sábado, 30 de julho de 2011

Vida de Doutor: Apresentação

Diálogo do filme “A Família Savage” (The Savages, 2005):

Pai: “Então faça alguma coisa! Você é doutor!”

Filho: “Eu vou chamar alguém.”

Filha: “Está bem.”

Filha: “Ele não é doutor, pai. Ele é professor.”

Pai: “Pensei que meu filho fosse doutor.”

Filha: “Ele tem doutorado em Filosofia, PhD. Dá aula em faculdade.”

Pai: “Medicina?”

Filha: “Não. Drama. Ele dá aula de Teatro.”

Pai: “Como na Broadway?”

Filha: ”Não. Como... Teatro de conflito social. Coisas assim. Ele está escrevendo um livro sobre Bertolt Brecht.”

Assim como o personagem Jon Savage, eu também sou doutor e não foi diferente em minha casa com meus pais.

Eu sou doutor, um verdadeiro doutor. Desenvolvi e defendi uma tese que me valeu o título de Doutor em Ciências Biológicas (Zoologia) pela UFPB. Tenho outros adjetivos profissionais: biólogo, zoólogo, evolucionista, sistemata filogenético, parasitólogo, etc. Entretanto, para o mundo inteiro eu sou simplesmente... Professor.

Muitos de meus companheiros de trabalho tentam ainda adjetivar o próprio adjetivo de sua profissão, falam de professor pesquisador, professor universitário e professor doutor [rsrs] e por aí vai.

Não há uma identidade social-econômica, racial, ou gênero. Somos uma colcha de retalhos, de todas as cores, com pessoas vindas de todas as classes e de todos os gêneros. Entretanto, existem várias coisas que nos identificam, por exemplo, amor pela ciência (na maioria das vezes) e um discurso cheio de retórica e palavras específicas que para uma pessoa comum frequentemente são incompreensíveis.

Além disso, cito ainda (1) nossa carreira profissional (do salário ao status, mesmo que desmedido e falso); (2) os mitos que as pessoas possuem de quem completa sua educação com um curso de doutorado também são comuns a todos nós. Esses mitos e clichês são tão fortes e freqüentes que vez por outra, encontra-se um professor mergulhado em algo assim... Escrevo com ênfase: dá é pena de ver! Entre esses poucos, há quem se vista para além de uma passarela futurista, dessas que a gente vê na TV e pergunta para si “alguém vestiria isso no dia a dia?” Falam uma verborréia daquelas, vivem inventando um monte de problemas longe de qualquer vínculo com a realidade. Parecem verdadeiros ricos, mas logo estão ali dentro de seus carros populares indo para os subúrbios de todos os brasileiros...

Eu sonhei e desejei muito ser o que sou. Admirei muitos de meus professores na universidade e queria estar em um lugar igual ao deles... Consegui! Ah! É outro aspecto característico dos “doutores” de verdade, parecemos “astros do rock’n’roll” com muitos fãs, seguidores e inimigos. Tenho cada um disso em mim mesmo, da admiração, do fã até a inimizade declarada.

No meu sonho, nos tempos de aluno, eu tinha curiosidade de saber o dia a dia dos “doutores”. O que eles conversam nos cafezinhos, nas reuniões fechadas, naquela hora que pedem após a defesa da tese: “saiam todos, a banca irá agora avaliar em privacidade o candidato”.

Nos textos que virão irei tentar destrinchar em detalhes como é a carreira de um “doutor” no Brasil (e alguns aspectos globais, comuns a todos, vide o diálogo da família Savage). Como surgiu nossa profissão, os nossos salários, o amor pela ciência, o dia a dia, as aulas intermináveis (graduação e pós-graduação), reuniões (quase toda a semana), orientações de alunos, pressão para publicarmos, necessidade de fazer projetos e a difícil tarefa de fingir ser normal quando se vai a um supermercado fazer compras!

O que vem por aí é muito legal e tem realmente muito de “The Big Bang Theory” , mas tudo verdade, tudo realidade. Um exemplo:

Tarde de uma terça feira em Juazeiro do Norte – CE. Eu ando rápido pelas calçadas, o sol está matando, mas eu preciso chegar ao banco pegar uma grana. No Sebo encontrei um monte de HQs da década de 1980. Eu olho para os lados e vejo os amigos que me acompanham, um é doutor pela UNESP, outro é pela UFSCar e tem pós-doc na USP com estágio no Smithsonian Institution (EUA)... Eu não resisto e falo:

“Ninguém acreditaria nessa cena, dois doutores empenhados em comprar ‘gibis’ e outro dando a maior força. O que as pessoas devem imaginar de nós três? Personagens sisudos vestidos de jaleco em um laboratório?!... E eis que aqui estamos de bermudas com edições de Superaventuras Marvel nas mãos!”.

“É meio estranho, singular e até engraçado”.

“Eu vou escrever sobre isso! Eu vou escrever sobre a nossa realidade, nossa “Vida de Doutor”!

domingo, 24 de julho de 2011

Trailer do Projeto Nim (2011)


Antes de voltar com novos textos, segue o trailer de um documentário que eu recomendo:

domingo, 23 de janeiro de 2011

Não estamos sós: epílogo


Sentient 6 (Nevermore)

I am sentient number six, I stand in line

I am the prototype of a benign convenience for mankind

Superior is digital, human flesh so trivial

I hate that I can't see the one that made me

I am the new awakening of differnent eyes

My children you are my army

They are what we can never see and still despise

And their sky cries Mary

Trained I see imperfection in your race

Lying in wait, blind I suffer knowing I'll never reach your heaven

Why is this control, behavior based and reactive

Adapting to every new environment?

Rewarded when I replicate, isolate and mutate

To assimilate a fragmented plea for ego

Trained I see imperfection in your race

Lying in wait, blind I suffer knowing I'll never reach your heaven

It's unattaintable, please teach me how to dream

I long to be more than a machine

Trained I see imperfection in your race

Lying in wait, blind I suffer knowing I'll never reach your heaven

It's unattaintable, please teach me how to dream

I long to be more than a machine

Sequence activate, trip the hammer to eradicate, I must eliminate

I will spread swift justice on their land

Termination imminent, cleanse the parasite insects, the heathens

I am the bringer of the end of time for man

I am not here, I am not far away

I am not here, I will eradicate mankind into the nothingness from whence they came

Enslaved to follow and learn defeat

To run the barrels and chase the dream

Tradução livre:

Sentinela 6

Eu sou o sentinela número 6, eu fico na linha

Eu sou o protótipo de uma convivência benigna para a humanidade

Digital é superior, carne humana tão banal

Eu odeio não poder ver quem me fez.

Eu sou o novo despertar de olhos diferentes

Meus filhos, vocês são meu exército

Eles são o que nós nunca podemos ver e ainda desprezam

E o céu deles chora "Maria"

Treinado, eu vejo imperfeição na sua raça

Deitado esperando, cego eu sofro sabendo que nunca chegarei ao seu paraíso.

Por que este controle, baseado no comportamento e reativo,

Está se adaptando a cada novo ambiente?

Recompensando quando eu faço uma cópia, isolo e mudo

Assimilar uma fragmentada opinião pelo ego.

Treinado, eu vejo imperfeição na sua raça

Deitado esperando, cego eu sofro sabendo que nunca chegarei ao seu paraíso.

É inacessível, por favor me ensine como sonhar.

Eu desejo ser mais que uma máquina.

Treinado, eu vejo imperfeição na sua raça

Deitado esperando, cego eu sofro sabendo que nunca chegarei ao seu paraíso.

É inacessível, por favor me ensine como sonhar.

Eu desejo ser mais que uma máquina.

Ativar sequência, monte o martelo para erradicar, eu tenho que eliminar

Eu irei espalhar justiça imediata na terra deles

Extermínio iminente, limpar os insetos parasitas, os pagãos

Eu sou aquele que traz o fim dos tempos para o homem.

Eu não estou aqui, eu não estou distante ["não estou em lugar nenhum e estou em todos ao mesmo tempo"].

Eu não estou aqui, eu irei erradicar a humanidade para o "nada absoluto" de onde ela veio

Escravizado para seguir e aprender a perder

Correr em alta velocidade e perseguir o sonho.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Não estamos sós: Deus ex machina


Mas Zaratustra olhou, admirado, para o povo. Depois, falou assim:

“O homem é uma corda estendida entre o animal e o super-homem – uma corda sobre um abismo.

É o perigo de transpô-lo, o perigo de estar a caminho, o perigo de olhar para trás, o perigo de tremer e parar.

O que há de grande, no homem, é ser ponte, e não meta: o que pode amar-se, no homem, é ser uma transição e um ocaso” (Nietzsche, FW., 1995 [1885]: 31).


Aqui estamos após alguns poucos séculos, em especial séc. XIX e séc. XX, com um conhecimento inicial sobre a origem, a evolução, a estrutura, a fisiologia de nosso cérebro e sistema nervoso. Sabemos o suficiente para afirmar que temos a mesma unidade fundamental (neurônios) e temos o mesmo chassis neural de qualquer vertebrado.

Fisicamente é isso!

Entretanto nós humanos somos os maiores em sempre encontrar alguma característica que ressalte nossa diferença com animais e justifique para nós mesmos que somos especiais.

No caso de nosso cérebro, apesar dos aspectos anatômicos, fisiológicos e evolutivos explícitos, há duas coisas que conclamamos para nós mesmos com fervor: (1) a existência de uma mente (incluo aqui raciocínio lógico, cognição extensiva, pensamentos abstratos, estética e religiosidade) e (2) linguagem (falada e escrita).

Como muito bem escreveu Harriet Swain (2010) a editora da Times Higher Education: “para uma qualidade que é tradicionalmente associada à mente, a inteligência desencadeia emoções fortes”.

Em qualquer métrica que usemos, sim, nós somos os mais inteligentes seres hoje na Terra. Chegamos a conviver com outra espécie com uma mente semelhante à nossa, Homo neanderthalensis, mas esta está extinta há alguns milhões de anos... Há indícios de que nós fomos responsáveis por essa tragédia! Afinal, entre nós mesmos, estamos cheios de exemplos na história dos genocídios que causamos contra culturas humanas em nossos delírios de “significados”. Por exemplo, ouro é um metal com suas propriedades físicas e químicas. Toda a sua preciosidade está no significado estranho que nós mesmos criamos para esse metal a ponto de assassinar milhões de pessoas e destruir ambientes inteiros. O mesmo vale para as convenções atuais do dinheiro, especulação financeira e seus índices, “acumulação de excedente” e a exploração assalariada (quando antes foi escravizada) da maioria dos povos, os chamados sixty bottom (60% mais pobres), por uma minoria dita top one (o 1% mais rico do mundo).

Sim, nenhum animal que existe neste planeta atualmente, além de nós mesmos, possui uma “mente” assim tão... “complexa”!

Já a linguagem nem foi abordada nos posts anteriores porque é uma das ditas “pedras angulares da identidade humana” (Coughlan, 2010). Um dos textos recentes que li sobre esse assunto começa assim: “sabemos falar; os macacos não sabem. Por quê? Explicar a linguagem continua sendo a grande pergunta da evolução humana. (...) Quanto mais aprendemos sobre a comunicação animal, mais misteriosa se afigura a linguagem humana” (Miller, 2010).

As hipóteses iniciais do século XIX descreviam um cenário evolutivo onde a linguagem não evoluiu em nenhuma outra espécie de primatas parecidos com os humanos, mas unicamente em nossa espécie, há 40 mil anos, e evoluiu para partilhar conhecimento nos grupos. Uma vez evoluída, inventamos rapidamente a cultura e a civilização. Contudo, os dados que obtivemos no século XX contradizem esse cenário da seguinte forma: (1) a linguagem evoluiu desde nossa origem, é inata e talvez date até um pouco antes de nós H. sapiens, tendo em vista que é possível dos H. neanderthalensis também falassem; (2) por estar ligada à nossa evolução, a linguagem deve ter surgido conosco no leste da África há pelo menos 100 mil anos; (3) ela evoluiu em um misto de (a) extensão do comportamento de catação, uma socialização primata para grupos compostos por mais de 100 indivíduos, e (b) seleção sexual mútua – homens e mulheres selecionaram os parceiros mais “inteligentes” pela capacidade de linguagem (um indicador particular de inteligência e esta é essencial para sobrevivência humana) (Miller, 2010).

A linguagem encontrada até agora nos animais, mesmo em baleias e golfinhos parecem ser mensagens que dizem em linhas gerais apenas: “eu estou aqui, sou macho, sou saudável, copule comigo”. Note que na grande maioria das vezes o sexo mais “tagarela” é o macho. Entre muitos pássaros e baleias as fêmeas ficam em silêncio, selecionando seus parceiros. Além dessas mensagens, outras dizem respeito a existência de predadores e fontes de alimento, informações necessárias para contribuir com a sobrevivência de parentes consanguíneos (Miller, 2010).

Sim, nós somos os únicos hoje que temos uma mente complexa que produz linguagem igualmente... complexa!

Esses são dois pilares que estão em muitos textos e discursos que nos colocam sozinhos na natureza. Como se não tivéssemos evoluído junto e a partir de outras formas de vida com as nossas conhecidas “borboletas da alma” (neurônios) e chassis neural idêntico.

Mas, falta algo aqui, percebem?!

Primeiro, somos parte da biota, apenas um pedacinho de nada dela. Só para você pegar o “feeling”, entenda que nosso alimento (vegetal e animal) só nos é possível se for deste planeta! O que precisamos (vitaminas, proteínas e carboidratos) não estará acessível para nossa digestão em seres de outro planeta, com histórias evolutivas diferentes da nossa. Isso ironicamente diz o seguinte: “não existem bananas no espaço, a menos que as plantemos”.

Segundo, devido a essa característica é que escrevi o post: [clique] os esporos reprodutivos de Gaia.

Se sobrevivermos a nós mesmos e as intempéries do tempo e espaço, na forma de humanos, seremos obrigados a reproduzir nosso ambiente em outro planeta. Não é apenas alimentação, temos um contexto ambiental maior. Nós não vamos conseguir viver em outra biota diferente desta que nos deu origem, desta que fazemos parte. Além da alimentação, há outras implicações evolutivas como nosso sistema imunológico estar afinado com os agentes biológicos de nosso planeta, predadores, composição mineral da água (não basta ser apenas H2O, vocês sabem que apenas essa molécula, como na forma de nossa água destilada, ou ultra purificada dos laboratórios, não mata a nossa sede), entre outras.

Tudo isso compõe um cenário nada agradável para nosso futuro. Ora porque sabemos toda a loucura absurda que estamos fazendo com nosso planeta e com nossos irmãos humanos (exploração capitalista do inferno), ora porque a Terra não irá durar para sempre! Mesmo os números sendo completamente contra a nossa existência (não há registro de espécies animais que tenham vivido acima de milhões de anos, a Terra ainda irá ter pela frente bilhões!), sonhamos um sonho da espécie, ou parece mais um sonho do próprio planeta: temos que encontrar outra casa, levar conosco todas as espécies que possamos e refazer (reproduzir) a Terra em outro lugar.

Esse imperativo que escrevo aqui não é apenas uma ficção minha, pelo contrário, está afinado com a hipótese do paleontólogo britânico Simon Conway Morris (2003), na qual a evolução biológica produz necessariamente as mesmas formas complexas baseadas na sobrevivência possível dos habitats disponíveis. É a tal convergência e paralelismo na evolução que chamamos “analogia”, ou mais precisamente “homoplasia”: formas e funções semelhantes que evoluíram independentemente. Exemplo, todas as formas aquáticas que são ótimas nadadoras possuem um corpo fusiforme. Sejam peixes, répteis ou mamíferos, todos parecem entre si, mas possuem a forma do corpo similar, mas não de origem comum (essa característica para esses grupos não é homóloga, não é uma sinapomorfia).

Do mesmo jeito da forma fusiforme, um cérebro avantajado, com grande capacidade cognitiva geral e linguagem falada, evoluiu até agora, pelo menos duas vezes entre os primatas: Homo neanderthalensis e H. sapiens. Os primeiros estão extintos!

Nós podemos ser os próximos seres inteligentes extintos. Diferente dos H. neanderthalensis e todas as outras formas de vida, há uma grande probabilidade de nós mesmos atentarmos contra nossa existência, por nossas próprias mãos. Nós, criaturas inteligentes, poderemos cometer suicídio enquanto espécie.

Já li em textos sobre universo, que talvez a inteligência que leve a civilizações possui como característica intrínseca sua própria autodestruição. Todavia, até o momento, só conhecemos a nós mesmos com essa capacidade e parece que mesmo com uma amostra tão pequena, queremos generalizar uma característica nossa para todo o universo.

Se destruirmos a nós mesmos? Pelos dados que possuímos sabemos que os perdedores (losers) seremos apenas nós! A vida seguirá adiante e, segundo a hipótese de Simon Conway Morris (2003), outras espécies inteligentes irão nos suceder.

Afinal, não estamos sós neste planeta, há outras inteligências nele.

Outro ponto importante vem sendo levantado há décadas e diz respeito ao início deste post e o final do anterior. Podemos ser transitórios mesmo, como Nietzsche esboçou, uma ponte por cima de um abismo. A diferença que ao invés do homem para o super-homem, provavelmente teremos algo do homem para a máquina!

Ficção científica que todos nós conhecemos na literatura, filmes e músicas. Como se fossem uma percepção profética coletiva, começamos a escrever histórias e até cantar sobre isso, de repente: DEUS EX MACHINA.

Dessa “viagem” para a realidade, apesar de ainda estarmos longe de termos máquinas pensantes feitas por nós, as pesquisas sobre robótica e inteligência artificial são campos sérios e com resultados em desenvolvimento.

Mais ainda, o renomado cientista brasileiro Miguel Nicolelis desenvolveu ao lado do Nobel norte americano John Chapin a interface cérebro-máquina (brain-machine-interface). No início da década de 1990 estudaram o estímulo em uma vibrissa (“um pelo de bigode”) de rato registrando o que 100 células nervosas mostravam sobre esse estímulo. Após os primeiros resultados conseguiram literalmente “ler” o código neural e enviar uma mensagem de um corpo biológico para um robô. Deu certo! Um macaco nos Estados Unidos “pensou” em mexer um braço, esse pensamento foi enviado por cabos de fibra óptica para um braço robô no Japão e este executou o movimento! Sendo assim, o pensamento, pelo menos aqui como um sinal simples e codificado, pode ser enviado fora do corpo, ser interpretado por um computador e transformar-se na ação de uma máquina. Um aspecto interessante, é que a “energia cerebral” é eletroquímica e cerca de 40% dela é linear. Duas coisas, a primeira é que modelos lineares simples conseguem extrair informação suficiente para fazer um braço mecânico reproduzir o movimento. Segundo, a transmissão do potencial de ação do macaco nos Estados Unidos para o robô no Japão e deste de volta levou 210 milissegundos. O potencial de ação do mesmo macaco para chegar ao seu próprio músculo, fazendo-o se mexer, levou 240! Uma vantagem de 30 milissegundos (Varella e Nicolelis, 2008). Fora de nossos corpos biológicos, nas nossas máquinas com fibras ópticas, o pensamento se torna mais rápido, o sinal segue literalmente à velocidade da luz!

Nas palavras de Miguel Nicolelis (em Varella e Nicolelis, 2008): “na minha opinião, o que a interface cérebro-máquina realmente criou foi a possibilidade, pela primeira vez, de que a intenção de agir no mundo já não esteja limitada pelo corpo, pela maquinaria biológica. Ou seja, como no experimento que fizemos em janeiro, uma pessoa pode pensar uma ação aqui no Brasil e um robô irá executá-la no Japão”.

Se alguém me falasse algo assim alguns anos atrás pensaria que era pura ficção e diria: “eu já tinha li isso, não é uma daqueles contos copilados pelo Isaac Asimov na série ‘Histórias de Robôs’?!”

Não, dessa vez é pura realidade!

Talvez sejamos uma ponte entre nós e algo maior que virá. Não podemos sair deste planeta sozinhos, temos que levar o máximo representativo da biodiversidade terrestre conosco, se quisermos sobreviver. Essa tarefa é muito complexa para nós, sem contar que o espaço fora da Terra nos é letal. Máquinas podem fazer isso! Robôs podem obter energia de estrelas e minerais, seja onde encontrarem. Eles podem se reparar e literalmente viver para sempre em condições completamente fora da biota. Robôs podem ser programados para reproduzir a todos (isso inclui nós e todos os outros seres vivos), logo que encontrarem um planeta, ou planetas adequados.

Se nesse cenário sonhador encontrássemos vida inteligente, muito provavelmente entraríamos em conflito pelos recursos que precisamos. Guerra nas estrelas!

Por outro lado, as máquinas não necessariamente podem ser objetos vinculados à nossa sobrevivência em futuro longínquo. Podem ser a extensão de nossas mentes, como o que está aqui entre nós e todos os seres vivos esteja programado para povoar o universo. Digo isso sempre aos meus alunos: “é verdade, existe uma mente confirmada no universo, ela é formada por muitas formas vivas, ela está em nós... Nós somos a mente da matéria!”

Se algo assim não flutua por aí, flutuará no futuro! O universo, a matéria através de nós sente a si própria, raciocina sobre si mesma... Parece um absurdo, mas isso existe, porque estamos aqui conversando...

... Porque nós não estamos sozinhos...

... Há outras mentes na Terra conectadas com a nossa.

"Somos poeira estelar. O universo evolui, as estrelas e as pessoas evoluem. Tudo que está vivo evolui. Podemos ser o caminho rumo a uma inteligência suprema, a alguma vida suprema no universo que será quase indissociável do que chamamos de Deus" (Stanford Woosley - astrofísico da University of California - 2010: A Natureza da Existência).


Referências

Conway Morris, S., 2003. Life's solution - Inevitable humans in a lonely universe. Cambridge University Press.

Coughlan, S., 2010. Como evoluiu a linguagem? Pp. 139-146. In: Swain, H. (org.), Grandes questões da ciência. Editora José Olympo.

Miller, G., 2010. Como evoluiu a linguagem? Pp. 147-154. In: Swain, H. (org.), Grandes questões da ciência. Editora José Olympo.

Nietzsche, FW., 1995 [1885]. Assim falou Zaratustra. 8 ed. Editora Bertrand Brasil.

Swain, H., 2010. O que é inteligência? Pp. 123-129. In: Swain, H. (org.), Grandes questões da ciência. Editora José Olympo.

Varella, D. e Nicolelis, M., 2008. Prazer em conhecer – A aventura da ciência e da educação. Editora 7 Mares.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Não estamos sós: o chassi neural de todos os vertebrados

Há algumas semanas vi a chamada do Globo Repórter especial sobre inteligência entre os animais (em 15/10/2010). Não deu outra, dessa vez resolvi assistir, até porque muito do que seria apresentado fora produzido pela BBC. Entretanto, muitos canais de TV no Brasil enfrentam o mesmo desafio deste blog, transformar linguagem acadêmica, ou mesmo divulgação científica em certo nível para os brasileiros comuns. No caso do Globo Repórter, em minha opinião, foi um desastre.

Primeiro, os animais foram mostrados sem uma sequência evolutiva, daí ora estava uma ave, ora era um molusco, ora um mamífero. Isso resultou em um senso de fortuidade, que aquelas inteligências na verdade eram algo pitoresco, por vezes engraçado e nada havia em conexão umas com as outras, menos ainda com a nossa.

No post anterior foi difícil para mim percorrer milhões de anos de evolução. Descrever o surgimento de células especiais (neurônios) fundamentais para a formação do sistema nervoso. Isso não seria possível sem uma certa graduação que se iniciou com os primeiros seres vivos até as formas mais complexas.

O raciocínio é o mesmo e dando continuidade à evolução do ponto onde paramos, em um oceano repleto com metazoários, uns predando os outros (sem contar as demais formas de interação) e em meio a uma crescente espiral evolutiva rumo ao aumento de complexidade dessas relações, o sistema nervoso se tornou cada vez mais complexo... De ancestrais vermiformes deuterostomados nós vertebrados emergimos para a existência.

O nosso cérebro seguiu o desenvolvimento dos órgãos sensoriais concentrados na cabeça. Visão, audição, olfato, paladar, tato e eletromagnetismo, todos os seis sentidos estão presentes na cabeça dos primeiros peixes. Importante ainda ressaltar a nossa natureza de simetria bilateral. Desde as primeiras formas de vida predadoras como os vermes marinhos platelmintos e nemertinos que somos assim, um lado de nós é a imagem do outro lado refletida no espelho. Todo o nosso corpo é assim, lateralizado!

Em um mar repleto de predadores é importante demais olhar aos lados. Não apenas olhar (até porque a visão não é assim tão eficaz abaixo d’água) e sim ter todos os sentidos em constante alerta para possíveis ataques, ou mesmo para atacar uma presa.

O capricho do evento estocástico da lateralização de nossos corpos é que ela não é perfeita. Ao invés de cada lado processar diretamente os sinais do ambiente, eles são cruzados ao inverso. Todo o seu lado esquerdo é comandado pela parte direita do seu cérebro, o inverso para seu lado direito. Também não é exclusividade nossa, em todos os vertebrados há sempre um lado “preferido” para a ação. Adivinhem?! A maioria dos vertebrados é destra! Claro, e sempre existe também um canhoto entre nós!

Uma hipótese para esse circuito cruzado é fazer com que o organismo como um todo possa ter a possibilidade de interpretar e reagir a estímulos. Por exemplo, um ataque pela esquerda ao cruzar as conexões até a parte direita informa todo o corpo do animal e não apenas o lado atacado.

Não compliquemos mais essa história anatômica e fisiológica, vamos para o que interessa. A partir dos vertebrados o sistema nervoso se tornou muito mais complexo, sendo constituído por várias partes que se sobrepuseram e complementaram-se no decorrer da história evolutiva.

Por ordem de chegada e em termos didáticos temos (ver Sagan, C., 1997. Os dragões do Eden. Editora Gradiva):

(1) Medula espinhal, rombencéfalo [o bulbo, a ponte e o cerebelo] e mesencéfalo.


Essa é a parte mais arcaica do cérebro a qual contém o mecanismo neural básico para a sobrevivência (regulação cardíaca, circulação sanguínea e a respiração e reprodução). É quase a totalidade dos cérebros de peixes e anfíbios.

(2) Sistema límbico formado por amigdala, tálamo, hipotálamo, hipocampo e áreas específicas (giro cingulado, área tegumentar ventral, área pré-frontal).


O sistema límbico é o centro da formação das emoções, tomada de decisões para sobrevivência (ditas “não-racionais” tipo “lutar-ou-fugir” de um predador) e impulsos para o prazer (nossos vícios com drogas e sexo estão correlacionados ao sistema límbico). Aqui estamos todos nós, répteis (isso inclui as aves) e mamíferos.

(3) Neocórtex (lobos frontal, parietal, temporal e occipital), o qual envolve o restante do cérebro nos mamíferos.

O neocórtex é o que muitas pessoas conhecem como “cérebro”, embora seja apenas parte de um todo. É aqui que está o quê e o porquê de sermos como somos... Quanto maior o neocórtex, maior é a cognição. Nós humanos temos um dos maiores, mas, como bem está escrito na evolução o neocórtex não é uma exclusividade nossa.

Elefantes, golfinhos e, sobretudo, todos os macacos do mundo, nós compartilhamos a mesma plataforma de montagem. Como acontece com a indústria moderna de automóveis, de uma mesma plataforma se pode fazer diferentes carros. As variações nesse intrincado sistema refletem as diferenças entre as espécies de vertebrados.

Agora vamos dar reconhecimento ao primeiro trabalho científico que vislumbrou que nossas emoções humanas na verdade evoluíram a partir de ancestrais não humanos. Charles Darwin em seu clássico “A expressão das emoções no homem e nos animais” (1872; lançado no Brasil pela Companhia das Letras em 2000) foi o primeiro a demonstrar, com base em observações científicas (hoje chamamos essa área do conhecimento biológico de Etologia), que compartilhamos com outros vertebrados sofrimentos, lágrimas, ódio, raiva, alegria, bom humor, amor, devoção, surpresa, horror, vergonha e modéstia. Os dois extremos as lágrimas e o sorriso, já pensamos que eram exclusividades humanas. Hoje sabemos que elefantes choram e chimpanzés riem e muito!

Uma das melhores revisões atuais sobre emoções e cognição nos animais está no livro “Quando os elefantes choram – A vida emocional dos animais” (Masson, JM. e McCarthy, S., 2001. Editora Geração). Aqui você encontrará logo na leitura da contra-capa: um búfalo que patina no gelo para se divertir; um chimpanzé que chora pela morte de sua mãe e morre de tanta tristeza; um gorila tímido que brinca com bonecas quando ninguém olha para ele; corvos que usam pedaços do teto do Kremlin como tobogãs; e a voz de um papagaio africano que diz com estas palavras “Volta aqui! Eu te amo! Sinto muito! Quero voltar pra casa! (leia também: Pepperberg, IM., 2009. Alex e eu: como a relação de amor entre uma cientista e um papagaio revelou os segredos da inteligência animal, Editora Record).

Por que isso ainda nos surpreende? Por que uma rede de TV anuncia um especial sobre inteligência animal como se fosse algo exótico e até “engraçado”?

Como bem sabemos, nós possuímos em comum as mesmas “borboletas da alma” (neurônios) e, entre os vertebrados, compartilhamos o mesmo “chassi neural” (Medula espinhal, rombencéfalo, mesencéfalo, sistema límbico e neocórtex). O que nos faz amar e sermos inteligentes, também está presente na anatomia e fisiologia animal, antes mesmo de sermos o que somos.

Claro, essas palavras escritas aqui, em um ambiente digital de plástico e sílica e transmitidas por cabos de fibra óptica, deixa-nos a sensação de sermos muito diferentes. Além do mais, olhem para nosso prato de comida repleto de cadáveres de animais e plantas. Se reificamos (de reificar, transformar seres em “coisas”) tudo e usamos de nossa fantasia de não sermos deste mundo, os filhos dos deuses, fica fácil de escravizar, matar, cortar em pedaços e comer outros seres vivos.

Seu cão sente emoções verdadeiras por você, o seu gato realmente detesta ser incomodado quando dorme, o pequeno potro de sua fazenda brinca por pura diversão no pasto como se fosse uma criança humana, aquele pequeno asno urrou de dor ao ser espancado na rua, seus olhos encheram-se de lágrimas. Isso não é uma caricatura antropomórfica, cada um de seu jeito, cão, gato, cavalo, asno, humano, todos esses mamíferos possuem mais em comum do que grandes diferenças. Importante ressaltar ainda, diferenças essas só estabelecidas por milhões de anos de evolução que nos separam dos demais vertebrados, invertebrados, plantas e micróbios.

É estranho como somos tão preconceituosos com outras espécies ao ponto de negar a elas a existência de outras inteligências, nem mesmo sentimentos básicos. Não compreender como funciona a mente de um polvo é uma coisa, mas a nossa de vertebrado é outra. Aqui entre os nossos mais semelhantes, a conexão de mentes é máxima. O grito de dor de um porco nos trás terror, ou você ainda não sabe por que construímos os matadouros de animais bem longe do centro das cidades? Se você tiver curiosidade de saber coisas assim, recomendo a leitura do livro “O homem e o mundo natural” (Thomas, K., 1988. Editora Companhia das Letras) para terem idéia de porque comemos o que comemos, como matamos e a escolha de nossos animais de “estimação”.

Em termos de cognição o próximo post será apenas sobre humanos, como muito bem gostamos de fazer, uma atenção especial na origem da consciência, a mente, do que é formado nosso pensamento e os sonhos de ficção científica que agora começam a se realizar, podemos transmitir pensamentos fora do corpo e, quem sabe, em futuro próximo, armazenar registros eternos de pensamentos humanos em máquinas.

Esse será o dia da transcendência para algo diferente da natureza. Será o dia da Inteligência Artificial e das Histórias de Robôs editadas por Isaac Asimov se tornarem realidades. Até lá, continuamos o que somos, mamíferos emocionais, macacos neuróticos e meros trabalhadores explorados.

A importância dos seres humanos hoje reside na ligação deles com a biota. Então, olhe dos lados, leia um pouco e faça a conexão, perceba um mundo cheio de sentimentos. Você não está sozinho, há outras inteligências na natureza.

Referências

Darwin, CR., [1872] 2000. A expressão das emoções no homem e nos animais. Companhia das Letras.

Masson, JM. e McCarthy, S., 1998. Quando os elefantes choram: a vida emocional dos animais. Geração Editorial.

Pepperberg, IM., 2009. Alex e eu: como a relação de amor entre uma cientista e um papagaio revelou os segredos da inteligência animal. Editora Record.

Sagan, C., 1997. Os dragões do eden. Editora Gradiva.

Thomas, K., 1988. O homem e o mundo natural. Companhia das Letras.

Links
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segunda-feira, 12 de julho de 2010

Não estamos sós: as borboletas da alma

"Quem eu sou?" Essa é uma das perguntas básicas e marcantes na vida de todos nós. Notem o seguinte, essa pergunta é resultado de raciocínio e uma determinada linguagem, afinal somos um tipo muito particular de macaco inteligente e tagarela! "Quem eu sou?" é algo muito humano, mas autoconsciência não é exclusividade de nossa espécie.

Observe abaixo os dois tipos de formas de vida:


Bactérias e protozoários são formas de vida nas quais uma única célula é responsável por tudo. Isso aprendemos logo no início do ensino em Ciências e da graduação em Ciências Biológicas (p.e., disciplinas de Biologia Celular e Zoologia dos Invertebrados). Nas palavras do que ouvi de meus mestres em sala de aula: “Uma ameba é na verdade tudo que somos em uma única célula! Nós, multicelulares e portadores de tecidos, temos nossas células diversificadas e com diferentes funções. Precisamos que algumas células captem sinais do ambiente, outras analisem e ainda mais que outras efetuem ações adequadas (secreção de hormônios, movimentação muscular, digestão, transporte de metabólitos, etc). Acreditem, uma ameba faz tudo isso sozinha. Ela, uma única célula, é sensível e efetora ao mesmo tempo. Mais ainda, segundo o que compreendemos como aprendizagem (mudança de comportamento), isso também está presente em seu nível mais fundamental para sobrevivência. Exemplo, coloque um obstáculo na frente de uma ameba, ela irá tentar contorná-lo, ela mudará seu deslocamento. Em outras palavras, essa célula, sozinha, conhece o problema e, depois de analisar a situação, resolve tudo.”

Um aluno de Ciências Biológicas é assim introduzido ao estudo da vida com informação e chocando-se com seus preconceitos. Afinal, carregamos erroneamente uma série de interpretações do senso comum para a natureza e esta é muito maior do que nós, nos gerou, está acima dos desejos e ilusões do macaco pleistocênico que somos.

A ameba é um exemplo de infinitas formas de grande beleza. Todos os seres vivos vivem no mundo de forma eficaz e, no final das contas, fazem, em diferentes maneiras, a mesma coisa: metabolismo, autopoiese, hereditariedade, reprodução e evolução. Sumariamente: sobrevivem! Essa sobrevivência é o que chamo de um estado particular da matéria, a mesma poeira das estrelas, só que de forma animada e consciente.

Estamos aqui para entender como chegamos a um grau muito sensível dessa consciência. Sim, nós humanos somos o primeiro evento de maior complexidade da autoconsciência da matéria neste planeta. Nossa espécie possui um milhão de anos, enquanto que a civilização tem entre 10 a 20.000 anos. Como já descrito aqui no Macaco Alfa [clique: A Desumanização do Macaco], além dessa história ser relativamente breve na Terra, temos apenas dois séculos de ciência como a conhecemos atualmente no Ocidente. Ou seja, somente cerca de 0,02% de toda nossa história!!! Estamos ainda no início da compreensão dos processos naturais, quem somos nós, de onde viemos, o que é o Universo e, claro, como tudo surgiu.

Nesse caminho trilhado até o presente não foram poucas as vezes que pensamos ser os únicos na natureza a ter sentimentos e raciocínio. Óbvio, comparativamente, nós temos sim, um grau muito complexo de sensitividade, análise de dados e aprendizado. Temos uma diferença de grau em complexidade! Enfatizo, uma diferença apenas de grau. Sensitividade, análise de dados e aprendizado precedem a nossa origem, datam de milhões de anos antes. Como no exemplo das amebas, no básico para a sobrevivência, não é necessário nem a presença de células especiais (neurônios) para que a vida possua significado, consciência e aprendizado. Nós temos mesmo é muito preconceito contra as outras espécies e claro, contamos a história para nós mesmos que somos sozinhos! Ora filhos de deuses, ora semi-deuses... criaturas divinas. Nós olhamos aos lados e não escutamos nada em resposta! Esse “silêncio” nos dá a sensação de solidão, trancados em nossa ilusão perceptível alienada (por diversos processos históricos e sociais). Pode-se chegar ao extremo dessa alienação quando fingimos nem sermos seres biológicos como qualquer outra forma de vida neste planeta, apenas um boneco de barro.

Uma das revoluções da Neurociência nas últimas décadas deixou claro o erro de Descartes: “nós primeiro existimos e depois pensamos”. Até me divirto muito com meus alunos em sala de aula demonstrando que biólogos respondem bem a perguntas simples como “Quem veio primeiro, o ovo, ou a galinha?”. Respondemos muito seguros: “claro que é o ovo amniótico!”

Como, portanto, surgiu o sistema nervoso, este responsável pelo que de mais sublime define o que somos enquanto humanos?

Vamos voltar às bactérias e protozoários. Recorde comigo, que é a membrana citoplasmática que possui os receptores moleculares responsáveis em reconhecer as secreções de uma presa, ou da proximidade de um predador, as moléculas de alimento, mudanças de temperatura e variações de luminosidades. A membrana plasmática é a interface entre o que é o mundo físico e o indivíduo biológico.

Vamos agora ao desenvolver do principal objetivo da vida, que é ela própria (o “ser-em-si”)! Viver é continuar vivo, essa regra é cumprida à risca entre os seres unicelulares. Eles são eternos, fisicamente falando! Todavia, a Terra tem recursos e espaços limitados, por isso, guarde essa frase: criaturas unicelulares eternas vivem em um mundo finito. Isso quer dizer que não se pode sobreviver de uma única forma para sempre, pois a Terra logo estaria sobrecarregada de indivíduos que fazem o mesmo. Com necessidades iguais por recursos similares a competição será mais acirrada a cada aumento da população. Uma das regras básicas então é conseguir explorar recursos de formas diferentes para escapar da competição intraespecífica. Some ainda o surgimento de parasitas/ predadores que tornou tudo isso mais dramático. As próprias células vivas passaram a ser elas mesmas recursos a serem explorados.

Prestem bastante atenção agora e guardem isso com vocês: em meio à competição, uma das formas de maior sucesso para a sobrevivência foi a... COOPERAÇÃO!!!

Uau!!! Aprendi isso ao ler o livro “O Planeta Simbiótico” (2001, Editora Rocco) da bióloga norte-americana Lynn Margulis . Hoje o papel decisivo da cooperação (simbiose) na evolução é tido como alternativa e importante contraponto feminino na ciência em relação a simples idéia da competição entre indivíduos, tão exultada em textos mal escritos sobre seleção natural. Afinal, nós homens somos apegados demais à competição, à luta e ao status. Não é uma coincidência vermos os animais e toda a natureza dessa forma: “garras e dentes rubros de sangue” - um clichê masculino. Margulis (2001) defendeu a ideia de que os grandes momentos da vida em seu processo evolutivo foram realizados por cooperação: (1) no chamado “Mundo RNA” moléculas “colaboraram” entre si para formar o primeiro indivíduo vivo com DNA (bactérias); (2) depois duas células (uma bactéria, hoje chamada mitocôndria, e um protozoário) passaram a viver juntas (eucariotas heterotróficos – nós inclusos); (3) três células – protozoário, mitocôndria e uma microalga bacteriana (cianofícea), chamada por nós de cloroplasto, resultaram em eucariotas autotróficos. Lembrem-se ainda que a nossa aparente complexidade multicelular surge justamente da união de duas criaturas haplóides: ovúlo e espermatozóide!

Então, colaborar para diversificar, criar algo novo, livrar-se de inimigos (parasitas/ predadores) e explorar recursos e ambientes diferentes é algo vital para os seres vivos. Neste planeta simbiótico há colônias de protozoários, criaturas unicelulares que “decidiram” viver juntas (exemplo clássico dos Volvocales e Choanoflagellata). Uma maior intimidade dessas células resultou no surgimento de seres como os Poríferos. As esponjas do mar são colônias complexas de células, não há tecido verdadeiro ainda nesses seres e para ter o tamanho que possuem é necessário que haja uma diversificação de função entre as suas células. Afinal, nem todas estarão em contato com o ambiente, mas todas continuarão com as mesmas necessidades de sobrevivência que uma ameba.

No início de tudo, as células que passaram a viver mais no interior da colônia necessitaram receber sinais do ambiente para determinarem a ação delas segundo um conjunto de “ordens” e funções moleculares, que leva à sobrevivência individual e de toda a colônia. Nas esponjas as células que fazem essa comunicação molecular, vias de regras, são os amebócitos.

Estima-se que por volta de 600 milhões de anos atrás surgiram os primeiros animais propriamente ditos (Eumetazoa). Esses possuem tecidos celulares com presença de junções citoplasmáticas – desmossomos e interdigitações da membrana plasmática. O exemplo vivo que representa essa fase pode ser visto entre os Placozoa.

Com esse aumento da ligação entre as células e conseqüente origem da ectoderme (epiderme), é aqui, exatamente onde as células que estão em contato com o ambienteque surgem os primeiros neurônios. As células da ectoderme se especializaram em captar sinais, enviá-los quimicamente, interpretá-los e designar o conjunto específico de outras células (mesoderme – músculos e endoderme – grande parte do trato digestório) para uma resposta adequada a esses estímulos. Os modelos vivos que usamos para apresentar a forma mais simples de tudo isso são as hidras, anêmonas, medusas e corais (cnidários – estes sem mesoderme) e ctenóforos (um dos primeiros grupos triploblásticos – com ecto, meso e endoderme).

Para deixar bem claro a todos: o sistema nervoso surge para integrar e modular a função de todos os outros sistemas. É necessário unir todas as células da colônia (no caso dos poríferas isso é feito pelos amebócitos), ou do organismo metazoário (neurônios).

É simples, não é?! Uma ameba sabe tudo no ambiente que é necessário para sua sobrevivência. Caso uma célula tenha de viver sem contato com o meio físico e cooperar com outras para sobreviverem juntas, algumas dessas células tem que necessariamente ocupar a função sensitiva e informar a todas. São as primeiras jornalistas da Terra!


Há outra metáfora mais poética, os neurônios são as “Borboletas da Alma”!!! A história da descrição deles e suas funções estão brilhantemente descritas no livro homônimo de Drauzio Varella (2006), médico brasileiro e esmero divulgador da ciência.

Vamos usar nossas borboletas agora: se captar sinais, interpretá-los segundo necessidade de sobrevivência e ter um comportamento designado por isso é inteligência, então bactérias e amebas possuem o nível mais fundamental disso tudo! Essas criaturas estão vivas e, como tais, interagem de forma inteligente (ações de sucesso para sobreviver). A inteligência das bactérias e amebas funciona em seu mundo, atende suas necessidades de forma sublime e eficiente.

Se estamos falando de uma “terceirização” desses funções, onde um grupo de células será responsável por parte disso (captar e interpretar sinais do ambiente para sobrevivência), então estamos aqui falando de todos os metazoários (animais)! Todos os animais por definição possuem um sistema de células específicos com essas funções! Todos os animais possuem sistema nervoso! Portanto, todos os animais possuem borboletas da alma!!!

Calma, trataremos de nós mesmos, o raciocínio humano no final desta série. Por enquanto, o objetivo aqui é responder: de onde vieram nosso neurônios e por que surgiram.

Se você está surpreso em saber que não é necessário um sistema específico de células sensitivas para sobreviver (bactérias, protozoários, algas, fungos e plantas), ou que isso não é uma exclusividade humana... Simples, você tem preconceito contra as outras formas de vida. Você deve achar que todos devem ser inferiores aos humanos! É um tipo de preconceito milenar, sutil, ainda ensinado e tido como verdade nos dias de hoje. Muitos nem gostam de ouvir falar e respondem assim: “Como eu posso ser comparado a uma ameba?” “Eu sou maior, eu sou melhor, eu sou o centro de tudo, eu... eu... eu...”

Criatura triste e mal resolvida essa, não? Essa figura que acabo de descrever fala de si mesma como a mais bela de todas e superior à própria vida. Essa caricatura da alienação humana sabe em seu íntimo que não é assim. Afinal, após décadas de estudos psicológicos entendemos hoje que toda mania de grandeza e soberba são na verdade reflexos de complexo de inferioridade!

Somos um animal frágil e com grande capacidade cognitiva. Nós sabemos demais! Temos consciência da vida em um patamar maior. Nesse conhecimento, onde nossa mente trabalha com parâmetros evolutivos do amor de animais sociais que somos, a auto-estima aguçada e a cognição flexível se relutam em aceitar um fenômeno presente apenas nas criaturas multicelulares sexuadas: a morte do indivíduo!

Tem mais! A morte, as forças naturais (tempestades, vulcões, etc.) e a admiração que sempre tivemos aos vertebrados nas planícies (sobretudo aos grandes gatos, crocodilos e serpentes – os nossos predadores) já foram apontados como a razão por termos desenvolvido saídas psicológicas para suportar a transitoriedade das coisas e nossa fragilidade.

-“Frágil, eu?! Que macaco nu, pequeno e vulnerável que nada!!! Quem domina o fogo, hein?! Quem pode matar até os leões com lanças? Quem conversa com os Deuses depois de tomar um chá de cogumelos?! Não somos animais, somos filhos dos deuses!!!”

É, esse macaco aí tem problemas para resolver com um bom psicólogo, sem esquecer de uma consulta também no psiquiatra!

Voltemos para o início do sistema nervoso. Após surgirem seres que são aglomerados de milhões de células e que conseguem se diferenciar em tecidos, estes, agindo coordenadamente como órgãos e sistemas. A individualidade de uma célula passou a ter um centro de controle e este agora será a própria individualidade de uma criatura plural. Composta de várias cópias (por mitose) de uma única célula, a coletividade torna-se um só pelo processamento e integração realizados pelas células sensitivas (neurônios).

Entretanto, a regra da vida continua a mesma: explorar recursos, auto-organizar-se (autopoiese), sobreviver, escapar dos inimigos (parasitas/ predadores), reproduzir-se e evoluir para continuar existindo. Se esse é o impulso inicial e causa de tudo, os primeiros animais com sistema nervoso seguiram o mesmo caminho adiante no tempo-espaço. Eles próprios, assim como foram às primeiras células, tornaram-se recursos (alimento, às vezes até habitat) disponíveis às novas formas de vida. Em uma espiral de crescente complexidade para assimilar informações, analisá-las e agir, o sistema nervoso propiciou aquilo que chamamos inteligência. Entre várias formas e diferentes expressões, durante a evolução biológica as criaturas com cérebro surgiram.

Algumas pessoas que conheço sempre ficam surpresas quando assistem um documentário sobre comportamento animal, ou leem alguma notícia sobre isso. Bem, eu não! Se você é biólogo, isso também não deveria lhe surpreender. Mesmo assim, esse é meu dia a dia em sala de aula com alunos de repente apresentados para um mundo de seres sensitivos, ou nas conversas com amigos professores-pesquisadores de outras áreas. É mais ou menos assim:

-“Um polvo pode fazer isso?!”

-“As formigas não são robôs instintivos?”

Vamos começar a olhar dos lados?! Conectar-se aos outros seres começa com boa leitura e olhos atentos. No mar, antes de qualquer vertebrado surgir, antes dos insetos na Terra, uma mente elaborada evoluiu entre os cefalópodos (polvos, lulas e sépias).

Acostume-se com isso, porque antes achávamos que éramos os únicos a ter autoconsciência. Aí colocamos espelhos na frente de chimpanzés, golfinhos, elefantes e papagaios... [breve silêncio para expectativa]... [mais um pouco]... [SURPRESA]: Eles reconheceram a si próprios em seus reflexos! Diferente de outras inteligências que, ou são indiferentes à sua imagem refletida, mas, diga-se de passagem, não ao seu cheiro (individualidade química), ou vêem o reflexo como outro animal diferente de si mesmo.

Está na literatura, polvos, que chamamos de meros animais invertebrados, “vermes” de corpo mole (Mollusca), também conseguem identificar a si próprios no espelho!

Uma explicação simples para isso está na proporção do relativo maior tamanho, superfície, quantidades de neurônios e suas redes de conexão. Todos esses animais citados, inclusive nós, possuem grandes cérebros. É fácil de entender, maiores cérebros, padrões de comportamentos complexos e... mentes brilhantes!!!

Ok! Autoconsciência não é mais exclusividade nossa e nem tão pouco dos animais vertebrados. Vamos repetir para fixar! A consciência de si próprio (isso inclui sentimentos de raiva, amor, felicidade, tristeza e capacidade de mentir) surgiu há milhões de anos antes de nós macacos presunçosos.

Nós ainda não entendemos a mente dos polvos, tão pouco as outras mais próximas como a dos nossos irmãos chimpanzés. Mais ainda, o estudo de nossa própria mente e consciência ainda está cheio de mistérios a serem compreendidos. Mesmo assim, vamos tentar ir um pouco mais longe do que autoconsciência.

Se mentes relativamente semelhantes à nossa (por exemplo, os chimpanzés) são difíceis para nós compreendermos hoje, imaginem seres com inteligências completamente diferentes?! Quando olhamos para um caranguejo, sem contar a vontade de transformá-los em comida, damos de ombro como se ele fosse uma forma de vida estúpida. Será mesmo?! Eles sabem exatamente os ciclos das marés, conhecem muito antes dos humanos os ciclos lunares e as mudanças do mar através das estações do ano. Muito antes da astronomia dos babilônicos e maias, caranguejos estão em sintonia com os céus!!! Se isso não for inteligência, nada mais é!!!


Vamos a outro exemplo comum, que é de assustar. Somos animais sociais, tentamos tanto e ainda vamos continuar tentando o melhor de nós mesmos para construirmos um mundo mais justo. Todavia, há séculos que descobrimos a perfeição da vida social ao estudarmos cupins, formigas, vespas e abelhas. Sociedades perfeitas, muito mais do que fizemos como humanos até agora. Conhecendo nossa natureza e história, dificilmente conseguiremos ter sociedades tão perfeitas como essas construídas pelos insetos.



Sobre isso, um aluno meu certa vez falou:

-“Formigas são robôs genéticos! Imagina eu nascer um operário que não fará sexo, que não pode se tornar um rei?!”

Respondi assim:

- “Primeiro, tenho pena das pessoas que acham que todos os humanos possuem essa liberdade total. Deveriam ler mais sobre a história das civilizações. Segundo, é uma ilusão achar que se nasce uma tábula rasa, sem genética, sem instintos (como esses que você não gosta nas formigas), sem qualquer processo histórico e mesmo sem amarras sociais. As pessoas podem até se reproduzir, mas estão longe de se tornarem reis e rainhas. Eu diria, que a maioria será escravizada, ou explorada, como operários oprimidos. As formigas operárias não passam por isso, não há chicotes, ou amarras do capital, não há prantos, solidão, indiferença e suicídio entre elas. Há a vida em plenitude, vida de verdade, sem qualquer ilusão, sem precisar comprar nada para ser feliz. Terceiro e mais importante, seu preconceito é um clichê tedioso! Tudo que não conhecemos nos traz essa estranheza e medo. As incertezas sempre são traduzidas assim, com um complexo de inferioridade, inseguros cheios de auto-afirmação. Para ficar claro, temos é medo de sermos nós mesmos os inferiores. Dá para sentir isso? Imaginem, por que será que toda a natureza se cala quando nós falamos alto que somos filhos dos deuses? Nenhuma outra forma de vida na Terra concorda com nossa loucura! Quer saber? A rainha das formigas possui sua função, faz sexo e é condenada a ficar no escuro depositando ovos a vida inteira. As formigas operárias e soldados andam, arriscam-se, travam batalhas, cuidam de todos. Não dá para comparar isso com nossa sociedade doentia. Somos diferentes e não entendemos os outros! Imaginem, uma sociedade perfeita?! Como compreender algo que nós não conseguimos fazer?!”

Cupins, formigas, vespas, abelhas, caranguejos, polvos, mundos de inteligências tão diferentes da nossa. Tudo resultado do impulso da vida, através da evolução de células que cooperam entre si.

Nós não estamos sós na Terra! Na verdade, estamos é doentes há tempos! Falando sozinhos uns com os outros, enquanto milhares de vozes, comportamentos e a sabedoria da Vida passam ao largo.

Leia sobre os animais, observe tudo a sua volta e conecte-se às mentes na natureza!

As borboletas da alma estão por toda parte!

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Obs.: Antes de conversarmos sobre nós mesmos e coisas incríveis que conseguimos fazer hoje através da ciência/ tecnologia (pe., transmitir o pensamento de um macaco rhesus por fibras ópticas), vamos explorar com mais detalhes as inteligências similares à nossa. No próximo post: a mente brilhante dos vertebrados.

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Para saber mais:
Alves, RRN e Nishida, AK., 2002. A ecdise do caranguejo uçá, Ucides cordatus L. (Decapoda, Brachyura) na visão dos caranguejeiros. Interciencia, Vol. 27, n.3, p.110-117. [clique: caranguejo uçá]
Brusca, RC. e Brusca, GJ., 2007. Invertebrados. [2 ed.] Editora Guanabara.
Lopes, RJ. Polvos [clique: Mistério de muitos braços]
Lopes, RJ., 2009. Além de Darwin - Evolução: o que sabemos sobre a história e o destino da vida. Editora Globo.
Margulis, L., 2001. O planeta simbiótico: uma nova perspectiva da evolução. Editora Rocco.
Margulis, L. e Sagan, D., 2002. O que é vida? Editora Jorge Zahar.
Nielsen, C., 2001. Animal evolution - Interrelationships of living phyla. [2 ed.] Oxford University Press.
Varella, D., 2006. Borboletas da alma: Escritos sobre ciência e saúde. Companhia das Letras.
 
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