terça-feira, 24 de março de 2009

Neurose não tem cura: IF, FH e Qualis novamente

A maioria dos cientistas considera o novo processo simplificado de revisão como 'uma melhoria significativa'.

No post "Neurose acadêmica" escrevi sobre minha náusea diária de ter que me preocupar com índices como IF, Qualis das revistas onde publico e meu FH em relação às citações.

Já reli o texto algumas vezes à procura de consertar erros e entender eu mesmo minha neurose.

As duas coisas que reclamo naquele post têm soluções. No caso da URCA, simples, tenho que trabalhar com os poucos companheiros que sabem e sofrem comigo e continuar a vida. Tentar um concurso para outra universidade melhor não é uma alternativa exclusiva minha, mas sim uma possibilidade real para todos (como exemplifiquei citando os meus amigos que hoje estão em outras IES).

Eu não possuo esse objetivo tão claramente. Diversas vezes em algumas reuniões expressei meu amor ao meu primeiro emprego... e primeiro amor vocês sabem como é! Deixo escrito aqui para a posteridade que eu fui recebido com muito respeito e carinho na URCA. Houve a cerimônia de recepção com o Governador do Estado do Ceará, outra cerimônia com a Magnífica Reitora Violeta Arraes e na minha primeira reunião de Departamento fui saudado pelo prof. Cunha com aplausos de todo o colegiado! Ao retornar para minhas obrigações do doutorado na UFPB, também fui elogiado por causa do sucesso no concurso pelos amigos, meu orientador e a coordenadora, Ierecê Lucena. Eu amei cada um desses momentos e se um dia sair da URCA será de coração partido.

Em 2002, após passar no concurso da URCA, essa foi a nota no quadro de aviso do Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas (Zoologia) - PPGCB, que a coordenadora, profa. Ierecê Lucena, escreveu para mim.

Foi também na região do Cariri que eu me reencontrei com a pesquisa de campo. Os dados que obtive na Chapada do Araripe e Caatinga levaram-me a publicar importantes trabalhos... Em palavras mais diretas, eu fiz minha carreira científica no Cariri cearense.

Eu em 2005 no município de Nova Olinda - CE, às margens de um açude coletando um espécime de Iguana iguana (lagarto conhecido na região como 'camaleão').

No caso dos índices de minha neurose, há várias opiniões que já li, ou ouvi. Três possibilidades: (1) entrar no jogo e conseguir os maiores scores publicando apenas em revistas internacionais indexadas no ISI; (2) investir nas revistas nacionais para que elas cresçam em qualidade suficiente, consigam bons IFs no JCR e integrem no ISI; (3) ignorar por completo essa realidade.

Antes de explorar essas possibilidades, vou tentar esboçar um exemplo hipotético sobre FH.

Para ter um alto FH basta fazer o seguinte: publicar oito artigos indexados no ISI. No primeiro ano você publica dois artigos, no segundo um terceiro e cita os dois primeiros, no terceiro artigo você cita os anteriores e assim por diante (mais ou menos assim):

Artigo a b - FH = 0
Artigo c - a1, b1 - FH = 1
Artigo d - a2, b2, c1 - FH = 2
Artigo e - a3, b3, c2, d1 - FH = 3
Artigo f - a4, b4, c3, d2, e1 - FH = 4
Artigo g - a5, b5, c4, d3, e2, f1 - FH = 5
Artigo h - a6, b6, c5, d4, e3, f2 - FH = 6

Vejam bem, nesse exemplo grosseiro, com uma quantidade ínfima de artigos e apenas auto-citação, obtém-se um FH acima de 5. Ressalto com repetição para ser chato, apenas com auto-citação, ou seja, a pesquisa realizada não teve influência alguma além do próprio mundo particular do pesquisador hipotético!!!

Sabe-se hoje que além das auto-citações, amigos e orientados fazem uma corrente de citações cruzadas com objetivos semelhantes à auto-citação (ver mais detalhes e exemplos em Kellner e Ponciano, 2008).

Há várias estratégias para se ter um FH alto sem necessariamente ser um pesquisador influente no mundo. Vaidade é o óleo da moenda em muitos setores da academia. Se as penas dos pavões são feitas de IF e FH... muitos farão de tudo para tê-las... farão de tudo!!!

Das três possibilidades descritas acima, tenho amigos que defendem cada uma delas. Até mesmo a terceira que parece absurda, há sim uma amiga minha que diz não entrar em sistema algum e faz questão de publicar em português e nas revistas locais 'Qualis Cs'. Não sei se ela faz meditação, ou algum exercício contra neurose, porque tenho certeza que a métrica científica bate na porta do seu currículo todos os dias.

Meu orientador, Martin Lindsey Christoffersen, certa vez me falou que ele não se importa com nenhum aspecto da métrica acadêmica. Segundo ele o importante é publicar e fazer uma divulgação efetiva de cada artigo e suas idéias centrais. Todos na UFPB conhecem o volume mensal da correspondência de Martin. Ele envia cópias e separatas de seus trabalhos para todos os pesquisadores do mundo que estejam ligados de alguma forma com as áreas dos artigos. Martin faz isso também por e-mail com o advento dos arquivos em PDF. Mesmo assim, em períodos de baixa produtividade, ele quase perdeu sua bolsa de produtividade do CNPq.

Laboratório de Filogenia dos Metazoa - DSE/CCEN/ UFPB.

Sala de estudo dos alunos de pós-graduação do Laboratório de Filogenia dos Metazoa - DSE/CCEN/ UFPB.

Em agosto do ano passado fiz uma viagem à Brasília e, por acaso, conversei um tempo com Alexander Kellner (UFRJ) sobre FH. Nessa época ele estava finalizando um artigo exatamente sobre isso e pediu minha opinião no manuscrito (leia Kellner e Ponciano, 2008). O posicionamento de Kellner é mais ou menos a segunda possibilidade apresentada anteriormente. Concordo com ele que uma medida para dar suporte aos pesquisadores brasileiros é ter investimentos contínuos e efetivos às revistas nacionais de qualidade e tradição. Hoje as verbas alocadas do CNPq e CAPES são importantes, mas são insuficientes. Kellner ainda defende que sejam incorporados ao corpo editorial de nossas revistas, revisores de língua inglesa no intuito de melhorar a qualidade dos artigos publicados nessa língua.

Em 2008 periódicos nacionais como o Brazilian Journal of Biology e a Revista Brasileira de Zoologia ingressaram no ISI. Isso trouxe um novo status para essas revistas e para quem publica nelas. Por exemplo, no SCOPUS meu FH saiu de 1 para 2, o que deve também acontecer em breve no ISI com outros de meus artigos agora incluídos nessa base.

Inspirados no seriado 24 Horas, em dezembro de 2007, reunimos parte do Grupo de Biologia Comparada em João Pessoa-PB com um objetivo de fundarmos a Unidade de Combate e Terrorismo para Publicação - UCTP. Esta é composta por Gindomar Gomes Santana (Herpetologia - UFPB), Washington Luis Vieira (Herpetologia - UFPB), Rômulo Romeu da Nóbrega Alves (Etnozoologia - UEPB), Alexandre Vasconcellos (Ecologia de Termites - UFRN) e eu (parasitologia de animais silvestres - URCA). Todos nós nos sentimos os Jack Bauer da ciência, embora um pouco de terroristas também... rsrsrs!!! Apesar de nosso senso de humor estar em alta, levamos nossos compromissos a sério. Hoje temos um saldo de no mínimo cinco artigos publicados por ano em bons periódicos, dois de nós são bolsistas de produtividade (Alexandre do CNPq e eu da FUNCAP), temos vários projetos aprovados (CNPq e FUNCAP) e Rômulo é hoje o maior FH entre nós (FH 6), seguido por Alexandre (FH 3).

Em minha opinião não há como fugir ao sistema, ele existe e ignorá-lo só piora a aceitação da realidade. Por isso, não farei Yoga para exercitar a fleuma contra os IFs, FHs e Qualis da vida. Vou continuar conversando sobre essas coisas por um bom tempo no msn, e-mails, Orkut e durante minha hora do café.

Se as hipóteses que publiquei estiverem corretas, espero tê-las divulgado o suficiente para serem reconhecidas no futuro. As que ainda andam no plano das idéias, no meio dos projetos em notebook, devo ter o mesmo zelo e, claro, tentar publicá-las em boas revistas.

Afinal, neuroses podem ser tratadas e controladas, mas não há cura definitiva. É para vida toda!!!

Não, natureza cruel, POR QUÊ?

Leiam:

http://www.scielo.br/pdf/hcsm/v16n2/13.pdf

http://www.scielo.br/pdf/aabc/v80n4/a16v80n4.pdf

4 comentários:

Darlan Reis disse...

Essas decisões sobre a produtividade, os índices colocados tem uma autoria.
O poder de decidir parte de um lugar, de um grupo que os define.
Se o incomoda, o lance é ou atingir o que esperam ou chegar lá e mudar essa parada!!!

Waltécio disse...

Não há escolha... é chegar lá e mudar.

Com toda brincadeira e seriedade, a UCTP continua em ação!!!

Waltécio disse...

Saindo do forno:

JC e-mail 3728, de 25 de Março de 2009.

16. Pesquisador comenta matéria “Capes aprova a nova classificação do Qualis”

“Revistas tradicionais e de alta penetração e respeito internacional estão listadas com B5”

Mensagem de Miguel Trefaut Rodrigues, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo:

Há dias fiquei atônito com o resultado da reavaliação feita pela Capes para os periódicos da área biológicas I. Não posso aceitar a ideia de que revistas tradicionais e de alta penetração e respeito internacional como “Arquivos do Museu Nacional”, “Boletim do Museu Nacional”, “Arquivos de Zoologia”, “Boletim do Museu Goeldi” e algumas revistas novas com corpo editorial de alta qualidade venham listadas com B5, ao lado de panfletos e jornalecos de divulgação feitos por amadores.

Ainda que não disponhamos de índices de impacto para avaliá-las, são veículos sérios de divulgação do conhecimento científico. Maior surpresa foi verificar que revistas de qualidade equivalente, senão pior, como a “Zootaxa”, vêm listadas como B1 por disporem de um índice de impacto.

Do mesmo modo que o número de trabalhos produzidos per se não me parece um critério justo para avaliar a produção de um pesquisador, a disponibilidade de um índice de impacto não é o único critério para avaliar a qualidade das revistas.

É preciso uma boa dose de bom senso, contextualizar sua importância na nossa realidade histórica e avaliar sua penetração na área, ainda que por critérios qualitativos, para fazê-lo. Como está, a nova tabela do Qualis, literalmente, joga no lixo parte das revistas que foram responsáveis pelo nascimento de parte da ciência do país. Parabéns pelo modo inovador que encontraram para ajudá-las!

Waltécio disse...

Mais recente ainda:

Luciano, 03/04/2009 11:31

Waltécio,

Interessante o artigo... [Kellner e Ponciano, 2008]
Recentemente saiu uam reportagem na REVISTA FAPESP sobre "cienciometria" e um novo modelo para avaliar a produtividade, chama-se "normatized impact fator" (NIF) e pareceu ser uma alternativa mais justa ao fator H, pois corrige algumas distorções (eg autocitação). Porém o mais interessante deste modelo é a identificação de "líderes), ou seja se os seus artigos são citados ou se a sua pesquisa/publicação está apenas reproduzindo (replicando) experimentos prévios.
De qualquer forma, tb serve para reflexão... Vou procurar se esta reportagem está on line.
Este tema vem em boa hora, visto que acabou de sair a nova classificação QUALIS da Capes...

abraços,
Luciano

 
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