domingo, 18 de janeiro de 2009

Como uma onda no mar


Quando comprei o "Livro de Ouro do Universo" (Mourão, RRF., 2000. Editora Ediouro) e comecei sua leitura vi a admiração do autor pela música de Lulu Santos. No início não gostei da dedicatória e das referências, porque nunca fui grande fã do Lulu, mesmo que minha geração tenha sido profundamente influenciada pela música dele.

Por outro lado, meu primo Jorge Filho (chamado por todos de "Jorginho") era um fã de carteirinha do Lulu, em especial da coletânea "O Último Romântico" (1987). Jorginho teve problemas de depressão e alcoolismo, todos gostavam dele, mesmo nos momentos mais difíceis. Ele morreu de um derrame cerebral, sentado e bêbado, escutando Lulu Santos. Acho que é por isso do meu não gostar das músicas do Lulu, lembram demais meu primo e amigo Jorginho, lembram a tristeza dele, o vício e a morte.

Hoje me peguei escutando "Como Uma Onda no Mar", reconheço que é uma música brilhante. Traz tudo que meu cérebro gosta de lembrar: os amigos, os amores, as roupas, a chuva da década de 1980. Dá até para lembrar dos cheiros das ruas e dos sabores da comida desse tempo passado. Sem contar que é a música com percepção cotidiana da Teoria da Evolução mais popular que conheço.

Nada do que foi será do jeito que já foi um dia. Verdade, pois a história não se repete!

Eu sou o litoral de minha existência, por isso, interpreto as pessoas como ondas. Elas vêm até a mim e depois se vão. Por sua vez, em outros litorais diferentes do meu, assumo o papel das ondas, vou e volto, nunca permaneço para sempre. Tudo passa, tudo sempre passará.

Essa fluidez do tempo que passa a existir apenas em recordações borradas em nossas cabeças foi decisiva para Sartre ir além de Heidegger, a existência humana sem definição pelo tempo (leia o post Um banho de Tempo ), fragilizada pelo Nada nauseante.

Próximo dos 150 anos da publicação do livro "A Origem das Espécies" de Charles Darwin, hoje há o reconhecimento da Evolução como um processo inerente à vida, seja neste planeta seja em qualquer outro com condições para tal.

A Evolução é considerada por muitos como uma Metateoria para além dos sistemas biológicos. Por exemplo, Karl Popper (1976) defendeu a idéia de que assim como os seres vivos, hipóteses científicas competem entre si e apenas as mais "aptas" aos fatos observados sobrevivem através do tempo. Ou seja, a Ciência evolui!!!

Mourão no "Livro de Ouro do Universo" não cita uma obra chamada "The Life of Cosmos(*)" de Lee Smolin. Neste livro é apresentada a idéia de que tudo muda segundo as leis da evolução e tudo compreende o universo inteiro. Para Lee Smolin a evolução é um fenômeno cosmológico!

Mesmo assim, apenas pela citação da música do Lulu Santos, a evolução está lá no "Livro de Ouro do Universo". Sinto-me satisfeito com isso.

Ademais, escutar uma música é algo fascinante, neurologistas afirmam que "quando a música se dissolve no êxtase, ela nos transporta para um lugar abstrato, distante do mundo físico que, normalmente, ocupa nossas mentes" (Jourdain, 1998: 24).

No final da "Náusea" de Sartre (1938), Roquentin pensa ao escutar uma de suas músicas favoritas, após uma falha no disco:

"Também isso eu compreendo: o disco se arranha e se gasta, a cantora talvez esteja morta; eu vou embora, vou tomar meu trem. Mas por trás do ente que cai de um presente para o outro, sem passado, sem futuro, por trás desses sons que dia a dia se decompõem , se lascam e deslizam para a morte, a melodia permanece a mesma, jovem e sólida, como uma testemunha implacável."

É o mesmo que eu sinto agora escutando a música de Lulu Santos, ora mergulho no universo, ora em meu passado. Observo todas as mudanças de ontem e estas agora que estão para acontecer hoje. Semelhante a Roquentin estou na estação do trem, vou embora, ou até mesmo já fui para muitos que conheço. Volto para o mar como uma onda, ou fico em meu litoral observando todos num indo e vindo infinito.

Aos amigos ausentes, aos amores perdidos, aos antigos deuses, à estação das brumas!!!

(*) Comprei a primeira edição brochura importada em 1998. Esse livro só foi traduzido e publicado no Brasil em 2004 pela Editora UNISINOS.

5 comentários:

Darlan Reis disse...

Camarada, aproveite a onda de sorte que você teve.
É isso aí!!!

Waltécio disse...

Camarada,

Afastei-me de meus sonhos acadêmicos gradualmente na URCA.

Pensando calmamente agora vejo que sempre estava em situações extremas. Tianhamos que lutar contra o interventor, era nosso dever civico e acadêmico.

A luta e campanha para reitor que se iniciou na greve de 2006 foi um dos maiores ensinamentos de minha vida. Joguei-me de coração.

Depois da vitória acreditei no sonho da transformação da URCA em uma universidade de verdade. Não era pouca coisa, lembro das reuniões com Plínio, Alexandre, Galberto e você.

Realmente eu tenho sorte, porque conquistei amigos de verdade. Tanto aqui na URCA, como fora dela. Estou inserido hoje em um grupo de psquisadores da UFRN, UEPB, UFPB e Unesp. Essas parcerias agilizaram e muito os trabalhos que realizei.

Mas minhas responsabilidades administrativas estavam minando tudo isso. Dos amigos que sonharam uma nova URCA ficaram Galberto e você. Estou com uma fila de artigos para terminar... e minha vida pessoal passou a ser um inferno.

Olhei pra trás nessas últimas semanas, você sabe disso, porque escutou muito esse meu desabafo.

Notei o quão distante estava fora de meus próprios objetivos. Desde 2005 eu tinha a certeza de quando consolidasse meu currículo iria começar a prestar concurso para uma universidade mais próxima do mar, um lugar melhor do que a URCA.

Isso pode nunca acontecer, posso também errar a escolha de meu outro futuro emprego... Mas prometo do fundo do meu coração nunca mais desistir de meus objetivos, vou tentar todos os concursos que eu puder concorrer. Caminharei novamente como o homem pleistocênico que você conheceu... Espero atingir meus sonhos mais ambiciosos, ou morrer tentando.

Abs,

W.

Darlan Reis disse...

O que importa é travar o bom combate. E você é um bom combatente e travou o bom combate.
Se puder ganhar, melhor ainda, rsrs;
Mas como disse Olga Benário antes de morrer, entregue aos nazistas pela ditadura: "Eu lutei pelo bom, pelo justo, pelo correto". Não precisamos ser mártires, nem heróis, mas fizemos o que estava ao nosso alcance e dentro de nossas possibilidades.
Aprendemos com erros e acertos. E vamos em frente, como disse Karl Marx (com uma adaptação minha, hehehe): "não temos nada a perder, temos um mundo a ganhar".

Saudações, tovarishch!

E.R.F. Medeiros disse...

E que cada um de nós dê ao demônio o que ele merece.

Waltécio disse...

É isso aí, Eduardo!!!

Nosso brinde, inspirado na obra de Neil Gaiman, é a marca dos Quatro Elementos!!!

Ainda neste ano nos encontramos em João Pessoa!!!

Abs,

W.

 
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