sábado, 29 de novembro de 2008

Implicações

Infecção ocular por pentastomídeo no Equador (Lazo et al., 1999).

Para quem não entendeu muito bem as hipóteses anteriores e para aqueles que desejam saber o valor prático do que fazemos, vamos falar um pouco de implicações.

Até hoje foram registradas 15 mortes por pentastomídeos... Sim, os parasitas que eu estudo podem MATAR pessoas. Centenas de outras estão infectadas por pentastomídeos, ora de forma assintomática, ora com sintomas relacionados as síndromes de Marrara, ou Halzoun. Sem contar casos de dermatite, prostatite, ataques cardíacos, dores agudas no abdomen, infecções oculares e abcessos no fígado. Casos de pentastomíase já foram relatados na Nigéria, Congo, Costa do Marfim, Egito, Sudão, Irã, Rússia, China, Malásia, Canadá, Estados Unidos, Alemanha, Suiça, México, Panamá, Chile, Costa Rica, Equador e BRASIL.

Não se sabe o que são os Pentastomida... não há remédio ("vermicida") contra eles!

Análises moleculares e dados espermatológicos indicaram que os pentastomídeos seriam exóticos crustáceos parasitas (muito próximo aos Branchiura - conhecidos como piolhos-do-mar).

Nossas hipóteses (publicadas 1 e 2, em construção 1, 2, 3 e 4) são baseadas na análise de fósseis, embriologia, características anatômicas, biologia e ecologia das espécies recentes. Para nós, pentastomídeos são lobopodados modificados. Isso quer dizer que os grupos atuais e vivos mais próximos desses parasitas são Tardigrada e Onychophora. Compreender esses outros grupos pode ser a chave para se descobrir até um fármaco contra os pentastomídeos.

Além disso, compreender o porquê e como a história evolutiva dos pentastomídeos levou eles a apresentarem baixíssimo poder infeccioso e histopatológico nos hospedeiros silvestres também é importante para buscarmos a eliminação deles em humanos.

Ressalto ainda que todas as hipóteses citadas também estão relacionadas à conservação de espécies de hospedeiros, planos de manejo de fauna, prevenção e erradicação de zoonoses, manutenção de animais em biotérios, serpentários e zoológicos.

As hipóteses relacionadas à evolução dos animais metaméricos (publicada 3) devem explicar fatos ainda hoje desconcertantes. Tipo, por que nós, ratos e moscas temos os mesmos genes homeóticos relacionados a expressão de membros locomotores? Por que esses animais "protostomados" e deuterostomados seguem padrões de desenvolvimento embrionário semelhantes para definição dos eixos antero-posterior/ dorsal-ventral e possuem o mesmo grupo de genes homeóticos?

Leiam o que um geneticista falou a esse respeito:

This insight, along with recent genetic information suggesting a reversal of the dorsoventral axes between Drosophila and vertebrates, favors phylogenetic scenarios deriving the vertebrates from annelid-like or arthropod-like body plans”. (Holland et al., 1997:1731)

Nossa resposta as perguntas acima é muito simples e elegante: porque todos esses animais estão relacionados evolutivamente, todos possuem um ancestral comum. Deuterostomados são protostomados modificados, os genes são iguais nos dois grupos, porque eles são um só!!!

Em relação aos Pentastomida... fizemos história!!! Somos citados em mais de dez países, estamos no "Tree Of Life Web Project" e em um dos melhores livros didáticos de zoologia do mundo, Brusca e Brusca (2003).

Mesmo com toda dificuldade, aspectos econômicos e sociológicos desfavoráveis, esforçamo-nos para fazer ciência (construir e trabalhar hipóteses de alto impacto)... Espero do fundo de meu coração que isso seja apenas o começo!!!

2 comentários:

Ana Cristina disse...

Dr.Waltécio,
Belo trabalho; parabéns!!! E parabéns também pelo dia de ontem, o dia do biólogo...
Qual seria o nome vulgar dos pentastomídeos?

Waltécio disse...

Oi Ana!

Obrigado pelos parabéns que incluo você pela curiosidade e amor às ciências biológicas!

O nome vulgar dos pentastomídeos é "linguatula", uma denominação criada pela espécie mais comum que parasita humanos: Linguatula serrata.

Beijos e tudo de bom sempre!!!

 
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