domingo, 25 de abril de 2010

As raízes de nossa dor

Os dois posts anteriores marcaram um dos pontos mais políticos aqui no Macaco Alfa. No primeiro post tentei o meu melhor, como de sempre, isso quer dizer "traduzir informações de livros e artigos científicos em linguagem acessível". Na questão específica do primeiro post (A Barbárie), quatro livros são a chave para entender o cerne do pessimismo, ou mesmo pela esperança de mudanças verdadeiras. As referências são:

Barber, BR., 2009. Consumido – Como o mercado corrompe crianças, infantiliza adultos e engole cidadãos. Editora Record.

Foster, JB., 2005. A ecologia de Marx – materialismo e natureza. Editora Civilização Brasileira.

Lipovetsky, G., 2007. A felicidade paradoxal – Ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo. Companhia das Letras.

Perrault, G. (Org.), 2005. O livro negro do capitalismo. Editora Record.

No segundo post (A Classe Média) está uma síntese da Classe Média brasileira escrita de forma brilhante pelo teólogo e escritor Frei Betto. Eu não conseguiria escrever algo melhor, achei o texto perfeito demais e pela primeira vez postei algo assim na íntegra aqui no Macaco Alfa.

Agora segue este terceiro post para encerrar esse assunto. Bem, aqui estou envolto a uma trilogia não planejada, cuja costura resulta em minha compreensão do mundo. Passei muito tempo de minha vida tentando entender de onde vinha aquilo que identificamos coletivamente como algo prejudicial às nossas vidas... A dor de todo mal.

De certo, entre tantas outras perguntas que me moveram na adolescência, essas eram as piores. O sentido da vida, de onde nós viemos, questões metafísicas como a vida pós-morte... Consegui um bom entendimento de tudo isso com boas leituras, reflexões e até através de minhas pesquisas no mundo dos animais. Entretanto, quando estou no Shopping e sou maltratado pela cor parda de minha pele, quando escuto às bravatas os discursos alienados contra trabalhadores explorados, quando até amigos falam sem parar de como é “bom viver no capitalismo” e sobre a “ditadura dos socialistas” sem terem lido nada, sem ao menos andarem de ônibus para o trabalho... Pode parecer simples, mas foi difícil de entender com precisão a origem, transformação e continuidade de todo esse mal.

Essa minha curiosidade não é uma questão apenas pessoal. Desde 2003 trabalho no interior do Ceará e aqui as coisas são diferentes de onde eu vim. Sou nordestino dos subúrbios do litoral, onde não há seca, onde a Música Urbana é verdadeira, onde proletários das fábricas não faltam por todos os lados.

Aqui hoje no interior do nordeste, quase não há grandes fábricas. A agricultura nem de longe reflete algo para ser classificado de agronegócio. Há muita prestação de serviço de um lado e do outro aposentadorias somadas aos programas de assistência social. Nesse contexto, eu também queria entender o porquê de alguns exultarem orgulho fora de medida em morar aqui, enquanto há, na mesma proporção emocional, uma vontade, e até a prática explícita, de morar nas capitais. Políticos, médicos e até professores universitários preferem ter moradia na capital e só virem aqui no interior para cumprir suas obrigações profissionais.

Nas palavras duras e diretas que já ouvi tantas vezes: “quem tem dinheiro, dinheiro mesmo, mora na capital, seu moço!”

Antes de prosseguir explico que êxodo humano por causa da seca não possui explicações naturais e simplistas. Para entender isso, precisei ler e descobrir que a tal “seca do nordeste” é uma de nossas catástrofes sociais e econômicos, como também foi a escravatura, extermínio dos nativos e outros horrores ligados à colonização. Aprendi com a leitura de textos do Dr. Frederico de Castro Neves (historiador e professor da Universidade Federal do Ceará) que não foi a irregularidade de água como a mídia me passou na década de 1980, foi algo pior e cujas consequências sociais estamos hoje enfrentando.

Sobre isso, peço gentilmente que leiam o texto abaixo (pgs. 77-80 retiradas de Neves, FC., 2007. A seca na história do Ceará. Pp. 76-102. In: Rocha, S. (Org.): Uma Nova história do Ceará. Edições Demócrito Rocha.):

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As Origens da Seca

Há registros de escassez de chuvas desde os mais remotos documentos sobre o território onde se localiza o Ceará. As tribos que habitavam essas terras, periodicamente transferiam suas aldeias para áreas mais úmidas ou próximas à orla marítima, muitas vezes provocando conflitos com outras tribos. Os primeiros colonizadores, pouco adaptados ao clima, viam-se em dificuldades quando ousavam atravessar o sertão em épocas de poucas chuvas. Mesmo assim, a ocupação do território se efetivou, especialmente com base na pecuária, que permitia uma certa mobilidade da “produção” durante as secas.

Até meados do século XIX, contudo, a irregularidade de chuvas que caracteriza o sertão não havia significado um problema tão grande para os setores dominantes. Pelo menos, as cidades e as instituições modernas do poder, estruturadas neste mesmo período, estavam a salvo das agruras da seca. As terras úmidas da periferia do semi-árido, abundantes e pouco povoadas, podiam ser ocupadas pelos grupos de sertanejos que perdiam as suas colheitas de subsistência e também pelo gado dos grandes proprietários. O Piauí e o Cariri eram as áreas mais procuradas por essas migrações periódicas. Muitos grandes proprietários possuíam terras nestas áreas como “reserva” para os tempos de escassez, quando o gado – bem mais valioso – poderia estar protegido.

O gado e a produção de subsistência predominavam na ocupação da terra até o início do século XIX. O algodão – uma planta xerófila que se adapta muito bem ao clima do semi-árido – somente veio fazer parte efetiva da produção sertaneja em meados do século. As primeiras tentativas de plantações algodoeiras datam do final do século XVIII, mas é no século seguinte – especialmente durante a Guerra de Secessão nos EUA (1861-1865) – que o algodão passou a fazer parte integrante e permanente da paisagem sertaneja.

Até então, os homens que habitavam essas terras semi-áridas organizavam-se em fazendas de criação em formas de produção em que a escravidão, se não foi inexistente, não teve o mesmo peso econômico e social que em outras áreas. Dividiam o tempo entre a lida com o gado e uma pequena cultura de subsistência, permitida pelos donos das terras, orgulhosos senhores que mantinham laços paternalistas – baseados na reciprocidade e na lealdade pessoal – com “seus moradores”.

A “quarta” – divisão de reses nascidas entre proprietário das terras e vaqueiros na produção de quatro para um – garantia uma possibilidade, embora remota, de ascensão social para os moradores, que cultivavam, especialmente, plantas de ciclo curto – milho, feijão e mandioca – que garantiam uma colheita rápida, apesar de frágil.

Essa agricultura não representava uma produção que conseguisse uma “reprodução ampliada”, um aumento contínuo das potencialidades produtivas que gerasse um excedente comercializável; mas, por vezes, se a regularidade de chuvas permitisse, alcançava uma “reprodução simples”, em que a família poderia subsistir, em sua pobreza, até o ano seguinte para a próxima colheita. A produção agrícola era, portanto, muito pouco integrada às regras do mercado. O objetivo dessa produção de tipo tradicional, pode-se dizer, era conseguir uma “segurança alimentar”, uma garantia de manutenção dos padrões de pobreza vigentes, ligados aos laços paternalistas de submissão, de lealdade e de proteção.

Em casos de uma eventual quebra desse ciclo, seja pela morte de um dos membros da família ou por uma praga na produção, esses laços, baseados também na caridade cristã, poderiam garantir a sobrevivência dos moradores subitamente levados à miséria. De certa forma, era dever do proprietário proteger os “seus” moradores durante um infortúnio.

A falta de chuvas no período regular, no entanto, destruía imediatamente essas colheitas e ameaçava o gado, desfazendo o círculo da produção tradicional. O proprietário da fazenda destacava alguns homens e deslocava seus bois para outras áreas onde o pasto podia ter-se preservado.

Os homens que ficavam tinham duas alternativas: ou migravam para áreas úmidas e resistentes à irregularidade de chuvas, sendo permitida a sua presença provisória por um beneplácito do proprietário, ou eram acolhidos pelo dono das próprias terras em que trabalhavam, muitas vezes habitando os currais abandonados e esperando sobreviver às custas da caridade do “coronel” e de sua esposa.

Essas alternativas eram difíceis, pois implicavam, tanto uma como outra, em um aprofundamento da submissão e da dependência. Ao mesmo tempo, a permanência deste sistema tornava a convivência próxima com a morte ou com a fome um forte elemento nas estruturas da cultura e religião, já que a mortalidade, tanto nos tempos de chuvas regulares quanto em tempos de seca, era (e é) muito alta.

Ao mesmo tempo, os trajetos migratórios eram árduos e pedregosos, cheios de perigos que vinham de várias origens: fome, doenças e crimes. Muitos animais também não agüentavam os rigores da “retirada” e sucumbiam nos caminhos, exaustos e famintos. As estradas, muitas vezes, transformavam-se em cemitérios a céu aberto.

Mas, apesar desse sofrimento, a escassez de chuvas ainda não representava um problema para o Estado brasileiro que se tornou independente em 1822. Era um fator climático localizado, que não afetava sobremaneira as estruturas do poder e da economia.

Essa situação mudou na metade do século XIX. Neste momento, uma série de fatores concorreu para o “fechamento” das terras disponíveis para a “retirada” dos homens e do gado.

A ocupação das terras próximas ao semi-árido por uma agricultura comercial tem dois momentos de intensificação: 1) a valorização das terras como bem econômico, provocada pela Lei de Terras de 1850, que, ao mesmo tempo, retirou das tribos indígenas remanescentes o controle de algumas áreas protegidas por aldeamentos; 2) o impressionante avanço da cultura algodoeira por toda a província do Ceará, motivado pelo súbito aumento de preços no mercado internacional em função da Guerra de Secessão nos EUA.

Esse avanço de uma agricultura comercial, sedentária, que buscava um excedente mercantil, tornou subitamente impossível a “retirada” dos moradores para terras mais úmidas durante os períodos de irregularidade de chuvas, pois elas não estavam mais “disponíveis” para isso, ocupadas agora com a cultura do algodão e valorizadas monetariamente. A proteção paternalista, devido à dimensão da população que a demandava, tornou-se insuficiente, deixando sem alternativas de sobrevivência uma população de centenas de milhares de pessoas.

Esse foi, contudo, um período de chuvas regulares: entre 1845 e 1877, anos em que as mudanças se intensificavam velozmente, os invernos regulares se sucediam, amenizando ou ocultando os efeitos perniciosos que essas transformações iriam ter sobre as populações do sertão. Por isso, o ano de 1877 se tornou um marco na compreensão do problema da seca e o impacto causado pelas cenas que então se desenrolaram fixou-se profundamente na cultura. Neste momento, a irregularidade de chuvas deixa de ser “apenas” uma questão climática para se tornar uma questão social, que a todos afeta e que o Estado brasileiro não poderá ignorar.

De fato, inaugura-se neste instante a seca tal qual a entendemos hoje: miséria, fome, destruição da produção, dispersão da mão-de-obra, invasões às cidades, corrupção, saques... (Neves, 2007).

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Centenas de milhares de pessoas chegaram às capitais. Milhares de pessoas chamadas de “invasores”, “retirantes” e “flagelados”. É esse povo que irá primeiro ser confinado em Campos de Concentração (só em 1932 foram criados sete apenas no Ceará: Crato, Cariús, Quixeramobim, Ipu, Senador Pompeu e dois em Fortaleza). Depois milhares de pessoas foram enviadas para os seringais amazônicos em 1942 (os seringueiros são nordestinos em sua origem). Daí então surgiu o banditismo por uma questão de classe, como canta Chico Science, no cangaço do sertão e nas "favelas" no sudeste.



A Favela (Cnidoscolus phyllacanthus, família Euphorbiaceae) é uma planta do sertão! Em meio aos conflitos de Canudos (1896-1897), os morros ocupados pelos soldados repletos dessa planta xerófila, entre a miséria, cuja semelhança levou nome aos morros no Rio de Janeiro. Claro, sem simplificar demais, lembrem-se que há uma massa de milhares de ex-escravos, pessoas que foram jogadas à própria sorte junto com os nordestinos da "seca", removidos e concentrados nas periferias. Lembrem-se ainda, o “Bota-Abaixo” dos cortiços no centro do Rio de Janeiro realizado pelo prefeito Pereira Passos entre 1902-1906... levou outros milhares e milhares de pessoas para as periferias.

Isso é passado?

Vejamos a seguinte nota recente na Revista IstoÉ:

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O Triste mapa da violência no Brasil

Foram divulgados na terça-feira 30 os dados do mapa da Violência 2010 – Anatomia dos Homicídios no Brasil. Os números fazem parte de uma triste realidade: de 1997 a 2007, o país registrou 512.216 assassinatos. Outra informação alarmante: o risco de um jovem negro ser vítima de homicídio no Brasil é 130% maior do que o de um jovem branco. O estudo também alerta para a interiorização da violência. No interior dos Estados, as taxas cresceram de 13,5 homicídios (a cada 100 mil habitantes) em 1997 para 18,5 em 2007. Em entrevista à IstoÉ, Júlio Jacobo, autor do estudo explica: “houve uma melhora da eficiência policial nas capitais. Mas o interior cresceu com o fluxo migratório das grandes cidades. Se não forem colocadas barreiras, a tendência natural é de crescimento da violência” (IstoÉ, 7 abril 2010, pg. 27).

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Siga o mesmo raciocínio: as enchentes e os deslizamentos com mortes... são culpa das pessoas que jogam lixo no chão e que “preferem” morar em morros?

Sei que tenho amigos que estão mais preocupados com o futuro do tigre, do panda... da já extinta ararinha azul, pior ainda, se o buraco da camada de ozônio vai aumentar novamente. Mas é por essas e outras histórias e a própria história em si, que não me deixam sorrir, ou ser otimista.

Ou se enfrenta de verdade nossos problemas... ou tudo não passa de cinismo!

É fechar as portas de casa, aumentar o muro, implantar cercas eletrificadas, subir os vidros dos carros e, para quem acredita em seres metafísicos com poderes sobrenaturais, rezar bastante!!!

Nunca foi tão necessário escolhermos: [clique] socialismo ou barbárie?

quinta-feira, 8 de abril de 2010

A Classe Média

8 DE MARÇO DE 2010 - 0H47
Frei Betto: radiografia da classe média num país injusto
A população brasileira é, hoje, de 190 milhões de pessoas, divididas em classes segundo o poder aquisitivo. Pertencem às classes A e B as de renda mensal superior a R$ 4.807 – os ricos do Brasil.

Por Frei Betto, no Correio da Cidadania

R$ 4.807 não é salário de dar tranquilidade financeira a ninguém. O aluguel de um apartamento de dois quartos na capital paulista consome metade desse valor. Mas, dentre os ricos, muitos recebem remunerações astronômicas, além de possuírem patrimônio invejável. Nas grandes empresas de São Paulo, o salário mensal de um diretor varia de R$ 40 mil a R$ 60 mil.

Análise recente da Fundação Getúlio Vargas, divulgada em fevereiro último, revela que integram esse segmento privilegiado apenas 10,42% da população, ou seja, 19,4 milhões de pessoas. Elas concentram em mãos 44% da renda nacional. Muita riqueza para pouca gente.

A classe C, conhecida como média, possui renda mensal de R$ 1.115 a R$ 4.807. Tem crescido nos últimos anos, graças à política econômica do governo Lula. Em 2003 abrangia 37,56% da população, num total de 64,1 milhões de brasileiros. Hoje, inclui 91 milhões – quase metade da população do país (49,22%) – que detêm 46% da renda nacional.

Na classe D – os pobres – estão 43 milhões de pessoas, com renda mensal de R$ 768 a R$ 1.115, obrigadas a dividir apenas 8% da riqueza nacional. E na classe E – os miseráveis, com renda até R$ 768/mês – se encontram 29,9 milhões de brasileiros (16,02% da população), condenados a repartir entre si apenas 2% da renda nacional.

Embora a distribuição de renda no Brasil continue escandalosamente desigual, constata-se que o brasileiro, como diria La Fontaine, começa a ser mais formiga que cigarra. Graças às políticas sociais do governo, como Bolsa Família, aposentadorias e crédito consignado, há um nítido aumento de consumo. Porém, falta ao Bolsa Família encontrar, como frisa o economista Marcelo Néri, a porta de entrada no mercado formal de trabalho.

Dos 91 milhões de brasileiros de classe média, 58,87% têm computador em casa; 57,04% frequentam escolas particulares; 46,25% fazem curso superior; 58,47% habitam casa própria. E um dado interessante: o aumento da renda familiar se deve ao ingresso de maior número de mulheres no mercado de trabalho.

Já foi o tempo em que o homem trabalhava (patrimônio) e a mulher cuidava da casa (matrimônio). De 2003 a 2008, os salários das mulheres cresceram 37%. O dos homens, 24,6%, embora eles continuem a ser melhor remunerados do que elas.

Segundo a Fundação Getúlio Vargas, o governo Lula tirou da pobreza 19,3 milhões de brasileiros e alavancou outros 32 milhões para degraus superiores da escala social, inserindo-os nas classes A, B e C. Desde 2003, foram criados 8,5 milhões de novos empregos formais. É verdade que, a maioria, de baixa remuneração.

No início dos anos 90, de nossas crianças de 7 a 14 anos, 15% estavam fora da escola. Hoje, são menos de 2,5%. O aumento da escolaridade facilita a inserção no mercado de trabalho, apesar de o Brasil padecer de ensino público de má qualidade e particular de alto custo.

Quanto à educação, estão insatisfeitas com a sua qualidade 40% das pessoas com curso superior; 59% daquelas com ensino médio; 63% das com ensino fundamental; e 69% dos semi-escolarizados (cf.
A Classe Média Brasileira, Amaury de Souza e Bolívar Lamounier, SP, Campus, 2010).

A escola faz de conta que ensina, o aluno finge que aprende, os níveis de capacitação profissional e cultural são vergonhosos comparados aos de outros países emergentes. Quem dera que, no Brasil, houvesse tantas livrarias quanto farmácias!

Hoje há mais consumo no país, o que os economistas chamam de forte demanda por bens e serviços. Processo, contudo, ameaçado pela instabilidade no emprego e o crescimento da inadimplência – a classe média tende a gastar mais do que ganha, atraída fortemente pela aquisição de produtos supérfluos que simbolizam ascensão social.

A classe média ascendente aspira a ter seu próprio negócio. Porém, o empreendedorismo no Brasil é travado pela falta de crédito, conhecimento técnico e capacidade de gestão. E demasiadas exigências legais e trabalhistas, somadas à pesada carga tributária, multiplicam as falências de pequenas e médias empresas e dilatam o mercado informal de trabalho.

Embora a classe média detenha em mãos poderoso capital político, ela tem dificuldade de se organizar, de criar redes sociais, estabelecer vínculos de solidariedade. Praticamente só se associa quando se trata de religião. E revela aversão à política, sobretudo devido à corrupção.

Descrente na capacidade de o governo e o Judiciário combaterem a criminalidade e a corrupção, a classe média torna-se vulnerável aos "salvadores da pátria" — figuras caudilhescas que lhe prometam ação enérgica e punições impiedosas. Foi esse o caldo de cultura capaz de fomentar a ascensão de Hitler e Mussolini.

Reduzir a desigualdade social, assegurar educação de qualidade a todos e aumentar o poder de organização e mobilização da sociedade civil, eis os maiores desafios do Brasil atual.

* Frei Betto é escritor, autor de Calendário do Poder (Rocco), entre outros livros.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

A Barbárie

Se um dia alguém chegar aqui neste blog e começar a passar seus olhos por essas palavras eu peço que fique por mais alguns minutos, por favor! Continue caminhando com suas órbitas oculares e deixe essas palavras ganharem voz e vida em você.

Eu fiz isso, percorri palavras de um livro chamado Barber, BR., 2009. Consumido - Como o mercado corrompe crianças, infantiliza adultos e engole cidadãos. Editora Record. Ao fazer isso, “ouvi com meus olhos” (na verdade com o cérebro, claro) as palavras de Benjamin R. Barber, teórico político norteamericano e defensor do capitalismo. Ah! Não do capitalismo atual de consumismo pelo consumismo, com seu núcleo de expressão nos EUA, mas de um tipo de retorno ao “etos protestante”, ou mesmo pela mais pura admiração a obra de Max Weber.

Bem, concordo em grande parte com os seis primeiros capítulos desse livro. Escrevo até que o livro é genial e não vai deixar você respirar até terminá-lo. O capitalismo de consumo é a fase de deterioração de toda natureza humana. A vida para quem pode comprar coisas passou a ser determinada por isso. As pessoas passaram a ser escravas de marcas de fantasia sem qualquer vínculo com suas necessidades reais. “Vestir carrões”, porque o carro é você, ter um tênis de marca famosa, porque a marca reflete esporte, saúde e juventude... Nada disso é real de verdade. Automóveis são máquinas de transporte e roupas são vestes. As fantasias humanas de consumo são loucuras de um primata que perdeu seu lugar na natureza. Um macaco alienado!

Tudo isso você encontrará em Barber (2009). Entretanto, eu ando muito incomodado com outras coisas. Vejamos, quem não lembra no início desta década o quanto estávamos (e ainda estamos) assustados com o aumento da violência? Lembram da análise feita e amplamente divulgada pela mídia? O culpado pela violência são as pessoas que compram armas, estas mesmas armas ao invés de prevenir contra crimes, acabavam nas mãos dos “marginais”. A solução? Criamos o Estatuto do Desarmamento (Lei 10826 de 22 de dezembro de 2003) e lá fomos nós todos envolvidos em uma campanha nacional para entregar as armas domésticas. Sete anos após isso, o crime diminuiu? Olhem só para a foto abaixo e respondam se uma arma doméstica faria isso:

Escrevo em caixa alta para não ser confundido ou mal interpretado: EU NÃO DEFENDO ARMAS EM CASA, EU NÃO TENHO E NÃO VOU COMPRAR ARMA ALGUMA, EU DEFENDO A PAZ PARA TODOS!

Ok, mas onde eu quero chegar então? Simples, o discurso falso e covarde que uma sociedade de pequenos burgueses faz para fugir as suas responsabilidades e continuar em seu mundinho inalterado e tranqüilo, pelo menos assim o desejam.

Vejam as fotos abaixo:

Milhões de pessoas mergulhadas na pobreza, milhões de pessoas como eu e você agredidas por duas ações danosas: (1) a falta de tudo (necessidades reais de sobrevivência e cidadania) e (2) o bombardeio da propaganda que gera necessidades falsas e símbolos do glamour consumista. Na falta de tudo, isso, claro, inclui a educação... PRESTE BASTANTE ATENÇÃO NISSO, SEM EDUCAÇÃO = MERGULHAR EM MUNDOS MÍSTICOS TÍPICOS DOS CLÃS PLEISTOCÊNICOS.

Primeiro, quando escrevo educação, não são apenas as escolas caindo aos pedaços com professores mal remunerados (o que ainda é comum no Brasil). Educação interpreto aqui como ter consciência do porquê das coisas, ter o mínimo de conhecimento sobre história, política e ciência. Isso constrói uma visão de mundo! Ou seja, sem conhecimentos básicos, esse “ser-no-mundo” continuará vivo, tentando compreender por que a vida é o que é e, mais ainda, qual o seu objetivo.

Preste atenção em você agora! Lembre-se que sua cognição é tão grande que vez por outra você se pega falando com objetos! A televisão com defeito, o livro que abraça com carinho, ou a porta que chuta com raiva. Sua cognição é tão flexível que você pode literalmente amar o seu carro até mais do que outras pessoas... Afinal, tem gente que espanca e mesmo mata outra por causa de um arranhão, ou amassado na lataria de seu automóvel. Tudo isso não possui vida, tudo isso não irá responder aos seus sentimentos.

Segundo, a propaganda faz parte do narcisismo capitalista, onde os negócios comandam gastos libertinos em falsos desejos, enquanto ignoram as reais necessidades humanas. Somos o que compramos – somos as marcas que consumimos. Comprar e consumir não são um aspecto do comportamento, mas definidores do significado da vida (Barber, 2009).

Muito bem, vamos costurar tudo agora. Milhões de pessoas ignoradas na miséria, entregues à sua própria sorte (incluindo sua cognição estendida que cria mundos místicos, muitos messiânicos e paternalistas), agredidas pelos outdoors e comerciais de pessoas brancas felizes em seus condomínios de luxo, dirigindo tanques urbanos, identificadas por símbolos de falso glamour e, nos casos extremos, literalmente comendo ouro com sorvete!

Agora vamos ao cerne das coisas, ok! A classe média é justamente isso: um etos de covardia e falsa propaganda! Primeiro porque sabe tudo que está errado. Uma educação básica deixa todo mundo sabendo que enquanto houver concentração de renda, a miséria de milhões é a origem da violência e destruição do meio ambiente.

Mas, o que vemos na TV, jornais e conversas nas ruas é um contra-senso. A violência é culpa dos cidadãos que compram armas, as enchentes são culpa das pessoas que jogam lixo no chão, o clima está mudando porque usamos sacolas plásticas, ou mesmo ligamos aparelhos eletrônicos. A culpa é minha, a culpa é sua... Nós sabemos disso! Nós sabemos de toda a miséria, dor e desamparo que causamos a milhões de pessoas... das alterações das condições climáticas e recursos naturais essenciais para nossa existência . Todavia, preferimos nos enganar, tipo, “vamos apagar as luzes por MINUTOS para dizer que queremos um mundo melhor!” Ou outra tolice “ hoje [e apenas hoje] eu não vou usar meu carro por um mundo melhor!”

Covardes! Mentirosos! Todos vocês! O dia inteiro, ano após ano, não há descanso ou pausa para o que fazem. Matam destroem tudo com seus hábitos, trancam-se em condomínios de luxo, fazem o chão tremer com seus SUVs, privatizam a saúde pública e acham que minutos com as luzes apagadas está bom para suas consciências?! Olhem mais fotos do que é real:

Isso não irá parar de crescer!!! Sobretudo no mundo capitalista atual.

Voltemos para as duas forças que estão agindo agora nessa massa de milhões de pessoas. Sem educação, o mundo místico toma conta de todas as explicações possíveis. Da alienação vêm as legiões de fanáticos e explodem em nossas portas, basta ter acesso às armas certas e o Jihad vem aí. Afinal, qual é o motivo para os EUA estarem tão dedicados contra o Irã não se tornar uma força atômica? Por que esse interesse pela paz simplesmente não se reflete na extinção de seu próprio armamento nuclear?! Ou por que não há a mesma pressão para todos os países que já são potências nucleares?! É ingênuo pensar assim, não é?! Afinal, império é império, conhecemos a história das políticas e ações (guerras) necessárias para se manter no poder de dominação de outras nações.

O mesmo serve para tudo mais, queimadas, lixo nas ruas, efeito estufa. É de responsabilidade coletiva, de controle coletivo com política de controle realizada pelo estado. Por mais que desejemos individualmente um mundo melhor. A infraestrutura das cidades, transporte coletivo, saúde pública (inclui saneamento), educação, uso racional de recursos não-renováveis, propaganda e marketing e produtos industriais. Tudo isso deve ser controlado por nós coletivamente e nós somos o estado sócio-econômico que construímos.

Se entregarmos o nosso bem estar coletivo nas mãos de desejos individuais sem controle, teremos nosso atual mundo com seus problemas graves e mais a alienação, a infantilização e a destruição da cidadania.

"É proibido proibir"! Ok, mas sem um controle coletivo, nós como indivíduos raramente produziremos uma sociedade saudável. Vejamos, os chimpanzés regulam uns aos outros em sistema de altruísmo recíproco, um “toma-lá-da-cá”, compartilhamento e uso dos recursos. Um macaco egoísta que não divide sua comida e que age apenas para si, terá poucas chances no grupo que é formado por indivíduos cooperativos recíprocos. Em outras palavras, muitas vezes é surrado e expulso do grupo... Caso contrário, não haveria grupo algum formado por chimpanzés egoístas. Viver em grupo para nós símios é prioridade de sobrevivência. Detectar e punir individualistas está em nossa natureza.

Como já escrevi antes aqui, vivemos em um sistema que é contra a nossa natureza humana de empatia, solidariedade e preservação de nosso meio ambiente. As ações individuais de apagar a luz por minutos, não dirigir por um dia, não usar sacola plástica em uma única compra... São apenas desculpas que usamos para aplacar nossa consciência contra todo o mal que sabemos que estamos fazendo.

Digamos que não estamos dispostos a sacrificar nossas vidas para um bem maior. Sacrificar mesmo, em uma revolução de verdade! Nosso povo está mergulhado em alienação de massas, em meio a um sistema sem pátria de consumismo fantasioso e devastador. Ao olhar de frente para essa realidade, esse abismo monstruoso que aumenta dia a dia, muitos já se preparam para o mundo que estamos construindo.

Um mundo que está trancado em condomínios de segurança máxima. Contra o quê? As milhões de pessoas como eu e você que chegam a serem vistas como um exército sem fim e sem controle, de "mortos vivos canibais" do capitalismo sempre à espreita, sempre batendo às portas dos ricos e afortunados!

Vamos controlar as massas com violência... Se precisar, com o exército e todas as suas armas.

Vamos puxar o gatilho de quem já vive fora de nosso mundo de consumo. Afinal, são excedentes descartáveis do sistema.

Chega de conversa fiada sobre “carros econômicos”, nesse novo mundo é bom andar blindado... Ou vocês acham que já não fabricamos carros para andar nas ruas em plena guerra civil?

Isso é a Bárbarie, isso é o mundo que nós vivemos hoje!

Isso lhe faz feliz?!

Como podemos educar nossos filhos na intenção de sermos um tipo de Sarah Conner, mas na prática somos os T-800 Exterminadores do Futuro?!

Os minutos que você apagou a luz na sua casa por um mundo melhor resolverá?

Essas palavras absurdas, escritas por um tolo, cheias de som e fúria... também não valem à pena sem ação!

Isso tudo compõe a barbárie, isso é o mundo que nós vivemos hoje! E não vai parar, não vai partir, não obedece a sonhos, desejos passivos e necessidades.

Se tudo continuar do jeito que está, não há deuses ou demônios que nos salvem de nós mesmos.

VIVER, SOFRER E MORRER... NO CAPITALISMO SELVAGEM E NA BARBÁRIE!!!


Leia também: [clique] Barbárie ou socialismo?

domingo, 21 de março de 2010

Diálogos: Epílogo - "Keep Talking"

Um vendedor de lanches na fila de um banco, uma criança em um estádio de futebol, um funcionário público perdido em si mesmo e uma Milena inesperada. Esses foram os personagens protagonistas dos Diálogos que selecionei entre encontros reais, mesmo que em síntese e liberdade poética. Todos unidos por assuntos sobre a importância da ciência, aplicação de conhecimento ao nosso dia a dia e inspirações ora profundas, ora sensíveis sobre a vida e a matéria.

Ao fim da série Diálogos só posso escrever que eles nunca terminarão de fato. Afinal, somos seres humanos e temos a linguagem falada como um dos pontos chaves do que somos. Por isso, cantamos e "continuamos falando" (Pink Floyd – "Keep Talking"):



Na prática de verdade... Nós brasileiros estamos muito além do que necessitamos como cidadãos. Temos uma megadiversidade ainda para ser satisfatoriamente descrita, melhorias na saúde, infraestrutura e... há nosso descaso secular com a educação. Como poderemos dialogar com nossos cidadãos sobre os pontos aqui apresentados se remuneramos mal nossos professores e restringimos quase na forma de um apartheid o acesso ao ensino superior?!

Construir hospitais, escolas, creches, esgotos, pontes e estradas? Sim, sim! Mas... Na mesma proporção precisamos dos professores e os frutos deles para que isso seja possível. Precisamos formar mais médicos, enfermeiras, fisioterapeutas, odontólogos, engenheiros, biólogos, químicos, policiais... Todo um país!!!

Não há nada sem a formação de nosso povo! É, eu sei que ouvimos isso todos os dias, mais um clichê, não é?! Todavia, verdades são assim mesmo, batem nas nossas portas até um dia entrarem definitivamente em nossas vidas.

A China foi a civilização à frente de todos os povos a mais de dois mil anos antes de Cristo. Com o passar do tempo em sua rica história milenar a China passou por várias fases. Na mais recente, estamos todos surpresos porque vemos seu atual desenvolvimento atrás apenas dos Estados Unidos e União Européia. Mais ainda, estima-se que nas próximas duas décadas a Grande China poderá ser a maior potência do mundo! Como isso pode ser assim?! Só na China continental, há algumas décadas havia fome e analfabetismo em massa! Tudo mudou a partir das reformas que se iniciaram em 1978, entre elas, obviamente estava a educação como agente estratégico: "As melhores universidades chinesas agem decididamente na atualização da infra-estrutura e do conjunto de capacidades, estabelecendo para tanto parcerias com instituições e empresas ocidentais e requisitando ativamente docentes diplomados no exterior. (...) Hong Kong se orgulha de suas oito universidades, mais do que o dobro das três existentes no final da década de 1970. Essas universidades, algumas de padrão mundial, exercem um papel fundamental na qualificação dos recursos humanos da China; é cada vez maior o número de estudantes da China continental nelas matriculados e muitos graduados acabam trabalhando, direta ou indiretamente, para empreendimentos no continente" (Shenkar, O., 2005. O Século da China. Editora Bookman).

E nós aqui no lado Sul do mapa... nem de longe fizemos o mesmo! Apesar de toda a propaganda feita sobre investimentos no ensino fundamental e médio, nossos professores ainda são muito mal remunerados e as escolas públicas sucateadas. “Que país é esse?” - Continuamos a cantar com muita tristeza!

Os Diálogos que desenhei são possíveis, mas em situações raras. Por quê? Sinto vergonha de escrever que além disso, em nossa realidade, descreveríamos as pessoas que apresentei como especiais. Olhem para Manoel, um vendedor de lanches, ele não é normal! Eu sei, você sabe quase sem querer, que vejo o mesmo que você... nas ruas, nas praças, nos ônibus... Falta de educação, saúde, lazer, respeito, cidadania. Abandonamos nosso povo! Depois ficamos classificando a todos como rudes e pobres de espírito.

Alguns de nós quando conseguem um empreguinho e ascendem, ou permanecem na “classe média apertada”, vão morar em condomínios fechados, pagam uma saúde privada e colocam os filhos em escolas particulares... Esquecem que se não cuidamos da moradia de todos os brasileiros, nossa civilização padece! Se todos não possuem saúde, todos nós adoecemos! Os agentes biológicos não respeitam quem tem, ou não plano de saúde e, para eliminá-los, todos nós temos que estar saudáveis! Se deixamos nosso povo com educação precária... Não há o que reclamar de mortes no trânsito, do lixo na rua, ou do crime organizado. Para mim, a "classe média" é a principal responsável por sua falsa erudição e covardia... Padece por sua própria omissão e espírito de pequeno burguês. Aqui no interior do nordeste, onde tudo é pobre, tenho visto uma "classe média" ainda mais horrível, daquelas endividadas por um carro mediano como um Honda Civic, que exploram a mão de obra de pessoas fragilizadas e vivem de inveja, rancor e mau dizeres por não conseguirem morar no litoral.

Tenho muito orgulho de escrever que eu sou professor dos pobres, dos filhos dos agricultores, dos taxistas, dos comerciários, dos feirantes e das domésticas. Não estou exagerando, perguntem para eles:

Minha primeira equipe de Iniciação Científica ao meu lado no Laboratório de Zoologia da URCA. Da esquerda para direita: Sarahbelle (hoje mestre pela URCA), Suzana (mestranda na UFMA), Samuel (doutorando na UFPB), Felipe (doutorando na UFPB) e eu.


Parte de minha equipe atual em trabalho de Campo. Da esquerda p/ direita: Samuel (mestrando UFPE), Guilherme (estagiário IC - URCA), Israel (mestrando URCA) e Diego (bolsista IC-FUNCAP/ URCA).

Esses meninos e meninas brilhantes que fazem ciência de verdade - aqui no interior do nordeste brasileiro - mudam vidas e logo, logo estarão no meu lugar... Professores em todos os níveis que necessitamos por um mundo melhor e mesmo para tornar os Diálogos sobre ciência algo comum no cotidiano, como nosso feijão com arroz.

Assim encerro a série Diálogos dedicando ela aos meus alunos, cujos mesmos Diálogos no laboratório só me enchem de esperanças por um Brasil melhor e forte!!!

Turma concluinte da Biologia - URCA /2009.2 - No centro está Débora, uma de minhas bolsistas do PIBIC/ CNPq: em baixo, da esquerda para direita, a quinta menina olhando para cima e toda sorriso!

domingo, 14 de março de 2010

Diálogos: A Milena Inesperada

Passo ao meu passo curto e devagar pela alameda da praça. Um dia esplendoroso se manifesta com muita luz, calor, vento e cores das coisas vivas. Ando olhando para locais e coisas que ninguém costuma olhar. Mesmo assim, percebo à minha frente, sentada em um banco, uma mulher com a cabeça entre as suas mãos. Normalmente, e por incrível que pareça, formigas, besouros e pequeninas aranhas chamam mais minha atenção do que meus pares de espécie. Entretanto, aquela mulher de cabelos negros está tão só, tão frágil entre suas mãos, que finjo cansaço e sento na ponta contrária do banco onde ela está.

Como qualquer animal, respeito o espaço dela. Já notaram que não é preciso grandes mentes humanas para fazer isso? É, todos respeitam instintivamente o espaço dos outros. Pelo menos, os animais “irracionais” nos ensinam... Educam em exemplos a nós, grandes chimpanzés religiosos e de pelos ralos. Pequeninos animais na maioria do tempo, respeitam uns aos outros:

Eu tento fazer o mesmo! O mesmo do mesmo! Aproximar-se, respeitosamente e... demonstrar carinho e empatia por essa mulher sozinha.

Quebro o silêncio:

Eu – Bom dia!!! Você sabe que horas devem ser? Meu relógio quebrou!

Maria – Não tenho relógio!

Eu – Ah! Desculpe-me interromper seu silêncio! Posso fazer outra pergunta?

Maria – Olha, por favor, não me incomode, especialmente se você é um daqueles ridículos que não podem ver uma mulher sozinha.

Eu – Eu sou um homem comum, por isso sempre estarei preso à média dessa mesma “normalidade”. Eu sou um desses mesmos “ridículos”. Verdade, mulheres me atraem, mas, não ria de mim, besouros me são muito mais fascinantes.

Maria – Kkkkkkkkkkkkk!!! É só ficar sozinha para atrair ou um tarado, ou um louco!

Eu – Se é o que pensa de mim e todos os outros, tudo bem! Eu compreendo sua estranheza!

Maria – Desculpa! Eu não quis te ofender. Se você é “comum” como disse, embora estranho por essa predileção por besouros, compreenderá minhas reservas e até meu deboche explícito, não é?!

Eu – Certamente! Por favor, eu não sou assim tão estranho. Tenho a pele parda, uso óculos, não sou belo e até baixinho...

Maria – Não entendo aonde você quer chegar!

Eu – Que seria mais fácil inspirar confiança se fosse branco, alto, olhos azuis, simétrico...

Maria – Kkkkkkkk!!! Entendi, eu li esses livros populares, “Por que homens fazem sexo e as mulheres fazem amor?”, ou mesmo um outro, “A culpa é da genética”. Também tem reportagens em revistas e até vídeos no You Tube, ou vendidos em bancas de revistas.

Eu – Ok, mas tem livros melhores do que esses que você citou. Por exemplo, há “Além de Darwin”, que possui um texto direto, simples e brilhante. Se não leu esse livro ainda, eu recomendo! Bem, em todo caso, eu pensei que você iria me dizer que tenho baixa estima, ou complexo de inferioridade!

Maria – Nem de longe! Você é atrevido, está aí tentando conseguir minha atenção. Todo delicado e sensível. Parece o Franz Kafka em pessoa! Isso pode ser um nerd, mas nunca alguém com baixa estima!

Eu – [rsrsrsrs] Eita, que nunca me elogiaram assim! Apenas porque puxei conversa e fui sincero comigo mesmo!

Maria – Quantas pessoas falam o que você me disse sobre prestar atenção em besouros?

Eu – Disso eu sei! Na maioria das vezes converso muito... apenas comigo mesmo!

Maria – Eu também!

Eu – Não falei meu nome, desculpe-me por isso. Chamo-me Waltécio.

Maria – Kkkkkkk!!! Ta explicado tudo, além de nerd, tens um nome estranho!!! Meu nome é Maria! Prazer em te conhecer!

Eu – Pelo menos você está rindo desde que começamos a conversar. Fiquei muito intrigado pela sua solidão e as faces presas às palmas de suas mãos.

Maria – Seja sincero! É porque sou linda, não é?!

Eu – Não raciocinei, apenas senti e agi. Sim, você é muito bela... mas, tem algo sensível demais nessa sua tristeza...Tem algo diferente, ou é coisa do nerd que sou?!

Maria – Primeiro, deixa claro pra mim o seguinte: quer transar comigo, não é?

Eu – Hã?!

Maria – Diz pra mim sinceramente que está de papo furado, estranho e florido para tentar me impressionar? Pintando de intelectual sensível, sobretudo aqui neste Brasil de pobres rudes! Ah! Exatamente como você falou, para compensar sua falta de armas físicas de sedução imediata.

Eu – Putz! Gosto demais do jeito que você fala! Verdade, temos alguns livros em comum, mesmo que apenas de divulgação científica. Eu gostaria de ter uma mulher como você entre os meus braços, não vou mentir! Entretanto, compreenda o que me fez parar e puxar conversa não possui esse objetivo. Ademais, posso ir embora se estiver te incomodando.

Maria – Fica, Waté “rrr” cio! Desculpa minha grosseria! Caso compartilhemos mesmo alguns livros, você entenderá minhas palavras e comportamento.

Eu – Olha o clichê que vou falar agora: compreendo, Maria, “humana demasiada humana”!!!

Maria – Kkkkkk!!! Isso mesmo, seu “besouro demasiado besouro”!!!

Eu – É um filme, um herói brasileiro esse besouro!

Maria – Não, você está mais para escaravelho mesmo!!! Quer dizer, no Brasil chamam de besouro-do-esterco, ou mesmo “rola-bosta”.

Eu – OH NÃO!!! Kkkkkkkkkkkkkkkkk!!!

Maria – Kkkkkkkkkkkkkk!!!

Eu – Por que você está aqui mergulhada em solidão?

Maria – Eu não sei! Sério! Simplesmente parei! O dia de hoje está tão lindo e tem tantas cores. Eu quis parar, fazer valer à pena estar viva. Sentir minha respiração, encontrar em meu corpo a história de todos meus ancestrais e agradecer a todo Acaso e Necessidade por estar... viva!!!

Antes mesmo do fim das palavras de Maria, eu já estava calado em perplexidade. Ela é uma alma sensível.

Eu – Faço isso, mas disfarço sempre! Sabe, nos chamariam de loucos!

Maria – Verdade!

Eu – Ao longe passam os outros, eles devem achar que estamos no mínimo conversando sobre o calor ou, o mais visceral, acertando nossa relação amorosa.

Maria – Tenho pena da maioria desses chimpanzés!

Eu – Sei do que você fala, mas não sinto o mesmo.

Maria – Por quê? Nossa espécie não tem lá sua beleza, assim como os besouros a sua?

Eu – Cada segundo da existência de um besouro é uma manifestação plena. É vida pela vida, sem qualquer parada para reflexão se vale à pena, ou não continuar. Besouros são vida bruta na essência mais sublime, por simplesmente viverem todos seus momentos completamente. Há pessoas que dizem para si mesmas que necessitam possuir coisas para se sentirem vivas. Você sabe, tem gente que está em prantos nesse exato momento, porque o sapato que usa não possui uma campanha publicitária importante, uma marca famosa. Pessoas matam outras, por causa de uma máquina como este celular! Não consigo ter um sentimento de pena de chimpanzés assim.

Maria – Você não deve ter lido muito, tem algo chamado de alienação... Coitados!

Eu – Já li a respeito, mas é parte do que sou. Besouros são muito mais belos do que muitos de minha espécie. Infelizmente!

Maria – Ok! Pelo menos você lamenta!

Eu – Lamento muito, porque nossa espécie possui potencialidade de ser a mão sensível da natureza. Aquela que preserva, aquela que salva, aquela que no momento mais escuro que um dia virá para este nosso planeta, levará suas sementes, toda a nossa história, para outro lugar possível. Isso é sonho de ficção científica, não é?!

Maria – Delírio de nerd é o mais adequado!

Eu – Pensei que você estava triste, ou pior, que estivesse com alguma dor, passando mal.

Maria – Esse é o encontro de duas almas sensíveis, Waté “rrr” cio!

Eu – Eu queria ser João para você falar meu nome direito!

Maria – Kkkkkkkkkkkk!!! O encontro de duas pessoas estranhas, uma delas com um nome mais estranho ainda!!!

Eu – Já tô me sentindo especial de novo, olha aí!!! [rsrsrsrs]

Maria – Tenho que voltar para vida comum, Waltécio. Prazer enorme em jogar conversa fora. Obrigada por perguntar como eu estava me sentindo.

Eu – Fui atrevido e segui meus instintos... E você não notou, mas falou direitinho o meu nome!!! [rsrsrsrs]

Maria – [rsrsrsr] Tá vendo, é aquela velha história de tentativa e erro. Bem, eu também faço isso, sou atrevida e sigo meus instintos. Sinto-me viva na grande maioria das vezes... entre tantos detalhes da vida... A vida de verdade, entendes?

Eu – Entendo, sim!!! Ah! Apaixonei-me por você! Espero voltar a lhe ver um dia.

Maria – Pequeno Kafka brasileiro!


Eu – Milena inesperada!

Maria – Kkkkkkkkkk!!! Agora fiquei vermelha!!!

Eu – Mais viva?!

Maria – Vermelho viva, então!!!

Eu – Até mais ver um dia, Maria-Milena!!! Se por toda a impossibilidade de nossas vidas breves nunca nos cruzarmos novamente, você sabe, quando morrermos nossos corpos serão decompostos e misturados. Devolveremos todos os componentes que pegamos emprestados. O carbono, a água, o hidrogênio e tantos e tantos outros que estão aqui na sua frente reunidos, com individualidade genética, social e histórica. Esse conjunto de coisas e seres que estão vivendo em nossos corpos... Um dia poderão compor seres diferentes! O carbono nas folhas das folhas de relva, a água na chuva torrencial do cerrado e o hidrogênio em asteróides percorrendo o universo. Cada pedaço disso está aqui te falando, mentindo para si mesmo que é Waltécio, que é Maria-Milena, que é besouro, que é lido, que é escrito. Viemos lá da poeira das estrelas... Nem lembramos disso e não seremos nós mesmos quando voltarmos a ser o que somos, sempre fomos...

Maria – ... matéria!

Eu – A matéria!

Nesse momento, como em qualquer conversa que temos, há uma pausa de segundos. Não notou, leitor(a) amigo(a), em cada diálogo, cada conversação, existe o que os pesquisadores da lingüística classificaram de “gap” da linguagem. No gap há um silêncio breve, onde os olhos encontram os outros olhos, uma linguagem corporal ancestral presente em nossa história, antes mesmo da origem da fala. Após isso, o gap é desfeito por Maria.

Maria – Então, tchau Waltécio! A gente se vê!

Eu – Siga em paz, Maria! Para terminar sem te surpreender e sendo o clichê que sou – nesse momento levanto a mão direita, faço com os dedos o sinal de Spock e falo em voz alta – “vida longa e próspera”!!!

Maria – Kkkkkkkk!!! Beijos!!!

Após isso seguimos em direções opostas, nunca mais nos encontramos outra vez. Todavia, sempre me lembrarei dessa doce alma sensível, em cada coleóptero vivo uma Milena inesperada!

terça-feira, 9 de março de 2010

Diálogos: Olavo e Noumenon

Aqui segue um pedacinho de um ensaio para meu livro de contos. Já fiz tanta propaganda neste blog que um amigo meu falou certo dia: por que você não escreve logo isso e para de falar?! Bem, tenho dado muitas desculpas e a pior delas é uma mentira para mim mesmo de que tenho de terminar afazeres acadêmicos. Compreendi que estava mais em algum tipo de crise de meia idade, ou algo assim. Nesses momentos de transição profissional no qual nos chocamos com o que fazemos e o que desejamos fazer.

Apresentei o personagem principal deste diálogo sem grandes detalhes no post:

http://macacoalfa.blogspot.com/2009/03/discriminados-epilogo.html

Olavo é um funcionário do INSS, tem lá seus 45 anos de idade, vive uma vida normal. Bem, não tão comum assim, ele é o Roquentin brasileiro. Ao invés de historiador, funcionário público. Ao invés da náusea pelo existencialismo, ele encara as cruezas e belezas da vida centrada em ciência e tecnologia. Claro, dessas características a que gosto mais é a da contextualização com nosso dia a dia. Olavo sou eu, você, aquele padeiro da esquina... Qualquer um que despertou para os aspectos materialistas e os detalhes das infinitas formas de grande beleza (seres vivos).

Segue então um pequeno encontro de Olavo consigo mesmo (Noumenon).

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Após tomar banho e comer uns biscoitos com café lá estava Olavo sentado à beira de sua cama, no canto do quarto. Ele busca algo com grande esforço. Procura não pensar em nada e esvaziar sua mente completamente. Isso ele leu em um livro há muito tempo atrás de um autor chamado Krishnamurti. Desapegar-se de tudo, ficar vazio para ter idéias novas, contemplar o Nada Absoluto, desprender-se das paixões do ego e todo o marketing comercial que traz desejos e preocupações artificiais. Olavo sempre tentou isso, leva quase uma hora procurando silenciar sua mente... Quando tudo parece correr bem, eis que uma voz se faz presente:

Noumenon – Olá!

Olavo – Oi! Pensei que não ouviria você hoje!

Noumenon – Isso é possível?!

Olavo – Bem, você sou eu! É a voz de mim mesmo, aquele algo que li ser chamado de voz interior, consciência e pelo diálogo que travo com você agora, também um tipo de loucura... Esquizofrenia, correto?!

Noumenon – Você não é doente por conversar consigo mesmo, Olavo! Esquizofrênicos são diferentes. Eu sou você, sei o que sabes e na memória de suas leituras há algumas coisas de psicologia. Você não é louco!

Olavo – Muitas pessoas pensariam diferente, conversar consigo mesmo não é lá um hábito que é comentado por aí, sabia?

Noumenon – Mas todos fazem, em diferentes graus, mas fazem. Ademais, se olhassem para você agora, aí parado, sentado no canto das coisas, perguntariam o porquê desse silêncio profundo e dos seus olhos fixos na parede.

Olavo – Silêncio? Olha aqui você tagarelando em minha mente! Bem dera eu, conseguir silêncio absoluto!

Noumenon – Por que você deseja isso?

Olavo – Há coisas perturbadoras que preciso entender. Eu preciso, mesmo não sabendo bem a origem dessa necessidade.

Noumenon – Por favor, um exemplo!

Olavo – Que tal imagens? Você é minha mente, está em um lugar privilegiado para uma apresentação. Digo, não é necessário ter recursos audiovisuais convencionais, é só pensar em imagens e você as verá. O primeiro datashow cerebral da história!!! [rsrsrsrs]

Noumenon – Hmmm!!! Gostei do humor, manda as imagens.

Olavo – Estrelas nascem:
Olavo – Estrelas morrem:

Olavo – Isso é minha memória de fotos, não é algo que inventei, ou um quadro que quis pintar. Isso é uma realidade.

Noumenon – A matéria tem suas propriedades, você gosta de ler sobre isso. Essas coisas são comuns na literatura que nos alimenta.

Olavo – Ok! No ensino médio meus colegas de sala de aula tratavam os livros como receitas para decorar e conseguir passar nas provas. Mas, eu percebi que havia algo mais lá. Eu descobri porque o céu é azul, entre tantas outras coisas!!! Isso através de simples leitura sobre ciências ao nível ginasial, aquele básico para cidadãos comuns. Desde então, após leituras um pouco mais profundas (digo com mais detalhes), o mundo para mim passou a ter cores e detalhes muito mais encantadores. Uma poesia da realidade!

Noumenon – Isso deveria lhe fazer feliz!

Olavo – Felicidade é um conceito exclusivamente humano. A vida não precisa disso, é plena na manifestação de si própria enquanto fenômeno da matéria.

Noumenon – Não entendi! Faz ou não você feliz e o que isso tem haver com o nascimento e morte de estrelas?

Olavo – Que bom ter alguém para falar disso! Eu quis dizer que felicidade são perspectivas psicológicas. Por exemplo, a área de pesquisa chamada de neuromarketing estuda meios de transformar coisas sem sentido, um produto qualquer (mesmo sem qualquer vínculo com bem estar, alimentação, saúde essas coisas) em necessidades. Saciar essas necessidades mentirosas está no âmago do capitalismo atual do consumo pelo simples consumo.

Olavo – Por isso, verdades que descobrimos não devem ser interpretadas assim: “dar felicidade, ou não”.

Noumenon – Foi Francis Bacon ou Spinoza que pensava justamente o contrário do que você está falando?

Olavo – Procura no Google!!! [rsrsrsrsrs]

Noumenon – Engraçadinho!!! É, acho que tens esquizofrenia mesmo!

Olavo – Quis dizer, não importa se alguém escreveu algo contrário. Também isso não quer dizer que minha palavra seja a última sobre isso. Apenas que é aquilo que concordo. Ao contemplar o pouco que sei, eu concordo que a ciência é o caminho da verdade e essa, às vezes, pode nos desafiar naquilo que desejamos.

Noumenon – Sou parte de você e tenho que concordar, caso contrário como poderíamos viver juntos?

Olavo – Para minha voz interior que sabe todos os detalhes de tudo do pouco que sei, você às vezes me decepciona. Vivemos juntos, mesmo que parte de mim não aceite tudo como é. Preciso da dúvida comigo! Você é essa parte do que sou.

Noumenon – Minha função é desafiar você e a mim mesmo!

Olavo – Isso! O meu amigo imaginário quando adulto![rsrsrsrs]

Noumenon – Não exagera, Olavo!

Olavo – Ok! Tenho humor, até em situações como essa. Perdido em solidão, conversando comigo mesmo.

Noumenon – Além das estrelas, intrigou-me você falar que a ciência desafia o que desejamos...

Olavo – Bem, por exemplo, desejamos simplesmente não desenvolver doenças ou sermos infectados por um agente biológico! Simples, né?! Nesse caso, todos ficam felizes quando a ciência encontra respostas práticas para findar esses males. Por outro lado, a análise de como tudo isso acontece nos traz um mundo fora de nosso controle. Mais ainda, esse mesmo mundo se não é indiferente à nossa existência, constitui um lugar onde somos apenas mais uma forma de vida entre bilhões e bilhões de outras. Nós desejávamos o contrário! Desajávamos que fôssemos especiais, o centro de tudo o que existe... E isso não ocorreu segundo nossos desejos e fantasias!

Olavo – Há também o maior de todas as aspirações humanas: não morrer. Li como descobriram a origem do processo da morte. Logo quando surgem a multicelularidade e o sexo. A morte é realmente uma doença sexualmente transmissível!!! O que sabemos hoje é que nós e todos os outros seres multicelulares (salvo raras exceções) morremos. Isso não é um problema para um celenterado, mas devido à nossa tal "complexidade" cognitiva, amamos tanto a nós mesmos, outras pessoas e aspectos do que somos... Que não gostamos da idéia disso tudo ter um fim absoluto! Nesse sentido, a ciência não tem uma carta ofício assinada de comprometimento com desejos e felicidade na ausência da dor humana.

Noumenon – É um assombro para mim fazer coro com você nesse seu momento de silêncio. Deveríamos ouvir tantas pessoas conversando sobre isso no dia a dia, não acha?

Olavo – E eis aqui as estrelas! Por que não consigo conversar com quase ninguém sobre quasares, nebulas, buracos negros e supernovas? Por que o dia inteiro eu só ouço falar de novelas, relações pessoais e aspirações de consumo?

Noumenon – Suas perguntas são dignas de um pequeno burguês!

Olavo – Você sabe que astronomia não é o centro de minhas preocupações e que não me esqueço da luta de classes. Pequeno burguês é aquele da “classe média” que até tem como sobreviver sem passar por grandes privações, mas está centrado em tudo o que é artificial e covarde. Não possui nenhuma conexão social e mesmo seus laços religiosos estão em função de atender às “necessidades” criadas pelo marketing. Um tipo de “Deus me ajuda a comprar um carro”!!!

Noumenon – Amém!!!

Olavo – Agora é você o engraçadinho aqui, né?!

Noumenon – Lembro de novo, eu sou você, monstro!!!

Olavo – É isso aí!!! Eu tenho que voltar para a vida comum! Vou sair por aí e quebrar o silêncio desse nosso diálogo. Afinal, conversar comigo mesmo é muito chato.

Noumenon – Por isso a mente gera sonhos! Estes são a expressão máxima de minha voz, dos delírios, da loucura e todas as associações que você não conseguiria fazer estando consciente.

Olavo – Verdade! Gosto mais de conversar com você nos meus sonhos, mas hoje estou sem um pingo de sono.

Noumenon – Algum motivo que cause essa insônia?

Olavo – Estrelas morreram hoje, Noumenon! Eu não consigo parar de pensar nisso! Pensar que eu nem olhei para os céus, porque estava tão ocupado no trabalho. Aquele serviço de balcão, onde encontro tanta gente preocupada com sua aposentadoria, com dinheiro, com elas mesmas aqui neste mundo de fantasia que nós humanos insistimos em perecer.

Noumenon – Nós, os chimpanzés do Pleistoceno!

Olavo – Nós que somos o clichê dos clichês entre os primatas!!!

Depois disso, o que não era silêncio na mente de Olavo, transformou-se em uma multidão de pensamentos. Vestiu-se adequadamente, foi até o carro e encontrou os amigos no barzinho. Dos movimentos corporais até a escolha da cerveja, sua atenção e mente foram sendo absorvidas pelos aspectos do comum. Risos e muita conversa sobre futebol, notícias de telejornal e coisas do trabalho. Ninguém percebeu, mas entre uma pausa e outra no bate papo, Olavo estava sempre olhando para os céus. Alguns acharam meio estranho, porque os céus da noite estavam límpidos e estrelados... Ele não deveria estar preocupado se iria chover!

Sabemos que Olavo não estava preocupado com a possibilidade de chuva, porque ele tinha razão, estrelas nasceram e outras morreram naquela noite!!!

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terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Diálogos: Ciência no Dia a Dia

Domingo 16 de agosto de 2009 era dia de jogo no estádio do Romeirão em Juazeiro do Norte – CE. Nesse dia e cidade jogaram Icasa (o Verdão do Cariri) contra Paisandu de Belém do Pará. Um clássico! Ao lado de amigos de trabalho e meu filho Daniel fomos todos torcer pelo Icasa!!!

Chegamos lá faltando uns quarenta minutos para o início da partida. Deu para escolher o lugar de sentar, comprar refrigerante, amendoim, água e conversar bastante:

Eu – Daqui a pouco os times vão entrar para aquecer, meu filho.

Daniel – Tá, pai!

Eu – Sabe por que nós temos de torcer por nosso time, não é?

Daniel – Sim! O verdão vai ganhar de 6 x 0!!!

Eu – [rsrsrs]!!! Claro, mas eu quis dizer que temos de ajudar o time torcendo. Para isso precisamos fazer barulho a cada jogada e gritar forte os nomes dos nossos jogadores.

Daniel – Isso é legal!

Eu – Mais do que isso, você sabia que atletas aumentam muito a concentração de uma substância no sangue que lhes dá força quando ouvem o clamor pelos seus nomes e/ou o time que estão jogando? Chama-se testosterona, um tipo de hormônio, uma substância que eu e você também possuímos em nosso sangue.

Daniel – E ficamos mais fortes também pai?

Eu – [rsrsrs] Mais ou menos assim, meu filho! Essa substância dá picos nos jogadores e claro, também aumenta em nós quando estamos torcendo de coração. Tem algo na gente e no nosso jeito de ser (comportamento) chamado “colocar-se no lugar de outro” (empatia). Torcer por um time para nossas mentes é como estar lá no campo. Por isso gritamos “NÓS vencemos”, mesmo que longe do campo. Na verdade serão eles os vencedores, mas nós os elegemos nossos representantes e deixamos nossas mentes livres para usar nosso jeito de ser e “se colocar no lugar deles”.

Daniel – Quer dizer que quando a gente grita e eles ficam fortes?

Eu – Mais ou menos assim!!!

Daniel – VERDÃO, VERDÃO, VERDÃO!!!

Eu – Isso mesmo meu filho: VERDÃO, VERDÃO, VERDÃO!!!

Eu – As pessoas sabiam intuitivamente disso, que a torcida em uma partida pode influenciar no desempenho dos atletas. Pesquisadores, pessoas que fazem ciência (tipo o que papai faz na universidade), confirmaram isso. Mediram a quantidade de testosterona no sangue dos jogadores, viram que ela se altera, aumenta na partida e também é estimulada mais ainda quando há uma multidão torcendo por você.

Daniel – Pai, se sabiam disso, por que alguém duvidava que fosse verdade?

Eu – Por que esses tais pesquisadores vivem duvidando de tudo, meu filho! Fazem perguntas o tempo todo e procuram por respostas. Às vezes algumas coisas consideradas como “verdades” não são, outras vezes sim e tem vezes ainda que descobrimos verdades completamente inesperadas.

Daniel – Mas a gente torcendo ajuda! É verdade!

Eu – Sim! Nesse caso específico era preciso saber três coisas: se isso era verdade, como acontecia e o porquê, ou origem desse fenômeno.

Daniel – Mas é verdade, pai! Eu vi na TV, a gente tem de torcer por nosso time!

Eu – [rsrsrsrs] Verdade! Fazemos isso de coração, pela tal força de “colocar-se no lugar dos outros” (a empatia que falei antes).

Eu – Mas veja, antes pensavam que era um tipo de força mágica. Como se apenas nossos pensamentos, ou gritos por si só poderiam influenciar o jogo. Isso não é verdade! Há forças fisiológicas do corpo, comportamento humano e evolução atuando. Em outras palavras, é tudo físico, forças físicas e palpáveis deste mundo. Não há nada de invisível aqui.

Daniel – Pai, a conversa tá chata!

Eu – Seu pai é um nerd, meu filho! [rsrsrsrs]!!!

Daniel – O que é nerd?

Eu – Alguém que gosta de conversa assim, chata!!!

Daniel – [rsrsrsrs]!!!

Eu – Mas tenho que terminar o que comecei. Olha Daniel, nós somos um tipo de macaco e como tais vivemos em grupos. Nós lutamos uns pelos outros, ajudamos uns aos outros, sofremos juntos... Contra forças da natureza e, claro, grupos rivais. Além da testosterona, em nossa cabeça há pequenas células que chamamos neurônios. Estes produzem o pensamento e também secretam substâncias de... digamos, recompensa pelo que fazemos de bom. Você lembra como fico feliz quando estou bebendo cerveja? Pois é, naturalmente temos substâncias (endorfinas) que nos dão bem estar, muito melhor e de forma mais saudável. Diferente da cerveja, olha, quando você ficar adulto, nada de exagerar com bebida, viu?! A euforia e alegria que vem no início tem o preço que pagamos no outro dia. Lembre-se também de como fico no banheiro depois de beber demais?!

Daniel – Mamãe reclama muito, mas você não escuta, pai!

Eu – É uma das coisas que você entenderá quando crescer mais um pouco, meu filho.

Daniel – Eu vou crescer e ficar maior do que você, pai!

Eu – [rsrsrsrs]!!! Então, testosterona no sangue e endorfinas na cabeça... Além de toda uma bateria de outras substâncias químicas ligadas ao mecanismo “lute ou fuja”, tudo isso entra em ação. Voltando ao início, agora sabemos que isso é verdade e como acontece. O porquê, ou a origem tem sua resposta na evolução de nossa espécie. Somos assim porque somos quase iguaizinhos aos chimpanzés.

Daniel – Chimpanzé igual aquele macaco da novela das sete?

Eu – Sim!

Daniel – Chimpanzé também joga bola?

Eu – Não!

Daniel – Paiii, tá chato de novo!

Eu – Eles não fazem torneio de futebol, Daniel. Mas, eles vivem como se estivessem em times (grupos) e levam a sério demais as suas disputas. Olha, antes desse jogo que a gente vai assistir ser uma simples diversão, era disputa de gladiadores, ou mesmo disputa de exércitos. Jogos como o futebol possuem origens sangrentas. Tem uma música intitulada "Paradise" de uma banda brasileira chamada Angra, que é exatamente sobre isso:


Eu - Tem outra banda brasileira chamada Dr. Sin que possui uma forma mais descontraída de demonstrar esse nosso envolvimento visceral por esporte, em especial o futebol:


Eu - Bem, em todo caso, os chimpanzés também fazem guerra!

Daniel – Macaco morde, né pai?!

Eu – [rsrsrsrs] Sim, eles e todos os animais com mandíbulas!

Daniel – Eu quero ficar longe dos macacos!

Eu – Mas os chimpanzés também fazem paz. Na maioria das vezes é o que eles fazem. São peritos em paz e empatia! Acho que mais do que nós mesmos!

Daniel – A tia falou na escola que não deveríamos matar os bichos!

Eu – Isso mesmo! Chimpanzés não saem por aí destruindo com a nossa força, Daniel. Destruímos o mundo inteiro, dia após dia. Eu sinto muito, tenho vergonha disso, porque queria um mundo diferente para você.

Daniel – Tá bom pai, eu não vou deixar que ninguém mate mais bicho nenhum!

Eu – [rsrsrsrs] Ok, meu filho!

Daniel – Pai, quem falou sobre essas coisas para você?

Eu – Meu filho, eu leio nos livros e, por favor, prometa para mim que você vai ler também?

Daniel – Vai demorar muito tempo para ler tudo que tem em casa, pai.

Eu – Não importa, apenas prometa, meu filho! Quando você crescer apenas recorde disso, tá?!

Daniel – Tá bom!

Eu – Quando sua irmã crescer mais um pouco vou pedir a ela a mesma coisa!

Daniel – Nós dois? Vamos ler o mesmo livro?

Eu – Tem livro de sobra para vocês dois, Daniel! Olha, o que acabo de fazer ainda há pouco é também conhecido como aplicar o conhecimento adquirido. Há beleza no mundo físico, até mais ainda do que poderíamos antes imaginar. O azul do céu, o arco-íris, toda a impressionante força dos relâmpagos e trovões, o vento que sopra, animais, plantas e coisas tão pequenas que cabem debaixo de nossas unhas. O mundo está a sua volta para ser descoberto, meu filho. Só leitura trará os detalhes dessa beleza.

Daniel – Minhas unhas estão limpas, pai! Não tem nada debaixo delas!

Eu – Tem coisa na unha sim e não é sujeira, meu filho! [rsrsrs]!!! As forças mais incríveis desse mundo em que vivemos, esse planeta tão diferente da lua, do sol e das estrelas. Nosso mundo tão bonito e profundo que você não deve esquecer disso por qualquer que seja suas preocupações mundanas.

Daniel – Hã?!

Eu – É outra coisa que você entenderá meu filho. Estar vivo é a coisa mais fantástica que a matéria pode produzir, por mais rápido e efêmero que seja.

Daniel – Num entendi, pai! Mas as pessoas morrem e eu sinto saudades de vovô!

Eu – Eu também, meu filho! Mas é a ordem natural das coisas, isso também está nos livros, viu?! Não esquenta a cabeça agora! Pelo contrário, vamos colocar o que aprendemos em prática, olha o Icasa entrando em campo!!! VEEERDÃÃÃOOOOO!!!

Daniel – VERDÃO, VERDÃO, VERDÃO!!! Vamos bombar nosso time, pai!!!!

Eu – Isso mesmo!!! Conhecimento aplicado no cotidiano!!

O final de tarde deu lugar à noite e, por incrível que pareça, o Icasa venceu por 6 x 2, quase 6 x 0 como Daniel desejou!!! Uma vitória que levou o Icasa a ascender até a Série B do Campeonato Brasileiro. Tanta alegria, o resultado da ação de hormônios e endorfinas somados ao contexto social e histórico. Esses constituindo o gatilho para nossa euforia e até agressividade traduzidas em gritos primatas milenares...

... Até voltarmos para casa roucos.



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