segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Sobrevivência Humana: Natureza e Modelos Sócio-econômicos

ISTOÉ - O capitalismo está entrando em colapso com a crise?
Chomsky - O único lugar onde o capitalismo existe é nos países do Terceiro Mundo, onde ele é imposto à força. (Noam Chomsky em entrevista a revista IstoÉ publicada em 27/02/2009).

Com uma resposta assim, o que me resta escrever sobre o assunto?

Eu sou integrante do Partido Comunista do Brasil - PCdoB e já escrevi algumas vezes aqui sobre a minha decisão e preferência pelo socialismo:
Uma opção particular pelo Socialismo
O exemplo que o sistema esconde
A desumanização do macaco
Leigos e cínicos

Entre esses posts, em
O exemplo que o sistema esconde um de meus grandes amigos, o Prof. Dr. Tassos Lycurgo (UFRN), fez um comentário semelhante à resposta de Chomsky, só que ao contrário. Lycurgo reconheceu que o capitalismo praticado no Brasil não possuium sistema de liberdades com a colocação do ser humano no epicentro axiológico de todas as decisões estatais e da sociedade (políticas, jurídicas, etc.)”, mas em seguida, listou como exemplos de sucesso do capitalismo os países escandinavos.

Nós sabemos muito bem que todo conforto dos países ricos está atrelado à nossa exploração. Isso é tão óbvio que todos nós também sabemos que não há como o planeta suportar por muito tempo a existência de impérios como o americano com seus padrões atuais de consumismo e degradação do meio ambiente sem precedentes na história humana e planetária. Mais ainda, não existe nem a possibilidade de outro país chegar a esse patamar de demanda energética.

Muita gente deve pensar que nós brasileiros somos os únicos responsáveis pelas queimadas na Amazônia, devastação da Mata Atlântica, emissão de gases nocivos para a atmosfera. Sim, pessoas estão por trás disso, mas são todas produtos de um sistema sócio-econômico que envolve a maioria dos países ocidentais. Afinal, capitalismo não possui pátria alguma e é fundamentado na característica mais inumana e antinatural possível: individualismo!

Nós somos animais sociais altruístas-recípocros, quase todos os grandes macacos são assim. Mesmo os orangotangos possuem parte de sua existência com relacionamentos familiares e afetivos, afinal uma mãe e seu filhote, ou uma fêmea nos braços de um macho são pequenos grupos de animais que necessitam um do outro para existir por um determinado tempo. Indo um pouco mais distante, entre os mamíferos, sabemos que a diferença entre animais sociais e os ditos “não-sociais” é uma questão de grau, tempo, intensidade do convívio e comportamento (ver Souto, 2000: 123-124. Etologa: princípios e reflexões. Editora Universitária - UFPE). Dessa forma, viver em grupo, trabalhar, cuidar da coletividade é algo que pré-data a nossa origem como seres humanos.

Individualismo nesse contexto de sobrevivência possui freios e é regulado por indivíduos altruístas-recípocros há milhões de anos. Imaginem a seguinte história fictícia e antropomórfica: nas matas do Congo nasceu algo novo, “um chimpanzé empreendedor” chamado Boris. Ele é individualista, competitivo, agressivo e um acumulador exagerado de recursos. No grupo de sua origem todos cooperavam entre si, mas Boris em alguns anos de vida impõe sua regra de “se dar bem para si e só para si”. Boris se transformou no mais poderoso macaco detentor de quase todas as árvores frutíferas e caça da floresta. Para comer, todos após a ascensão de Boris, tem de pagar a ele de alguma forma. Quando não possuem nada, Boris deixa todos os frutos e carne apodrecerem, não permitindo acesso à alimentação, mesmo que ele já possua muito mais do que necessário em sua vida de bonança.

Notaram que não dá para continuar com essa história? Na realidade se um chimpanzé caçar em grupo, mas não dividir a carne com justiça, esse indivíduo, não importando sua posição no grupo, será penalizado pelos outros nas próximas caçadas. Imaginem o cenário anterior? Ao primeiro sinal de comportamento nocivo ao grupo, Boris seria expurgado, senão surrado até a morte. A sobrevivência de todos não pode ser posta em risco pelo gozo desmedido de um indivíduo.

Essa política dos chimpanzés é conhecida desde o clássico livro de Frans de Waal "
Chimpanzee politics: power and sex among apes" (1982) e essa política de grupo é a chave para compreensão da origem das sociedades humanas. Chimpanzés são nossos irmãos em termos evolutivos, mas pensem bem, se eles são assim, imaginem nós humanos?!

As culturas humanas de caçadores-coletores são formadas por indivíduos imersos em uma coletividade, uns ajudando aos outros pela sobrevivência individual e a de todos ao mesmo tempo. Não existe a figura do “empreendedor” que se faz sozinho.

Drauzio Varella em seu livro "
Por um fio (2004: 158)" descreve assim o sentimento de que certa vez ele sentiu quando estava em estágio na Suécia: “(...) Quanta diferença haveria em nascer num lugar sem gente pobre como Estocolmo e num bairro de operário de São Paulo? (...) Senti uma inveja como as da infância, difícil de entender. (...) Viver naquele país culto, organizado, sem miséria por perto, atraindo olhares admirados das mulheres.” Em meu caso particular, onde nasci e aqui onde trabalho nem São Paulo é! Bastou para mim uma viagem para Curitiba em 1998 e eu senti o mesmo que Drauzio Varella na Suécia. Olhem que Paraíba, Ceará e Paraná são estados de um mesmo Brasil!

A Suécia, Finlândia e Noruega não são bons exemplos do Capitalismo, porque não formam o núcleo dominante, tão pouco a periferia desse sistema. Se olharmos para o centro teremos os Estados Unidos e Inglaterra, sendo o primeiro quase um império monolítico com padrões de consumo e necessidades energéticas muito acima do poder de suporte deste planeta. Várias mentiras foram reveladas com o passar do tempo. A mais escandalosa é que nós no Brasil e outros países estamos em uma fase “em desenvolvimento”, que estamos “no caminho” para nos tornarmos uma potência desenvolvida.

O maior crítico é o economista brasileiro Celso Furtado (leia os clássicos "
Formação econômica do Brasil" de 1959 e "Raízes do subdesenvolvimento" de 2001), o qual demonstrou que essa doutrina econômica do desenvolvimento é uma mentira dos países dominantes para seus explorados. Os Estados Unidos não passaram por nenhuma fase de “subdesenvolvimento, ou em desenvolvimento” para se tornarem o que são. Eles não possuem nada parecido com a história do Brasil. Fomos e somos um povo colonizado.

Realmente, Chomsky e Celso Furtado estão certos, só existe capitalismo de verdade em países pobres e explorados!

No cerne do capitalismo americano está o “American way of life”, onde indivíduos se constroem e vencem por si mesmos. Não conseguir se tornar poderoso e rico lê-se nas entrelinhas: “loser” (perdedor). O indivíduo passa a ser o único responsável pela sua sobrevivência, sucesso e fracasso, algo completamente diferente da natureza primata humana.

Em termos de sobrevivência, necessitamos de modelos sócio-econômicos baseados em nosso comportamento natural de viver em grupo. O capitalismo é um ótimo sistema para uma minoria dominante, que segundo Coniff (2004), é composta e caracterizada por indivíduos “triplo A”: Ávidos, Agressivos e Acumuladores. Segundo o mesmo autor, esses são “os animais mais perigosos e arredios da Terra”, descendentes diretos dos primeiros plutocratas agrícolas.

Não há liberdade nesse sistema capitalista, apenas retórica e discursos falsos. Se continuarmos nessa ilusão social de que podemos fazer tudo sozinhos, condenando milhões de pessoas à miséria, destruindo tudo para mantermos hábitos de consumo supérfluos, vamos nós mesmos criar várias crises econômicas que podem até nos levar para uma vida em meio à barbárie.

Após ter essa certeza, optei pelo socialismo/ comunismo por afinidade às nossas raízes naturais e porque é a única proposta pensada, analisada, com estrutura filosófica e científica (não deixe de ler o clássico "
A ideologia alemã" de Marx e Engels, 1933) que se contrapõe ao modelo capitalista vigente. Em minha opinião, o final do capitalismo é uma questão de sobrevivência humana.

Não estou defendendo erros, ou acertos de um pais ou outro, mas apenas escrevo que há algo mais positivo no socialismo em si e na luta por ele, do que simplesmente desistir e entregar-se ao mundo canibal do capitalismo selvagem. Se há erros nas experiências realizadas, é nossa obrigação corrigi-los. Novamente, nós necessitamos de um modelo sócio-econômico onde todos tenham acesso à educação, saúde e lazer gratuito e de qualidade. Um sistema que priorize o coletivo, as pessoas e, claro, o ambiente.

Sobreviveremos às crises do capitalismo? Sim, mas repito: será em meio à barbárie e caos ambiental.

Por que os chimpanzés sabem que “indivíduos empreendedores, egoístas e acumuladores” são os vilões de verdade, mas nós não? Se vivermos em um mundo de ponta a cabeça, nós que deveríamos ser os heróis, vamos sofrer com esses vilões e ainda acharemos que a culpa é nossa!

No capitalismo sempre sofreremos juntos e nunca sorriremos sozinhos!

Não custa tentar o contrário: vamos sorrir juntos e chorar apenas se sozinhos estivermos!!!

Voltemos às nossas raízes humanas e vamos seguir nossos instintos de animais sociais cooperativos. Chega de lutar contra nossa natureza!

A sobrevivência humana segue seu rumo!!!



Links
http://www.terra.com.br/istoe/edicoes/2051/artigo127063-2.htm
http://titaferreira.multiply.com/market/item/494/Ecologia_e_Socialismo
http://www.marx.org/portugues/marx/1845/ideologia-alema-oe/index.htm
http://www.centrocelsofurtado.org.br/

6 comentários:

Darlan O. Reis Jr. disse...

Logo vão dizer que não, que o capitalismo é uma forma natural, ou a melhor encontrada para se viver.
Mesmo que fosse verdade, o que não é, não é a melhor forma existe de vida em sociedade, não nos esqueçamos que é histórico, nunca natural.
"Tudo o que é sólido desmancha no ar".

Waltécio disse...

Tentei escrever um texto leve, sem filosofias complexas, ou muitas referências bibliográficas.

Escrevi com a cabeça sempre pensando naquele dia em que conversamos no Saraiva. Eu repetia uma visão do Steven Pinker, enquanto você discordava.

Foi lendo Frans de Waal alguns meses depois que passei a entender o link entre natureza humana e socialismo. Mesmo que esse autor não seja partidário, ou mesmo discorde do comunismo por convicções muito pessoais e não científicas.

Eu compreendo o que você escreve e não estou defendendo uma volta à vida tribal, menos ainda aos clãs de chimpanzés. Afinal, a história não se repete.

Natural vs. cultural haverá ainda muita discussão. O mais importante para mim é compreender a nossa natureza humana, pois é a base da existência.

Como escrevi, Chomsky disse tudo:
"só existe capitalismo aqui!" Entender isso é acordar todas as manhãs e saber que estou mergulhado na pior parte desse mundo cão!

O inferno são os outros... no mundo do capitalismo selvagem e da barbárie.

Saudações socialistas, camarada!

Anônimo disse...

Lutar contra o capitalismo dentro do PC do B? Parece até uma piada...
O capitalismo existe no mundo todo, inclusive em Cuba, China, como existia também na URSS (países esses que o PC do B considera socialistas). A força propulsora do capitalismo é a explorção do homem pelo homem, especificamente, a extração de mais-valia do proletariado pela burguesia. Isso existe no mundo todo, desde a Suécia à Africa, do Japão ao Brasil. A revolução só será mundial ou nunca acontecerá. E será obra dos próprios trabalhadores através dos conselhos de trabalhadores.

Anônimo disse...

Para ti se asseemelha à uma fala Petista? Para mim está bem claro que os petistas da comunidade do orkut também deram uma passadinha no seu Blog.

Waltécio disse...

Meu caro trotskista,

Julgar meu partido por causa de um ou outro integrante é o mesmo que restringir todo comunismo à atuação de Stalin... O que vocês adoram fazer com atitudes da Quinta Coluna!

O FIM DO AMOR disse...

Waltecio, estou com você em seu contrargumento,masgostei do texto e expus ele a alguns amigos e não amigos,adivinhe?
Só porque o maldito capitalismo é histórico...

 
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