segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

A desumanização do macaco



Antes de iniciar o tema deste post vou apresentar uma série de correções a um artigo do século XIX de Friedrich Engels (1876): "Sobre o Papel do Trabalho na Transformaçãodo Macaco em Homem". Meu objetivo é atualizar essas idéias e demonstrar como mudamos nosso conhecimento sobre nossas origens no século XX, ao mesmo tempo em que Engels continua atual.

Um upgrade!

Inicialmente, no século XIX não se tinha ainda descoberto fósseis de antropoídes bípedes como os Australopithecíneos e de outras espécies humanas (pe., Homo habilis, H. erectus, H. neanderthalensis, etc.) Sem essa informação, o nosso ancestral comum aos grandes macacos era imaginado por Darwin e Engels sendo algo semelhante a um gorila, ou um primata coberto de pelos e orelhas pontudas!

Sem fósseis, sem nossa idade geológica, sem o lugar de onde surgimos.

Hoje sabemos que surgimos no Pleistoceno logo após o surgimento das savanas africanas. Os fósseis humanos mais antigos estão na África e estudos com DNA mitocondrial demonstraram essa mesma origem africana.

Devido ao preconceito que existe contra as pessoas de cor (negros e amarelos) havia muito interesse em saber qual cor de nossa pele na origem de nossa espécie. Muitas pessoas ainda hoje não gostam dos resultados científicos que obtivemos: a primeira população humana na terra era negra!

A equação para o surgimento da diversidade em cor de pele e outras características humanas como olhos puxados, textura dos cabelos, são explicadas como adaptações humanas ao clima temperado e ártico. Sem contar a necessidade de absorver o máximo de sol possível para a síntese de vitamina D, conforme ocupávamos regiões frias como a escandinávia, onde o sol se ausenta por meses.

O bipedalismo, a pele glabra (na verdade com o mesmo número de pelos dos chimpanzés, só que os fios são delicados) e o máximo de glândulas sudoríparas podem ser interpretados como adaptações para o deslocamento nas planícies africanas, onde o que não falta é sol abrasador. A melanina da pele que lhe dar a cor escura é uma defesa contra raios ultravioleta, uma barreira natural contra câncer de pele e preservação do ácido fólico nas gestantes.

Nós não éramos arborícolas como escreveu Engels, desde os Australopithecíneos já habitávamos as planícies africanas. Guardamos sim características primitivas (simplesiomorfias), reflexos como o pé preensil dos recém-nascidos, a posição frontal dos olhos para visão binocular e mãos para agarrar.

O número de um grupo humano é por analogia semelhante aos caçadores-coletores africanos (pe., os Massai), não passa de 100 pessoas unidas por laços de família em todos os graus. Então, não havia "manadas" de macacos como escrito por Engels, mas sim grupos de no máximo 100 indivíduos. Eramos tão frágeis e sujeitos à extinção como hoje são os grandes macacos.

Há várias hipóteses para o surgimento do bipedalismo: (1) carregar alimentos com as mãos; (2) diminuir à exposição do corpo ao sol do meio dia com nossa posição vertical; (3) olhar além entre a vegetação das savanas para ter cuidado com os grandes gatos (nosso maior terror).

Faço até um parêntese sobre os nossos predadores. Notem como nós imaginamos nossos "monstros" e vilões, há sempre a presença de dentes afiados, garras e olhos com íris verticais. Ah! Somos animais diurnos, não enxergamos à noite, por isso nossos "monstros" e vilões sempre estão nas trevas a nossa espreita. Está em nosso subconsciente o terror de nossos predadores naturais.

Por fim, vem o uso de ferramentas que implica o surgimento do trabalho, segundo Engels, mas também incluo aqui da cultura, pois é um conhecimento aprendido e repassado de pais para filhos. Ferramentas são usadas pelos grandes macacos africanos e alguns casos relatados aqui no Brasil para os macacos-pregos (Cebus apella) da região nordeste.

Então, o uso de ferramentas e o bipedalismo em antropóides estão sim conectados com nossa humanização, mas não representam por si só a força motora da evolução de nossa espécie. São os eventos estocásticos e a seleção natural os responsáveis por isso.

Pedi a um amigo meu, Darlan de Oliveira Reis (professor de História), que definisse trabalho. Ele me repassou essa passagem de Marx:

"Antes de tudo, o trabalho é um processo de que participam o homem e a natureza, processo em que o ser humano com sua própria ação, impulsiona, regula e controla seu intercâmbio material com a natureza. Defronta-se com a natureza como uma de suas forças. Põe em movimento as forças naturais de seu corpo, braços e pernas, cabeça e mãos, a fim de apropriar-se dos recursos da natureza, imprimindo-lhes forma útil à vida humana. Atuando assim sobre a natureza externa e modificando-a, ao mesmo tempo modifica sua própria natureza. Desenvolve as potencialidades adormecidas e submete ao seu domínio o jogo das forças naturais."
(Marx, K., 1971. O Capital – Crítica da Economia Política. Vol. 1. Editora Civilização Brasileira).

Após a atualização descrita e definição do "trabalho", façamos uma síntese rápida da história humana:

(1) Aumento da cognição através do crescimento do cérebro por um evento estocástico (mutação) e seleção natural (mais inteligentes = maior aptidão).

(2) Maior cognição levou ao domínio do fogo e o incremento das ferramentas.

(3) A nova cognição e tecnologia (fogo e ferramentas) foram aplicadas no domínio da reprodução de plantas (agricultura) e animais (pecuária).

(4) A agricultura e pecuária do neolítico resultou na produção de bens em excedentes.

(5) As relações entre humanos e natureza passaram de caçadores-coletores para o agronegócio das tribos às civilizações mesopotânicas, do escambo ao dinheiro.

(6) Um grupo central de humanos, imbuídos da organização política e religiosa, apropriou-se do excedente e passou a explorar seus semelhantes: surgem os escravos.

(7) Revolução industrial resultou em trabalho assalariado e acúmulo de bens sem precedentes na história humana: surgem os explorados pelo capital.

Engels estava certo na propositura de que o trabalho foi um dos fatores que humanizou o macaco que somos. Contudo, o avanço cultural e tecnológico foi e é muito mais rápido do que a evolução de nossos corpos biológicos.

Nossa estrutura cognitiva é alicerçada em um mundo tribal pleistocênico. Nesse mundo tínhamos diferenças individuais, aptidões diferenciais, mas cuidávamos um do outro, dividíamos a comida e os bens da tribo (como a plantação de mandioca) eram de todos.

Temos aproximadamente 1 milhão de anos enquanto humanos, as civilizações surgiram cerca de 5.500 anos atrás, ou seja, apenas 0,5% de nossa história na Terra. Mudamos radicalmente o nosso mundo sócio-econômico em muito pouco tempo. O mundo cultural ficou impregnado por nossa vida tribal, que representa 99,5% de nossa história humana. Sem contar que este mundo industrial como conhecemos hoje tem apenas 200 anos (0,02% de nossa história).

O trabalho humano sobre à natureza hoje é uma forma de exploração assalariada em massa para acúmulo de bens de uma minoria.

Tenho a sorte de ter uma profissão que me dá prazer em exercê-la. Em meus trabalhos sobre evolução de animais metaméricos e ecologia de parasitas/ hospedeiros me realizo como ser humano e contribuo para a geração do conhecimento.

Todavia, se você vai para o seu trabalho com raiva, não apenas dele em si, mas da sua remuneração (que reflete o seu acesso aos direitos humanos para sobrevivência) alguma coisa está errada.

Em o,5% de nossa história passamos de igualitários para explorados e acumuladores de riquezas (muitas vezes apenas especulativas como o dinheiro). Destruímos ecossistemas, exterminamos espécies em massa, espalhamos pobreza e miséria em profulsão.

A humanização do macaco pelo trabalho gerou alienação no Capitalismo. Acho prudente sabermos de nossas origens e características biológicas. Um olhar para nossos irmãos chimpanzés deveria ser obrigatório para entendermos quem somos e qual a nossa missão neste planeta vivo, antes que só sobre apenas lixo e baratas como no mundo do robô Wall-E.

Após um upgrade dos dados sobre nosso conhecimento de evolução humana, nunca Engels foi tão verdadeiro quanto nos dias de hoje.

Talvez se estivesse vivo, Engels ficaria impressionado como conseguimos evoluir para um tipo de macaco tão desumano.

3 comentários:

Darlan Reis disse...

Meu amigo, o que provocou a alienação do trabalho muito antes do capitalismo? Sem dúvida as razões foram políticas e ideológicas, mas há uma condição, veja bem, condição para que haja a alienação do trabalho: a existência de excedentes econômicos de forma permanente. Quando o desenvolvimento das forças produtivas possibilitou a produção de excedentes econômicos, surgiram as condições para a divisão social do trabalho em substituição à divisão natural do trabalho, comuns nas sociedades comunistas primitivas.

Darlan Reis disse...

Com isso quero dizer que o "macaco humano" se desumanizou muito antes do capitalismo, nas chamadas "civilizações", seja no modo de produção asiático ou no escravismo ou em outros sistemas, encobertos por desigualdades além das sociais como a estamental e a de castas.

Waltécio disse...

É isso aí camarada!!! Reajustei o título e o final do post em acordo com suas oservações.

Valeu!!!

W.

 
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