domingo, 16 de novembro de 2008

Olhos Pleistocênicos






Há um milhão de anos atrás, em meio às glaciações e origem das savanas africanas... Abri meus olhos!

Antes de mim, antes do meu povo, nossos ancestrais já andavam eretos com as duas pernas. Herdei deles meu mundo social básico com uma organização hierárquica, onde há um macaco alfa central, amigos caçadores-coletores (inclua guerreiros) ao lado. Do macaco beta ao ômega, uma corrente masculina sustentada por laços familiares, amizade, poder e sexo (fêmeas disponíveis aos poderosos). [parênteses] Poderia ser uma rede feminina como nos bonobos (
Pan paniscus)? Bem, a esmagadora maioria de nossas culturas, de caçadores-coletores às grandes civilizações, é semelhante, em grandes generalizações, às estruturas de Pan troglodytes. Até que se prove o contrário, sigamos assim.

Eu abri meus olhos em pleno Pleistoceno! A diferença está na minha capacidade cognitiva. O uso de ferramentas, comer carne e gordura (tutano), estar vivendo em um meio social complexo e o surgimento da linguagem falada. Meu cérebro aumentou! Ele é parte de meu corpo, quase todo glabro (porque preciso resfriar-me ao sol... suando), é uma manifestação adaptativa para minha sobrevivência... Maior inteligência, maior raciocínio lógico e compreensão dos outros (empatia e Teoria da Mente).

Eu abro meus olhos à noite e enxergo! Durante milhões de anos nenhum grande primata enxergou no escuro. Eu domino o fogo! Carne, calor, proteção... Eu posso ver os grandes gatos que me caçavam na escuridão... Posso afugentá-los, enfrentá-los, matá-los... com o fogo!

Estou sem sono! Tenho ansiedade, porque amanhã sairemos para caçar. Esse é o ponto importante, uma grande inteligência trouxe consigo, uma ampliação de sentimentos e angústias. Alguns iguais a mim podem ficar tão tristes, tão depressivos que simplesmente desistem de existir e matam-se. Isso é único, desconheço criatura viva que desista de existir aos prantos e que atente contra sua própria vida.

Grande inteligência, grandes sentimentos, grande agonia!

Tal será esse destino que dentro de alguns milhares de anos, os descendentes de meu povo terão apoio psicológico. Surgirá a psiquiatria, psicanálise e neurociência para tratarem do funcionamento e problemas da mente que hoje possuo.

Penso na caçada de ontem, conhecemos muito dos hábitos de nossas presas. Onde elas bebem água, onde comem, o que comem e para onde vão quando chega a seca nas planícies. As estações do ano, quando é época do fogo na savana, ou quando chove muito. Compreendo tudo isso.

Pela primeira vez, minha compreensão é tão aguçada que consigo entender que vou cessar de existir!

Não é fácil ter esse conhecimento, é como uma maldição atrelada à dádiva evolutiva de ter uma mente brilhante. Tão brilhante que posso ver meu futuro... e meu futuro é a morte.

De forma estranha, surge a percepção de que não podemos terminar assim, "sem um sentido humano". Poucos suportariam isso.

Os Deuses surgiram no Pleistoceno! Conosco, juntinhos assim! Antes desse período, antes de um milhão de anos atrás, não há esses seres mitológicos. Agora, enterro meus amigos, rezo por eles para que vão para a terra de nossos ancestrais, além dos céus (cujas estrelas de tão belas serão sempre admiradas pelo meu povo, até que o conhecimento sobre elas virá milhões de anos depois).

Isso é considerado por alguns um produto adaptativo do cérebro humano para seu melhor funcionamento. O cérebro funciona através de idéias e experiência, sobretudo essa última quando vivida. A experiência de cada momento na vida é tudo e o cérebro é vivo! Desconhece estar morto, não há como esse órgão em si relembrar ou criar a si próprio a sensação de não existir. Ele simplesmente existe... Para nosso cérebro ele sempre existiu e nunca irá parar de existir.

Resultado: sensação de vida eterna!

Haverá Descartes que acreditará que pensa e por isso ele existe. Mas a neurociência do amanhã (para você leitor é a de hoje) demonstrará o inverso: que o cérebro existe, por isso pensamos. Esse órgão estava presente antes do Pleistoceno, em formas mais simples, embora muito eficientes. O cérebro veio antes de tudo... a mente de meu povo é produto da história evolutiva desse órgão.

Evolução que me levou até aqui, neste momento de ansiedade. Quando abri meus olhos, escutei todos os sons da noite em uma savana estrelada...

... Há um milhão de anos atrás.

5 comentários:

Darlan Reis disse...

É camarada, sem o cérebro não somos nada. O materialismo histórico está correto!! Hahahaha

José Nilton de Figueirêdo disse...

Simplemente brilhante a escrita do prof. Waltércio. Uma aula de antroplogia. Uma afirmação do conhecimento científico sobre o mundo e o homem. Digono de ser recortado e discutido com os nossos alunos da História, da Geografia, da Biologia. Parabéns!

Waltécio disse...

Obrigado pelos comentários e elogios, Darlan e Zé Nilton!

Grande abraço!

Waltécio

Débora Lima disse...

Até hoje este é um dos meus textos preferidos! Adoro!

Waltécio disse...

Obrigado, Débora!

W.

 
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