segunda-feira, 13 de abril de 2009

Crônicas universitárias: doutorado

Vocês notaram o que une os dois posts anteriores?

Bolsas de estudo!!!

A universidade pública brasileira é gratuita, mas possui um preço. Nossos impostos financiam todo o custeio, contudo a vida estudantil dentro delas é muito difícil para quem é pobre. Além da dificuldade de conseguir uma vaga e a competição desigual, há ainda livros (ou fotocópias deles), transporte e alimentação.

Bolsa, bolsa, bolsa... CNPq, ou CAPES... Vivi meus dias como aluno na universidade de 1994 até 2003 graças a elas. Não trabalhei, não recolhi INSS... quase dez anos de bolsas!!!

Cheguei ao doutorado, mas sem uma bolsa seria impossível cursar o mesmo. Essa é uma realidade atual de nossas universidades. Sei que é a história similar a muitos outros jovens universitários da década de 1990 e continua em curso nos dias de hoje.

O doutorado na UFPB começou com um atraso na implantação das bolsas. Estava sem dinheiro desde outubro de 1999. Já era abril de 2000 e nada, veio maio, junho... Lá estávamos novamente tentando reunir a APG/ UFPB e muito preocupados com a CAPES.

O trabalho no Laboratório de Filogenia era teórico, mas poucos sabem que corri atrás dos animais que estudava. Na graduação pedi autorização para dissecar répteis da coleção... Foi negado! Então abri todos os répteis da coleção didática e no pulmão de um espécime de Amphisbaena alba (cobra-de-duas-cabeças) lá estavam eles, três pentastomídeos ao vivo e a cores. Corri e chamei Martin para ver, ele foi até à Lupa e falou: “Legal!” Voltou para a catalogação de sua extensa bibliografia... e eu fiquei decepcionado. Foi um esforço grande, um aprendizado de anatomia e cortes de dissecação, sem contar que fiz tudo sozinho e escondido para não ser pego pelo Chefe do Departamento, ou Diretor de Centro... rsrsrs!!! Ali em minha frente estavam os primeiros pentastomídeos do nordeste brasileiro. Apenas isso já merecia uma publicação. Todavia, após o término de minha monografia, joguei os espécimes no ralo da pia em desapontamento com a falta de interesse de meu orientador.

No mestrado e doutorado também fui a campo em busca de meus objetos de pesquisa. Conversei com Martin para saber quais as melhores formas de coleta, afinal, ele foi um grande carcinologista de campo, percorreu toda a costa do nordeste e coletou na maioria das praias do Brasil. Bem, não dava para fazer o mesmo com poliquetos, porque meus objetivos eram outros. Todavia, preparei o material para coleta, pedi ajuda ao meu amigo Moabe e fomos para praia coletar poliquetos. Voltei com eunicídeos e nereidídeos para o laboratório. Depois disso, passei a organizar e procurar na coleção de invertebrados todos os poliquetos tombados por lá. Os espécimes foram coletados por Martin, ou no decorrer do projeto Algas na Costa da Paraíba. Os poliquetos encouraçados, também chamados escamosos, eram o alvo de minha tese, por isso, tratei de separá-los, organizá-los e identificá-los.

Nessa época recebi reforço, Martin designou Adrianne Barros como bolsista PIBIC para realizar o trabalho de organização e identificação dos anelídeos. Adorei as tardes na lupa ao lado de Adrianne. Ela era tão competente que foi convidada pela professora Ierecê Lucena para integrar a pesquisa com Cavalos Marinhos. Na saída, Adrianne indicou Isabelle Costa Wanderley para seu lugar. A professora Carmen Alonso assumiu a coordenação e organização da Coleção de Invertebrados Marinhos e Isabelle passou a dedicar-se mais aos poliquetos tubícolas. Com isso, voltei a ficar só aos devaneios com os poliquetos encouraçados.

Decidi que precisava de um pouco mais de campo em minha vida... Encontrar a natureza selvagem que há muito me fascinava, que há muito amo de todo o meu coração. Fui voluntário para ajudar Alexandre nas suas coletas de Cupins. Viajei para Pico do Jabre - Teixeira/ PB, Brejo dos Cavalos, Caruaru/ PE e Pedra Talhada, Quebrangulo/ AL. Voltando desse último, passei no Banco do Brasil e vi que a bolsa havia sido depositada, três meses!

Na graduação e parte do mestrado, almoçava no Restaurante Universitário. As filas eram tão grandes que isso constituía a maior parte de nosso tempo de bate-papo. Do meio para o fim do mestrado, instituímos nossa happy hour (que começava na hora do almoço e se prolongava madrugada adentro). No doutorado começou a hora do café, normalmente no Laboratório de Entomologia e hoje em dia está sendo realizada na Herpetologia.

Certo dia, Alexandre me apresentou a uma miniatura do Chitãozinho e Chororó. O corte de cabelo era idêntico, curto nos lados, espetado em cima, longo atrás. Seu nome? Carlos Emmerson (atual professor da UFPA) fazia doutoramento em Química e era metido a ser jogador de xadrez, mesmo não sendo lá grande expert nisso. Alexandre tinha trazido o xadrez dele e como não podia deixá-lo no Lab. de Entomologia, ficou na minha sala de estudo. Tínhamos partidas pela manhã e à tarde. Montamos regras e fizemos nosso torneio. Eu, Alexandre, Quick e Emmerson. Nos anos de meu doutoramento os três primeiros foram cada um campeão, Emmerson ganhou algumas vezes, mas não chegou lá e perturbou muito em todos os campeonatos. Quem já perdeu uma partida para ele, conhece o som de sua gargalhada e os dias de deboche que se seguem, é um adversário terrível... rsrsrs!!!

Adivinhem quem Alexandre convenceu a participar da representação dos estudantes de doutorado?... Pois é, eu novamente!!! Lá fui de volta para as reuniões administrativas (da graduação ao doutorado, vivi enfurnado nesse pequeno mundo)... A política estava lá em minha frente e fazia parte dela, mesmo falando para todos que eu era avesso a isso.

Eu e Alexandre conversávamos muito sobre o que deveríamos fazer em nosso doutorado. Antes do doutorado em Zoologia ser implantado, todos os alunos da Biologia da UFPB tinham uma característica de serem um tipo de “retirante acadêmico”. Ou seja, buscar doutoramento em outros estados, sobretudo na USP e UFSCar. Não eram todos que conseguiam, tão pouco havia a opção de permanecer em João Pessoa-PB e dar continuidade a sua pesquisa.

Fazer doutorado em casa foi muito confortável para mim. Deve ter sido da mesma forma para meu orientador que fez sua graduação até o doutorado na USP. Soma-se a isso o aproveitamento de créditos, ou seja, poderíamos aproveitar todos os créditos cursados no mestrado e em um ano estávamos livres de todas as disciplinas. A idéia minha e de Alexandre era aproveitar essa comodidade, tempo livre para tese e produzirmos tanto em qualidade, quanto em quantidade.

Alexandre conseguiu cumprir sua meta, ficou freguês da revista Sociobiology de tanto publicar por lá. Eu, ...bem, pelo que você leu no post anterior, estava trabalhando ainda no artigo do mestrado, incorporando as críticas realizadas e tornando o texto cada vez mais denso... Fiquei abatido pelos meus primeiros “nãos”, mas faz parte do aprendizado para produção científica. Nem todos nossos trabalhos são aceitos de imediato, alguns são recusados, outros chegam a ser abandonados nas gavetas das mesas e memórias de nossos computadores.

Fiquei surpreso com a notificação da Editora Holos de que o nosso livro havia se esgotado e eles queriam que revisássemos o texto para uma nova edição. Fizemos isso em 2001 e a segunda edição saiu ainda neste mesmo ano. Para o objetivo e texto despretensioso, vendemos muito Brasil afora. Martin também cuidou de divulgar cada uma de nossas publicações enviando uma cópia para pesquisadores envolvidos na problemática da filogenia dos Metazoa.

Eduardo Medeiros (atual professor da UFPB), aquele menino que conheci em meu mestrado, passou a ser um de nossos maiores amigos. Estava sempre por lá pelos corredores da Biologia. Coisa estranha para um estudante de Física. Certo dia, em uma de nossas conversas em mesa de bar, eu, Eduardo e Alexandre decidimos montar uma banda de heavy metal.

Pronto, a partir de então passei a ter as tardes mais felizes de toda a minha vida. Íamos ao supermercado, comprávamos caipirinha em pó, vodka e seguíamos para a casa de Eduardo. Eram tardes de músicas muito toscas, punk rock hardcore!!! Compomos músicas como Bolsista do CNPq e Chique-Chique Mandacaru. Depois de alguns meses convidamos uma grande amiga minha Helena Peixoto, para assumir os vocais. Eduardo trouxe seu amigo mestrando em Física, Lincoln e seu baixo. Depois disso, passamos a ensaiar no estúdio do Júnior, Bairro dos Bancários. Mudamos de nome várias vezes, primeiro Luna, depois Rusty Moon, Trail Of Trolls e ficamos até o fim com Death Garden (nome mais lindo, digo de passagem). Brigamos muito e nem chegamos a gravar uma demo tape... Apesar disso, foram dias muito agradáveis e guardo com carinho a fita K-7 dos primeiros ensaios e o vídeo em VHS que fizemos só por curiosidade. Ah! Emmerson foi convidado nesse dia apenas para filmar e se comportou como fã e empresário da banda, dando vários palpites e vibrando muito nas versões que fazíamos do Balck Sabbath, Metallica, Motörhead e Iron Maiden.

No final de 2002 chegava ao fim minha dependência de bolsas, prestei concurso público para professor em Histologia e Embriologia na Universidade Regional do Cariri – URCA/ Ceará. Passei em primeiro lugar! Fui chamado ao telefone pelo prof. Alexandre Magno em março de 2003. Ao me apresentar, os profs. Cunha e Jorge, tendo visto meu currículo, perguntaram-me se eu queria assumir as disciplinas de Evolução e Zoologia. Disse “sim” prontamente!

Em maio do mesmo ano nasceu meu filho Daniel e fiquei surpreso com o aflorar de meus instintos paternos. Não racionalizei nada, apenas deixei a evolução de minha espécie tomar conta de mim. Enchi-me de amor por aquele menino como nunca antes havia em minha vida por outra pessoa. Sabem, antes disso, andava naquelas crises niilistas profundas que temos na universidade, procurava o significado das coisas, o sentido da vida. Meu filho e meus instintos primatas mostraram-me o que a natureza tinha de melhor para mim! Aos meus ancestrais com respeito e devoção! A história de minha linhagem continua em Daniel e, quatro anos depois, minha filha Gabriela.

Entre aulas na URCA e viagens para UFPB consegui terminar minha tese em 2003, com auditório lotado e aplausos. Fui o primeiro a me tornar "doutor" da minha turma, terminei com três anos e meio e, finalmente, conquistei minha aprovação com distinção.

Não pude escrever tudo aqui, as confrarias de ciência que montamos (Lunáticos, Os Quatro Fantásticos e os Quatro Elementos), as mulheres, os casamentos, os amores para vida inteira e aqueles que perdemos. Fica a saudade, a minha imprecisão e até as lágrimas retidas de tanta saudade que sinto dos momentos que vivi ao lado de meus amigos. Os sonhos de ser cientista em um país do "terceiro mundo" e... bem no meio de uma das regiões mais pobres do Brasil (o Nordeste).

Nosso brinde com influência de Neil Gaiman fala por si só:

"Aos Amigos Ausentes
Aos Amores Perdidos
Aos Antigos Deuses
À Estação das Brumas
E que cada um dê ao demônio o que lhe é merecido."

Quantas vezes declamei isso ao lado de vocês? Ou mesmo no dia em que eu, Élvio e Márcio invadimos o Cemitério da Boa Sentença, porque um de nós (Élvio) precisava declamar Augusto dos Anjos deitado em um túmulo às duas da manhã.

Vivi, vi, venci, fui derrotado, amei e fui odiado. Eu sou humano demasiado humano.
Não fui o mais produtivo de minha turma, terminei com (1) uma segunda edição de livro, (2) dois capítulos de livros (um internacional) e (3) um artigo publicado (sem contar o outro de 1999). Para os padrões de hoje, três anos e meio depois, essa é uma produção modesta. Todavia, dos meus cinco trabalhos mais importantes, quatro deles foram feitos nesse período, entre meu mestrado e doutorado. Tenho também a vaidade de ver o currículo de meu orientador, onde, dos seus cinco melhores trabalhos, dois (40%) são assinados por mim em primeira autoria.

Ainda restam seis anos de URCA para resumir aqui. Nesse período fui professor e político, mas meu coração e atenção sempre estiveram com meus amigos e irmãos, agora espalhados pelo Brasil (UFPB, UEPB, UFRN, UFPA e UEFS), ou mesmo fora dele (meu amigo Luis Rocha está no Marine Science Institute of the University of Texas). Nesse tempo vi todos eles se tornarem professores, alguns hoje brilham e são paparicados como estrelas do rock'n'roll.

A URCA, além do emprego em si, deu-me oportunidades para inovar em minha pesquisa, voltar ao campo, dedicar-me ao estudo dos parasitas que mais admiro, uma lição de política, amizade e profissionalismo.

Os dias de URCA estarão no próximo post...

Obs.: Após o fim das Crônicas Universitárias, vem aí a série O SIGNIFICADO DAS COISAS... Aguardem!!!

5 comentários:

Eduardo disse...

Hehehe... Ainda tá em tempo de recomeçar o death garden. Estarei sempre pronto pra pegar uma guitarra, marcar uma hora no estúdio e passar no supermercado pra comprar ki-suco de caipirinha!!!

MUITA SAUDADE!

debora disse...

Agora ficou bom, com todos os erros corrigidos!

Beijo!

Emmerson disse...

Chitãozinho é o c...
Acho que vc resumiu muito. Acho que faltou um pouco sobre a URCA.
Fico feliz em ler o primeiro comentário. Vocês serão sempre meus irmãos, o que é melhor, foram escolhidos por mim.

www.lycurgo.org disse...

Grande W.,
Alguns de seus posts são obscenamente sinceros, amigo.
Abs,
TL

Waltécio disse...

Em relação ao Death Garden, sim, após terminar, ou satisfazer-me das minhas metas acadêmicas... não tem quem me afaste da guitarra, a não ser meu futuro romance (desejo hoje até escrever mais de um).

Débora, aquele obrigado tradicional pela ajuda no Blog! Beijos!

Emmerson, não negue sua aparência. Era dessa forma, sem tirar, nem por, que chamávamos você. Aquele seu cabelo não era de um headbanger, ou surfista... Seu mal-gosto era único para isso.

Senão fosse assim, como nos tornaríamos amigos? Se juntarmos a turma novamente imagina: Alexandre, Rômulo, Élvio, Quick, você e eu?! Um bando bem esquisito... simplesmente nerds!!!

Ademais, eu te amo como um irmão!!!

Lycurgo, obrigado pelo comentário. Tento me fazer entender aos meus alunos com todas as minhas palavras... às vezes não são belas, tão pouco poéticas... rsrsrs!!!

Adicionei os seus "Pingüins dos Trópicos" nos links deste Blog. Quem te vê assim sisudo, não conhece o humor criativo que tens. Seu Blog "Estética Filosófica" também está adicionado... tenho lido alguns textos, devo-lhe comentários por lá.

Um grande abraço,

W.

 
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