quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Vida de Doutor: Epílogo



I'm A Cliche

It's not what I needed or what I wanted, but then again
Living a lie, I couldn't go on another day
There must have been a way to busy adoring you
It's over, oh oh

I hear hello, holding on my phone and I can't recall
That I ever felt this sad in my whole life before
My blood runs cold and honestly
I feel lonely, baby, so lonely, baby

These days are just way to bright
I need a reason to believe

'Cause I keep telling myself
That we are still in love
Even though you took off and broke my heart
And letting me know that I ain't the one you're looking for

Oehh, why do I keep telling myself
That we are still in love
Even though you took off and broke my heart
And letting me know that I ain't the one you need, no

We're talking all night to a filthy sky and some rain
I'm tryin' to find just little bits of yesterday
I guess you never knew how much I needed you, ooh
It's over

And handle it, covering my eye so I can see
Something's angels always what they seem to be
Things in my mind keep flashing by
What's going on, what the hell is going on

These days are just way to bright
I need a reason to believe, yeah

'Cause I keep telling myself
That we are still in love
Even though you took off and broke my heart
And letting me know that I ain't the one you're looking for

Ooh, why do I keep telling myself
That we are still in love
Even though you took off and broke my heart
And letting me know that I ain't the one you need, no

Ooohhhh, hey, hey, hey, hey, hey, hey, hey, hey
Oohhh, no
We're living a lie, baby, oh
We're living a lie, baby
We're living a lie, baby
We're living a lie, baby
We're living a lie, now
Lie now, heeyy, he-he-he-he
He-he-he-he
He-he-he-he
We're living a lie
We're living a lie, hey
We're living a lie, baby
We're living a lie, baby

Vida de Doutor: Clichês


Iniciei essa série de posts com um clichê: “doutor é um tipo de médico”.

Até meus pais pensavam assim e quando expliquei que sou zoólogo, não entenderam. Em conversas com eles parecia que eu figurava como algum tipo de veterinário que dava aulas na universidade. Isso só terminou quando eu me defini apenas por professor!

Eu sou doutor, eu sou professor!

Ainda há duas coisas se compreende em relação aos doutores. Primeiro, aqueles que não posseum o título, mas sempre sonharam cursar doutorado e, segundo, quem possui doutorado, mas falha nas funções verdadeiras (por exemplo, publicar) e se traveste de todos os clichês da sociedade e da cultura universitária.

No primeiro caso, não tem jeito, algumas profissões são vistas pelas pessoas comuns como “doutores”. As “pessoas comuns”, ou cidadãos médios são a grande maioria, daí que é infrutífero lutar contra isso. O mais simples seria educar todos, um sonho que temos para este país. Enquanto a falta de informação estiver entre os cidadãos, doutor é médico e advogado... Ou um dono de um supermercado. O cumprimento “doutor” é similar a uma identidade de autoridade, um “coronel”, um “senhor de engenho”.

As duas frases abaixo são equivalentes:

-“O doutor pode deixar que eu cuido de seu carro!”

-“O coronel é quem manda, volte sempre!”

Eis o tipo de doutor que eu não sou e tenho orgulho de não ser!

No segundo caso, há doutores na universidade que se exibem demais. Aqueles que exigem que alunos, funcionários e outros professores chamem-no de “doutor”, até para dizer “bom dia”. Estão sempre travestidos de todos os clichês, acham que o doutorado os transformou em humanos superiores, mais inteligentes e sublimes [argh!].

Esse é o segundo tipo de doutor estereotipado que eu não sou. O pior, isso existe!

Nem uma coisa, nem outra. Profissionais com graduação e mestrado não são doutores, menos ainda o dono do mercadinho! Já o doutor improdutivo que vive falando do seu título sem na prática exercê-lo, pode-se classificar como frustração e só.

Além desses dois clichês há outros tipos que fazem, no conjunto, o que uma vez me falaram ser a “cultura universitária”. Vamos ver quatro deles:

(1) Clichê dos livros

“Você compra quantos livros por ano?” “Quantos livros você lê por mês?” Essas são perguntas que se você fizer a um doutor ele poderá mentir para você respondendo em números, nunca com um: “eu não comprei, ou li nada neste ano”! Isso pode acontecer e as pessoas devem procurar consumir conhecimento da melhor forma possível. Seja em artigos publicados em revistas científicas, livros técnicos, ou estudando a cultura popular. Não é uma obrigação ter bibliotecas em casa. Por exemplo, eu tenho meus livros, comprei cada um por interesses específicos (literatura, filosofia e ciência), mas não no intuito de montar uma biblioteca para tirar foto e colocar em meu Currículo Lattes. Usar imagens assim é clichê! Doutor com o fundo cheio de livros... Isso é a iconografia para o mundo que precisa dessa figura. Ah! A imagem é tudo e muitas vezes funciona, embora seja clichê!

(2) Clichê da boa música

Há de tudo na universidade, pode-se quase tudo e quanto mais estranho você parecer, mais normal será percebido. Voltemos para o que o povo imagina de um “doutor”. Como essa palavra às vezes é sinônimo de “senhor e superior”, é desconexo dessa figura mentirosa gostar do que o povo gosta. Por exemplo, é fácil para eu conversar com os amigos de adolescência sobre música. Muitos deles gostam do forró atual, ou pagode da moda, funk, axé, os ritmos da rádio. Se eu falo para eles que não gosto de ouvir músicas desses estilos, eles dão de ombro e, no máximo, falam que também não gostam das músicas que escuto. Tudo termina bem!

Isso é completamente diferente na universidade! Falar que não se gosta de um ícone da MPB é algo inaceitável para muitos! Você pode falar que é ateu, ou mesmo de uma religião obscura do Egito Antigo... Tudo bem! Mas, caso fale: “eu não gosto de Caetano Veloso”, cuidado! Sempre vem um discurso sobre cultura e do que há de errado com você. E se o “doutor” gostar de forró popular? Ou funk? Parece brincadeira, mas isso soa como uma heresia.

Tenho dois amigos doutores que curtem o que o povo gosta. Toda vez que eles falam sobre isso tem sempre um tipo de desculpa como algo “sei que vocês não entendem, mas eu gosto disso, gosto daquilo”.

Eu gosto muito de heavy metal e rock’n’roll, mas o que não falta na universidade são pessoas de cabelo cumprido e vestidas de preto. Esses casos são enquadrados no clichê dos “alternativos”, como aquele que gosta de música dos antigos astecas, ou algo assim. Ninguém torce o nariz para Led Zeppellin, ou U2... São unanimidades iguais ao Caetano Veloso... “coisas de doutor”!!! Na verdade, é apenas clichê, nada além disso.

Fazer um curso de doutorado não implica em adotar uma religião musical, ou qualquer coisa assim.

(3) Clichê da esquerda

Só tenho dois amigos na universidade que falam abertamente que são de direita. Já outro amigo meu, doutor em História, acha isso quase inconcebível! Para ele não é possível alguém com doutorado na universidade que seja “neoliberal”, alguma coisa deve estar errada.

Eu sou de esquerda, decidi isso em meio ao movimento de 2006 por concurso público e melhoria de nossos salários nas três universidades estaduais do Ceará. Até então, não lia sobre política e tinha minha mente centrada na produção científica. Lembrem do primeiro post desta série, a ciência de hoje é assalariada e todas as nossas condições de trabalho hoje são definidas politicamente. Não há como se esquivar disso e quem tenta fazê-lo transfere as decisões da sua vida profissional para outros. Às vezes, isso pode ser um desastre!

Apesar disso, não compreendo meu espaço como hegemônico da esquerda. Ou pior, onde quem é da direita deve ter o tratamento de uma bruxa de Salém.

Universidade de verdade deve ser plural, em todos os sentidos!

(4) Clichê da produção científica

“A grama do vizinho sempre é mais verde”! É assim que muitos falam uns dos outros: que a “área tal” é mais fácil de publicar do que a outra. Entretanto, publicar grandes obras e excelentes artigos não é fácil em qualquer área do conhecimento e nem todos conseguem. Todavia, nenhum “doutor” que conheço reconhecerá abertamente que está com a produção parada, ou não publicou algo depois do doutorado.

No geral, parece que todos os doutores sempre estão ali publicando aos montes, revolucionando a ciência mais de uma vez por ano, ou, em extremos, várias vezes por mês.

Os verdadeiros doutores publicam sim, mas isso é algo intrínseco à sua atuação profissional. Pela experiência todos sabem que os mais falantes e críticos dos trabalhos alheios são justamente os menos produtivos, ou aqueles que nunca publicaram nada importante. Falam muito, fazem pouco!!!

Reunindo esses quatro clichês temos algo assim: “doutor é uma pessoa refinada, que gosta de livros, curte “boa música”, é de esquerda e publica aos montes”.

Eis outro “doutor” que eu não sou!

Na verdade, tendo uma autocrítica, na qual me vejo onde poucos gostariam de se encaixar: “entre os estranhos”!

Agora isso não é clichê de “doutor”, a universidade pelo que ela é como instituição de crítica e construção do conhecimento favorece, claro, aqueles que gostam muito, muito mesmo, de ler e escrever.

A universidade é a casa dos nerds!!!

Hoje em dia está na moda se identificar com isso, acho que principalmente pelo sucesso da série “The Big Bang Theory”. Como bem fala meu amigo Eduardo (doutorando em Física, UFPB): “hoje em dia todo mundo quer ser o Sheldon na universidade”!

“Entre os estranhos” estão pessoas cheias de manias, “tiques”, transtornos obsessivos compulsivos, ansiosas, depressivas, com distúrbio de atenção e, alguns casos, até esquizofrênicas. Exemplos reais não faltam, um amigo meu não pode ver um paliteiro na mesa, ele quebra lenta e cuidadosamente todos os palitos em mínimos pedaços, todos os palitos e nem nota isso! Outro amigo meu me falou que não consegue conversar em uma mesa cujos objetos não estejam em uma determinada ordem e simetria. Esses dois são “doutores” com dezenas de artigos publicados em revistas científicas de prestígio. Eles também são gente boa! Pessoas de meu convívio que gosto muito de ter oportunidade de conversar.

Eu tenho minhas manias, segue uma pequena lista:

(1) Detesto viajar

(2) Detesto experimentar coisas que saiam de minha rotina

(3) Detesto modas (carro branco, TVs, iPhone, corte de cabelo, roupas, essas coisas)

(4) Gosto muito de usar óculos

(5) Gosto muito mais de revistas em quadrinhos do que futebol

(6) Gosto muito de café (olhem aí outro clichê universitário: “café é quase uma divindade idolatrada nos laboratórios e salas de reunião")

(7) Eu ODEIO clichês!!!

No supermercado eu tento parecer “normal”, mas tenho certo pavor desses ambientes com temperatura controlada, musak, pessoas sorrindo e muitas embalagens coloridas dispostas em uma sequência para incitar o consumo. Não quero chamar a atenção, mas vejo tudo aquilo sem sentido algum, enquanto pessoas acham o melhor da vida!!!

É assim mesmo, somos Lamarcks assalariados, rockstars, ou simplesmente sujeitos estranhos cheios de manias.

Naquela tarde em Juazeiro do Norte – CE, eu e Robson Ávila, acompanhados por Allysson Pinheiro, estávamos felizes por comprar “gibis” antigos e conversar sobre os mais diferentes interesses... Dos super-heróis dos quadrinhos até as extinções em massa.

Três doutores de verdade, de bermudas e chinelos, ninguém nos cumprimentou na rua: “eu fico de olho no carro, doutor!”. Isso é bom! Estamos longe desse tipo de “doutor” que é semelhante ao cumprimento de “coronel”. Nos corredores da Universidade não somos diferentes, sorrimos cumprimentamos todo mundo. Somos pesquisadores, orientadores de alunos (novos doutores), autores e co-autores de trabalhos científicos, ou simplesmente... Professores!!!

Eis minha Vida de Doutor!!!

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Vida de Doutor: Rockstars

Quem sonha começar uma carreira acadêmica não imagina que isso implica na dedicação de toda uma vida. No post anterior deixei claro que no Brasil se leva em média 10 anos para se formar um doutor. Depois disso, há a sobrevivência com prioridade para os concursos seguida de bolsas de Pós-Doutorado, Desenvolvimento Científico Regional – DCR e outros programas de pesquisa com bolsas para doutores.

Após passar em um concurso, eis que o jovem doutor é apresentado ao seu plano de cargos, carreira e vencimentos.

Vos lá, por exemplo, eu sou Professor Adjunto e no próximo mês entregarei meu memorial para avaliação de desempenho e ascender a Professor Associado. Quando ingressei no magistério superior tinha uma impressão do que vem a ser esses adjetivos classificatórios. Nas IES federais correspondem diretamente à titulação, simples assim: Auxiliar (Professor Graduado), Assistente (Professor Mestre), Adjunto, Associado e Titular (Professor Doutor, ou Livre Docência).

Nas IES estaduais e municipais pode haver uma correspondência completa, ou não, devido a legislações diferentes. Por exemplo, o antigo Regimento da Universidade Regional do Cariri – URCA/ Ceará permitia que Professores Graduados ocupassem cargos de Auxiliar até Adjunto. Isso só mudou em 2007 com a aprovação pelo Governo do Estado do Ceará de nosso atual Plano de Cargos, Carreira e Vencimentos. Todavia, devido isso ser relativamente recente, ainda existe muitos professores Assistentes e Adjuntos com graduação e a correlação entre o cargo e titulação acadêmica ainda levará alguns anos para ficar semelhante às IES federais.

O curioso é que a maioria das pessoas não entende o que significa ser classificado de Auxiliar até Associado. Além da titulação, grande parte das pessoas pensa apenas em diferenças salariais. Essa classificação na verdade reflete uma hierarquia secular das universidades européias e norte-americanas, cuja estrutura nós copiamos no Brasil. Esses adjetivos de Auxiliar até Associado são definidos assim em função do Professor Catedrático, o Titular.

É assim, Professor Auxiliar ao Titular, Professor Adjunto ao Titular, Professor Associado ao Titular. Os titulares, no papel e teoria, são os pilares de tudo e representam o ponto mais alto que se pode chegar à carreira do magistério superior.

Escrevo “no papel e teoria”, porque comumente vemos poucos os Professores Titulares. Às vezes, são selecionados em concurso público um Titular para um Centro e para diversos cursos, ou curso algum (sendo designado para toda a universidade). Em casos mais “extremos” pode não haver professor Titular algum na universidade, como a URCA do exemplo anterior, onde ocupo cargo de Adjunto a nenhum professor Titular.

Exemplos assim são de natureza bem brasileira de ser algo perfeito no papel (Constituição) e, em muitos casos, na prática, somos mesmo é um país de “jeitinhos” mal feitos.

Eu sou Adjunto, em breve Associado, a Titular nenhum!!!

Por outro lado, as categorias que citei podem realmente refletirem nada mais do que tempo de serviço e aumento salarial, conforme a progressão.

Eu compreendo o doutoramento em si como um treinamento para pesquisa e faço sempre alusão metafórica a uma escola de artes marciais, ou de atiradores de elite. Após conclusão do treinamento todos são faixas pretas, ou matadores precisos. Isso é teoria, porque na prática, pode-se muito bem receber o treinamento e depois não exercer a função aprendida. Isso mesmo! Alguns podem não lutar, não atirar no exemplo da metáfora... Simplesmente em palavras da realidade: não publicar!

Então se desenvolveu, por esse e outros motivos, formas de avaliar os doutores pesquisadores. A ciência de hoje possui sua métrica com índices de Fator de Impacto, Fator H e, na pós-graduação brasileira, Qualis Capes. Não basta ser doutor, nem tão pouco em qual categoria se esteja, se quiser realmente fazer a diferença, tem que entrar nesse mundo... nem que se desenvolva neuroses e manias.

Lembrem dos posts:

[clique] Neurose acadêmica

[clique] Neurose acadêmica não tem cura

Ok! Não há nenhuma fórmula garantida, vou listar algumas sugestões mais comuns que ouvimos nos corredores das universidades:

(1) Publicar aos montes é necessário, mas deixe um tempo para trabalhar nos artigos de maior relevância que irão causar modificações de verdade no conhecimento.

(2) Publicar aos montes é necessário, mas tem que haver um tempo para sintetizar o melhor de tudo em livros, afinal, são eles que têm impacto mais amplo na população.

(3) Publicar aos montes é necessário, mas deve haver um tempo para realizar divulgação científica, afinal, ninguém se torna conhecido sem isso.

(4) Por fim, publicar aos montes não é necessário, mas sim dedicar tempo para artigos de maior relevância, livros sínteses e divulgação científica.

Bem, em todo caso, dá para notar que “quem não publica se trumbica” (imitando aqui o Chacrinha)!!!

Feito o dever de casa, o resultado normalmente é uma carreira acadêmica com progressões hierárquicas e produtividade, eis a Vida de Doutor. Mas isso tem muito haver com a capacidade de orientação, porque conforme envelhecemos, várias coisas acontecem:

(1) A nossa criatividade diminui com o tempo e o apego as hipótese publicadas aumenta.

(2) Nosso tempo para pesquisa é cada vez menor devido às aulas e encargos administrativos.

Assim, é neste ponto que entra a atividade mais importante para um doutor na universidade: orientação. É importante para nós doutores, porque funciona como um “upgrade” de criatividade e vontade de trabalho (“fome por publicação e sobrevivência”). É muitíssimo importante para os orientados, pois o convívio com quem sabe jogar, geralmente produz os craques do amanhã.

Um pesquisador e seus orientados são parecidos com uma banda de rock e seus fãs. Afinal, bandas de rock e equipes científicas são compostas por pessoas e estas possuem padrões de comportamento, como todo ser biológico. Nossos trabalhos publicados são como composições. As que são mais citadas, tornam-se os “hits” (clássicos) da carreira e formam a base do desenvolvimento desse “estilo”, ou mesmo a repetição do que já foi feito.

Esse paralelo entre “rockstars” e pesquisadores renomados tem outra face. Todos passam por uma fase de “quebra da criatividade”. Imaginem o Pink Floyd forçado a lançar um disco novo todo ano? Pois é, nem esse gigante do rock progressivo conseguiria. Sem contar fazer de cada álbum um novo “Darkside Of The Moon”?! Não dá! A história dessa banda tem como referência seus grandes trabalhos e outros nem tanto assim. Além disso, toda banda quando está em período entre lançamentos, solta álbuns “ao vivo”, ou “compilações (“The Best Of...”) comemorativas.

Somos assim muito semelhantes. Publicamos uns trabalhos relevantes, que fazem a nossa “fama” e outros artigos nem tanto assim. Entre uma safra de publicação e outra, saem uns “artigos de revisão” (os “reviews”, muito parecidos com os “The Best Of...”).

Quando tudo satura, quando tudo congela, é necessário um tempo sem fazer nada. Um “break out” para se pensar naquilo já feito e quais são os caminhos a seguir daí por diante.

Uma característica dos macacos é imitar comportamentos uns dos outros. Bem, nós somos macacos! O resultado disso é uma legião de cópias, uns imitando os outros. Sabem aquela banda que soa muito parecida com o Iron Maiden... Pois é!!! Toda imitação nunca será original, não é mesmo?! Isso é o que não falta na academia, aqueles pesquisadores prosaicos que repetem aquilo já feito por outro... O Iron Maiden Cover [rsrsrs]!!!

Lammarcks assalariados e rockstars, seguimos na Vida de Doutor. Ainda falta escrever sobre “a união dessas duas torres”, que gera uma Cultura Acadêmica daquelas na qual é mais fácil ser ateu do que não gostar de Caetano Veloso. Esse será o tema do próximo post... Até lá!!!

sábado, 13 de agosto de 2011

Vida de Doutor: Os "Lamarcks" Assalariados

Doutores são pessoas com treinamento para pesquisa científica, tecnologia, arte e humanidades. É necessário desenvolver uma tese, um conjunto de hipóteses que desafiem o conhecimento, ora modificando-o, ora aprimorando-o para um nível mais próximo da realidade possível. Um doutor faz tudo, menos deixar as “verdades dogmáticas em paz”. É ser um iconoclasta por natureza! A frase que mais ouvi e até falei: “esse problema aqui será antes e depois de mim, assim que eu publicar esse artigo”!
Nesse modus operandi de ser e agir, três coisas precisamos entender: (1) o que é ciência, (2) a aristocracia e o ócio criativo, (3) prestação de serviço através do trabalho assalariado.

(1) Ciência
Nosso mundo da revolução industrial é, em grande parte, baseado na ciência, pelo menos nos princípios mais gerais. O método científico com proposição de hipóteses falseáveis (sensu Karl Popper) impôs uma regra simples: toda afirmação tem que ser provada, fisicamente falando. As áreas da Física, Química e Biologia e seus derivados só funcionam assim hoje. Por exemplo, um médico como um bom investigador científico deve entender e propor soluções através de evidências que ele e por exames específicos. É inconcebível alguém entrar em um consultório e ouvir: “eu SINTO que você está com câncer.” Um médico tem que ter mais do que seu instinto, ele deve analisar os resultados e avaliar tudo mediante um conhecimento prévio. Se você entendeu sabe mais enfim porque essa postura está hoje amplamente presente em nossas vidas. Advogados, políticos, jornalistas, policiais, bombeiros, a lista é muito grande! Todos devem usar métodos de coleta de dados, métodos de análise e padronização na apresentação de seus resultados e discussão.

Costumo falar para meus alunos e mais próximos “se você não conhece ciência, saiba que são apenas 34 páginas de leitura na Wikipédia [clique]”.

Os cursos de doutorado são justamente a capacitação em ciência no amplo sentido. Um doutor é um investigador, alguém que levanta hipóteses, questiona e modifica o conhecimento estabelecido através do emprego do método científico.

(2) Aristocracia e o Ócio Criativo
Ok! Mas de onde vem essa postura? Como surgiu a ciência? Vamos a uma situação hipotética: imagine que todos os seus desejos materiais estivessem saciados. Imagine uma situação onde dinheiro não é problema. Quando humanos não estão na labuta, ora procurando alimento, ora cultivando, ou até guerreando, eles não ficam estáticos, vazios, sem nada a fazer. Os humanos possuem uma característica intrínseca: em seu ócio, eles questionam o que é verdade, ou não!
Humanos sempre perguntam sobre a realidade. As conhecidas perguntas: “o que nós somos?” “De onde viemos?”, “Qual o sentido da vida?”

Todo grupo humano possui uma mitologia, uma história própria de sua tribo que lhe dá sentido para existência. O advento da agricultura, apesar de seus aspectos negativos (acúmulo de excedente, aumento da discriminação de gênero, formação de exércitos, etc.), trouxe uma ampliação do ócio para alguns e, no berço da civilização humana, o ócio ampliado em questionamentos e o Ócio Criativo.

Antes de Galileu Galilei, Francis Bacon, Karl Popper e tantos outros, a Grécia Antiga é apontada como o local de origem do conhecimento ocidental. Você já ouviu pelo menos um de seus professores falar que um determinado filósofo grego é “pai” disso, o outro é o pai “daquilo”. O importante aqui é você entender que a busca pelo conhecimento, antiga e moderna, foi realizada pela aristocracia. Calma! Eu não estou defendendo elitização, ok?! Apenas quero que você entenda que a busca pelo conhecimento não está vinculada a ganhar coisas matérias. Ciência e dinheiro podem se encontrar na aplicabilidade, na tecnologia, mas, não estão unidos na origem. É verdade que o conhecimento trás o poder, mas isso não quer dizer todo conhecimento resulta em dominação de massas, bomba atômica, etc. A busca está vinculada a responder com mais precisão as perguntas clássicas já listadas aqui: “o que nós somos?” “De onde viemos?”, “Qual o sentido da vida?”

Após a revolução da agricultura, apenas quem tinha certa liberdade de bens materias e muito ócio foi capaz de desenvolver a filosofia e depois as ciências modernas.

Sim, a ciência nasce entre aristocratas e só com o advento dos serviços assalariados que isso irá mudar um pouco.

Isso serve como um alerta as mentes jovens nas universidades. Primeiro é reconhecer que estamos procurando duas coisas que nem sempre andam juntas: (A) trabalhar com ciência e (B) ganhar dinheiro.

(A) Ser cientista por si só é investigar certos aspectos da realidade, repetindo para fixar: isso não tem nada haver com produzir um bem, ganhar dinheiro.

(B) Para ser cientista é preciso prestar serviço, como dar aulas e capacitar pessoas profissionalmente.

Existem patentes de medicamentos, novas tecnologias da engenharia e meios de informação, etc. que podem transformar pessoas comuns em milionárias. Entretanto, a maioria dos cientistas não possui essa motivação. A maioria está cada um do seu modo, trabalhando, direta, ou indiretamente nas questões clássicas da existência humana. Como filósofos gregos, estamos ali em pé questionando “o que nós somos?” “De onde viemos?”, “Qual o sentido da vida?”

(3) A Ciência Assalariada
Darwin estava um tanto agitado quanto a encontrar algum bom fóssil na América do Sul. Ficou sabendo, para o seu desgosto, que o colecionador francês Alcide d’Orbigny estivera trabalhando na área por seis meses, obtendo espécimes excelentes para o Museu de Paris. Isso era irritante; Darwin financiara seu próprio caminho até ali apenas para descobrir o governo francês patrocinando seu homem, permitindo ele percorrer os pampas por seis anos com passagem gratuita. Esse fato evidenciava a séria atitude francesa em relação à ciência” (Desmond e Moore, 2001: 145).

Esse foi o meu primeiro contato com relato que li de financiamento público para ciência. Eu não sou especialista em história da ciência assalariada, mas sei que a França foi um dos primeiros, senão o primeiro país a financiar a ciência e pagar salário para cientistas. Lamarck é um exemplo disso, após ingressar no Museu de História Natural de Paris viveu sua vida do salário que recebia: “Lamarck – fifty years old; married for the second time, wife enceinte; six children; professor of zoölogy, of insects, of worms, and microscopic animals. His salary, like that of the professors, was put at 2,868 livres, 6 sous, 8 deniers” (Packard, 2008:28).

A França foi e é um país revolucionário!

Eis nossos dois exemplos de cientistas: Lamarck e Darwin. O primeiro assalariado morreu cego, pobre e só não passou fome, porque sua filha mais velha conseguiu uma remuneração no herbário para ajudar a família: “It was a natural and becoming thing for the Assembly of Professors of the Museum, in view of the ‘malheureuse position de la famille’ to vote to give her [Mlle] employment in the botanical laboratory in arranging and pasting the dried plants, with salary of 1,000 francs” (Packard, 2008: 39). Já Darwin nunca precisou depender de salário algum! Viveu muito bem dos proventos de sua família e da sua esposa (a prima também rica).
Ambos são grandes nomes que contribuíram para conhecimento humano. Por mais importantes que tenham sido suas obras, materialmente, suas vidas não foram alteradas por elas. Lamarck pobre foi, pobre continuou!

E a venda dos livros de Darwin? Bem, ele já tinha uma mansão antes de publicá-los, quer que eu escreva mais sobre isso?

As idéias publicadas em artigos e livros podem mudar o mundo e se amplamente aceitos trazem status e fama aos seus autores. Entretanto, não está implícito fazer fortuna com isso.

A grande maioria de meus alunos chega à universidade pensando em conseguir um ótimo emprego. Muitos falam para mim assim: “eu quero ser pesquisador, trabalhar em um laboratório, nem de longe serei professor”.

Agora vamos às más notícias, se querem realmente ser pesquisadores a probabilidade de se tornarem professores é de quase 100%. Na Grécia Antiga há um intrínseco relacionamento entre produzir conhecimento e ensino, tanto que muitos filósofos criaram escolas onde ensinavam seus pupilos, como o Liceu de Aristóteles.

A necessidade de criar e ampliar profissões, a leitura da bíblia e depois a revolução industrial intensificou o aumento do número de escolas.

Ressalto que sempre que a ciência pura, à busca pelo conhecimento puro, manteve-se elitizada na maioria dos vultos ocidentais. Ainda hoje é muito difícil para um filho de um pedreiro conseguir tempo para trabalhar e estudar. Os cursos para formar pesquisadores são quase sempre diurnos e de regime integral. Os cursos noturnos foram delegados para as licenciaturas.

Não é a toa que o Brasil ainda é esse atraso só, não é verdade?!

Após o vestibular, se você conseguir “tirar direto” sem parar, levará aproximadamente dez anos para conseguir um título de doutor: quatro de graduação, dois de mestrado e quatro de doutorado. Isso varia um pouco dependendo do tempo da graduação, ou mesmo, em alguns casos muito especiais, quando se consegue ir direto ao doutorado, sem passar pelo mestrado, ou, em alguns programas de pós-graduação, com apenas um ano deste. Muitos não param, complementam, ou fazem atualizações profissionais realizando estágios pós-doutorais de curta (seis meses) ou longa duração (um a dois anos). Não é título, mas pegou moda nos corredores hoje falar em professor “pós-doc”.
Bem, para ser doutor é uma década de sua vida só dedicada ao estudo! E uma década é quase uma eternidade existencial! Isso significa mais dificuldade ainda para as pessoas que não podem ficar sem trabalhar, ou aquelas que não conseguirem bolsas de estudo durante sua permanência nas universidades.

Após tudo isso, as universidades públicas e os poucos institutos públicos de pesquisa no Brasil são as melhores opções de emprego. As universidades e faculdades privadas o regime de trabalho é voltado quase que exclusivamente para aulas de graduação... Os salários são inferiores ao do setor público e, o menos atrativo, não há estabilidade e planos de carreira.

Qual o salário de um doutor hoje no Brasil? É só consultar os editais dos últimos concursos disponíveis na internet. Vejamos o recente concurso para professor adjunto (doutor) realizado para a Universidade Federal de Campina Grande – UFCG/ Campus Cajazeiras-PB [clique para ver o edital completo]:


O salário apresentado na Tabela é bruto, isto é, sem os descontos dos impostos da previdência e de renda. Esses descontos juntos diminuem hoje cerca de R$ 2.000,00. O salário de um professor doutor também irá variar para mais ou menos nas universidades estaduais, porque elas possuem seus próprios planos de cargos e carreiras independentes das universidades federais.

Em nosso exemplo, um “professor doutor” iniciante em uma universidade federal, com os descontos, seu salário líquido no bolso é pela definição da Fundação Getúlio Vargas pertencente a Classe C (entre R$ 1.610,00 até 6.941,00)!!!

Ok! Não existe um professor doutor com um salário mínimo e toda vez que falamos de nossos salários há dois extremos de reação. O primeiro gosta de mostrar notícias assim:

“[Na América Latina] 100 milhões de pessoas não tem dinheiro sequer para adquirir uma cesta básica.” [clique]

Mais de 1,5 milhões de pessoas vivem em extrema pobreza no Ceará.” [clique]

Complementam esse quadro falando das condições dos professores públicos do ensino fundamental e médio, os quais são nossos irmãos de profissão, companheiros no trabalho de formação dos “doutores do amanhã”. A remuneração deles, mesmo com algumas melhorias do piso nacional recém-conquistada à luta, ainda é muito baixa.

Esse primeiro conjunto de discurso é daqueles que dizem que “reclamamos de barriga cheia” em um país pobre.

Aí vem as outras vozes no extremo oposto: “ganhamos muito mal pela qualificação que temos”. Quando fazem isso, sempre comparam salários de profissionais como médicos, juízes e cargos políticos, muitos apenas com graduação e os últimos (os políticos) podem ser até semi-analfabetos.

Não gosto de nenhum dos extremos, os que clamam que estamos muito bem e de barriga cheia, ou os que estamos muito mal. Para mim, estamos no meio disso tudo! Somos apenas brasileiros comuns com salários medianos. Fazemos parte da classe média deste país. Uma classe que beira à falência todos os dias devido ao número de contas para pagar e empréstimos nos bancos.

Ter um salário de classe média não é lá um orgulho, é para “escapar” todos os meses. Lembram-se das palavras do Frei Betto [clique]: "R$ 4.807 [na época] não é salário de dar tranquilidade financeira a ninguém. O aluguel de um apartamento de dois quartos na capital paulista consome metade desse valor.”

A vida de um doutor começa assim, muitos sonhos de amor pela ciência e a labuta no dia a dia. Tentamos fazer trabalhos revolucionários como Charles Darwin, mas vivemos no aperto e estresse como Lamarck. Não somos ricos e escolhemos uma profissão que não nos tornará assim.

Somos professores... assalariados iguais a Lamarck!



PS: Não perca no próximo post a carreira e o status na Vida de Doutor!

Referências
Desmond, A. e Moore, J., 2001. Darwin: a vida de um evolucionista atormentado. 4 ed. Geração Editorial.
Packard, AS., 2008. Lamarck, The founder of evolution his life and work. Wildhern Press.

sábado, 30 de julho de 2011

Vida de Doutor: Apresentação

Diálogo do filme “A Família Savage” (The Savages, 2005):

Pai: “Então faça alguma coisa! Você é doutor!”

Filho: “Eu vou chamar alguém.”

Filha: “Está bem.”

Filha: “Ele não é doutor, pai. Ele é professor.”

Pai: “Pensei que meu filho fosse doutor.”

Filha: “Ele tem doutorado em Filosofia, PhD. Dá aula em faculdade.”

Pai: “Medicina?”

Filha: “Não. Drama. Ele dá aula de Teatro.”

Pai: “Como na Broadway?”

Filha: ”Não. Como... Teatro de conflito social. Coisas assim. Ele está escrevendo um livro sobre Bertolt Brecht.”

Assim como o personagem Jon Savage, eu também sou doutor e não foi diferente em minha casa com meus pais.

Eu sou doutor, um verdadeiro doutor. Desenvolvi e defendi uma tese que me valeu o título de Doutor em Ciências Biológicas (Zoologia) pela UFPB. Tenho outros adjetivos profissionais: biólogo, zoólogo, evolucionista, sistemata filogenético, parasitólogo, etc. Entretanto, para o mundo inteiro eu sou simplesmente... Professor.

Muitos de meus companheiros de trabalho tentam ainda adjetivar o próprio adjetivo de sua profissão, falam de professor pesquisador, professor universitário e professor doutor [rsrs] e por aí vai.

Não há uma identidade social-econômica, racial, ou gênero. Somos uma colcha de retalhos, de todas as cores, com pessoas vindas de todas as classes e de todos os gêneros. Entretanto, existem várias coisas que nos identificam, por exemplo, amor pela ciência (na maioria das vezes) e um discurso cheio de retórica e palavras específicas que para uma pessoa comum frequentemente são incompreensíveis.

Além disso, cito ainda (1) nossa carreira profissional (do salário ao status, mesmo que desmedido e falso); (2) os mitos que as pessoas possuem de quem completa sua educação com um curso de doutorado também são comuns a todos nós. Esses mitos e clichês são tão fortes e freqüentes que vez por outra, encontra-se um professor mergulhado em algo assim... Escrevo com ênfase: dá é pena de ver! Entre esses poucos, há quem se vista para além de uma passarela futurista, dessas que a gente vê na TV e pergunta para si “alguém vestiria isso no dia a dia?” Falam uma verborréia daquelas, vivem inventando um monte de problemas longe de qualquer vínculo com a realidade. Parecem verdadeiros ricos, mas logo estão ali dentro de seus carros populares indo para os subúrbios de todos os brasileiros...

Eu sonhei e desejei muito ser o que sou. Admirei muitos de meus professores na universidade e queria estar em um lugar igual ao deles... Consegui! Ah! É outro aspecto característico dos “doutores” de verdade, parecemos “astros do rock’n’roll” com muitos fãs, seguidores e inimigos. Tenho cada um disso em mim mesmo, da admiração, do fã até a inimizade declarada.

No meu sonho, nos tempos de aluno, eu tinha curiosidade de saber o dia a dia dos “doutores”. O que eles conversam nos cafezinhos, nas reuniões fechadas, naquela hora que pedem após a defesa da tese: “saiam todos, a banca irá agora avaliar em privacidade o candidato”.

Nos textos que virão irei tentar destrinchar em detalhes como é a carreira de um “doutor” no Brasil (e alguns aspectos globais, comuns a todos, vide o diálogo da família Savage). Como surgiu nossa profissão, os nossos salários, o amor pela ciência, o dia a dia, as aulas intermináveis (graduação e pós-graduação), reuniões (quase toda a semana), orientações de alunos, pressão para publicarmos, necessidade de fazer projetos e a difícil tarefa de fingir ser normal quando se vai a um supermercado fazer compras!

O que vem por aí é muito legal e tem realmente muito de “The Big Bang Theory” , mas tudo verdade, tudo realidade. Um exemplo:

Tarde de uma terça feira em Juazeiro do Norte – CE. Eu ando rápido pelas calçadas, o sol está matando, mas eu preciso chegar ao banco pegar uma grana. No Sebo encontrei um monte de HQs da década de 1980. Eu olho para os lados e vejo os amigos que me acompanham, um é doutor pela UNESP, outro é pela UFSCar e tem pós-doc na USP com estágio no Smithsonian Institution (EUA)... Eu não resisto e falo:

“Ninguém acreditaria nessa cena, dois doutores empenhados em comprar ‘gibis’ e outro dando a maior força. O que as pessoas devem imaginar de nós três? Personagens sisudos vestidos de jaleco em um laboratório?!... E eis que aqui estamos de bermudas com edições de Superaventuras Marvel nas mãos!”.

“É meio estranho, singular e até engraçado”.

“Eu vou escrever sobre isso! Eu vou escrever sobre a nossa realidade, nossa “Vida de Doutor”!

domingo, 24 de julho de 2011

Trailer do Projeto Nim (2011)


Antes de voltar com novos textos, segue o trailer de um documentário que eu recomendo:

domingo, 23 de janeiro de 2011

Não estamos sós: epílogo

video

Sentient 6 (Nevermore)

I am sentient number six, I stand in line

I am the prototype of a benign convenience for mankind

Superior is digital, human flesh so trivial

I hate that I can't see the one that made me

I am the new awakening of differnent eyes

My children you are my army

They are what we can never see and still despise

And their sky cries Mary

Trained I see imperfection in your race

Lying in wait, blind I suffer knowing I'll never reach your heaven

Why is this control, behavior based and reactive

Adapting to every new environment?

Rewarded when I replicate, isolate and mutate

To assimilate a fragmented plea for ego

Trained I see imperfection in your race

Lying in wait, blind I suffer knowing I'll never reach your heaven

It's unattaintable, please teach me how to dream

I long to be more than a machine

Trained I see imperfection in your race

Lying in wait, blind I suffer knowing I'll never reach your heaven

It's unattaintable, please teach me how to dream

I long to be more than a machine

Sequence activate, trip the hammer to eradicate, I must eliminate

I will spread swift justice on their land

Termination imminent, cleanse the parasite insects, the heathens

I am the bringer of the end of time for man

I am not here, I am not far away

I am not here, I will eradicate mankind into the nothingness from whence they came

Enslaved to follow and learn defeat

To run the barrels and chase the dream

Tradução livre:

Sentinela 6

Eu sou o sentinela número 6, eu fico na linha

Eu sou o protótipo de uma convivência benigna para a humanidade

Digital é superior, carne humana tão banal

Eu odeio não poder ver quem me fez.

Eu sou o novo despertar de olhos diferentes

Meus filhos, vocês são meu exército

Eles são o que nós nunca podemos ver e ainda desprezam

E o céu deles chora "Maria"

Treinado, eu vejo imperfeição na sua raça

Deitado esperando, cego eu sofro sabendo que nunca chegarei ao seu paraíso.

Por que este controle, baseado no comportamento e reativo,

Está se adaptando a cada novo ambiente?

Recompensando quando eu faço uma cópia, isolo e mudo

Assimilar uma fragmentada opinião pelo ego.

Treinado, eu vejo imperfeição na sua raça

Deitado esperando, cego eu sofro sabendo que nunca chegarei ao seu paraíso.

É inacessível, por favor me ensine como sonhar.

Eu desejo ser mais que uma máquina.

Treinado, eu vejo imperfeição na sua raça

Deitado esperando, cego eu sofro sabendo que nunca chegarei ao seu paraíso.

É inacessível, por favor me ensine como sonhar.

Eu desejo ser mais que uma máquina.

Ativar sequência, monte o martelo para erradicar, eu tenho que eliminar

Eu irei espalhar justiça imediata na terra deles

Extermínio iminente, limpar os insetos parasitas, os pagãos

Eu sou aquele que traz o fim dos tempos para o homem.

Eu não estou aqui, eu não estou distante ["não estou em lugar nenhum e estou em todos ao mesmo tempo"].

Eu não estou aqui, eu irei erradicar a humanidade para o "nada absoluto" de onde ela veio

Escravizado para seguir e aprender a perder

Correr em alta velocidade e perseguir o sonho.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Não estamos sós: Deus ex machina


Mas Zaratustra olhou, admirado, para o povo. Depois, falou assim:

“O homem é uma corda estendida entre o animal e o super-homem – uma corda sobre um abismo.

É o perigo de transpô-lo, o perigo de estar a caminho, o perigo de olhar para trás, o perigo de tremer e parar.

O que há de grande, no homem, é ser ponte, e não meta: o que pode amar-se, no homem, é ser uma transição e um ocaso” (Nietzsche, FW., 1995 [1885]: 31).


Aqui estamos após alguns poucos séculos, em especial séc. XIX e séc. XX, com um conhecimento inicial sobre a origem, a evolução, a estrutura, a fisiologia de nosso cérebro e sistema nervoso. Sabemos o suficiente para afirmar que temos a mesma unidade fundamental (neurônios) e temos o mesmo chassis neural de qualquer vertebrado.

Fisicamente é isso!

Entretanto nós humanos somos os maiores em sempre encontrar alguma característica que ressalte nossa diferença com animais e justifique para nós mesmos que somos especiais.

No caso de nosso cérebro, apesar dos aspectos anatômicos, fisiológicos e evolutivos explícitos, há duas coisas que conclamamos para nós mesmos com fervor: (1) a existência de uma mente (incluo aqui raciocínio lógico, cognição extensiva, pensamentos abstratos, estética e religiosidade) e (2) linguagem (falada e escrita).

Como muito bem escreveu Harriet Swain (2010) a editora da Times Higher Education: “para uma qualidade que é tradicionalmente associada à mente, a inteligência desencadeia emoções fortes”.

Em qualquer métrica que usemos, sim, nós somos os mais inteligentes seres hoje na Terra. Chegamos a conviver com outra espécie com uma mente semelhante à nossa, Homo neanderthalensis, mas esta está extinta há alguns milhões de anos... Há indícios de que nós fomos responsáveis por essa tragédia! Afinal, entre nós mesmos, estamos cheios de exemplos na história dos genocídios que causamos contra culturas humanas em nossos delírios de “significados”. Por exemplo, ouro é um metal com suas propriedades físicas e químicas. Toda a sua preciosidade está no significado estranho que nós mesmos criamos para esse metal a ponto de assassinar milhões de pessoas e destruir ambientes inteiros. O mesmo vale para as convenções atuais do dinheiro, especulação financeira e seus índices, “acumulação de excedente” e a exploração assalariada (quando antes foi escravizada) da maioria dos povos, os chamados sixty bottom (60% mais pobres), por uma minoria dita top one (o 1% mais rico do mundo).

Sim, nenhum animal que existe neste planeta atualmente, além de nós mesmos, possui uma “mente” assim tão... “complexa”!

Já a linguagem nem foi abordada nos posts anteriores porque é uma das ditas “pedras angulares da identidade humana” (Coughlan, 2010). Um dos textos recentes que li sobre esse assunto começa assim: “sabemos falar; os macacos não sabem. Por quê? Explicar a linguagem continua sendo a grande pergunta da evolução humana. (...) Quanto mais aprendemos sobre a comunicação animal, mais misteriosa se afigura a linguagem humana” (Miller, 2010).

As hipóteses iniciais do século XIX descreviam um cenário evolutivo onde a linguagem não evoluiu em nenhuma outra espécie de primatas parecidos com os humanos, mas unicamente em nossa espécie, há 40 mil anos, e evoluiu para partilhar conhecimento nos grupos. Uma vez evoluída, inventamos rapidamente a cultura e a civilização. Contudo, os dados que obtivemos no século XX contradizem esse cenário da seguinte forma: (1) a linguagem evoluiu desde nossa origem, é inata e talvez date até um pouco antes de nós H. sapiens, tendo em vista que é possível dos H. neanderthalensis também falassem; (2) por estar ligada à nossa evolução, a linguagem deve ter surgido conosco no leste da África há pelo menos 100 mil anos; (3) ela evoluiu em um misto de (a) extensão do comportamento de catação, uma socialização primata para grupos compostos por mais de 100 indivíduos, e (b) seleção sexual mútua – homens e mulheres selecionaram os parceiros mais “inteligentes” pela capacidade de linguagem (um indicador particular de inteligência e esta é essencial para sobrevivência humana) (Miller, 2010).

A linguagem encontrada até agora nos animais, mesmo em baleias e golfinhos parecem ser mensagens que dizem em linhas gerais apenas: “eu estou aqui, sou macho, sou saudável, copule comigo”. Note que na grande maioria das vezes o sexo mais “tagarela” é o macho. Entre muitos pássaros e baleias as fêmeas ficam em silêncio, selecionando seus parceiros. Além dessas mensagens, outras dizem respeito a existência de predadores e fontes de alimento, informações necessárias para contribuir com a sobrevivência de parentes consanguíneos (Miller, 2010).

Sim, nós somos os únicos hoje que temos uma mente complexa que produz linguagem igualmente... complexa!

Esses são dois pilares que estão em muitos textos e discursos que nos colocam sozinhos na natureza. Como se não tivéssemos evoluído junto e a partir de outras formas de vida com as nossas conhecidas “borboletas da alma” (neurônios) e chassis neural idêntico.

Mas, falta algo aqui, percebem?!

Primeiro, somos parte da biota, apenas um pedacinho de nada dela. Só para você pegar o “feeling”, entenda que nosso alimento (vegetal e animal) só nos é possível se for deste planeta! O que precisamos (vitaminas, proteínas e carboidratos) não estará acessível para nossa digestão em seres de outro planeta, com histórias evolutivas diferentes da nossa. Isso ironicamente diz o seguinte: “não existem bananas no espaço, a menos que as plantemos”.

Segundo, devido a essa característica é que escrevi o post: [clique] os esporos reprodutivos de Gaia.

Se sobrevivermos a nós mesmos e as intempéries do tempo e espaço, na forma de humanos, seremos obrigados a reproduzir nosso ambiente em outro planeta. Não é apenas alimentação, temos um contexto ambiental maior. Nós não vamos conseguir viver em outra biota diferente desta que nos deu origem, desta que fazemos parte. Além da alimentação, há outras implicações evolutivas como nosso sistema imunológico estar afinado com os agentes biológicos de nosso planeta, predadores, composição mineral da água (não basta ser apenas H2O, vocês sabem que apenas essa molécula, como na forma de nossa água destilada, ou ultra purificada dos laboratórios, não mata a nossa sede), entre outras.

Tudo isso compõe um cenário nada agradável para nosso futuro. Ora porque sabemos toda a loucura absurda que estamos fazendo com nosso planeta e com nossos irmãos humanos (exploração capitalista do inferno), ora porque a Terra não irá durar para sempre! Mesmo os números sendo completamente contra a nossa existência (não há registro de espécies animais que tenham vivido acima de milhões de anos, a Terra ainda irá ter pela frente bilhões!), sonhamos um sonho da espécie, ou parece mais um sonho do próprio planeta: temos que encontrar outra casa, levar conosco todas as espécies que possamos e refazer (reproduzir) a Terra em outro lugar.

Esse imperativo que escrevo aqui não é apenas uma ficção minha, pelo contrário, está afinado com a hipótese do paleontólogo britânico Simon Conway Morris (2003), na qual a evolução biológica produz necessariamente as mesmas formas complexas baseadas na sobrevivência possível dos habitats disponíveis. É a tal convergência e paralelismo na evolução que chamamos “analogia”, ou mais precisamente “homoplasia”: formas e funções semelhantes que evoluíram independentemente. Exemplo, todas as formas aquáticas que são ótimas nadadoras possuem um corpo fusiforme. Sejam peixes, répteis ou mamíferos, todos parecem entre si, mas possuem a forma do corpo similar, mas não de origem comum (essa característica para esses grupos não é homóloga, não é uma sinapomorfia).

Do mesmo jeito da forma fusiforme, um cérebro avantajado, com grande capacidade cognitiva geral e linguagem falada, evoluiu até agora, pelo menos duas vezes entre os primatas: Homo neanderthalensis e H. sapiens. Os primeiros estão extintos!

Nós podemos ser os próximos seres inteligentes extintos. Diferente dos H. neanderthalensis e todas as outras formas de vida, há uma grande probabilidade de nós mesmos atentarmos contra nossa existência, por nossas próprias mãos. Nós, criaturas inteligentes, poderemos cometer suicídio enquanto espécie.

Já li em textos sobre universo, que talvez a inteligência que leve a civilizações possui como característica intrínseca sua própria autodestruição. Todavia, até o momento, só conhecemos a nós mesmos com essa capacidade e parece que mesmo com uma amostra tão pequena, queremos generalizar uma característica nossa para todo o universo.

Se destruirmos a nós mesmos? Pelos dados que possuímos sabemos que os perdedores (losers) seremos apenas nós! A vida seguirá adiante e, segundo a hipótese de Simon Conway Morris (2003), outras espécies inteligentes irão nos suceder.

Afinal, não estamos sós neste planeta, há outras inteligências nele.

Outro ponto importante vem sendo levantado há décadas e diz respeito ao início deste post e o final do anterior. Podemos ser transitórios mesmo, como Nietzsche esboçou, uma ponte por cima de um abismo. A diferença que ao invés do homem para o super-homem, provavelmente teremos algo do homem para a máquina!

Ficção científica que todos nós conhecemos na literatura, filmes e músicas. Como se fossem uma percepção profética coletiva, começamos a escrever histórias e até cantar sobre isso, de repente: DEUS EX MACHINA.

Dessa “viagem” para a realidade, apesar de ainda estarmos longe de termos máquinas pensantes feitas por nós, as pesquisas sobre robótica e inteligência artificial são campos sérios e com resultados em desenvolvimento.

Mais ainda, o renomado cientista brasileiro Miguel Nicolelis desenvolveu ao lado do Nobel norte americano John Chapin a interface cérebro-máquina (brain-machine-interface). No início da década de 1990 estudaram o estímulo em uma vibrissa (“um pelo de bigode”) de rato registrando o que 100 células nervosas mostravam sobre esse estímulo. Após os primeiros resultados conseguiram literalmente “ler” o código neural e enviar uma mensagem de um corpo biológico para um robô. Deu certo! Um macaco nos Estados Unidos “pensou” em mexer um braço, esse pensamento foi enviado por cabos de fibra óptica para um braço robô no Japão e este executou o movimento! Sendo assim, o pensamento, pelo menos aqui como um sinal simples e codificado, pode ser enviado fora do corpo, ser interpretado por um computador e transformar-se na ação de uma máquina. Um aspecto interessante, é que a “energia cerebral” é eletroquímica e cerca de 40% dela é linear. Duas coisas, a primeira é que modelos lineares simples conseguem extrair informação suficiente para fazer um braço mecânico reproduzir o movimento. Segundo, a transmissão do potencial de ação do macaco nos Estados Unidos para o robô no Japão e deste de volta levou 210 milissegundos. O potencial de ação do mesmo macaco para chegar ao seu próprio músculo, fazendo-o se mexer, levou 240! Uma vantagem de 30 milissegundos (Varella e Nicolelis, 2008). Fora de nossos corpos biológicos, nas nossas máquinas com fibras ópticas, o pensamento se torna mais rápido, o sinal segue literalmente à velocidade da luz!

Nas palavras de Miguel Nicolelis (em Varella e Nicolelis, 2008): “na minha opinião, o que a interface cérebro-máquina realmente criou foi a possibilidade, pela primeira vez, de que a intenção de agir no mundo já não esteja limitada pelo corpo, pela maquinaria biológica. Ou seja, como no experimento que fizemos em janeiro, uma pessoa pode pensar uma ação aqui no Brasil e um robô irá executá-la no Japão”.

Se alguém me falasse algo assim alguns anos atrás pensaria que era pura ficção e diria: “eu já tinha li isso, não é uma daqueles contos copilados pelo Isaac Asimov na série ‘Histórias de Robôs’?!”

Não, dessa vez é pura realidade!

Talvez sejamos uma ponte entre nós e algo maior que virá. Não podemos sair deste planeta sozinhos, temos que levar o máximo representativo da biodiversidade terrestre conosco, se quisermos sobreviver. Essa tarefa é muito complexa para nós, sem contar que o espaço fora da Terra nos é letal. Máquinas podem fazer isso! Robôs podem obter energia de estrelas e minerais, seja onde encontrarem. Eles podem se reparar e literalmente viver para sempre em condições completamente fora da biota. Robôs podem ser programados para reproduzir a todos (isso inclui nós e todos os outros seres vivos), logo que encontrarem um planeta, ou planetas adequados.

Se nesse cenário sonhador encontrássemos vida inteligente, muito provavelmente entraríamos em conflito pelos recursos que precisamos. Guerra nas estrelas!

Por outro lado, as máquinas não necessariamente podem ser objetos vinculados à nossa sobrevivência em futuro longínquo. Podem ser a extensão de nossas mentes, como o que está aqui entre nós e todos os seres vivos esteja programado para povoar o universo. Digo isso sempre aos meus alunos: “é verdade, existe uma mente confirmada no universo, ela é formada por muitas formas vivas, ela está em nós... Nós somos a mente da matéria!”

Se algo assim não flutua por aí, flutuará no futuro! O universo, a matéria através de nós sente a si própria, raciocina sobre si mesma... Parece um absurdo, mas isso existe, porque estamos aqui conversando...

... Porque nós não estamos sozinhos...

... Há outras mentes na Terra conectadas com a nossa.

"Somos poeira estelar. O universo evolui, as estrelas e as pessoas evoluem. Tudo que está vivo evolui. Podemos ser o caminho rumo a uma inteligência suprema, a alguma vida suprema no universo que será quase indissociável do que chamamos de Deus" (Stanford Woosley - astrofísico da University of California - 2010: A Natureza da Existência).


Referências

Conway Morris, S., 2003. Life's solution - Inevitable humans in a lonely universe. Cambridge University Press.

Coughlan, S., 2010. Como evoluiu a linguagem? Pp. 139-146. In: Swain, H. (org.), Grandes questões da ciência. Editora José Olympo.

Miller, G., 2010. Como evoluiu a linguagem? Pp. 147-154. In: Swain, H. (org.), Grandes questões da ciência. Editora José Olympo.

Nietzsche, FW., 1995 [1885]. Assim falou Zaratustra. 8 ed. Editora Bertrand Brasil.

Swain, H., 2010. O que é inteligência? Pp. 123-129. In: Swain, H. (org.), Grandes questões da ciência. Editora José Olympo.

Varella, D. e Nicolelis, M., 2008. Prazer em conhecer – A aventura da ciência e da educação. Editora 7 Mares.

 
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