sábado, 30 de julho de 2011

Vida de Doutor: Apresentação

Diálogo do filme “A Família Savage” (The Savages, 2005):

Pai: “Então faça alguma coisa! Você é doutor!”

Filho: “Eu vou chamar alguém.”

Filha: “Está bem.”

Filha: “Ele não é doutor, pai. Ele é professor.”

Pai: “Pensei que meu filho fosse doutor.”

Filha: “Ele tem doutorado em Filosofia, PhD. Dá aula em faculdade.”

Pai: “Medicina?”

Filha: “Não. Drama. Ele dá aula de Teatro.”

Pai: “Como na Broadway?”

Filha: ”Não. Como... Teatro de conflito social. Coisas assim. Ele está escrevendo um livro sobre Bertolt Brecht.”

Assim como o personagem Jon Savage, eu também sou doutor e não foi diferente em minha casa com meus pais.

Eu sou doutor, um verdadeiro doutor. Desenvolvi e defendi uma tese que me valeu o título de Doutor em Ciências Biológicas (Zoologia) pela UFPB. Tenho outros adjetivos profissionais: biólogo, zoólogo, evolucionista, sistemata filogenético, parasitólogo, etc. Entretanto, para o mundo inteiro eu sou simplesmente... Professor.

Muitos de meus companheiros de trabalho tentam ainda adjetivar o próprio adjetivo de sua profissão, falam de professor pesquisador, professor universitário e professor doutor [rsrs] e por aí vai.

Não há uma identidade social-econômica, racial, ou gênero. Somos uma colcha de retalhos, de todas as cores, com pessoas vindas de todas as classes e de todos os gêneros. Entretanto, existem várias coisas que nos identificam, por exemplo, amor pela ciência (na maioria das vezes) e um discurso cheio de retórica e palavras específicas que para uma pessoa comum frequentemente são incompreensíveis.

Além disso, cito ainda (1) nossa carreira profissional (do salário ao status, mesmo que desmedido e falso); (2) os mitos que as pessoas possuem de quem completa sua educação com um curso de doutorado também são comuns a todos nós. Esses mitos e clichês são tão fortes e freqüentes que vez por outra, encontra-se um professor mergulhado em algo assim... Escrevo com ênfase: dá é pena de ver! Entre esses poucos, há quem se vista para além de uma passarela futurista, dessas que a gente vê na TV e pergunta para si “alguém vestiria isso no dia a dia?” Falam uma verborréia daquelas, vivem inventando um monte de problemas longe de qualquer vínculo com a realidade. Parecem verdadeiros ricos, mas logo estão ali dentro de seus carros populares indo para os subúrbios de todos os brasileiros...

Eu sonhei e desejei muito ser o que sou. Admirei muitos de meus professores na universidade e queria estar em um lugar igual ao deles... Consegui! Ah! É outro aspecto característico dos “doutores” de verdade, parecemos “astros do rock’n’roll” com muitos fãs, seguidores e inimigos. Tenho cada um disso em mim mesmo, da admiração, do fã até a inimizade declarada.

No meu sonho, nos tempos de aluno, eu tinha curiosidade de saber o dia a dia dos “doutores”. O que eles conversam nos cafezinhos, nas reuniões fechadas, naquela hora que pedem após a defesa da tese: “saiam todos, a banca irá agora avaliar em privacidade o candidato”.

Nos textos que virão irei tentar destrinchar em detalhes como é a carreira de um “doutor” no Brasil (e alguns aspectos globais, comuns a todos, vide o diálogo da família Savage). Como surgiu nossa profissão, os nossos salários, o amor pela ciência, o dia a dia, as aulas intermináveis (graduação e pós-graduação), reuniões (quase toda a semana), orientações de alunos, pressão para publicarmos, necessidade de fazer projetos e a difícil tarefa de fingir ser normal quando se vai a um supermercado fazer compras!

O que vem por aí é muito legal e tem realmente muito de “The Big Bang Theory” , mas tudo verdade, tudo realidade. Um exemplo:

Tarde de uma terça feira em Juazeiro do Norte – CE. Eu ando rápido pelas calçadas, o sol está matando, mas eu preciso chegar ao banco pegar uma grana. No Sebo encontrei um monte de HQs da década de 1980. Eu olho para os lados e vejo os amigos que me acompanham, um é doutor pela UNESP, outro é pela UFSCar e tem pós-doc na USP com estágio no Smithsonian Institution (EUA)... Eu não resisto e falo:

“Ninguém acreditaria nessa cena, dois doutores empenhados em comprar ‘gibis’ e outro dando a maior força. O que as pessoas devem imaginar de nós três? Personagens sisudos vestidos de jaleco em um laboratório?!... E eis que aqui estamos de bermudas com edições de Superaventuras Marvel nas mãos!”.

“É meio estranho, singular e até engraçado”.

“Eu vou escrever sobre isso! Eu vou escrever sobre a nossa realidade, nossa “Vida de Doutor”!

8 comentários:

Darlan Reis Jr. disse...

É isso aí. Doutores brasileiros!

Emerson disse...

Estou curioso para ler essa série de posts

Waltécio disse...

Eis o roteiro dos posts que virão:

(1) Vida de Doutor: A Origem

Ciência e trabalho assalariado são coisas diferentes, embora estejam juntas desde sobretudo a partir do século XIX.

Há um grande esforço (muito estudo) e isso não reflete na remuneração, comparando-se com outras profissões (p.e., juízes).

(2) Vida de Doutor: Carreira e Status

Não basta ter um título, temos que aplicar o que prendemos.

"Publish and Flourish" (publicar e florescer). Quando as hipóteses implacam, os fãs e os inimigos que surgem. Quando somos ignorados a tristeza.

(3) Vida de Doutor: Cultura Universitária.

Eis minha frase que arranca sorrisos: "na universidade é mais fácil ser ateu do que não gostar do Caetano Veloso".

É sobre os clichês culturais, música, arte, vestuário, manias, enfim, comportamento.

(4) Vida de Doutor: Epílogo
Uma mensagem final aos jovens doutores.

Assim será a série! Espero que vocês gostem, Darlan e Emerson!

Abs,

Waltécio

jander's blog disse...

gostei do post valtércio
tá de parabéns!!
muito bem escrito e bem reflexivo!!
vlw!!

Waltécio disse...

Errata: *emplacam

Anônimo disse...

Qauntos doutores a universidade que o senhor ministra aulas já formou?

Quantos doutores nascidos na ragião do Cariri ministram aulas nas universidades da região?

Essas perguntas são pertinentes

Waltécio disse...

"Qauntos doutores a universidade que o senhor ministra aulas já formou?"

Para os padrões da academia, eu ainda sou jovem no exercício, tenho apenas oito anos no magistério superior. Na minha universidade só há um curso de mestrado relativamente recente (setembro de 2007). Nos quase quatro anos de funcionamento de nossa pós-graduação formei três mestres, destes, dois estão cursando doutorado na UFPB com minha colaboração e co-orientaçao em seus projetos de tese.

Atualmente, estou responsável por liderar nosso projeto de doutorado (a ser submetido no próximo APCN-CAPES) e já fui escolhido pelo colegiado para assumir a coordenação de nosso programa de pós-graduação.

Tentei adicionar o máximo de informações... porque ainda não formei diretamente nenhum doutor.

Quantos doutores nascidos na ragião do Cariri ministram aulas nas universidades da região?

Eu não tenho números exatos, mas na Biologia onde ministro aula na graduação há os professores nascidos no Cariri e ex-alunos da Universidade Regional do Cariri - URCA: Antônio Álamo (doutor em Oceanografia; embora ele trabalhe com Paleontologia) e Margébio (doutor em Educação). Estão em doutoramento prof. Gilberto (na UFRN) e outros dois (Ivanildo e Eliene) no programa Dinter-UFSM/ URCA. Sei que existem outros filhos da terra em outros departamentos, por exemplo, prof. Rubens (História) e profa. Cídera (Educação), mas, repetindo, não tenho uma lista precisa.

Resumindo, há professores doutores do Cariri que estão em sua terra exercendo sua profissão.

Anônimo disse...

Entendo que o senhor ainda seja considerado um jovem pesquisador, mas eu que não fui muito claro. Existe algum curso de doutorado na região? Pois esse região cresce a todo momento, principalmente por meios de investimentos do governo do estado do CE e da União. Foi aprovada rescentemente a Universidade Federal do Cariri. Um estudo sobre as caracteristicas da pós-graduação e graduandos da região seria um bom plano de trabalho.
O senhor escreve, e muito bem, sobre suas experiências como estudante de pós, ciência, os doutores nas IES e outros assuntos correlatos, mas poderia ampliar o texto para a realidade da pós-graduação, projetos de pós, egressos dos programas de pós do Cariri, melhorias com a chegada de muitos doutores de outras regiões e como eles encaram a profissão.

 
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