sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Teoria e prática


Iniciei meu mestrado em 1997. O projeto no qual eu trabalhava minha dissertação era sobre a evolução dos animais metaméricos. Eu pesquisava com literatura científica, analisava as descrições de todas as espécies alvo de meu projeto (poliquetos marinhos), montava matrizes pictóricas, construía hipóteses de homologias primárias, codificava tudo, construía uma matriz de dados com o programa TreeGardener(*) e realizava análise filogenética com o programa Hennig86(**).

Meu orientador fazia o mesmo à exceção do uso dos programas para análise filogenética, isso, na época, era coisa só minha no Laboratório de Filogenia dos Metazoa da UFPB. Tanto Martin, quanto todos os seus orientandos eram reconhecidos como biólogos teóricos. Nós construíamos novas hipóteses evolutivas para resolver problemas presentes na evolução dos animais.

A disciplina Zoologia de Campo foi um dos eventos mais divertidos e encantadores de minha formação. Todos os professores do programa de pós-graduação ministravam sua parte nela. Levou quase um ano para fechar, começamos coletando animais marinhos e depois fomos para a Reserva do Brejo dos Cavalos, Caruaru – PE. Por três dias ficamos lá aprendendo técnicas de coleta de peixes de água doce, insetos (diurnos e noturnos), aves, morcegos, pequenos mamíferos, répteis e anfíbios.

Era um final de tarde e nós mestrandos (eu, Marcos, Élvio, Rocha e Gildo), após as atividades de campo, fomos tomar banho na pequena represa do rio. Os professores Alfredo Langguth e Ricardo Rosa eram os responsáveis pelas aulas daquele dia.

Entendam a situação: eu teórico em uma disciplina de campo. Pegaram a idéia? Biologia teórica vs. biologia de campo... Sinal de conflito iminente.

Conversa vai, conversa vem, então Langguth virou para mim e perguntou:

-"
Olha que coisa linda essa floresta, você não está vendo o quanto tem a fazer no campo? Você não sente falta disso em seu trabalho? O que você pode dizer sobre tudo isso a sua volta se nunca estivesse aqui?"

Eu respondi prontamente:

-"
O que você vê foi teorizado, as coisas vivas descritas e por serem ainda estudadas só fazem sentido se alguém propor hipóteses sobre elas. Para mim tudo aqui pode ser representado com cladogramas, eles sim são a forma verdadeira de ver. Tudo aqui não passa de cladogramas para mim."

Na época a avaliação das disciplinas era expressa por conceitos de A até C.

Todos tiraram A... menos eu, porque fiquei com um B.

Reclamei do conceito B com o coordenador do programa, não achei justo. Entretanto, hoje concordo com a avaliação de meu desempenho e entendo o que Langguth estava tentando me ensinar.

Claro, teoria e prática andam juntas, são complementares e necessitam uma da outra. Todavia, no dia a dia dos laboratórios isso não é bem assim. Há físicos teóricos e matemáticos aplicados, cientistas e engenheiros, ecólogos teóricos e zootecnistas, etc. Profissões com ênfase ou em teoria, ou em aplicabilidade.

Eu me tornei exceção! Em meus trabalhos sobre evolução eu sou um teórico, nos trabalhos sobre a sistemática biológica e ecologia de pentastomídeos e onicóforos eu sou um biólogo de campo.

Já escrevi três posts sobre os trabalhos científicos que desenvolvo:
Quando eramos vermes
Hipóteses
Implicações

A parte teórica me trouxe alegrias, porque além de serem meus artigos de maior repercussão, em termos de citações, são meus esforços mais ambiciosos até agora.

Aqui estão os meus principais artigos sobre evolução:
http://www.jstor.org/pss/3285745
http://www.scielo.br/pdf/rbzool/v20n1/v20n1a06.pdf
http://www.biotemas.ufsc.br/volumes/pdf/volume213/p81a90.pdf

A parte de campo é muito importante para mim, pois me levou ao encontro e compreensão da natureza em lócus. Tenho visto toda a glória do mundo em locais belíssimos como a Chapada do Araripe, a Mata Atlântica e a Caatinga.

Aqui estão os meus principais artigos sobre a biologia, sistemática e ecologia de pentastomídeos e onicóforos:
http://www.springerlink.com/content/a658743u644wm235/
http://www.scielo.br/pdf/bjb/v66n2a/a23v662a.pdf
http://www.scielo.br/pdf/bjb/v66n4/21.pdf
http://www.scielo.br/pdf/bjb/v66n1a/28993.pdf
http://www.scielo.br/pdf/bjb/v67n4/24.pdf
http://www.scielo.br/pdf/bjb/v68n1/a28v68n1.pdf
http://www.scielo.br/pdf/bjb/v68n1/a29v68n1.pdf
http://www.scielo.br/pdf/bjb/v68n2/a28v68n2.pdf
http://www.scielo.br/pdf/bjb/v68n3/a19v68n3.pdf
http://www.biotemas.ufsc.br/volumes/pdf/volume212/p161a163.pdf
http://www.biotemas.ufsc.br/volumes/pdf/volume212/p165a168.pdf

Hoje aos 37 anos de idade me sinto feliz por tudo isso que fiz. Agora no caminho para meus 40 anos espero me dedicar completamente à ciência, seja ela teórica, ou aplicada.

Tirei um merecido “conceito B” na disciplina de Zoologia de Campo, mas aprendi com o prof. Langguth como alcançar meu “conceito A”, 11 anos depois!!!

Para encerrar, permitam-me citar uma passagem da música “Dias de Luta” da banda Ira:

Só depois de muito tempo
Fui entender aquele homem
Eu queria ouvir muito
Mas ele me disse pouco...

Dito e feito!!!
Teoria e prática, dois lados da mesma moeda.

(*) Hoje uso o MacClade para construir minhas matrizes.
(**) O programa que uso hoje para análise filogenética é o PAUP.

2 comentários:

Darlan Reis disse...

Waltécio, essa questão é pertinente.

O marxismo é uma concepção conhecida como "filosofia da práxis". Por isso, tão combatido.

A práxis é a vinculação entre a teoria e a prática, a ação consciente, embasada cientificamente e transformadora.

Quando Marx afirmava que a "prática era o critério da verdade", você nem imagina como tiraram essa frase do contexto e a deturparam, para transformar este revolucionário em alguém completamente equivocado.

Saudações.

Waltécio disse...

Eu só aprendi isso com o tempo.

Fui um universitário comum, que admirava seu orientador. Segui seus conselhos, usei a metodologia indicada.

Mas já nesse tempo sempre demonstrei "meu jeito". Fui o primeiro orientado (Iniciação Científica, Mestrado e Doutorado) que usou programas de análise filogenética.

Sem contar que corri atrás e consegui coletar os primeiros pentastomídeos na Paraíba em 1996 (nunca publiquei isso). Mesmo quando começei a trabalhar com outros grupos como Polychaeta e Onychophora, participei do trabalho e coleta de campo desses animais.

Entretanto, levei muito tempo para saber as diferenças e necessidades do trabalho teórico e prático feitos juntos.

É isso aí!

 
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