sábado, 13 de agosto de 2011

Vida de Doutor: Os "Lamarcks" Assalariados

Doutores são pessoas com treinamento para pesquisa científica, tecnologia, arte e humanidades. É necessário desenvolver uma tese, um conjunto de hipóteses que desafiem o conhecimento, ora modificando-o, ora aprimorando-o para um nível mais próximo da realidade possível. Um doutor faz tudo, menos deixar as “verdades dogmáticas em paz”. É ser um iconoclasta por natureza! A frase que mais ouvi e até falei: “esse problema aqui será antes e depois de mim, assim que eu publicar esse artigo”!
Nesse modus operandi de ser e agir, três coisas precisamos entender: (1) o que é ciência, (2) a aristocracia e o ócio criativo, (3) prestação de serviço através do trabalho assalariado.

(1) Ciência
Nosso mundo da revolução industrial é, em grande parte, baseado na ciência, pelo menos nos princípios mais gerais. O método científico com proposição de hipóteses falseáveis (sensu Karl Popper) impôs uma regra simples: toda afirmação tem que ser provada, fisicamente falando. As áreas da Física, Química e Biologia e seus derivados só funcionam assim hoje. Por exemplo, um médico como um bom investigador científico deve entender e propor soluções através de evidências que ele e por exames específicos. É inconcebível alguém entrar em um consultório e ouvir: “eu SINTO que você está com câncer.” Um médico tem que ter mais do que seu instinto, ele deve analisar os resultados e avaliar tudo mediante um conhecimento prévio. Se você entendeu sabe mais enfim porque essa postura está hoje amplamente presente em nossas vidas. Advogados, políticos, jornalistas, policiais, bombeiros, a lista é muito grande! Todos devem usar métodos de coleta de dados, métodos de análise e padronização na apresentação de seus resultados e discussão.

Costumo falar para meus alunos e mais próximos “se você não conhece ciência, saiba que são apenas 34 páginas de leitura na Wikipédia [clique]”.

Os cursos de doutorado são justamente a capacitação em ciência no amplo sentido. Um doutor é um investigador, alguém que levanta hipóteses, questiona e modifica o conhecimento estabelecido através do emprego do método científico.

(2) Aristocracia e o Ócio Criativo
Ok! Mas de onde vem essa postura? Como surgiu a ciência? Vamos a uma situação hipotética: imagine que todos os seus desejos materiais estivessem saciados. Imagine uma situação onde dinheiro não é problema. Quando humanos não estão na labuta, ora procurando alimento, ora cultivando, ou até guerreando, eles não ficam estáticos, vazios, sem nada a fazer. Os humanos possuem uma característica intrínseca: em seu ócio, eles questionam o que é verdade, ou não!
Humanos sempre perguntam sobre a realidade. As conhecidas perguntas: “o que nós somos?” “De onde viemos?”, “Qual o sentido da vida?”

Todo grupo humano possui uma mitologia, uma história própria de sua tribo que lhe dá sentido para existência. O advento da agricultura, apesar de seus aspectos negativos (acúmulo de excedente, aumento da discriminação de gênero, formação de exércitos, etc.), trouxe uma ampliação do ócio para alguns e, no berço da civilização humana, o ócio ampliado em questionamentos e o Ócio Criativo.

Antes de Galileu Galilei, Francis Bacon, Karl Popper e tantos outros, a Grécia Antiga é apontada como o local de origem do conhecimento ocidental. Você já ouviu pelo menos um de seus professores falar que um determinado filósofo grego é “pai” disso, o outro é o pai “daquilo”. O importante aqui é você entender que a busca pelo conhecimento, antiga e moderna, foi realizada pela aristocracia. Calma! Eu não estou defendendo elitização, ok?! Apenas quero que você entenda que a busca pelo conhecimento não está vinculada a ganhar coisas matérias. Ciência e dinheiro podem se encontrar na aplicabilidade, na tecnologia, mas, não estão unidos na origem. É verdade que o conhecimento trás o poder, mas isso não quer dizer todo conhecimento resulta em dominação de massas, bomba atômica, etc. A busca está vinculada a responder com mais precisão as perguntas clássicas já listadas aqui: “o que nós somos?” “De onde viemos?”, “Qual o sentido da vida?”

Após a revolução da agricultura, apenas quem tinha certa liberdade de bens materias e muito ócio foi capaz de desenvolver a filosofia e depois as ciências modernas.

Sim, a ciência nasce entre aristocratas e só com o advento dos serviços assalariados que isso irá mudar um pouco.

Isso serve como um alerta as mentes jovens nas universidades. Primeiro é reconhecer que estamos procurando duas coisas que nem sempre andam juntas: (A) trabalhar com ciência e (B) ganhar dinheiro.

(A) Ser cientista por si só é investigar certos aspectos da realidade, repetindo para fixar: isso não tem nada haver com produzir um bem, ganhar dinheiro.

(B) Para ser cientista é preciso prestar serviço, como dar aulas e capacitar pessoas profissionalmente.

Existem patentes de medicamentos, novas tecnologias da engenharia e meios de informação, etc. que podem transformar pessoas comuns em milionárias. Entretanto, a maioria dos cientistas não possui essa motivação. A maioria está cada um do seu modo, trabalhando, direta, ou indiretamente nas questões clássicas da existência humana. Como filósofos gregos, estamos ali em pé questionando “o que nós somos?” “De onde viemos?”, “Qual o sentido da vida?”

(3) A Ciência Assalariada
Darwin estava um tanto agitado quanto a encontrar algum bom fóssil na América do Sul. Ficou sabendo, para o seu desgosto, que o colecionador francês Alcide d’Orbigny estivera trabalhando na área por seis meses, obtendo espécimes excelentes para o Museu de Paris. Isso era irritante; Darwin financiara seu próprio caminho até ali apenas para descobrir o governo francês patrocinando seu homem, permitindo ele percorrer os pampas por seis anos com passagem gratuita. Esse fato evidenciava a séria atitude francesa em relação à ciência” (Desmond e Moore, 2001: 145).

Esse foi o meu primeiro contato com relato que li de financiamento público para ciência. Eu não sou especialista em história da ciência assalariada, mas sei que a França foi um dos primeiros, senão o primeiro país a financiar a ciência e pagar salário para cientistas. Lamarck é um exemplo disso, após ingressar no Museu de História Natural de Paris viveu sua vida do salário que recebia: “Lamarck – fifty years old; married for the second time, wife enceinte; six children; professor of zoölogy, of insects, of worms, and microscopic animals. His salary, like that of the professors, was put at 2,868 livres, 6 sous, 8 deniers” (Packard, 2008:28).

A França foi e é um país revolucionário!

Eis nossos dois exemplos de cientistas: Lamarck e Darwin. O primeiro assalariado morreu cego, pobre e só não passou fome, porque sua filha mais velha conseguiu uma remuneração no herbário para ajudar a família: “It was a natural and becoming thing for the Assembly of Professors of the Museum, in view of the ‘malheureuse position de la famille’ to vote to give her [Mlle] employment in the botanical laboratory in arranging and pasting the dried plants, with salary of 1,000 francs” (Packard, 2008: 39). Já Darwin nunca precisou depender de salário algum! Viveu muito bem dos proventos de sua família e da sua esposa (a prima também rica).
Ambos são grandes nomes que contribuíram para conhecimento humano. Por mais importantes que tenham sido suas obras, materialmente, suas vidas não foram alteradas por elas. Lamarck pobre foi, pobre continuou!

E a venda dos livros de Darwin? Bem, ele já tinha uma mansão antes de publicá-los, quer que eu escreva mais sobre isso?

As idéias publicadas em artigos e livros podem mudar o mundo e se amplamente aceitos trazem status e fama aos seus autores. Entretanto, não está implícito fazer fortuna com isso.

A grande maioria de meus alunos chega à universidade pensando em conseguir um ótimo emprego. Muitos falam para mim assim: “eu quero ser pesquisador, trabalhar em um laboratório, nem de longe serei professor”.

Agora vamos às más notícias, se querem realmente ser pesquisadores a probabilidade de se tornarem professores é de quase 100%. Na Grécia Antiga há um intrínseco relacionamento entre produzir conhecimento e ensino, tanto que muitos filósofos criaram escolas onde ensinavam seus pupilos, como o Liceu de Aristóteles.

A necessidade de criar e ampliar profissões, a leitura da bíblia e depois a revolução industrial intensificou o aumento do número de escolas.

Ressalto que sempre que a ciência pura, à busca pelo conhecimento puro, manteve-se elitizada na maioria dos vultos ocidentais. Ainda hoje é muito difícil para um filho de um pedreiro conseguir tempo para trabalhar e estudar. Os cursos para formar pesquisadores são quase sempre diurnos e de regime integral. Os cursos noturnos foram delegados para as licenciaturas.

Não é a toa que o Brasil ainda é esse atraso só, não é verdade?!

Após o vestibular, se você conseguir “tirar direto” sem parar, levará aproximadamente dez anos para conseguir um título de doutor: quatro de graduação, dois de mestrado e quatro de doutorado. Isso varia um pouco dependendo do tempo da graduação, ou mesmo, em alguns casos muito especiais, quando se consegue ir direto ao doutorado, sem passar pelo mestrado, ou, em alguns programas de pós-graduação, com apenas um ano deste. Muitos não param, complementam, ou fazem atualizações profissionais realizando estágios pós-doutorais de curta (seis meses) ou longa duração (um a dois anos). Não é título, mas pegou moda nos corredores hoje falar em professor “pós-doc”.
Bem, para ser doutor é uma década de sua vida só dedicada ao estudo! E uma década é quase uma eternidade existencial! Isso significa mais dificuldade ainda para as pessoas que não podem ficar sem trabalhar, ou aquelas que não conseguirem bolsas de estudo durante sua permanência nas universidades.

Após tudo isso, as universidades públicas e os poucos institutos públicos de pesquisa no Brasil são as melhores opções de emprego. As universidades e faculdades privadas o regime de trabalho é voltado quase que exclusivamente para aulas de graduação... Os salários são inferiores ao do setor público e, o menos atrativo, não há estabilidade e planos de carreira.

Qual o salário de um doutor hoje no Brasil? É só consultar os editais dos últimos concursos disponíveis na internet. Vejamos o recente concurso para professor adjunto (doutor) realizado para a Universidade Federal de Campina Grande – UFCG/ Campus Cajazeiras-PB [clique para ver o edital completo]:


O salário apresentado na Tabela é bruto, isto é, sem os descontos dos impostos da previdência e de renda. Esses descontos juntos diminuem hoje cerca de R$ 2.000,00. O salário de um professor doutor também irá variar para mais ou menos nas universidades estaduais, porque elas possuem seus próprios planos de cargos e carreiras independentes das universidades federais.

Em nosso exemplo, um “professor doutor” iniciante em uma universidade federal, com os descontos, seu salário líquido no bolso é pela definição da Fundação Getúlio Vargas pertencente a Classe C (entre R$ 1.610,00 até 6.941,00)!!!

Ok! Não existe um professor doutor com um salário mínimo e toda vez que falamos de nossos salários há dois extremos de reação. O primeiro gosta de mostrar notícias assim:

“[Na América Latina] 100 milhões de pessoas não tem dinheiro sequer para adquirir uma cesta básica.” [clique]

Mais de 1,5 milhões de pessoas vivem em extrema pobreza no Ceará.” [clique]

Complementam esse quadro falando das condições dos professores públicos do ensino fundamental e médio, os quais são nossos irmãos de profissão, companheiros no trabalho de formação dos “doutores do amanhã”. A remuneração deles, mesmo com algumas melhorias do piso nacional recém-conquistada à luta, ainda é muito baixa.

Esse primeiro conjunto de discurso é daqueles que dizem que “reclamamos de barriga cheia” em um país pobre.

Aí vem as outras vozes no extremo oposto: “ganhamos muito mal pela qualificação que temos”. Quando fazem isso, sempre comparam salários de profissionais como médicos, juízes e cargos políticos, muitos apenas com graduação e os últimos (os políticos) podem ser até semi-analfabetos.

Não gosto de nenhum dos extremos, os que clamam que estamos muito bem e de barriga cheia, ou os que estamos muito mal. Para mim, estamos no meio disso tudo! Somos apenas brasileiros comuns com salários medianos. Fazemos parte da classe média deste país. Uma classe que beira à falência todos os dias devido ao número de contas para pagar e empréstimos nos bancos.

Ter um salário de classe média não é lá um orgulho, é para “escapar” todos os meses. Lembram-se das palavras do Frei Betto [clique]: "R$ 4.807 [na época] não é salário de dar tranquilidade financeira a ninguém. O aluguel de um apartamento de dois quartos na capital paulista consome metade desse valor.”

A vida de um doutor começa assim, muitos sonhos de amor pela ciência e a labuta no dia a dia. Tentamos fazer trabalhos revolucionários como Charles Darwin, mas vivemos no aperto e estresse como Lamarck. Não somos ricos e escolhemos uma profissão que não nos tornará assim.

Somos professores... assalariados iguais a Lamarck!



PS: Não perca no próximo post a carreira e o status na Vida de Doutor!

Referências
Desmond, A. e Moore, J., 2001. Darwin: a vida de um evolucionista atormentado. 4 ed. Geração Editorial.
Packard, AS., 2008. Lamarck, The founder of evolution his life and work. Wildhern Press.

6 comentários:

Waltécio disse...

Usei dois textos para definição de Classe por renda. Um que foi publicado na Revista Exame (#995 - 29/06/2011) e o outro do Frei Betto (08/03/2010 que reproduzi aqui no Macaco Alfa em 08/04/2010). Ambos usam dados da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Rio).

Um estudo que acaba de ser divulgado na imprensa diz que brasileiros não sabem a qual Classe social pertencem.

Apesar disso, a classificação apresentada aqui está correta:

Classe C de R$ 1.610,00 até 6.941,00 reais.

Classe B de R$ 6.941,00 até 9.050,00 reais.

Classe A acima de R$ 9,050,00 reais.

Leia a notícia na íntegra aqui:

http://www1.folha.uol.com.br/mercado/959462-brasileiro-nao-sabe-a-qual-classe-social-pertence-diz-estudo.shtml

É importante salientar ainda que a definição de Classe por renda é muito questionável, porque não trás nenhum suporte social e histórico.

Por exemplo, professores fazem parte da Classe Trabalhadora Assalariada. Isso é completamente diferente de executivos e empresários(*) de altos negócios no Capitalismo de consumo.

Em qualquer das definições, professores são "Classe Média"... e não estão no topo da pirâmide.


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(*) Diferente de um ex-aluno da História na Universidade Regional do Cariri - URCA/CE que se auto-denomina "empresário". Certa vez em uma comunidade do Orkut, por conta de sua reprovação em uma disciplina, esse indivíduo escreveu: "vocês professores recebem um salário porcaria, vocês e a URCA são porcarias!" Bem, porcaria é a lojinha de móveis dele, campeã de processos na Justiça do Trabalho em Crato-CE. Sem contar que de empresário de verdade, ele não tem nada... Esse sim é um exemplo de alienado que não sabe quem é e em que mundo vive!

Allysson Allan disse...

Elucidativo texto Waltécio! Escolhas a longo prazo, e se já está no barco é para ir até o final e não morrer próximo a margem.

O outro lado dessa vida é ser imortalizado em forma de citações, e aqueles que vivem em busca do dinheiro, tem uma pequena chance de conseguir.

Anônimo disse...

Valorização do professor doutor não é só salário, que é muito importante, mas perpassa por condições de trabalho e falo condições que priorizem as ciências exatas e desenvolvimento tecnológicos. Não podemos brincar de fazer ciência.
A não banalização da profissão também é importante. Não adianta ser professor universitário de "cursinho", onde os mesmos tem que procurar outras fontes de rendimentos (aulas em particulares, cursos especiais bancados pelo goverso federal, estadual ou municipal)ou até fora da profissão.
Salários e infraestrutura iguais as destinadas ao poder judiciário, seria um bom começo

Waltécio disse...

Concordo com salários mais digninos para todos... Incluo principalmente os professores de ensino fundamental e médio. Esses professores compõe a grande maioria dos profissionais que ajudei a formar. Eles dão aulas hoje para meus filhos (Daniel de oito anos e a Gabriela de três)... Como já escrevi neste Blog, não vejo diferença em dedicação de formação para as pessoas em qualquer nível. Gostaria que meus filhos tivessem sempre, em todas as etapas de suas vidas na educação, os melhores professores... Respeitados, com remuneração digna, felizes, realizados.

Anônimo disse...

Muito boa sua visão. Os nossos professores do ensino médio e fundamental seriam melhores caso tivessem uma título de mestrado ou doutorado na área, mas isso só mudaria com a valorização dos salários pagos para essa classe porque então seriam profissões mais atrativas para os egressos dos programas de pós-graduação, é essim que consiguiremos atrair melhores mentes para melhorar as mentes de nossas crianças, principalmente na rede pública. Enquanto não houver uma revolução das diretrizes salariais da classe dos professores, não podemos pensar em melhorar educação pública.
Enquanto em um colégio privado o professor ganha R$4000,00 (em fortaleza) podendo chegar a dobrar esse valor, em um colégio municipal ou estadual é um pouco mais que dois salários mínimos, para ter a mesma jornada de trabalho.
O esmagamento salárial da classe é um crime com as nossas crianças nas escolas públicas.
Em breve as universidades públicas sefrerão do mesmo mal, pois só há espaço para o ensino privado.

Waltécio disse...

Enquanto isso, no mundo da justiça e do direito, fala o advogado Roberto Podval:

"Que advogado vai deixar sua banca para assumir uma cadeira no Supremo ganhando menos de 30.000 reais por mês? O teto do Judiciário é ridículo. O salário não é compatível com a missão."

Veja #2238: 22, no. 41, 12 de outubro de 2011

Eles reclamam e uma maioria nem mestrado fez... Eis as grandes discrepâncias do Brasil.

 
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