sábado, 28 de março de 2009

Crônicas universitárias: graduação



Primeiro dia de aula na Universidade
Numa segunda-feira de março de 1993 acordei por volta das 4:30 da manhã. Havia colocado o despertador para às 5:00, mas não consegui dormir direito... Seria meu primeiro dia de aula na Universidade Federal da Paraíba.

A rotina em casa seguia seu curso normal e meus pais estavam cheios de felicidade. Quer dizer, na verdade, minha mãe só queria saber qual seria meu emprego após me formar, como passei para Ciências Biológicas, ela deduziu e falou para todo mundo que eu iria trabalhar no... IBAMA. Meu pai nunca falou comigo sobre esses assuntos.

Gosto de imaginar que minha irmã, Germana, ficou feliz e mais determinada a tentar o vestibular novamente após me ver conseguir entrar na universidade. Ela passou no vestibular um ano depois de mim, formou-se em Ciências Contábeis, foi aprovada em concurso público e hoje é funcionária efetiva da UFPB. Os dois filhos de Dona Geruza e Seu Antônio que foram para a 'faculdade', como os vizinhos sempre falavam.

Então, lá ia eu pegar dois ônibus para ir, dois para voltar:

Levava comigo um papel que era um tipo de guia das aulas do semestre. A primeira seria de "Biologia Celular" no bloco da Biologia no Centro de Ciências Exatas e da Natureza - CCEN e a segunda seria de "Complemento de Física" na Central de Aulas. As siglas eram difíceis de entender, coisas como "CA bloco A", ou algo assim, serviram para que eu ficasse muito curioso com essa "complexidade" diferente do ensino médio.

Central de Aulas - UFPB.


Ao chegar à UFPB, o edifício que mais me impressionou foi o da Biblioteca Central. Achei-o lindo... e haviam três andares de livros! Se eu gostava da biblioteca municipal apertada lá em Bayeux, o que diria de três andares de livros?! Alguns meses depois, de tanto estudar à noite na Biblioteca após o jantar no Restaurante Universitário, eu e meus amigos demos o apelido a ela de "A Casa do Terror" pelo aspecto sombrio à noite... rsrsrs!!! Isso com muito carinho e respeito.

Biblioteca Central da UFPB:


Não fui de militância, mas esta estava por toda parte, aos gritos e punhos cerrados. Vivi na UFPB o final do governo Itamar Franco e todo o tenebroso período neoliberal de FHC.

Era o início de minha vida na universidade.

À procura de estágios e bolsas

Como não foi diferente do ensino médio, fiz amizade com os "párias" que sentavam no final da sala de aula. Eu gostava de Heavy Metal, mas estava numa fase de ouvir apenas música instrumental influenciado diretamente pelo meu amigo Getúlio Luis de Freitas.

Já escrevi antes como Getúlio foi importante para mim e, quando ingressei na universidade, ele era meu referencial para o que tinha de fazer. Getúlio era bolsista do CNPq e... "porra", como admirava o cara. Até 1992 não havia o Programa de Iniciação Científica - PIBIC/ CNPq e as bolsas eram concedidas diretas de Brasília pela aprovação de projetos. Essa modalidade de bolsas era chamada nos corredores de "bolsa de balcão".

Getúlio estava vinculado ao prof. Rafael Guerra com o projeto de ecologia de oligoquetos (minhocas) e contou-me tudo a respeito do trabalho... e eu decorei cada palavra dele.

Na sala de aula, nos primeiros meses, conheci Alexandre Vasconcellos e Rômulo Romeu da Nóbrega Alves. Assim como eu, eram figuras tenebrosas! O primeiro, vindo do brejo paraibano (Campina Grande), parecia um skinhead, careca, branco, com olhos claros e falava vez, ou outra umas frases idiotas dos Demolay e maçonaria. Alexandre era um porre.

Rômulo era magro e tinha um semblante típico de um retirante nordestino, um estereótipo vivo saído das Vidas Secas de Graciliano Ramos. Ele estava na Residência Universitária por ser de família muito pobre e vir do município de São Mamede, no cariri paraibano, um dos mais secos de todos.

Eram meus amigos, hoje os considero irmãos!

Alexandre e Rômulo no início só falavam em abandonar o curso e voltar para as suas casas no interior da Paraíba. Era difícil viver em João Pessoa, as pessoas na universidade eram frias, outras muito metidas, coisas de comportamento pequeno burguês da "classe média" brasileira.

De meu lado, eu não podia falhar, minha família era pobre demais, meu pai era proletário e uma vida em fábricas não me atraia em nada. Sem contar que, após servir no exército, prestei concurso para Polícia Militar e não passei. Caso contrário, minha vida seria completamente diferente hoje, não é?!

Certa manhã falei assim com meus novos amigos:
-"Temos que conseguir bolsas do CNPq. Eu tenho um amigo, Getúlio, que é bolsista, eu sei como é, vamos correr atrás de estágios!!"

Olhem como eu me comportava?! Estava determinado e fui um tipo de Charlie Brown motivando sua equipe de amigos no time de baseball.

Por coincidência, no momento da confirmação de nossa matrícula, havíamos visto a propaganda ao lado na parede da coordenação: "Laboratório de Primatologia Tropical necessita de estagiários voluntários". Fomos para lá com mais cinco outros de nossa turma. Sim, havia uma bolsa do CNPq disponível, mas, seis meses depois, a selecionada foi nossa amiga Sandra Helena. Após isso, desistimos do estágio com macacos.

... Eu continuava precisando de uma bolsa.

Alexandre, Rômulo e eu, os três que passaram a andar e estudar juntos decidimos: vamos bater de porta em porta até conseguirmos estágio.

A professora Rita Baltazar de Lima havia falado na aula de "Botânica I" que estavam precisando de estagiários no projeto Flora Paraibana. Decidimos começar por lá... e lá permanecemos. A profa. Rita dividia provisoriamente a sala com a profa. Maria Alves de Sousa (carinhosamente chamada de profa. Branca), que estava se aposentando. Alexandre ficou com Rita no projeto sobre Vitaceae (a família das uvas, como ele costumava dizer se referindo a... vinho e embriaguez, claro), eu e Rômulo ficamos com a profa. Branca e as pteridófitas (samambaias).

Em 1993 o CNPq lançou o programa de Bolsas de Iniciação Científica - PIBIC e os boatos eram assim nos corredores: tem muita, muita bolsa! O valor era de R$ 180,00 e foi reajustado para R$ 240,00 em 1994. O salário mínimo na época era de R$ 70,00, ou seja, a bolsa era um pouco mais de três salários mínimos (equivalente hoje a R$ 1.395,00)!!!... Seria minha independência, permanência, sobrevivência na universidade.

Sabemos agora do sucesso que é esse programa. Grande parte dos bolsistas continuou até seu doutoramento e são hoje professores universitários com expressiva produção científica.



Consegui me tornar bolsista em 1994 sob orientação da profa. Branca, Rômulo desistiu da botânica e só se tornou bolsista um ano depois, com orientação do prof. Roberto Sassi (ecologia marinha). Alexandre... não teve sorte de início, na época a profa. Rita só tinha mestrado e não atingiu pontuação suficiente na seleção do PIBIC em 1994. Semanas depois, o prof. Adelmar Bandeira convidou ele para ser bolsista em seu laboratório e estudar cupins. Ali começava uma das histórias mais importantes de amizade e parceria profissional da vida de Adelmar. Hoje em dia ele fala para todo mundo que Alexandre foi o seu melhor aluno em todos os tempos.

Moabe Pina da Silva, calouro de 1994.1 se tornou um de nossos grandes amigos. Moabe fazia muito bem nosso estilo, era feio, tímido e nerd. Convidamos ele para ingressar no Centro Acadêmico de Biologia e ele também se tornou bolsista PIBIC com peteridófitas sob orientação da professora Branca.

Na metade de nossa graduação, todos nós éramos bolsistas! Segundo uma palestra da Coordenadora Geral de Pesquisa, Ciência e Tecnologia
, profa. Maria José Lima da Silva, a UFPB possuía mais de 600 bolsas e se tornara exemplar no CNPq pelo desempenho do PIBIC.

Bem, eu desisti da Botânica um ano e meio depois. Não tinha vocação para estudar plantas. Todos meus amigos estavam na zoologia, até Moabe passou a estudar cupins em 1996. Ademais, eu queria era ser um tipo de David Attenborough, defender os animais e tal. Após assistir as aulas de Evolução com o prof. Martin Lindsey Christoffersen, não perdi tempo e mudei do térreo do Departamento de Sistemática e Ecologia - DSE para o primeiro andar da Zoologia.

Pronto... ali no Laboratório de Filogenia dos Metazoa fiz minha monografia de bacharelado, dissertação de mestrado e tese de doutorado:


O Centro Acadêmico

Alexandre foi o responsável em convencer-me à integrar o Centro Acadêmico de Biologia. Chegamos lá e achamos um absurdo, porque estava fechado, sujo e quase sem nada. Conseguimos uma máquina de escrever elétrica com a coordenação (estavam mudando tudo para computadores 486, uma revolução!) e um arquivo velho lá no patrimônio. Limpamos e pintamos tudo. Levei um ventilador para lá e tínhamos até um toca-fitas que incomodava muito as aulas no auditório do Departamento de Biologia Molecular - DBM que ficava ao lado.

Certa vez o professor de Biofísica passou lá e pediu para desligar o som. Alguns minutos depois veio Rogério que falou: "-Gostei de fazer a prova escutando Pantera (Cowboys from Hell), valeu!!!" rsrsrs!!!

Nossa postura política no C.A.: sem partidos políticos! Um desastre!

Estávamos errados, mas achávamos certo, típico da idade. Víamos os esquerdistas e direitistas no DCE e queríamos ser diferentes, concentrar nossas ações no curso de Biologia. Bem, mas nós demos continuidade ao trabalho da gestão anterior e denunciamos o lixo e o desmatamento nos pedaços de Mata Atlântica da universidade, saimos no jornal da UFPB, tivemos audiência com o reitor e depois com o prefeito universitário. Este eu lembro bem, era um Físico e falou assim para nós:

"-Estou com vocês, acho as árvores bonitinhas, mas... precisamos de estacionamento. A universidade está crescendo, serão árvores, ou carros, entendem?! Por mim, cortava tudo, comprava e plantava árvores de plástico. Li algo assim em algum lugar, árvores de plástico são perfeitas".

Saímos da prefeitura com uma certeza: nosso relatório sobre o lixo da universidade seria jogado... no próprio lixo.

Organizamos calouradas, promovemos o voleibol da sexta à tarde (com 5 L de vinho por conta do C.A.... rsrsrs!!!) e coordenamos, junto com o DCE, as carteirinhas da UNE da Biologia.

Quando passamos a diretoria do C.A. de Biologia, achávamos que estávamos no topo da popularidade... eita ilusão! A turma que nos substituiu falou que o C.A. vivia trancado, estava vazio, sem móveis e sujo... rsrsrs!!! Vi o filme se repetir sem a menor criatividade!

Política e muita greve

Com o decorrer do tempo na universidade só pensava em uma coisa: tornar-me um professor-pesquisador de renome internacional. Tive minhas crises feias, porque deveria decidir qual seria ramo da biologia de minha pós-graduação. O que eu iria fazer depois de terminar a graduação?

Há alguns anos atrás quando li a biografia de Charles Darwin (Desmond e Moore, 2001) fiquei fascinado pelo lado humano e ordinário dele como aluno de graduação. No meio de seu curso para o fim, Darwin passou por crises de definição pelo caminho nas ciências naturais. Talvez muitas outras pessoas compartilhem com ele e comigo uma experiência semelhante em suas graduações.

Entre o bate-papo rotineiro com meus amigos, era "pesquisa para cá, vou revolucionar isso para lá". Certa vez falei para Alexandre: "A história dos Pentastomida (parasitas que eu estava estudando) será contada antes e depois de mim".

Perdoem a ingenuidade dos meus 20 anos! Embora queria muito que meus alunos de hoje sonhassem tão alto quanto possível.

Fernando Henrique Cardoso foi contra concursos, professores se aposentaram em massa com receio de perderem seus direitos trabalhistas, os salários e as bolsas foram congeladas... por oito anos. Não deu outra, foi luta e mais luta de classe.

Passei por várias greves, sobretudo dos funcionários. Era sempre radical, carro de som dentro da universidade, corte de luz elétrica e água, piquetes e correntes no portão principal.

Vias de regra deixavam alunos entrar, desde que não fosse para assistir aulas. Como eu ia sempre para o laboratório, tive poucos problemas. Quando encontrava uma turma furiosa e mais radical, pulava a cerca em outro ponto do campus... e seguia para o laboratório e estágio do PIBIC.

Paralisação dos funcionários da UFPB em 2007 (a luta continua companheiros!):


Evandro do Nascimento Silva (hoje professor da UEFS) era um dos alunos mais politizados da biologia que conheci em minha vida. Ele contou sua história de menino pardo, pobre e da luta em passeatas contra ditadura e depois contra os governos neoliberais. Evandro era gente boa... eu... bem, queria sair da pobreza de todo jeito. Repetia para mim como um mantra: "eu não posso falhar". Sei que isso não justifica minha ausência em passeatas, mas meu trabalho no laboratório exigia demais de mim.

Hoje em dia reconheço todo esforço e dificuldades que enfrentamos naquela década sob o julgo de um presidente da direita (PSDB). Depois que me tornei professor vi meu salário ser esmagado por um governador desse mesmo partido, Lúcio Alcântara, que, assim como FHC, era indiferente a manifestações e greves.

Então, sempre que tenho oportunidade e nas eleições, hoje estou nas ruas e sou militante de esquerda. Tenho orgulho de ser do Partido Comunista do Brasil - PCdoB. Antes tarde do que nunca por um mundo melhor!!!

A luta de classe não pode ser evitada sempre que necessária! Como bem disse Maquiavel (1513): "As guerras não podem ser evitadas e quando adiadas, só trazem benefícios para o inimigo".

Viver dentro da universidade

Dormi muitas noites na UFPB. Por morar em Bayeux-PB, caso perdesse o ônibus das 22:00 em frente ao Campus, não tinha como pegar o último ônibus para minha cidade próximo à rodoviária.

Foi na UFPB que aprendi a usar computador e vi o milagre da internet pela primeira vez em 1997, quando aluno do mestrado!!! Dormi no laboratório para aprender isso.

Se tinha uma festa (calourada) e os amigos quase que me amarrassem para eu ficar, ou se quisesse enfiar a cara nos estudos durante a madrugada... Comprava ficha telefônica e ligava para casa e avisava minha mãe.

Em muitos momentos passei a viver dentro da universidade!

A minha maior permanência nas noites no laboratório foi por causa de minha monografia. Não possuía computador em casa, era um luxo máximo naquela época. Não esqueço que no momento de finalização do trabalho monográfico, entrei na sexta-feira, só sai na segunda pela manhã. Levei sandwich, biscoito. A fome foi tão grande no domingo à tarde que eu e um amigo que estava lá, Marcos Antônio, fritamos um ovo e sardinhas na bandeja de dissecação de mamíferos ao fogo de Bico de Bunsen.

Em uma terça-feira de 1996 tirei 10,0 em minha monografia sob os aplausos do auditório do DSE lotado. Publiquei os resultados dessa pesquisa em 1999 na melhor revista da área, The Journal of Parasitology - Estados Unidos. Até os dias de hoje, esse trabalho continua sendo um dos meus melhores, o mais citado e o mais aceito internacionalmente. É hoje considerado um marco da evolução dos pentastomídeos. A história desses animais não foi contada antes e depois de mim como brincava com Alexandre... A história evolutiva desses animais foi contada por mim.

A magia da universidade

A vida na universidade é um encanto. Certo dia, minha irmã me ensinou a rasgar o jeans com uma pedra para ficar desgastada e natural... para ficar punk. Amei os farrapos que ficou. Minha mãe arregalou os olhos, as pessoas olhavam atravessadas no ônibus... mas, era ultrapassar os portões do Campus... e era como se eu fosse o mais ordinário entre tantos e tantos outros.

Ficar na frente da Bibliotea Central, vez ou outra, podia-se ver o professor Arturo Gouveia do curso de Letras. Ele tinha metade do bigode raspado, a outra não; uma sobrancelha de um lado, o outro olho pelado; um pé com uma sandália, o outro descalço. Nunca vi algo tão diferente andando... Escrevo, diferente para um professor com doutorado e autor de livros ótimos, como "O Mal Absoluto":


Claro, é um exagero, a maioria dos professores, funcionários e alunos era bem "normal". Entretanto, estávamos tão absorvidos nos estudos e estágios que não nos preocupávamos com o visual, ou jeito de ninguém... Os originais na universidade são admirados, mesmo com todas as suas diferenças.

Amava a liberdade na universidade nos tempos de minha graduação. Voltei a escutar Heavy Metal, comprei camisetas de bandas, furei a orelha, o cabelo cresceu... eu fiquei pra lá de feliz! Claro, que expressava essa minha "felicidade" com uma baita cara feia, muito feia... Fazia o tipo do "metálico (não gostava do termo 'metaleiro') com cara de mal"... Quem me conhecia sabe que era só tipo... e bem exagerado!

Na música, os anos 1990 foram todos repletos por bandas de... 1980!!! Eu não sabia que esse fenômeno continuaria na década seguinte de 2000! Será que continuará em 2010?! Mesmo assim, enquanto meus dias de graduação passavam, acompanhei os melhores discos do Sepultura e o surgir do Angra. Na europa surgiram novos estilos que me fascinaram como Death Metal Melódico e o Gothic Metal. Bandas hoje que fazem parte do mainstream europeu eram todas underground no início da década de 1990. Paradise Lost, Anathema, Amorphis, Sentenced, In Flames, Dark Tranquillity, só para citar minhas preferidas entre tantas outras que surgiram nessa época. O mundo transpirava os Estados Unidos com seu movimento Grunge nas músicas do Nirvana, Soundgarden e Pearl Jam... depois veio o fenômeno do Pantera contra todo esse modismo, voltando as influências do thrash metal da década de... 1980!!! rsrsrs!!!

Em dezembro de 1996 passei em quarto lugar na seleção do mestrado em Ciências Biológicas (Zoologia). Estava na lista dos bolsistas da CAPES e muito aliviado por isso. Poucas pessoas sabem, mas Alexandre, penúltimo lugar na seleção, já havia casado, tinha uma linda filha. Não deu outra, dividi minha bolsa de mestrado com ele por cerca de seis meses e acho que ainda hoje ele me deve uma grana, não Alexandre?! rsrsrs!!! Amigo é para todo tempo, na ciência e na vida!

Essa não é toda história, faltam tantos detalhes, tantas pessoas que não citei e peço perdão por toda essa simplificação. Por falar em história, o mestrado é outra... a vida na pós-graduação e os sonhos mais elevados.

Continua...

sexta-feira, 27 de março de 2009

Crônicas universitárias: apresentação

Em 1993 ingressei no mundo universitário para nunca mais deixá-lo. As realidades de minha vida são todas acadêmicas.

Mais do que um relato auto-biográfico, espero registrar em quatro textos os principais eventos históricos que vivi e vivo na universidade pública por quase duas décadas. De calouro a professor, dos livros lidos até a produção do conhecimento, há muito o que escrever: comportamento humano, as fantasias e os discursos; ser politicamente correto e viver mergulhado em preconceitos e discriminação; de aluno pobre da periferia até professor da classe média; os ídolos acadêmicos e o encontro com autoridades científicas.

Dividirei os textos do mesmo jeito que planejei furar minha orelha esquerda a cada passo importante na universidade: graduação, mestrado e doutorado (isso explica, porque usava três brincos!!! rsrsrs!!!).

O último texto dessa tetralogia abordará o meu ingresso na carreira docente, meu primeiro estágio de pós-doutorado e os fatos mais recentes que passei.

Novamente, não esperem ler minha história particular, até porque sou um homem bastante comum, cuja trajetória está repetida em muitas outras vidas a nossa volta. Haverá temas como o surgimento do programa de Bolsas de Iniciação Científica - PBIC do CNPq, as greves de funcionários e professores, as relações humanas entre professores, funcionários e alunos, enfim a vida na universidade pública brasileira. Coisas muito fascinantes escrevo de passagem.

Aos meus amigos de longas datas e leitores deste Blog espero que se divirtam com os textos recheados de nostalgias e atualidades de nossas vidas.

Que as crônicas se iniciem!

terça-feira, 24 de março de 2009

Neurose não tem cura: IF, FH e Qualis novamente

A maioria dos cientistas considera o novo processo simplificado de revisão como 'uma melhoria significativa'.

No post "Neurose acadêmica" escrevi sobre minha náusea diária de ter que me preocupar com índices como IF, Qualis das revistas onde publico e meu FH em relação às citações.

Já reli o texto algumas vezes à procura de consertar erros e entender eu mesmo minha neurose.

As duas coisas que reclamo naquele post têm soluções. No caso da URCA, simples, tenho que trabalhar com os poucos companheiros que sabem e sofrem comigo e continuar a vida. Tentar um concurso para outra universidade melhor não é uma alternativa exclusiva minha, mas sim uma possibilidade real para todos (como exemplifiquei citando os meus amigos que hoje estão em outras IES).

Eu não possuo esse objetivo tão claramente. Diversas vezes em algumas reuniões expressei meu amor ao meu primeiro emprego... e primeiro amor vocês sabem como é! Deixo escrito aqui para a posteridade que eu fui recebido com muito respeito e carinho na URCA. Houve a cerimônia de recepção com o Governador do Estado do Ceará, outra cerimônia com a Magnífica Reitora Violeta Arraes e na minha primeira reunião de Departamento fui saudado pelo prof. Cunha com aplausos de todo o colegiado! Ao retornar para minhas obrigações do doutorado na UFPB, também fui elogiado por causa do sucesso no concurso pelos amigos, meu orientador e a coordenadora, Ierecê Lucena. Eu amei cada um desses momentos e se um dia sair da URCA será de coração partido.

Em 2002, após passar no concurso da URCA, essa foi a nota no quadro de aviso do Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas (Zoologia) - PPGCB, que a coordenadora, profa. Ierecê Lucena, escreveu para mim.

Foi também na região do Cariri que eu me reencontrei com a pesquisa de campo. Os dados que obtive na Chapada do Araripe e Caatinga levaram-me a publicar importantes trabalhos... Em palavras mais diretas, eu fiz minha carreira científica no Cariri cearense.

Eu em 2005 no município de Nova Olinda - CE, às margens de um açude coletando um espécime de Iguana iguana (lagarto conhecido na região como 'camaleão').

No caso dos índices de minha neurose, há várias opiniões que já li, ou ouvi. Três possibilidades: (1) entrar no jogo e conseguir os maiores scores publicando apenas em revistas internacionais indexadas no ISI; (2) investir nas revistas nacionais para que elas cresçam em qualidade suficiente, consigam bons IFs no JCR e integrem no ISI; (3) ignorar por completo essa realidade.

Antes de explorar essas possibilidades, vou tentar esboçar um exemplo hipotético sobre FH.

Para ter um alto FH basta fazer o seguinte: publicar oito artigos indexados no ISI. No primeiro ano você publica dois artigos, no segundo um terceiro e cita os dois primeiros, no terceiro artigo você cita os anteriores e assim por diante (mais ou menos assim):

Artigo a b - FH = 0
Artigo c - a1, b1 - FH = 1
Artigo d - a2, b2, c1 - FH = 2
Artigo e - a3, b3, c2, d1 - FH = 3
Artigo f - a4, b4, c3, d2, e1 - FH = 4
Artigo g - a5, b5, c4, d3, e2, f1 - FH = 5
Artigo h - a6, b6, c5, d4, e3, f2 - FH = 6

Vejam bem, nesse exemplo grosseiro, com uma quantidade ínfima de artigos e apenas auto-citação, obtém-se um FH acima de 5. Ressalto com repetição para ser chato, apenas com auto-citação, ou seja, a pesquisa realizada não teve influência alguma além do próprio mundo particular do pesquisador hipotético!!!

Sabe-se hoje que além das auto-citações, amigos e orientados fazem uma corrente de citações cruzadas com objetivos semelhantes à auto-citação (ver mais detalhes e exemplos em Kellner e Ponciano, 2008).

Há várias estratégias para se ter um FH alto sem necessariamente ser um pesquisador influente no mundo. Vaidade é o óleo da moenda em muitos setores da academia. Se as penas dos pavões são feitas de IF e FH... muitos farão de tudo para tê-las... farão de tudo!!!

Das três possibilidades descritas acima, tenho amigos que defendem cada uma delas. Até mesmo a terceira que parece absurda, há sim uma amiga minha que diz não entrar em sistema algum e faz questão de publicar em português e nas revistas locais 'Qualis Cs'. Não sei se ela faz meditação, ou algum exercício contra neurose, porque tenho certeza que a métrica científica bate na porta do seu currículo todos os dias.

Meu orientador, Martin Lindsey Christoffersen, certa vez me falou que ele não se importa com nenhum aspecto da métrica acadêmica. Segundo ele o importante é publicar e fazer uma divulgação efetiva de cada artigo e suas idéias centrais. Todos na UFPB conhecem o volume mensal da correspondência de Martin. Ele envia cópias e separatas de seus trabalhos para todos os pesquisadores do mundo que estejam ligados de alguma forma com as áreas dos artigos. Martin faz isso também por e-mail com o advento dos arquivos em PDF. Mesmo assim, em períodos de baixa produtividade, ele quase perdeu sua bolsa de produtividade do CNPq.

Laboratório de Filogenia dos Metazoa - DSE/CCEN/ UFPB.

Sala de estudo dos alunos de pós-graduação do Laboratório de Filogenia dos Metazoa - DSE/CCEN/ UFPB.

Em agosto do ano passado fiz uma viagem à Brasília e, por acaso, conversei um tempo com Alexander Kellner (UFRJ) sobre FH. Nessa época ele estava finalizando um artigo exatamente sobre isso e pediu minha opinião no manuscrito (leia Kellner e Ponciano, 2008). O posicionamento de Kellner é mais ou menos a segunda possibilidade apresentada anteriormente. Concordo com ele que uma medida para dar suporte aos pesquisadores brasileiros é ter investimentos contínuos e efetivos às revistas nacionais de qualidade e tradição. Hoje as verbas alocadas do CNPq e CAPES são importantes, mas são insuficientes. Kellner ainda defende que sejam incorporados ao corpo editorial de nossas revistas, revisores de língua inglesa no intuito de melhorar a qualidade dos artigos publicados nessa língua.

Em 2008 periódicos nacionais como o Brazilian Journal of Biology e a Revista Brasileira de Zoologia ingressaram no ISI. Isso trouxe um novo status para essas revistas e para quem publica nelas. Por exemplo, no SCOPUS meu FH saiu de 1 para 2, o que deve também acontecer em breve no ISI com outros de meus artigos agora incluídos nessa base.

Inspirados no seriado 24 Horas, em dezembro de 2007, reunimos parte do Grupo de Biologia Comparada em João Pessoa-PB com um objetivo de fundarmos a Unidade de Combate e Terrorismo para Publicação - UCTP. Esta é composta por Gindomar Gomes Santana (Herpetologia - UFPB), Washington Luis Vieira (Herpetologia - UFPB), Rômulo Romeu da Nóbrega Alves (Etnozoologia - UEPB), Alexandre Vasconcellos (Ecologia de Termites - UFRN) e eu (parasitologia de animais silvestres - URCA). Todos nós nos sentimos os Jack Bauer da ciência, embora um pouco de terroristas também... rsrsrs!!! Apesar de nosso senso de humor estar em alta, levamos nossos compromissos a sério. Hoje temos um saldo de no mínimo cinco artigos publicados por ano em bons periódicos, dois de nós são bolsistas de produtividade (Alexandre do CNPq e eu da FUNCAP), temos vários projetos aprovados (CNPq e FUNCAP) e Rômulo é hoje o maior FH entre nós (FH 6), seguido por Alexandre (FH 3).

Em minha opinião não há como fugir ao sistema, ele existe e ignorá-lo só piora a aceitação da realidade. Por isso, não farei Yoga para exercitar a fleuma contra os IFs, FHs e Qualis da vida. Vou continuar conversando sobre essas coisas por um bom tempo no msn, e-mails, Orkut e durante minha hora do café.

Se as hipóteses que publiquei estiverem corretas, espero tê-las divulgado o suficiente para serem reconhecidas no futuro. As que ainda andam no plano das idéias, no meio dos projetos em notebook, devo ter o mesmo zelo e, claro, tentar publicá-las em boas revistas.

Afinal, neuroses podem ser tratadas e controladas, mas não há cura definitiva. É para vida toda!!!

Não, natureza cruel, POR QUÊ?

Leiam:

http://www.scielo.br/pdf/hcsm/v16n2/13.pdf

http://www.scielo.br/pdf/aabc/v80n4/a16v80n4.pdf

domingo, 22 de março de 2009

O quebra-cabeça resolvido

Nossa história em segundos:


sábado, 21 de março de 2009

Nós somos filhos da evolução!!!

Sensacional!!!

A Beata Beat Cult

Por falar em produção acadêmica de professores da Universidade Regional do Cariri- URCA, segue o Cordel Maria do Araújo e Seu Lugar na História – ou A Beata Beat Cult de autoria da profa. Dra. Salete Maria (Direito) e interpretado por Socorro Lira:


Um ótimo exemplo de que o mundo não é apenas feito de IF, FH, ISI e Qualis!!!

Parabéns, Salete!!!

Acessem:
http://www.socorrolira.com.br/pages.php?page=recitalcordel
http://www.sescsp.org.br/sesc/programa_new/mostra_detalhe.cfm?programacao_id=147301

quarta-feira, 18 de março de 2009

Neurose acadêmica

Eu não sei se posso me considerar um acadêmico "old school", mas é verdade que vi muito de minha realidade mudar nessas duas décadas 1990-2000. A produção acadêmica era uma necessidade e diferente da atual neurose que vivemos nos dias de hoje.

Vi o fim da era na qual poderíamos passar anos trabalhando em uma hipótese e depois publicar os resultados em um artigo que separasse as águas e causasse uma revolução científica. Em outras palavras, eu ainda vivi nos dias em que havia um objetivo acadêmico concreto, o julgamento de nossa realização estava na profundidade dos resultados publicados, mesmo que em um único artigo, ou livro.

Mais ou menos do meio da década de 1990 em diante (desculpem-me a imprecisão), os principais órgãos de fomento nacionais CNPq e CAPES, ao tempo em que aumentavam o investimento em pesquisa, passaram por profundas modificações nos procedimentos de concessão e avaliação da produção científica. Termos como "ilhas de competência" foram publicados para destacar os grupos de pesquisa mais produtivos. Logo depois surgiu o sistema Qualis de avaliação da produtividade acadêmica dos cursos de pós-graduação.

Isso não foi uma exclusividade brasileira, o mundo estava mudando da mesma forma. Sugiram os portais de indexação como o Institute of Scientific Information - ISI e o Journal Citation Reports - JCR, os periódicos foram medidos (assim como seus autores), sobretudo, de acordo com Fatores de Impacto (IF - do inglês Impact Factor). Recentemente foi incorporada a essa métrica acadêmica o Fator H - FH, ou
h-index (Hirsch, JE., 2005), que leva em consideração tanto a qualidade de onde se publica (artigos indexados no ISI, ou no SCOPUS), quanto ao número médio de citações por artigo publicado.


Nos corredores de hoje das nossas universidades um pesquisador sem h-index é discriminado pelos seus colegas. Da mesma forma entre os que possuem esse índice de citações com scores baixos, por exemplo, eu atualmente tenho 1 no ISI e 2 no SCOPUS, é "metricamente" mais fraco do que aqueles com scores acima de 5.

Tenho diversos amigos que só falam nisso hoje em dia. Na hora do café, no msn, em e-mails, é IF pra cá, FH pra lá, sem contar o estranho e às vezes incompreensível sistema Qualis da CAPES que está sempre presente (Qualis A1, B5, C, etc.).

Claro, tudo isso se traduz em uma língua básica: publicar em massa!!! Um artigo com IF acima de 1.0 por mês de preferência!

Quero deixar claro que este texto não é uma declaração em defesa de quem não produz, ou publica trabalhos medíocres, grande parte das reclamações desse fenômeno de métrica acadêmica vem de quem não consegue entrar nele, ou dos que não se destacam. Não é essa a minha preocupação.

Devido a institucionalização da ciência a partir da revolução industrial e a necessidade de distribuição dos recursos (limitados), deve-se ter uma forma de avaliar o desempenho e mesmo o retorno para a sociedade da atuação dos grupos de pesquisa. Todavia, enquanto pesquisador sinto uma tristeza profunda de não participar de discussões apaixonadas em meu dia-a-dia, estar com pessoas empenhadas em encontrar respostas para suas hipóteses. A maioria está tão neurótica em manter ou ampliar seu FH, que parece nem se importar com os artigos que publicam... é quase um "vale tudo curricular".

Não citarei exemplos por motivos óbvios, mas se você vive pelos corredores dos mestrados e doutorados, sabe do que estou escrevendo.

É angustiante, depressiva e neurótica a forma como encaramos o dia-a-dia. Além do mais, pesquisas demonstraram que individualmente nós não produziremos muito de forma efetiva, ou seja, com muito empenho e toda uma carreira, teremos uma, ou no máximo duas hipóteses bem estabelecidas. Nenhum humano revolucionou a si próprio ano após ano, artigo após artigo.

Vamos aos exemplos populares como a Evolução por Seleção Natural, O Capital e o Materialismo Histórico, a Relatividade, a estrutura do DNA, etc., São contribuições importantíssimas para a humanidade e cada qual custou uma vida acadêmica inteira.

Mantendo as diferenças entre as realidades vividas por Darwin, Marx, Einstein, Watson e Crick, todos eles não possuíam referências métricas curriculares tão estranhas como o FH de hoje.

Na atualidade, em meio a massa dos profissionais acadêmicos, publica-se muito, mas alguns currículos parecem mais ser uma colcha de retalhos, ou mesmo um verdadeiro "samba de doido", do que um empenho na busca de respostas.

Eu não acredito que a maioria esteja em uma busca vã pela fama, como em um reality show. De minha parte, meu trabalho só faz sentido se eu estiver envolvido com paixão, curiosidade, dedicação e amor à ciência. Um desejo de deixar uma contribuição verdadeira para o conhecimento humano sobre nosso planeta.

Na universidade onde trabalho (Universidade Regional do Cariri - URCA) parte de meus companheiros de trabalho não conversam sobre produção científica. Parece que esse mundo de IF, FH e Qualis também não é conhecido pelos alunos da graduação, mesmo os bolsistas de Iniciação Científica e os mestrandos de nosso único mestrado. Alguns professores que sabem dessas exigências preferem também não comentar, porque não possuem FH e/ou não publicaram um único artigo em periódico nacional qualificado na Qualis.

Esse silêncio ora do desconhecimento, ora da dissimulação, amplia minha angústia.

Sabem, certa vez em uma aula de Biogeografia quando cursava doutorado, o prof. José Maria Cardoso da Silva (na época com dois artigos publicados na Nature) falou abertamente: "um certo desejo de ambição e a ciência andam juntos, quem não tiver isso não deveria percorrer esses caminhos".

Na verdade estávamos em uma grande discussão sobre comportamento de cientistas e uma amiga do mestrado, que também estava cursando a disciplina, falava em "amor", "carinho", "humildade" e que não iria se entregar a esse modelo de competição acadêmica.

Ela ficou sozinha... todos nós concordamos com o professor e até gostamos. Hoje diria que estávamos querendo ser, cada um ao seu modo, algo como Dr. House misturado com Dexter na ciência... o que é igual a um desastre em termos de relações humanas! Tive treinamento para me absorver nas hipóteses e ser indiferente, um Dr. House da Zoologia!!! rsrsrs!!!

Entretanto, meu exemplo de cientista era outro. Quando criança adorava assistir ao seriado chamado "O Mundo Animal" (Life on Earth, 1979), apresentado por nada menos do que David Attenborough. Meu pai trabalhava o dia inteiro na fábrica e minha mãe também trabalhava como costureira. Quando vivíamos em Abreu e Lima - PE, lembro de ficar sozinho em casa por volta dos seis anos de idade assistindo TV. Na abertura do Mundo Animal as silhuetas das zebras, girafas e elefantes contra o céu vermelho eram lindas. Acho que a música era do Vangelis (quem lembrar dos detalhes, por favor escreva um comentário)... Eu lembro de David Attenborough falando sobre os animais e no final de cada programa sempre ressaltando a necessidade de preservá-los. Isso foi marcante em minha vida, porque quando criança falava que seria um "cientista" quando crescesse... Entre meus primeiros ídolos, estava David Attenborough!

Não é uma questão de "predestinação", ou algo assim. No momento oportuno e nas condições favoráveis, tornei-me zoólogo... de carteirinha, diplomado e tudo mais. Nunca imaginei que ser um tipo de David Attenborough hoje teria insônia e surtos de ansiedade por causa de IFs e FHs.

Esse mundo é o que me dá prazer de estar vivo, o que me ergue e faz minhas pernas se moverem. Escrevo sobre motivação pessoal, é evidente que possuo outras, como o amor pelos meus filhos e diretrizes de meu partido político (PCdoB). Todavia, o centro do que eu sou, na parte exclusivamente pessoal, está lá uma pedra sólida, bruta, pesada, causa de meus sonhos e amor pela existência: a ciência.

Se me permitem uma comparação a grosso modo, é como ser um músico e amar um estilo musical peculiar como Heavy Metal. Tenho vários álbuns de bandas brasileiras, umas muitíssimo talentosas como o Malefactor (Salvador-Bahia), mas que continuam na cena underground (se é que posso chamar assim). Viver de "música extrema" é uma tarefa quase impossível no Brasil, apenas nomes como Sepultura e Angra conseguiram... e com muito esforço. Em minha opinião, o mesmo está para ciência! Na verdade, a maioria dos pesquisadores brasileiros "ganham a vida" como professores em Instituições de Ensino Superior (IES)... é nosso "underground". Somos professores, mas a maioria tenta se realizar através da pesquisa científica.

Ressalto que não é a obrigação de realizar uma palestra, ou escrever para um jornal de notícias e divulgar os resultados à sociedade. Alguns de meus amigos têm jornadas de trabalho docente difíceis de conciliar com suas pesquisas. Pior ainda é caso alguém com esses sonhos estar em uma IES sem vocação, ou mesmo objetivos científicos, aí o bicho pega mesmo.

Há uma clara neurose entre os pesquisadores no mundo inteiro.

De um lado está a métrica acadêmica dos índices e periódicos de impacto. Nesse mundo nós parecemos máquinas de produção em série de artigos científicos. Publicar, publicar, publicar... Chega-se ao absurdo de publicar apenas por publicar... qualquer coisa! Por outro lado, para agravar essa situação, poderá haver a ausência local da necessidade científica. É saber que o mundo da ciência atual é difícil de se destacar e ainda olhar dos lados e ver seus pares ignorarem e até desconhecerem isso, ou fingirem abertamente.

Eu tenho esse problema conjugado onde trabalho. Na sala de aula da graduação, quem ensina "metodologia da ciência" não fala em IF, FH, ISI, Qualis... e meu horror é maior em saber que os alunos da Biologia desconhecem qualquer filosofia da ciência e mesmo nomes como Karl Popper e Thomas Kuhn.

Alguns professores já falaram com todas as palavras para mim: "eu quero é ganhar dinheiro, não entendo o que você está reclamando". Sempre que isso acontece vem a mente a música de Zeca Baleiro (O Silêncio):
Agora só me falta aprender o silêncio.

Imaginem agora, eu na crise com as regras de produção quase que industriais de artigos e carreiras, mergulhado em um mundo que é indiferente a isso?!!

Eu tenho neurose acadêmica aguda, agravada mais ainda pelo silêncio imposto a minha volta na URCA. Muitos nem sabem disso! Sou tão ligado aos meus sonhos acadêmicos que nem sei como consigo ainda fazer amizades. Não deixo de pensar nisso um só minuto, não há ação minha sem essa motivação... embora a música do Zeca Baleiro não pare de tocar em minha cabeça...
Agora só me falta aprender o silêncio.

Do lado da métrica acadêmica, cresce no mundo à crítica ao sistema dos índices. Existem sérias restrições se toda essa pompa de índices pode realmente medir o valor e impacto de um trabalho inovador. Uma teoria, ou inovação científica pode vir em forma de livro, como aconteceu diversas vezes antes em nossa história. O desafio é encontrar tempo para produzir na ciência trabalhos extensos e profundos sem ser discriminado por publicar menos por ano.

Do lado da atuação profissional, tenho sempre que possível calorosas discussões entre meu grupo de amigos. Somos multidisciplinares, zoólogos, ecólogos, físicos, químicos, farmacêuticos, paleontólogos e compomos um grupo de pesquisa intitulado
Biologia Comparada. Espalhados pelo Brasil, vez por outra conseguimos reunir a maioria de nós em João Pessoa - PB. Quando não, tentamos realizar eventos em nossas IES com palestras e convidamos um ao outro. Por exemplo, a última Semana de Ciências da URCA em dezembro de 2008. Nessa época consegui reunir pesquisadores do grupo Biologia Comparada da Unesp (Luciano Alves dos Anjos), UEPB (Rômulo da Nóbrega Alves) e URCA (faltou Alexandre Vasconcellos da UFRN). Além das palestras, conseguimos acertar objetivos científicos que são a causa de vários de nossos artigos em elaboração hoje.

A hora do café sempre foi interessante e hoje em dia converso muito com amigos da História (Darlan Reis - URCA) e Física (Wilson Freire - UFCG). Além das barrigas que crescem com o sedentarismo, o papo sobre ciência e política é importante para mim.

Infelizmente vários amigos meus deixaram a URCA e foram para outras IES. Plínio Delatorre (atual UFPB), Ricardo Lima (atual UFMA), Wilson Freire (atual UFCG), Bruno Anderson (atual UFAL) e Alexandre Magno (atual UVA-Sobral)... Eles fazem falta na hora do café. Sem contar os vários outros professores que, mesmo sem contato pessoal, eram importantes para a produção científica na URCA.

Nesses momentos eu me pego em pensamentos: "
talvez seja o mais correto é fazer o mesmo e ir embora daqui? Por outro lado, a URCA, por ser pequena, tenha a característica de favorecer o surgimento e consolidação de grupos de pesquisa sem os vícios de IES decanas? Partir, ou ficar? Procurar emprego em uma IES maior, ou trabalhar na construção da qual estou?"

Minhas preocupações, dores de cabeça, decisões que não consigo tomar com facilidade e neurose que permeia o meu silêncio.

Terça-feira passada (dia 17) não deu para chegar em tempo ao trabalho na URCA, faltei o serviço à noite... putz! Estava em meu carro e o horizonte era plúmbeo com raios, trovões e chuva. Escutava uma música chamada Redshfit (da banda Paradise Lost, 2005)... Entrei em êxtase, enchi os olhos de lágrimas e só acordei para a realidade com o protetor do motor raspando em uma lombada:



Redshift(*)
(*) http://cas.sdss.org/dr7/pt/proj/basic/universe/redshift.asp

There's something in the air that greets me
Há alguma coisa no ar que me cumprimenta
There's something in the air
Há alguma coisa no ar
I don't know where I belong, or where does it go from here
Eu não sei de onde eu pertenço, ou para onde vou a apartir daqui
See my dreams; they're not like anyone's
Veja meus sonhos; eles não são como os de qualquer um
There's something in your stare that greets me
Há alguma coisa em seu olhar estarrecido que me cumprimenta
There's something in your stare that tells me where I belong
Há alguma coisa em seu estarrecimento que me conta de onde eu pertenço
And where it all goes from here
E para onde tudo vai a partir daqui
I don't know where I belong or where it all goes from here
Eu não sei de onde pertenço, ou para onde tudo vai a partir daqui
See my dreams; they're not like anyone's, anyone's
Veja meus sonhos; eles não são como os de qualquer um
There's something in the air that greets me
Há alguma coisa no ar que me cumprimenta
There's something in the air
Há alguma coisa no ar
I don't know where I went wrong or where does it go from here
Eu não sei onde eu errei, ou para onde ir a partir daqui
See my dreams; they're not like anyone's, anyone's
Veja meus sonhos; eles não são como os de qualquer um, os de qualquer um

É verdade muito séria para mim, meus sonhos não são como nenhum outro.

Da neurose acadêmica, dos meus dias de silêncio, da ciência que amo.

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O grupo de Biologia Comparada:
Para saber mais sobre os trabalhos científicos desenvolvidos pelo grupo de Biologia Comparada leiam neste Blog [click]:
Quando eramos vermes
Sobre status e carreiras científicas no Brasil:
http://www.scielo.br/pdf/hcsm/v16n2/13.pdf
Sobre críterios Qualis, há uma comunidade no Orkut muito legal chamada "Eu já publiquei em Qualis C":
http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=7945365
Sobre Fator de Impacto e Qualis:
http://www.biblioteca.epm.br/f_impacto.htm%22%3Ehttp://www.biblioteca.epm.br/f_impacto.htm
Sobre
h-index:
Hirsch, JE., 2005. An index to quantify an individual's scientific research output. PNAS 102 (46): 16569–16572. doi:10.1073/pnas.0507655102
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