terça-feira, 10 de março de 2009

Discriminados: Epílogo

Após os textos sínteses que escrevi sobre grupos discriminados, dois fenômenos ocorreram: (1) este Blog tomou um novo direcionamento; (2) criei um tipo de juiz permanente para mim e todos os meus amigos (incluo também os leitores assíduos).

No primeiro ponto, fica para mim cada vez mais clara a necessidade de transmitir conhecimento científico contextualizado para nossa realidade. Eu escrevi antes, talvez não seja nada inédito, como os acordes das músicas do Legião Urbana em relação ao The Smiths. Entretanto, as letras em português e os temas voltados para urgências brasileiras fizeram da Legião uma banda símbolo de várias gerações aqui no Brasil.

A necessidade portanto, é para mim da pura e simples carência da divulgação científica em nosso país. Pesquisas, artigos, livros e sites contextualizados com nossa realidade sócio-cultural.

Tenho que conseguir separar um tempo para escrever meu romance, dá para notar como as pessoas gostam de ler sobre seu tempo. Nosso contexto hoje é de ciência, acima de tudo. Imagine viver em um mundo com essas regras... na verdade, vivemos sim.

Já esbocei o personagem principal, ele se chama Olavo. Como em toda a ficção há sempre um pouco de auto-biografia, da mesma forma que Roquentin está para Sartre, Olavo está para mim.

Olavo vive em uma selva brasileira de aço, concreto e asfalto, é um primata ordinário cercado de todas as regras genéticas e epigenéticas. Além dessas forças, abate-se com uma intensidade similar todo um mundo de leis sociais e contingências históricas. Olavo é humano... demasiado humano.

Dessa forma, este Blog está cumprindo seu objetivo. Estou realizando o maior prefácio já feito para um romance, preparando a descrição dos detalhes e paisagens por onde Olavo irá trafegar. Evolução, Etologia Humana, Antropologia, Sociologia, História... tudo estará encaixado para que Olavo trafegue entre as ruas, tão estranho e inusitado como o sociopata Dexter... Admirável e normal mesmo assim.

Bem, é também a maior propaganda de um livro que não foi escrito... rsrsrs!!!

No segundo ponto, é verdade, criei um tipo de consciência que se não afetou a vocês meus leitores, afetou a mim. Seja pela simples cartase, ou mesmo o confronto com meus medos, está aqui alguns dos grupos de pessoas que são discriminados em meu dia-a-dia... AQUI E AGORA.

Por que temos tanta atração por assuntos assim? Por que todos esses grupos de pessoas e até animais fazem parte de nossa curiosidade?

Simples, nós estamos entre eles.

Mulheres, homossexuais, negros, deficientes, obesos, idosos, animais e ateus são nossos parentes, amigos e até ídolos. São diferentes de uma maioria que vive a se comparar entre pequenas distinções e um arquétipo percebido como normal.

Delimitar seu próprio grupo sócio-cultural, sua própria tribo, defendê-la das outras rivais tem um algo xenofóbico e primata. Entretanto, o ódio e a dor impostas por nós a grupos de pessoas e animais discriminados está para além de uma simples comparação com nossos irmãos chimpanzés.

Talvez, a pior de todas as condições de hoje entre humanos seja a pobreza. Você pode ser um homem, branco, heterossexual, magro, jovem, saudável e religioso... mas se for pobre, toda essa sua "sorte" vai por água abaixo.

Claro, as conjugações podem ampliar demais a exclusão de uma pessoa, por exemplo, uma mulher, negra, homossexual, gorda, com alguma deficiência, idosa e ateia parece ser um ocaso. Todavia, se essa mulher for rica, todo esse conjunto poderá ser ignorado.

Então poderíamos dividir o mundo em ricos e pobres. Se suas fragilidades transparecem... és pobre; se suas dores não são notadas e ainda haja muitas pessoas te bajulando, és rica (no sentido estrito do que isso quer dizer... tens muito dinheiro).

Quantos ricos existem no mundo? Segundo a Forbes, eles são apenas 400 entre 6,5 bilhões de pessoas!!! Isso implica dizer que a esmagadora maioria de nós é DISCRIMINADA!!! Claro, diríamos que não é bem assim, então leiam o livro "A História Natural dos Ricos" (Conniff, 2004), ou procurem saber quais os hábitos desses 400 milionários da Forbes. Se você não é um freqüentador de Aspen, ou não vive no Principado de Mônaco... você está abaixo, ponto.


Estranho como vivemos em um mundo alienado e às avessas, na prática a maioria de nós é discriminada e explorada por uma minoria.

Escrevi para minha amiga Lívia no Orkut dia desses, após terminar, ou mesmo me satisfazer das minhas obrigações acadêmicas, tenho planos de montar uma ONG, ou um grupo de organização política ligado aos problemas reais de cidadania, recursos naturais e meio ambiente.

Além de um romance esse blog me trouxe sonhos e planos de ação para o futuro.

Espero que algumas dessas palavras também toquem vocês de alguma forma. Da crítica, do pensar, do simples dar de ombros... Não estou plantando sementes, elas já estão por aí dormentes, esperando apenas sinais para germinação.

Acho que sou um pouco louco e toda vez que penso assim, lembro-me de Vicent Van Gogh. Não por comparação de genialidade, Van Gogh foi muito mais do que eu sou. Entretanto, ele era míope e todas as estrelas em seus quadros são enormes... da mesma forma que eu as enxergo sem óculos. O louco, míope, pobre e discriminado do Van Gogh imprimiu beleza e influenciou vários outros, quem sabem nós poderemos fazer algo semelhante.

Que as sementes creçam e multipliquem-se contra todas as injustas discriminações deste mundo!

5 comentários:

Darlan Reis disse...

"Proletários de todos os países, uni-vos", hehehehe

Waltécio disse...

Pode crer!!!

Salete Maria disse...

adoro ler seus escritos...

Waltécio disse...

Obrigado, Salete!!!

Espero que continue gostando!!!

Beijos,

W.

Waltécio disse...

Ah! Aproveito para registrar a correção de que o número de pessoas ricas no mundo diminuiu por causa da 'crise' capitalista.

Ao invés de 400, eles agora são 332. A minoria rica ficou ainda menor.

Se desse, um dia eu iria para Aspen - Colorado, EUA... Claro, iria muito bem armado e com muita munição.

"E o povo declarava que João de Santo Cristo
Era santo porque sabia morrer
E a alta burguesia da cidade
Não acreditou na história que eles viram na TV

E João não conseguiu o que queria
Quando veio pra Brasília, com o diabo ter
Ele queria era falar pro presidente
Pra ajudar toda essa gente que só faz...

Sofrer..."

W.

 
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