um “refrigerante diet” não faz diferença, o resultado geral é o mesmo: aumento de peso. Em todos esses casos quem ganha é quem vende, poupa o dinheiro da sacola (crescem os lucros, porque o preço poupado com as sacolas não é diminuído nas compras), ou com a venda do refrigerante diet. A boa ação de melhorar o mundo, ou não aumentar de peso na realidade não foram feitas: os lixões continuam e a obesidade também!!!

Calma novamente, antes de jogarem pedras em mim, ou perguntar, “
pelo menos uma sacola plástica já é algo”. Infelizmente, não é suficiente!!!

Agora, vamos até uma boa pizzaria. Antes da pizza, peça um suco de laranja e quando a pizza chegar peça outro. Você pode fazer isso muitas e muitas vezes, porque laranjas, trigo, queijo e calabresa são recursos renováveis e absolutamente recicláveis!

Pense com o mundo inteiro, quantas vezes nós teremos a oportunidade de irmos a um posto de combustível abastecer nossos automóveis? Meus caros, petróleo não é renovável e um dia terá um fim. Ao que tudo indica e com a produção/consumo atual (75 milhões de barris/dia), segundo o físico sueco Kjell Aleklett (2007) o “peak oil” (capacidade máxima de produção de petróleo) irá acontecer entre 2008-2018! Após isso, a produção entra em declínio e escassez. Em 2050 a produção será insuficiente para a demanda mundial... Dá para imaginar o que é isso? Vocês podem imaginar um mundo assim? Se não, entendam que estamos na Era do Plástico, tudo em nossa volta é derivado de petróleo... Tudo!!! O computador e seus componentes, a seringa e as embalagens de soro fisiológico, a camisinha e os óculos de sol, o gás da cozinha e aquecimento... Tudo! Sem contar que todas as formas de indústria (ressalto a agricultura para vocês não esquecerem) e transporte de seus produtos dependem de petróleo.

Em 2018 eu terei 47 anos, se tiver saúde e sorte, em 2050 estarei vivo com 79 anos. Eu serei um velhinho em plena crise mundial!!!... "OH NÃO"!!!

Há quem aposte o contrário, os economistas Paul Joseph Watson e Alex Jones (2005) acham que a hipótese do "peak oil" é pura falácia da elite para aumentar o quanto quiser o preço do barril de petróleo. Este ainda pode ser muito explorado por mais de um século sem problemas.

Eu não defendo elite, ou aumento de preço algum. Se Watson e Jones estão certos, teremos muito petróleo ainda para queimar, controlado pela indústria mais poderosa do mundo... Mesmo assim, um dia o petróleo acabará certamente (destruirá vários ecossistemas consigo antes disso). A diferença é que vamos continuar empurrando nossos problemas para as gerações futuras.

Todavia, se a hipótese do "peak oil" estiver correta, dessa vez eu não posso expirar em alívio com a frase “Ufa! Não estarei vivo quando isso acontecer”. Irá acontecer comigo, com vocês, e, pior, com meus filhos.

Vocês podem encher esse post com comentários apontando links de pesquisas com fontes de energias alternativas como a elétrica, nuclear, biocombustíveis (a partir de arroz, grama, beterraba, microalgas, cana de açúcar), solar e hidrogênio da água, ou do ar. Nenhuma dessas alternativas até o momento pode substituir em larga escala o consumo atual de petróleo. É mais fácil até imaginar saídas regionais, por exemplo, um combustível x é mais adequado para região y, combustível w para região z. Em transportes globais como aviões e navios devem ter algo comum e potente.

Bem, apesar disso, vemos poucos esforços e interesse das políticas públicas mundiais em enfrentar a nossa dependência atual e a futura recessão do petróleo. Tudo parece como no exemplo dos lixões, muita propaganda, muita atitude de pequeno burguês e nada de resolver os problemas que vão se acumulando dia após dia.

O barril de petróleo custa hoje US$ 48,54, chegou a US$ 150,00 em meados de 2008. Essa oscilação tem haver com o não controle do mercado internacional, sujeito às especulações sórdidas, atrelado e causador de crises econômicas mundiais. Em entrevista nesta semana à revista
Isto É Dinheiro, Kjell Aleklett alertou para um novo ciclo da disparada do preço do petróleo. Isso também foi alertado por Jeroen van der Veer, presidente mundial da Shell.

Se nada for feito, a premiada escritora norte-americana Antonia Juhasz alerta em seu livro “A Tirania do Petróleo (2009, Editora Ediouro)" para a destruição do meio ambiente e as futuras guerras do petróleo ainda mais graves do que as recentes. “
Prevejo que o preço do petróleo mais que se recuperará se os elementos subjacentes que levaram ao aumento não se modificarem: 1) desregulamentação do mercado futuro do óleo bruto; 2) o poder político e econômico sem precedentes das empresas petrolíferas; e 3) a grande dependência mundial em relação ao petróleo, um recurso que, supostamente, atingirá seu pico global em 2020” (Juhasz, 2009: 10).

Falta ainda comentar um dos aspectos que mais afetam meus pares na academia: e nossos automóveis?! Olha, eu não teria problema algum de voltar a andar de ônibus, fiz isso até o ano passado! Muito embora eu conheça professor de ecologia defensor da natureza com carro de consumo absurdo, mas da “moda”! O meu Gol, graças a pesquisa tecnológica brasileira, é Flex e tem um desempenho entre 10 a 13 km/L!!! A faixa de consumo desejada por Barack Obama para a frota de carros dos Estados Unidos em um futuro próximo... longínquo, ou nunca a ser alcançada. Por que isso? Vai de encontro com os hábitos humanos, mergulhados em um sistema de consumo irracional e pela glorificação de coisas fúteis a qualquer custo!!!

Vamos repetir novamente para deixar claro: o que adianta você comprar apenas um caderno de folhas de papel reciclado, se seu carro é um “tanque urbano” que consume mais do que o dobro de outros carros comuns (menos de 6km/L)?! Conforto? Segurança? Duvido muito e pouco me enganam, pois sei muito bem o significado das coisas e como elas estão em íntimo relacionamento com exibição de
status e poder.

O mundo mudará, quer gostemos ou não! No caso específico da indústria do petróleo, ela terá um fim, quer queiramos ou não, neste século, ou no próximo!

É o fim da humanidade? É o Apocalipse? NÃO!

Lembrem-se sempre que hoje há humanos vivendo em diferentes sistemas sócio-econômicos e culturais. Há caçadores-coletores, monges reclusos em seus mundos, humanos modernos extrativistas e até pequenas sociedades auto-sustentáveis.

Agora, se você não imagina um mundo sem o seu “carrão utilitário da moda”, tenha medo, tenha muito medo das mudanças futuras!!! Para esses últimos, já estão sendo vendidos manuais de sobrevivência no mundo sem petróleo. Novos guias de auto-ajuda que vão fazer muita gente estocar gasolina em casa, como fizeram os americanos na construção de casas com abrigos anti-nucleares durante o auge da Guerra Fria.

Ah! Não poderia perder a oportunidade de também responder em público a um aluno meu que fez o seguinte questionamento: “A revolução industrial foi iniciada com máquinas a vapor, por que não poderíamos voltar para essa tecnologia?

Por que nossa demanda energética cresceu demais e o “vapor” era gerado por CARVÃO!!! Apenas aqui no nordeste a produção de carvão, entre outras agressões, custou à destruição de 99% do único bioma exclusivamente brasileiro: a Caatinga!!! Transformamos em lenha e carvão quase que toda a Caatinga!!! As paisagens do nordeste hoje são tomadas por florestas de xique-xique, jurema, mandacaru e sabiá, em áreas de “descanso”. Um mato denso e espinhoso que cresce para ser cortado novamente, enquanto outras áreas são exploradas. Tudo isso muito diferente da Caatinga Arbórea original. Hoje em dia, essa madeira do sabiá e jurema alimenta a produção de tijolos, pães e pizzas!!! Sabem, a borda crocante com catupiry feita no forno à lenha?!... É o sabor do assassinato de nossa Caatinga.

Foto tirada por mim em 2005 de lenha ilegal apreendida pelo IBAMA em Aiuaba - CE.

Espero que tenham entendido que para mudarmos o mundo atual teríamos que fazer muito mais do que apenas evitar uma sacola plástica, uma doação anual de R$ 50,00, ou tomar um refrigerante diet. Mudar o mundo de verdade compreende um esforço coletivo equivalente a uma revolução dos valores e hábitos humanos ocidentais.

Caso não mudemos, sobreviveremos... Mas, em qual tipo de mundo?!

A Sobrevivência Humana continua... !!!

Links:
http://peakoil.org.uk/
http://www.worldproutassembly.org/archives/2007/05/the_myth_of_pea.html
http://www.energybulletin.net/node/29845
http://ar.groups.yahoo.com/group/redgeoecon/message/142
http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u416309.shtml
http://www.nossasaopaulo.org.br/portal/node/256

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Sobrevivência Humana: Apresentação


Vocês já ouviram falar em “peak oil” e o fim da indústria do petróleo?! Sabiam que nosso clima irá mudar radicalmente com ou sem emissões de CO2?! É verdade que pandemias infecciosas estão confirmadas para este século?!
As três perguntas com tons de exclamação envolvem debates atuais sobre (1) recursos não renováveis e crise energética; (2) mudanças naturais (vulcanismo, deriva continental, terremotos, tsunamis, meteoros, inversão magnética dos pólos, máximo solar, etc.) e a ação antrópica para o bem e para o mal; (3) limites biológicos de nossa espécie e todas as ameaças por outros organismos (uns já conhecidos por nós, mas hoje resistentes aos nossos fármacos, outros ainda emergentes).

Ok, ok, não pretendo escrever aqueles textos enormes e muitas vezes chatos sobre “conservação da natureza isso, temos que ser bonzinhos com as flores aquilo”. Afinal, eu sou um biólogo de verdade e não alguém tentando defender ideologias equivocadas, ou mesmo apenas fazer parte da “moda ambientalista” da pequena burguesia. Em meu trabalho com parasitas de animais silvestres tenho visto muita dor na natureza que ainda pode fazer parte de nosso dia a dia humano, apenas citando um dos aspectos do parágrafo anterior.

Quero escrever aqui sobre o que sabemos de verdade, e, onde for possível, as ações de verdade. Por exemplo, leio e escuto com freqüência pessoas que defendem o meio ambiente como se fossem salvar algo para sempre, preservar floras e faunas como se elas fossem sistemas fixos e eternos. Se há algo que é imperioso na história dos sistemas biológicos chama-se mudança. Em outras palavras, evolução para sobreviver e replicar os genes eternos. Nosso planeta mudará de um jeito ou de outro! Claro, nós esperamos que essa mudança não seja para algo hostil à nossa própria sobrevivência.

Só de escrever isso, alguns já ficam de cabelo em pé, mas não confundam um debate sobre a ação nociva de modelos sócio-econômicos humanos (colonialismo/ capitalismo/ imperialismo) com a atividade humana em si sobre a natureza. Nós fazemos parte dela, por ela e para ela. Como qualquer outro ser vivo, somos frutos gerados pela evolução por seleção natural. Nós não somos alienígenas neste planeta!

Em comum acordo, quando éramos apenas caçadores-coletores vivíamos sem sermos os responsáveis pela destruição de ecossistemas e a extinção em massa das espécies. Todavia, sabemos que não somos mais assim, sabemos também que a história não se repete e que mesmo em um chamado mundo “neotribal”, se isso viesse realmente a acontecer, seríamos muito diferentes dos nossos ancestrais das tribos humanas no neolítico.

Nós somos uma espécie que só ocorre neste planeta, ou seja, somos endêmicos da Terra. Hoje não possuímos tecnologia alguma para dominar nosso clima e a evolução das espécies, assim como não podemos fugir daqui para outro lugar. Precisamos de tempo para tentar conseguir avançar nisso, mas tempo é algo que talvez não tenhamos.

Se uma crise global de recursos se estabelecer, como nós nos comportaremos em um mundo quase sem energia elétrica e combustíveis fósseis? Adianto para vocês que nosso comportamento primata para disputa de recursos e território é um só: guerra!

Chimpanzés fazem guerra por território e recursos naturais. Nós, como é de se esperar, fazemos o mesmo, mas de forma muito mais elaborada, entenderam?!

Assim apresento a série Sobrevivência Humana! Nos seis textos que virão abordarei os fatos, exageros e as verdades sobre (1) recursos naturais e crise energética; (2) modelos econômicos e a natureza; (3) fatores naturais (p.e., vulcões, terremotos) e eventos estocásticos da evolução (p.e., extinções em massa, equilíbrio pontuado); (4) doenças infecciosas; (5) limites biológicos dos seres humanos; e (6) a verdadeira ciência contra as previsões esotéricas do fim do mundo.

A vida na Terra é um rio que começou a correr há 3,5 bilhões de anos e chegou até você e a mim, no meio de uma diversidade espetacular” (Varella, 2000: 8). Até quando esse rio da vida continuará correndo? Até quando estaremos nele? Afinal, nada é eterno e tudo se transforma!

A Sobrevivência Humana!
Referência: Varella, D., 2000. Macacos. Publifolha.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Foot of the Mountain


Esse é o mais novo vídeo da banda A-ha que mais influenciou a minha adolescência:


Passados 37 anos, ainda fico surpreso como músicas simples assim me tocam.

Andar por multidões, festas e regojizos de modas nunca me atraíram. Ademais, eu também moro no "pé da montanha"... na Chapada do Araripe... e não troco isso por nenhuma metrópole.

No significado das coisas e memória de meu pai estão a vontade de mudar o mundo para melhor. Que seja então aqui no Cariri Cearense, onde envelhecerei e viverei "on the foot of the mountain".

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Esse post é uma homenagem ao meu pai, proletário (frezador profissional), esportista, um homem como qualquer outro, que lutou com suas forças para vencer todas as dificuldades comuns de nosso Brasil.

Te amo, pai! Nunca te esquecerei!

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Obs.: Aguardem, vem aí a série "Sobrevivência Humana".

quarta-feira, 17 de junho de 2009

domingo, 14 de junho de 2009

O significado das coisas: entre os dias brancos

Por que fiz isso comigo? Por que pintei meu dia com mais tinta branca do branco vazio que ele já era? Eu não fiz nada hoje, apenas deixei meu tempo se esgotar como se tivesse tanto tempo para desperdiçar. Eu não fiz absolutamente nada hoje, fiquei ali no canto das coisas, estático, entre dormir e acordar, olhar a janela, escutar o som dos poucos automóveis na rua e ir até a geladeira, no máximo de meu esforço físico... Eu não fiz droga alguma hoje! Deveria ser preso por esse crime. Desperdiçar vida deveria ser inafiançável neste sistema solar, sobretudo neste planeta... no dia de domingo.

Vocês sabiam que o dia de domingo não possui qualquer significado para a natureza? Todos os animais e plantas continuam suas rotinas de sobrevivência cheias de significado, repletas de evolução.

Minha espécie evoluiu para o dia de domingo?! Não, o correto é meus antepassados mais recentes, porque ameríndios e tantos outros povos de caçadores-coletores não possuem um dia tão inútil e vazio em suas vidas. Domingo é uma conseqüência, o produto final de nossa evolução cultural. Deveríamos estar todos muito felizes por termos 24 horas vazias formando nosso dia mais branco de cada semana, mas não estamos, por quê?

Algumas pessoas não entendem a necessidade existencial de procurar respostas sobre o que somos e de onde vimos. Outras se satisfazem com a primeira resposta, ou livro que lêem. Eu digo a você meu amigo, uma pesquisa modesta entre livros de divulgação científica, ou um passeio com os olhos pelos artigos científicos disponíveis na internet sempre te levarão à África, nossa terra natal, lar de nossos ancestrais. Se existiu um paraíso para a primeira população humana, foi lá naquelas savanas de campos abertos e grandes árvores esparsas.

Antes de nós, nossos irmãos em cladogênese já possuíam uma vida social de estrutura complexa. Nós e todos os outros primatas, em nossos grupos sociais, vivemos uns com os outros, amando, odiando, sorrindo, chorando. Para nós primatas, não há vida na solidão. Esta é sempre melancólica, sempre nos deixa em estado de depressão, mesmo os misantropos lá no silêncio de seus mundos particulares, com motivos de sobra para guardar suas mágoas de amores passados.

Solidão é o sentimento que descreve bem um dia vazio e branco:

Onde estão as coisas aqui no branco deste dia? Do que vale o carro de luxo, o relógio mais caro, o jeans da moda, o sabonete perfumado e feito artesanalmente só para você? O que isso melhora sua vida em um dia vazio e branco?

Sartre escreveu certa vez: “o inferno são os outros”. Entretanto, o paraíso também é!!! Precisamos de outras pessoas para sermos felizes.

Precisamos de pessoas ao nosso lado e não coisas!!!

É algo hoje estabelecido pela ciência, ou você não ouviu falar nas novas fórmulas de uma vida saudável: resolver tudo em seu bairro (compras, lazer e identidade social). O problema é que isso esteja bem longe da realidade e apenas grupos da “classe média alta” costumam defender essa idéia ao edificarem seus condomínios de luxo privados. Já os mais ricos têm como extremo representado pelo Principado de Mônaco, um mini-país feito apenas para milionários, construído para simular uma vida tribal de abastados contemporâneos.

Há quem até defenda o abandono total desse modo de vida que temos para um retorno às sociedades de pequenos agricultores, ou mesmo caçadores-coletores. Quem possui essa felicidade natural deve ser defendido de nós, seres culturais tecnológicos, produtos da última revolução cultural da solidão e exploração das pessoas mais fracas. Isso é bem representado na música em homenagem ao Timor Leste por Morten Harket (vocalista da banda norueguesa A-ha):

Sandalwood trees are evergreen
Árvores de sândalo são sempre verdes
Cut them down
Cortem-nas
Plant coffee beans
Plantem grãos de café
Build no schools
Não construam nenhuma escola
Construct no roads
Não construam nenhuma estrada
Mark them as fools
Marquem eles como tolos
Let ignorance rule
Deixem a ignorância governar
Leave them stranded on their island
Deixem eles em sua ilha
Treat them to the tune of silence
Tratem eles ao tom delicado do silêncio
Red is the cross that covers out shame
Vermelha é a cruz que cobre nossa vergonha
Every Kingdom, every land
Cada reino, cada terra
Has it's heart in the common man
Tem seu coração no humano comum
Silently the tide shifts the sand
Em silêncio, a maré desloca a areia

Estranho como algumas histórias religiosas refletem nossa realidade. O livro sagrado de todos os cristãos está correto: nós perdemos nosso paraíso!!! Pela ciência, pela glória do capitalismo, pela fantasia de marketing das coisas que somos compelidos a consumir, ou até mesmo viver por elas.

Hoje é domingo, o dia mais branco e mais vazio de todos. Tento escutar o meu CD favorito, o filme mais marcante, ler o romance mais emotivo... tudo para entreter minha mente. Entretenimento de massas é um dos negócios mais lucrativos. Nós evoluímos ao redor de fogueiras, onde os mais velhos contavam histórias fantásticas para todos.

Nós precisamos de histórias para viver.

Também dançávamos e cantávamos a todos os pulmões pela alegria de uma boa safra, ou mesmo em luto pelos nossos entes mais queridos. Até para ir à guerra, quando era inevitável, nós cantávamos todos de mãos dadas, uns com os outros.

Hoje tudo está gravado em linguagem binária de computadores. Bytes, mega, giga, tera, yottabytes do que fomos, o que sobrou de nós mesmos no significado mais profundo das coisas.

Os sóis são indiferentes a nossa existência, todo o universo não está nem aí para nossa dor e finitude. Nós só temos uns aos outros e isso inclui todas as outras formas de vida deste planeta.

Nós somos tão efêmeros, animais tão frágeis como mostra toda a psicologia básica de alguém com orgulho exagerado. A soberba e auto-afirmação das pessoas esnobes, na verdade refletem um complexo de inferioridade agudo. Liderança e qualquer outro papel social são dados pela escolha da maioria, como bem fazem nossos irmãos chimpanzés. Construir isso artificialmente está no âmago de nosso mundo de ilusões e solidão contemporâneas.

Domingo um dia clássico de depressão no mundo ocidental moderno. Ouço o barulho das risadas e choro de meus filhos pela casa. Um dia eles vão partir, assim como eu fiz anteriormente. Meus domingos ficarão mais vazios no futuro e esse vazio poderá se alastrar para os dias da semana em minha aposentadoria. O maior inferno de todos é ter dias brancos espalhados por toda semana.

Não há coisa que se possa comprar com dinheiro capaz de preencher e entreter para esquecer esse vazio.

Pelo menos nos resta a arte, que seus dias brancos sejam como aqueles cantados por Geraldo Azevedo:

Só não esqueça que na música há um clamor por outra pessoa, um amor de paixão, ou um amor de sua família. Mesmo se sua casa for enorme e abarrotada de coisas, mesmo as mais caras possíveis, se não houver alguém nela que te ame... Tudo isso será um nada, vazio e absoluto.

Em um dia branco precisamos de pessoas ao nosso lado. As coisas que possuímos precisam estar mergulhadas nesse significado!

O significado das coisas.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

O significado das coisas: entre o status e a inveja

Como vimos no post anterior, coisas são necessárias para nossa sobrevivência. Associado a isso existe as campanhas publicitárias que decorrem de estudos científicos sobre como usar nosso comportamento humano instintivo e social para promover ilusões de necessidades.

Há um lado bom nisso. Algumas marcas de fantasia se misturam com suas próprias empresas/ indústrias e nos trazem a sensação de segurança na qualidade de seus produtos. Entretanto, quem não ficou surpreso quando soube da adulteração do leite de marca famosa com adicionamento de soda cáustica?! Acho melhor acreditar que devemos ter órgãos de fiscalização eficazes para nossa proteção contra a fraude das coisas. Afinal, adulterar alimentos e remédios deveria ser crime semelhantes à tentativa de assassinato.

Escrevi sobre os extremos de hoje, porque ouro em comida acho insulto demais. Por outro lado, há uma outra categoria de coisas que não está ligada diretamente à nossa sobrevivência. Elas identificam
status e estão ligadas aos padrões de beleza culturais variáveis (a “moda”). Em outras palavras, tudo o que nos dá bem estar deve ser levado a sério para termos uma boa saúde. Entretanto, adoecer de raiva por não comprar aquele jeans famoso, ou até matar para conseguir um “tênis de marca” é aqui o tema deste post.

Antes de prosseguir esclareço o seguinte: compomos uma única espécie (
Homo sapiens), somos todos humanos, mas cada um por sua vez possui individualidade e diferenças de aptidão. Mais ainda, não tiremos da mente que somos animais sociais e vivemos em estruturas baseadas em hierarquias. Isso é um determinante genético, mas moldado por efeitos epigenéticos da própria estrutura social de nossos grupos. Ou seja, nem nós, nem os chimpanzés temos um sistema de castas fixo e fatalista. Chimpanzés literalmente elegem seus líderes e caso esses mesmos líderes se tornem tirânicos, a mesma maioria que os elegeu irá depô-los. Nesse contexto, leituras como o livro “Eu, primata” (Frans de Waal, 2007. Companhia das Letras) deveriam ser obrigatórias para qualquer pessoa que ocupe uma posição de liderança.

Entre os chimpanzés, ocupar a função alfa em um grupo requer toda uma conjuntura de comportamentos e situações. Em humanos isso vai aos extremos, porque somos animais de cognição subjetiva exacerbada (outros escreveriam “complexa”). Nesse contexto, todas as culturas na história humana apresentaram coisas dotadas de símbolos de representação subjetiva para
status e poder das posições na hierarquia do grupo. Colares, brincos, peles, pinturas corporais sempre foram usados como sinais de identificação social e beleza em homens e mulheres.

Identificar-se através de utensílios simbólicos como um dos melhores guerreiros (por exemplo, a lança feita de ossos de mamute do filme 10.000 BC), pode ser semelhante a usar terno e gravata dos executivos, políticos, etc. Todavia, os contextos sociais são muitíssimos diferentes. Hoje em dia jóias, roupas, sapatos e até o tipo de bebida alcoólica em sua mesa podem identificar quem você é, ou pelo menos levantar hipóteses bastante fantasiosas.
A grande maioria de nós acha que as pessoas de poder (isso quer dizer hoje, muito dinheiro) irão aparecer entre nós vestidas de forma diferente com acessórios de beleza inatingíveis aos comuns, por exemplo, com relógios Rolex.

Isso é um tipo de estereótipo das massas incorporado pelo que chamamos "classe média alta" e nos “novos ricos” (ambas classificações equivocadas). Afirmar-se e incorporar uma posição social baseada em quinquilharias extravagantes é reconhecidamente cafona... e tem o efeito contrário, demonstra a origem de dificuldades financeiras, a pobreza que não saiu dos desejos das coisas supérfluas.

Por exemplo, quando homens comuns caricaturam mulheres de posse, normalmente os cartoons são assim:

Pura ilusão... semelhante às paredes das borracharias e propagandas de bebidas alcoólicas! Segundo Conniff (2004): “Com freqüência, as pessoas que estão no alto da hierarquia são seguras demais para sentir qualquer ameaça, ou espertas demais para demonstrarem o que sentem. (...) A exibição pode perder status, na verdade, na medida em que seja compreensível para as massas ignaras. (...) As melhores exibições são feitas numa linguagem privada, que só é conhecida por outros milionários. Uma mulher elegante pode usar um broche que, para a maioria dos olhos, parece ser aço. Mas as pessoas certas saberão que, na verdade, a dona do broche foi comprá-lo em Paris, numa lojinha da Place Vendôme que parece falida, com veludo malva desbotado nas vitrines e nenhuma jóia à mostra, nem tão pouco qualquer letreiro, exceto pela gravação ‘J.A.R.’s’ em vidro espelhado no alto. Ali numa escrivaninha coberta de couro azul surrado, um joalheiro chamado Joel A. Rosenthal tem encontros privados com as mulheres mais ricas do mundo e exerce a arte singular de dar a platina à aparência do aço, e de fazer safiras cor-de-rosa passarem por ametistas corriqueiras. Seu trabalho é tido como arte, mas só as outras pessoas capazes de pagar por ele adivinhariam que uma peça típica pode sair por 30 mil dólares. (...) Surge uma tendência a excluir do sistema os componentes mais baixos da população, até como espectadores cujo aplauso ou humilhação se deve buscar. Ou seja, para os ricos querer impressionar um estranho na rua faz tão pouco sentido quanto um pavão querer impressionar um cachorro” (Conniff, R., 2004: 208-209. A História natural dos ricos. Editora Jorge Zahar).

De cima para baixo na hierarquia, nossos símbolos obedecem às modas que sucedem às gerações e ao tempo. Seu automóvel, o tipo de relógio que usa, o tênis, o jeans desbotado, o celular... a caneta tinteiro de prata, quando tudo isso possui as “marcas certas”, estarão em uma sintonia de detalhes minimamente observados, desejados e invejados!!!

Um pequeno parêntese: quero deixar claro que não considero crime algum comprar coisas de qualidade. Um bom automóvel é equivalente a uma ótima guitarra, seus preços às vezes refletem os materiais de boa qualidade, tecnologia e mesmo os impostos. O problema para mim está nos extremos, como uma guitarra de ouro (sem função alguma, apenas exibição). Além disso, algumas pessoas parecem enlouquecer, ver suas felicidades dependerem dessas coisas... Elas mesmas se transmutarem nessas coisas, ou melhor, se tornarem escravas delas.

Entre a manifestação de sentimentos negativos de desejo das coisas está a inveja do sucesso e posses de outros. Nesta semana li uma reportagem curiosa e muito interessante na
Revista Isto É, cujo título diz tudo: “INVEJA DESVENDADA: pesquisa revela que esse sentimento é processado na mesma região cerebral que a dor física”. Segundo as pesquisas divulgadas nessa reportagem "a inveja é uma emoção dolorosa [física e fisiologicamente falando] e além da insegurança, a baixa auto-estima, o sentimento de incapacidade e a sensação de injustiça são características comuns aos invejosos. É um sentimento muito antigo, que está lá em nossa psique ancestral. Quando isso é positivo fica na esfera da admiração, mas nos casos negativos podem ser bastante destrutivos. Uma pessoa invejosa e hostil quando não consegue ser igual ao objeto da inveja, ou tiver o que ele tem, parte para cima do invejado com a intenção de derrubá-lo. É como se pensasse “se eu não posso ter, você também não terá”. Nesse jogo vale tudo: calúnias, armações, perseguições e, em casos mais extremos, o desejo de morte (Jordão, C. e Rabelo, C., 2009: 68-73. Revista Isto É. 3 JUN/ ano 32, no. 2064).

Click e assista:


Coisas, pessoas e seus símbolos estão misturados em nosso dia a dia e se vivemos em uma era dos extremos, isso sempre estará exagerado e sem medidas reais. Uma luta de classe e revoluções são compreensíveis mediante o sistema de exclusão social em que vivemos. Entretanto, ser agredido fisicamente, ou até assassinado por causa de um "tênis da moda" é algo fora do comum. De certo, temos exemplos clássicos na literatura como o assassinato de Déagol por Sméagol em "O Senhor dos Anéis". Mas, o anel da discórdia (a coisa desejada) entre esses personagens era mágico e poderoso, a inveja e o assassinato de Déagol não podem ser comparados a matar alguém por causa de um "tênis" na vida real:

Não gosto desses programas de fim de tarde sobre "rinhas familiares", entretanto, sobre essa categoria de coisas de consumo tenho a mesma opinião da Regina Volpato:


Por isso é muito importante sempre ter em mente o verdadeiro significado das coisas.

São apenas coisas!!!

quarta-feira, 27 de maio de 2009

O significado das coisas: entre a dor e a fome

Era final de uma das aulas de química orgânica em minha graduação. Após usar ácido salicílico, anidrido acético e ácido sulfúrico em minha frente jazia um pó branco chamado de ácido acetilsalicílico.
A professora encerrou a aula falando:

“-
Na frente de vocês está um dos mais conhecidos analgésicos do mundo. Semana que vem tragam seus cadernos de práticas laboratoriais com os relatórios”.

Perguntei qual era esse “remédio”, ela respondeu, “
vocês o conhecem pelo nome de fantasia: Aspirina”!!!

Claro, o tal “nome de fantasia” é referente a uma propriedade intelectual, uma patente da empresa Bayer.

É assim que iniciamos o significado das coisas. Não tenho a manifestação da náusea existencial sartreana apenas pelo consumismo em si. Existem muitas coisas, ou de simbologias ligadas a significados abstratos, por exemplo, um colar, ou um chaveiro, mas essas coisas não são necessárias para nossa sobrevivência, ou mesmo bem –estar.

O problema não é esse. As coisas sobre as quais escrevo neste post dizem respeito à necessidade de viver. Remédios e alimentos estão ligados a supressão da dor e manutenção da vida.

Estar acometido de uma doença grave, ou passar fome são estados profundos de miséria e muitas vezes, quando em estado leve, levam-nos a ver a vida de forma mais séria. Quem aqui já não entrou em estado de reflexão profunda quando acamado estava? Quem aqui não sentiu, nem que seja por algumas horas, a necessidade de saciar com urgência os pedidos da fome molecular de cada uma de suas células?

Ademais, nossas farmácias e supermercados atuais são muito similares com prateleiras repletas de embalagens coloridas, ar condicionado, música ambiente e muita, muita propaganda em cada embalagem. Há itens comuns em ambos, por exemplo, leite em pó, sorvete, desodorante, até brinquedos são encontrados em supermercados e farmácias!!!

Pois bem, nosso empreendimento humano da ciência e tecnologia deveria ser um pouco mais racional, pelo menos teoricamente. Nas tribos de caçadores-coletores cada um é responsável por si e todos os outros. Remédios tradicionais e alimentos são divididos e compartilhados. Todos devem ter acesso a isso. Imaginem um “pajé” que só cuidaria de alguém de sua própria tribo se obtivesse pagamento por isso? A tribo como um todo deve estar forte e resistente para lidar com as intempéries da natureza e eventuais conflitos com seus rivais.

Um ameríndio não consome uma
fantasia, mas sim recursos importantes para sua sobrevivência e desenvolvimento.

Bem, sabemos que nosso mundo atual é muito diferente disso.

Certa manhã, eu e meus amigos estávamos na “Cantina de Seu Antônio – A Pioneira”, lá no Centro de Ciências Exatas e da Natureza da UFPB/ João Pessoa - PB. A profa. Cristina Arzabe (atual pesquisadora da Embrapa e professora da UFPI) chegou e comentou conosco que havia deixado para vender suas frutas cristalizadas. Compramos algumas e no momento ela nos disse o seguinte:

- "
As frutas que cristalizo são deliciosas, domino todo o processo de fabricação caseira, higiene e seleção criteriosa das frutas. Mas tenho um problema com a embalagem! Não há nada de errado nelas assim como vocês vêem – estavam muito bem embaladas em recipientes plásticos transparentes –, porque elas não tem cores. Eu não tenho uma marca de fantasia, não possuo dinheiro para promover marketing e, dessa forma, nenhum grande supermercado que tentei vender meu produto aceitou comercializá-lo".

A professora Arzabe entendeu a face cruel do mundo: sem fantasia comercial, ou como os profissionais da área falam, sem a construção artificial de "
um envolvimento emocional dos consumidores”, dificilmente qualquer que seja o produto terá aceitação em vendas.

Ok, você pode falar para si mesmo, as verduras de minha casa não tem isso. Compro na feira livre diretamente do agricultor. Você compra alface e não uma fantasia. Todavia, nem todas as pessoas possuem essa oportunidade. Especialmente se elas viverem em grandes centros urbanos. Até mesmo as hortaliças hoje estão em prateleiras de consumo dos supermercados. Não há uma embalagem colorida nos tomates? Mas a escolha do estabelecimento para as compras seguiu os mesmos critérios e influência da propaganda que seus produtos postos à venda.

A abundância e diversidade de alimentos que disponibilizamos hoje estão refletidas em nossa crescente obesidade. Não é pouca coisa! Itens indispensáveis e essenciais para nossa sobrevivência são transfigurados em coisas de marketing e símbolos de
status social. Ou você acha que colocar pó de ouro na comida a torna mais “deliciosa”?! Se você nunca ouviu falar disso é porque deve ser tão pobre quanto eu. Nos restaurantes de luxo que nós não frequentamos (p.e., o Emirates Palace Hotel, em Abu Dhabi) isso é uma realidade... de como algumas minorias humanas opulentas de hoje podem se tornar acumuladoras de bens e serem consumidoras fúteis ao extremo.

Voltemos para o resultado de minha aula de química orgânica. O ácido que sintetizamos tem uma aparência de um pó branco. Para transformar isso em remédio foram realizadas muitas pesquisas até chegar à dosagem certa, com componentes associados de forma adequada e tudo comprimido... em pílulas!

Podemos sintetizar esse analgésico em casa? É possível, embora perigoso e desaconselhável. Mas, repito, uma pessoa com treinamento correto é capaz de realizar essa experiência. Na verdade, é uma prática tão simples que é feita com alunos de ensino médio (em um laboratório de ciências adequado e sob a orientação de um professor capacitado).

Nossos pais e avós herdaram conhecimentos tradicionais do uso de recursos naturais para tratar nossas enfermidades, assim como para alimentação.

Antes da síntese do ácido acetilsalicílico em laboratório, essa substância era/ e é obtida naturalmente da casca dos troncos do salgueiro (
Salix alba). O pó da casca dessa árvore já é utilizado medicinalmente por nós humanos há mais de 2.000 anos atrás. Hoje, industrializamos essa substância em misturas diferentes, travestidas por fantasia e um poderoso marketing.


O mesmo está para vários produtos alimentícios, por exemplo, o hábito de beber sucos de frutas no almoço é milenar, mas agora amplamente substituído pelo consumo de uma série de refrigerantes: água, corantes, conservantes, açúcar, aroma sintético de fruta, gás carbônico e..., escrevo novamente para fixar, muita propaganda para construir os "elos emocionais e símbolos de status abstratos" necessários ao consumo, mesmo sem qualquer ligação com a realidade.

Isso nos abate com tanta força, que para tentar retirar essa parte de marketing dos medicamentos, o Brasil lançou a possibilidade de acesso aos remédios essenciais com preços mais acessíveis. Os mesmos fármacos, mas sem as fantasias comerciais de caríssimas campanhas publicitárias. Entretanto, o próprio governo na época teve que fazer uma campanha publicitária para informar a população dessa diferença entre o medicamento real mais barato (genérico) e o outro igual, mas com a marca de fantasia patenteada. Propagandas essas que são de certa forma contra propagandas!!!

Mesmo assim, nós sabemos como é difícil sair de um exame médico com uma receita na qual está descriminado apenas o nome de fantasia do medicamento. Alguns médicos possuem parcerias com laboratórios, do mesmo jeito que um jogador de futebol pode ser patrocinado por qualquer empresa. Resultado, algumas pessoas resistem à idéia de tentar obter o genérico do medicamento recomendado, porque o médico não indicou um fármaco e sim uma “marca de fantasia”!!!

Claro, não vá ficar doente por causa disso! Apenas tenha um pouco de atenção no mundo e em todas as ações sobre você. O universo da propaganda explora todo o conhecimento sobre nosso comportamento humano. Se há um lugar onde nos veem como animais é nesse mundo de consumo. Exploram cada instinto, cada detalhe de nossa natureza mais selvagem escondida em nossos corpos. Climatizam tudo (na temperatura ideal para humanos), acalmam-nos com música ambiente, mostram-nos cores, muitas cores e luzes. As marcas de fantasia à frente trazem a recordação das pessoas felizes dos comerciais e outdoors, algo que não é para todos e isso traz a sensação de
status... Consumimos tudo quase que instintivamente!!!

Eu nunca comerei ouro, mesmo se tivesse dinheiro para tanto! Assim como também não troco um bom suco de mangaba por “refrigerante” algum (quando possuo a possibilidade da escolha).

Na dor... contemplamos nossa fragilidade. Ao adoecer entramos em contato com o mundo real, sem fantasias de atores com sorrisos em um ambiente artificial de paz e saúde permanentes.

Na fome... contemplamos até onde a miséria pode ser difícil de entender, pior ainda vê-la existir em meio ao excesso e desperdício de toneladas de comida todos os dias.


Onde está o significado real das coisas?! Está lá, entre a dor e a fome... O significado das coisas se abate sobre nós e pode levar muitos a um abismo existencial, às vezes sem retorno.

...
"
As coisas mais profundas têm mesmo ódio à imagem e ao símile." (Nietzsche, 1997: 45 - Além do Bem e do Mal. Editora Companhia das Letras)

O significado das coisas!!!

 
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