sábado, 13 de agosto de 2011

Vida de Doutor: Os "Lamarcks" Assalariados

Doutores são pessoas com treinamento para pesquisa científica, tecnologia, arte e humanidades. É necessário desenvolver uma tese, um conjunto de hipóteses que desafiem o conhecimento, ora modificando-o, ora aprimorando-o para um nível mais próximo da realidade possível. Um doutor faz tudo, menos deixar as “verdades dogmáticas em paz”. É ser um iconoclasta por natureza! A frase que mais ouvi e até falei: “esse problema aqui será antes e depois de mim, assim que eu publicar esse artigo”!
Nesse modus operandi de ser e agir, três coisas precisamos entender: (1) o que é ciência, (2) a aristocracia e o ócio criativo, (3) prestação de serviço através do trabalho assalariado.

(1) Ciência
Nosso mundo da revolução industrial é, em grande parte, baseado na ciência, pelo menos nos princípios mais gerais. O método científico com proposição de hipóteses falseáveis (sensu Karl Popper) impôs uma regra simples: toda afirmação tem que ser provada, fisicamente falando. As áreas da Física, Química e Biologia e seus derivados só funcionam assim hoje. Por exemplo, um médico como um bom investigador científico deve entender e propor soluções através de evidências que ele e por exames específicos. É inconcebível alguém entrar em um consultório e ouvir: “eu SINTO que você está com câncer.” Um médico tem que ter mais do que seu instinto, ele deve analisar os resultados e avaliar tudo mediante um conhecimento prévio. Se você entendeu sabe mais enfim porque essa postura está hoje amplamente presente em nossas vidas. Advogados, políticos, jornalistas, policiais, bombeiros, a lista é muito grande! Todos devem usar métodos de coleta de dados, métodos de análise e padronização na apresentação de seus resultados e discussão.

Costumo falar para meus alunos e mais próximos “se você não conhece ciência, saiba que são apenas 34 páginas de leitura na Wikipédia [clique]”.

Os cursos de doutorado são justamente a capacitação em ciência no amplo sentido. Um doutor é um investigador, alguém que levanta hipóteses, questiona e modifica o conhecimento estabelecido através do emprego do método científico.

(2) Aristocracia e o Ócio Criativo
Ok! Mas de onde vem essa postura? Como surgiu a ciência? Vamos a uma situação hipotética: imagine que todos os seus desejos materiais estivessem saciados. Imagine uma situação onde dinheiro não é problema. Quando humanos não estão na labuta, ora procurando alimento, ora cultivando, ou até guerreando, eles não ficam estáticos, vazios, sem nada a fazer. Os humanos possuem uma característica intrínseca: em seu ócio, eles questionam o que é verdade, ou não!
Humanos sempre perguntam sobre a realidade. As conhecidas perguntas: “o que nós somos?” “De onde viemos?”, “Qual o sentido da vida?”

Todo grupo humano possui uma mitologia, uma história própria de sua tribo que lhe dá sentido para existência. O advento da agricultura, apesar de seus aspectos negativos (acúmulo de excedente, aumento da discriminação de gênero, formação de exércitos, etc.), trouxe uma ampliação do ócio para alguns e, no berço da civilização humana, o ócio ampliado em questionamentos e o Ócio Criativo.

Antes de Galileu Galilei, Francis Bacon, Karl Popper e tantos outros, a Grécia Antiga é apontada como o local de origem do conhecimento ocidental. Você já ouviu pelo menos um de seus professores falar que um determinado filósofo grego é “pai” disso, o outro é o pai “daquilo”. O importante aqui é você entender que a busca pelo conhecimento, antiga e moderna, foi realizada pela aristocracia. Calma! Eu não estou defendendo elitização, ok?! Apenas quero que você entenda que a busca pelo conhecimento não está vinculada a ganhar coisas matérias. Ciência e dinheiro podem se encontrar na aplicabilidade, na tecnologia, mas, não estão unidos na origem. É verdade que o conhecimento trás o poder, mas isso não quer dizer todo conhecimento resulta em dominação de massas, bomba atômica, etc. A busca está vinculada a responder com mais precisão as perguntas clássicas já listadas aqui: “o que nós somos?” “De onde viemos?”, “Qual o sentido da vida?”

Após a revolução da agricultura, apenas quem tinha certa liberdade de bens materias e muito ócio foi capaz de desenvolver a filosofia e depois as ciências modernas.

Sim, a ciência nasce entre aristocratas e só com o advento dos serviços assalariados que isso irá mudar um pouco.

Isso serve como um alerta as mentes jovens nas universidades. Primeiro é reconhecer que estamos procurando duas coisas que nem sempre andam juntas: (A) trabalhar com ciência e (B) ganhar dinheiro.

(A) Ser cientista por si só é investigar certos aspectos da realidade, repetindo para fixar: isso não tem nada haver com produzir um bem, ganhar dinheiro.

(B) Para ser cientista é preciso prestar serviço, como dar aulas e capacitar pessoas profissionalmente.

Existem patentes de medicamentos, novas tecnologias da engenharia e meios de informação, etc. que podem transformar pessoas comuns em milionárias. Entretanto, a maioria dos cientistas não possui essa motivação. A maioria está cada um do seu modo, trabalhando, direta, ou indiretamente nas questões clássicas da existência humana. Como filósofos gregos, estamos ali em pé questionando “o que nós somos?” “De onde viemos?”, “Qual o sentido da vida?”

(3) A Ciência Assalariada
Darwin estava um tanto agitado quanto a encontrar algum bom fóssil na América do Sul. Ficou sabendo, para o seu desgosto, que o colecionador francês Alcide d’Orbigny estivera trabalhando na área por seis meses, obtendo espécimes excelentes para o Museu de Paris. Isso era irritante; Darwin financiara seu próprio caminho até ali apenas para descobrir o governo francês patrocinando seu homem, permitindo ele percorrer os pampas por seis anos com passagem gratuita. Esse fato evidenciava a séria atitude francesa em relação à ciência” (Desmond e Moore, 2001: 145).

Esse foi o meu primeiro contato com relato que li de financiamento público para ciência. Eu não sou especialista em história da ciência assalariada, mas sei que a França foi um dos primeiros, senão o primeiro país a financiar a ciência e pagar salário para cientistas. Lamarck é um exemplo disso, após ingressar no Museu de História Natural de Paris viveu sua vida do salário que recebia: “Lamarck – fifty years old; married for the second time, wife enceinte; six children; professor of zoölogy, of insects, of worms, and microscopic animals. His salary, like that of the professors, was put at 2,868 livres, 6 sous, 8 deniers” (Packard, 2008:28).

A França foi e é um país revolucionário!

Eis nossos dois exemplos de cientistas: Lamarck e Darwin. O primeiro assalariado morreu cego, pobre e só não passou fome, porque sua filha mais velha conseguiu uma remuneração no herbário para ajudar a família: “It was a natural and becoming thing for the Assembly of Professors of the Museum, in view of the ‘malheureuse position de la famille’ to vote to give her [Mlle] employment in the botanical laboratory in arranging and pasting the dried plants, with salary of 1,000 francs” (Packard, 2008: 39). Já Darwin nunca precisou depender de salário algum! Viveu muito bem dos proventos de sua família e da sua esposa (a prima também rica).
Ambos são grandes nomes que contribuíram para conhecimento humano. Por mais importantes que tenham sido suas obras, materialmente, suas vidas não foram alteradas por elas. Lamarck pobre foi, pobre continuou!

E a venda dos livros de Darwin? Bem, ele já tinha uma mansão antes de publicá-los, quer que eu escreva mais sobre isso?

As idéias publicadas em artigos e livros podem mudar o mundo e se amplamente aceitos trazem status e fama aos seus autores. Entretanto, não está implícito fazer fortuna com isso.

A grande maioria de meus alunos chega à universidade pensando em conseguir um ótimo emprego. Muitos falam para mim assim: “eu quero ser pesquisador, trabalhar em um laboratório, nem de longe serei professor”.

Agora vamos às más notícias, se querem realmente ser pesquisadores a probabilidade de se tornarem professores é de quase 100%. Na Grécia Antiga há um intrínseco relacionamento entre produzir conhecimento e ensino, tanto que muitos filósofos criaram escolas onde ensinavam seus pupilos, como o Liceu de Aristóteles.

A necessidade de criar e ampliar profissões, a leitura da bíblia e depois a revolução industrial intensificou o aumento do número de escolas.

Ressalto que sempre que a ciência pura, à busca pelo conhecimento puro, manteve-se elitizada na maioria dos vultos ocidentais. Ainda hoje é muito difícil para um filho de um pedreiro conseguir tempo para trabalhar e estudar. Os cursos para formar pesquisadores são quase sempre diurnos e de regime integral. Os cursos noturnos foram delegados para as licenciaturas.

Não é a toa que o Brasil ainda é esse atraso só, não é verdade?!

Após o vestibular, se você conseguir “tirar direto” sem parar, levará aproximadamente dez anos para conseguir um título de doutor: quatro de graduação, dois de mestrado e quatro de doutorado. Isso varia um pouco dependendo do tempo da graduação, ou mesmo, em alguns casos muito especiais, quando se consegue ir direto ao doutorado, sem passar pelo mestrado, ou, em alguns programas de pós-graduação, com apenas um ano deste. Muitos não param, complementam, ou fazem atualizações profissionais realizando estágios pós-doutorais de curta (seis meses) ou longa duração (um a dois anos). Não é título, mas pegou moda nos corredores hoje falar em professor “pós-doc”.
Bem, para ser doutor é uma década de sua vida só dedicada ao estudo! E uma década é quase uma eternidade existencial! Isso significa mais dificuldade ainda para as pessoas que não podem ficar sem trabalhar, ou aquelas que não conseguirem bolsas de estudo durante sua permanência nas universidades.

Após tudo isso, as universidades públicas e os poucos institutos públicos de pesquisa no Brasil são as melhores opções de emprego. As universidades e faculdades privadas o regime de trabalho é voltado quase que exclusivamente para aulas de graduação... Os salários são inferiores ao do setor público e, o menos atrativo, não há estabilidade e planos de carreira.

Qual o salário de um doutor hoje no Brasil? É só consultar os editais dos últimos concursos disponíveis na internet. Vejamos o recente concurso para professor adjunto (doutor) realizado para a Universidade Federal de Campina Grande – UFCG/ Campus Cajazeiras-PB [clique para ver o edital completo]:


O salário apresentado na Tabela é bruto, isto é, sem os descontos dos impostos da previdência e de renda. Esses descontos juntos diminuem hoje cerca de R$ 2.000,00. O salário de um professor doutor também irá variar para mais ou menos nas universidades estaduais, porque elas possuem seus próprios planos de cargos e carreiras independentes das universidades federais.

Em nosso exemplo, um “professor doutor” iniciante em uma universidade federal, com os descontos, seu salário líquido no bolso é pela definição da Fundação Getúlio Vargas pertencente a Classe C (entre R$ 1.610,00 até 6.941,00)!!!

Ok! Não existe um professor doutor com um salário mínimo e toda vez que falamos de nossos salários há dois extremos de reação. O primeiro gosta de mostrar notícias assim:

“[Na América Latina] 100 milhões de pessoas não tem dinheiro sequer para adquirir uma cesta básica.” [clique]

Mais de 1,5 milhões de pessoas vivem em extrema pobreza no Ceará.” [clique]

Complementam esse quadro falando das condições dos professores públicos do ensino fundamental e médio, os quais são nossos irmãos de profissão, companheiros no trabalho de formação dos “doutores do amanhã”. A remuneração deles, mesmo com algumas melhorias do piso nacional recém-conquistada à luta, ainda é muito baixa.

Esse primeiro conjunto de discurso é daqueles que dizem que “reclamamos de barriga cheia” em um país pobre.

Aí vem as outras vozes no extremo oposto: “ganhamos muito mal pela qualificação que temos”. Quando fazem isso, sempre comparam salários de profissionais como médicos, juízes e cargos políticos, muitos apenas com graduação e os últimos (os políticos) podem ser até semi-analfabetos.

Não gosto de nenhum dos extremos, os que clamam que estamos muito bem e de barriga cheia, ou os que estamos muito mal. Para mim, estamos no meio disso tudo! Somos apenas brasileiros comuns com salários medianos. Fazemos parte da classe média deste país. Uma classe que beira à falência todos os dias devido ao número de contas para pagar e empréstimos nos bancos.

Ter um salário de classe média não é lá um orgulho, é para “escapar” todos os meses. Lembram-se das palavras do Frei Betto [clique]: "R$ 4.807 [na época] não é salário de dar tranquilidade financeira a ninguém. O aluguel de um apartamento de dois quartos na capital paulista consome metade desse valor.”

A vida de um doutor começa assim, muitos sonhos de amor pela ciência e a labuta no dia a dia. Tentamos fazer trabalhos revolucionários como Charles Darwin, mas vivemos no aperto e estresse como Lamarck. Não somos ricos e escolhemos uma profissão que não nos tornará assim.

Somos professores... assalariados iguais a Lamarck!



PS: Não perca no próximo post a carreira e o status na Vida de Doutor!

Referências
Desmond, A. e Moore, J., 2001. Darwin: a vida de um evolucionista atormentado. 4 ed. Geração Editorial.
Packard, AS., 2008. Lamarck, The founder of evolution his life and work. Wildhern Press.

sábado, 30 de julho de 2011

Vida de Doutor: Apresentação

Diálogo do filme “A Família Savage” (The Savages, 2005):

Pai: “Então faça alguma coisa! Você é doutor!”

Filho: “Eu vou chamar alguém.”

Filha: “Está bem.”

Filha: “Ele não é doutor, pai. Ele é professor.”

Pai: “Pensei que meu filho fosse doutor.”

Filha: “Ele tem doutorado em Filosofia, PhD. Dá aula em faculdade.”

Pai: “Medicina?”

Filha: “Não. Drama. Ele dá aula de Teatro.”

Pai: “Como na Broadway?”

Filha: ”Não. Como... Teatro de conflito social. Coisas assim. Ele está escrevendo um livro sobre Bertolt Brecht.”

Assim como o personagem Jon Savage, eu também sou doutor e não foi diferente em minha casa com meus pais.

Eu sou doutor, um verdadeiro doutor. Desenvolvi e defendi uma tese que me valeu o título de Doutor em Ciências Biológicas (Zoologia) pela UFPB. Tenho outros adjetivos profissionais: biólogo, zoólogo, evolucionista, sistemata filogenético, parasitólogo, etc. Entretanto, para o mundo inteiro eu sou simplesmente... Professor.

Muitos de meus companheiros de trabalho tentam ainda adjetivar o próprio adjetivo de sua profissão, falam de professor pesquisador, professor universitário e professor doutor [rsrs] e por aí vai.

Não há uma identidade social-econômica, racial, ou gênero. Somos uma colcha de retalhos, de todas as cores, com pessoas vindas de todas as classes e de todos os gêneros. Entretanto, existem várias coisas que nos identificam, por exemplo, amor pela ciência (na maioria das vezes) e um discurso cheio de retórica e palavras específicas que para uma pessoa comum frequentemente são incompreensíveis.

Além disso, cito ainda (1) nossa carreira profissional (do salário ao status, mesmo que desmedido e falso); (2) os mitos que as pessoas possuem de quem completa sua educação com um curso de doutorado também são comuns a todos nós. Esses mitos e clichês são tão fortes e freqüentes que vez por outra, encontra-se um professor mergulhado em algo assim... Escrevo com ênfase: dá é pena de ver! Entre esses poucos, há quem se vista para além de uma passarela futurista, dessas que a gente vê na TV e pergunta para si “alguém vestiria isso no dia a dia?” Falam uma verborréia daquelas, vivem inventando um monte de problemas longe de qualquer vínculo com a realidade. Parecem verdadeiros ricos, mas logo estão ali dentro de seus carros populares indo para os subúrbios de todos os brasileiros...

Eu sonhei e desejei muito ser o que sou. Admirei muitos de meus professores na universidade e queria estar em um lugar igual ao deles... Consegui! Ah! É outro aspecto característico dos “doutores” de verdade, parecemos “astros do rock’n’roll” com muitos fãs, seguidores e inimigos. Tenho cada um disso em mim mesmo, da admiração, do fã até a inimizade declarada.

No meu sonho, nos tempos de aluno, eu tinha curiosidade de saber o dia a dia dos “doutores”. O que eles conversam nos cafezinhos, nas reuniões fechadas, naquela hora que pedem após a defesa da tese: “saiam todos, a banca irá agora avaliar em privacidade o candidato”.

Nos textos que virão irei tentar destrinchar em detalhes como é a carreira de um “doutor” no Brasil (e alguns aspectos globais, comuns a todos, vide o diálogo da família Savage). Como surgiu nossa profissão, os nossos salários, o amor pela ciência, o dia a dia, as aulas intermináveis (graduação e pós-graduação), reuniões (quase toda a semana), orientações de alunos, pressão para publicarmos, necessidade de fazer projetos e a difícil tarefa de fingir ser normal quando se vai a um supermercado fazer compras!

O que vem por aí é muito legal e tem realmente muito de “The Big Bang Theory” , mas tudo verdade, tudo realidade. Um exemplo:

Tarde de uma terça feira em Juazeiro do Norte – CE. Eu ando rápido pelas calçadas, o sol está matando, mas eu preciso chegar ao banco pegar uma grana. No Sebo encontrei um monte de HQs da década de 1980. Eu olho para os lados e vejo os amigos que me acompanham, um é doutor pela UNESP, outro é pela UFSCar e tem pós-doc na USP com estágio no Smithsonian Institution (EUA)... Eu não resisto e falo:

“Ninguém acreditaria nessa cena, dois doutores empenhados em comprar ‘gibis’ e outro dando a maior força. O que as pessoas devem imaginar de nós três? Personagens sisudos vestidos de jaleco em um laboratório?!... E eis que aqui estamos de bermudas com edições de Superaventuras Marvel nas mãos!”.

“É meio estranho, singular e até engraçado”.

“Eu vou escrever sobre isso! Eu vou escrever sobre a nossa realidade, nossa “Vida de Doutor”!

domingo, 24 de julho de 2011

Trailer do Projeto Nim (2011)


Antes de voltar com novos textos, segue o trailer de um documentário que eu recomendo:

domingo, 23 de janeiro de 2011

Não estamos sós: epílogo


Sentient 6 (Nevermore)

I am sentient number six, I stand in line

I am the prototype of a benign convenience for mankind

Superior is digital, human flesh so trivial

I hate that I can't see the one that made me

I am the new awakening of differnent eyes

My children you are my army

They are what we can never see and still despise

And their sky cries Mary

Trained I see imperfection in your race

Lying in wait, blind I suffer knowing I'll never reach your heaven

Why is this control, behavior based and reactive

Adapting to every new environment?

Rewarded when I replicate, isolate and mutate

To assimilate a fragmented plea for ego

Trained I see imperfection in your race

Lying in wait, blind I suffer knowing I'll never reach your heaven

It's unattaintable, please teach me how to dream

I long to be more than a machine

Trained I see imperfection in your race

Lying in wait, blind I suffer knowing I'll never reach your heaven

It's unattaintable, please teach me how to dream

I long to be more than a machine

Sequence activate, trip the hammer to eradicate, I must eliminate

I will spread swift justice on their land

Termination imminent, cleanse the parasite insects, the heathens

I am the bringer of the end of time for man

I am not here, I am not far away

I am not here, I will eradicate mankind into the nothingness from whence they came

Enslaved to follow and learn defeat

To run the barrels and chase the dream

Tradução livre:

Sentinela 6

Eu sou o sentinela número 6, eu fico na linha

Eu sou o protótipo de uma convivência benigna para a humanidade

Digital é superior, carne humana tão banal

Eu odeio não poder ver quem me fez.

Eu sou o novo despertar de olhos diferentes

Meus filhos, vocês são meu exército

Eles são o que nós nunca podemos ver e ainda desprezam

E o céu deles chora "Maria"

Treinado, eu vejo imperfeição na sua raça

Deitado esperando, cego eu sofro sabendo que nunca chegarei ao seu paraíso.

Por que este controle, baseado no comportamento e reativo,

Está se adaptando a cada novo ambiente?

Recompensando quando eu faço uma cópia, isolo e mudo

Assimilar uma fragmentada opinião pelo ego.

Treinado, eu vejo imperfeição na sua raça

Deitado esperando, cego eu sofro sabendo que nunca chegarei ao seu paraíso.

É inacessível, por favor me ensine como sonhar.

Eu desejo ser mais que uma máquina.

Treinado, eu vejo imperfeição na sua raça

Deitado esperando, cego eu sofro sabendo que nunca chegarei ao seu paraíso.

É inacessível, por favor me ensine como sonhar.

Eu desejo ser mais que uma máquina.

Ativar sequência, monte o martelo para erradicar, eu tenho que eliminar

Eu irei espalhar justiça imediata na terra deles

Extermínio iminente, limpar os insetos parasitas, os pagãos

Eu sou aquele que traz o fim dos tempos para o homem.

Eu não estou aqui, eu não estou distante ["não estou em lugar nenhum e estou em todos ao mesmo tempo"].

Eu não estou aqui, eu irei erradicar a humanidade para o "nada absoluto" de onde ela veio

Escravizado para seguir e aprender a perder

Correr em alta velocidade e perseguir o sonho.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Não estamos sós: Deus ex machina


Mas Zaratustra olhou, admirado, para o povo. Depois, falou assim:

“O homem é uma corda estendida entre o animal e o super-homem – uma corda sobre um abismo.

É o perigo de transpô-lo, o perigo de estar a caminho, o perigo de olhar para trás, o perigo de tremer e parar.

O que há de grande, no homem, é ser ponte, e não meta: o que pode amar-se, no homem, é ser uma transição e um ocaso” (Nietzsche, FW., 1995 [1885]: 31).


Aqui estamos após alguns poucos séculos, em especial séc. XIX e séc. XX, com um conhecimento inicial sobre a origem, a evolução, a estrutura, a fisiologia de nosso cérebro e sistema nervoso. Sabemos o suficiente para afirmar que temos a mesma unidade fundamental (neurônios) e temos o mesmo chassis neural de qualquer vertebrado.

Fisicamente é isso!

Entretanto nós humanos somos os maiores em sempre encontrar alguma característica que ressalte nossa diferença com animais e justifique para nós mesmos que somos especiais.

No caso de nosso cérebro, apesar dos aspectos anatômicos, fisiológicos e evolutivos explícitos, há duas coisas que conclamamos para nós mesmos com fervor: (1) a existência de uma mente (incluo aqui raciocínio lógico, cognição extensiva, pensamentos abstratos, estética e religiosidade) e (2) linguagem (falada e escrita).

Como muito bem escreveu Harriet Swain (2010) a editora da Times Higher Education: “para uma qualidade que é tradicionalmente associada à mente, a inteligência desencadeia emoções fortes”.

Em qualquer métrica que usemos, sim, nós somos os mais inteligentes seres hoje na Terra. Chegamos a conviver com outra espécie com uma mente semelhante à nossa, Homo neanderthalensis, mas esta está extinta há alguns milhões de anos... Há indícios de que nós fomos responsáveis por essa tragédia! Afinal, entre nós mesmos, estamos cheios de exemplos na história dos genocídios que causamos contra culturas humanas em nossos delírios de “significados”. Por exemplo, ouro é um metal com suas propriedades físicas e químicas. Toda a sua preciosidade está no significado estranho que nós mesmos criamos para esse metal a ponto de assassinar milhões de pessoas e destruir ambientes inteiros. O mesmo vale para as convenções atuais do dinheiro, especulação financeira e seus índices, “acumulação de excedente” e a exploração assalariada (quando antes foi escravizada) da maioria dos povos, os chamados sixty bottom (60% mais pobres), por uma minoria dita top one (o 1% mais rico do mundo).

Sim, nenhum animal que existe neste planeta atualmente, além de nós mesmos, possui uma “mente” assim tão... “complexa”!

Já a linguagem nem foi abordada nos posts anteriores porque é uma das ditas “pedras angulares da identidade humana” (Coughlan, 2010). Um dos textos recentes que li sobre esse assunto começa assim: “sabemos falar; os macacos não sabem. Por quê? Explicar a linguagem continua sendo a grande pergunta da evolução humana. (...) Quanto mais aprendemos sobre a comunicação animal, mais misteriosa se afigura a linguagem humana” (Miller, 2010).

As hipóteses iniciais do século XIX descreviam um cenário evolutivo onde a linguagem não evoluiu em nenhuma outra espécie de primatas parecidos com os humanos, mas unicamente em nossa espécie, há 40 mil anos, e evoluiu para partilhar conhecimento nos grupos. Uma vez evoluída, inventamos rapidamente a cultura e a civilização. Contudo, os dados que obtivemos no século XX contradizem esse cenário da seguinte forma: (1) a linguagem evoluiu desde nossa origem, é inata e talvez date até um pouco antes de nós H. sapiens, tendo em vista que é possível dos H. neanderthalensis também falassem; (2) por estar ligada à nossa evolução, a linguagem deve ter surgido conosco no leste da África há pelo menos 100 mil anos; (3) ela evoluiu em um misto de (a) extensão do comportamento de catação, uma socialização primata para grupos compostos por mais de 100 indivíduos, e (b) seleção sexual mútua – homens e mulheres selecionaram os parceiros mais “inteligentes” pela capacidade de linguagem (um indicador particular de inteligência e esta é essencial para sobrevivência humana) (Miller, 2010).

A linguagem encontrada até agora nos animais, mesmo em baleias e golfinhos parecem ser mensagens que dizem em linhas gerais apenas: “eu estou aqui, sou macho, sou saudável, copule comigo”. Note que na grande maioria das vezes o sexo mais “tagarela” é o macho. Entre muitos pássaros e baleias as fêmeas ficam em silêncio, selecionando seus parceiros. Além dessas mensagens, outras dizem respeito a existência de predadores e fontes de alimento, informações necessárias para contribuir com a sobrevivência de parentes consanguíneos (Miller, 2010).

Sim, nós somos os únicos hoje que temos uma mente complexa que produz linguagem igualmente... complexa!

Esses são dois pilares que estão em muitos textos e discursos que nos colocam sozinhos na natureza. Como se não tivéssemos evoluído junto e a partir de outras formas de vida com as nossas conhecidas “borboletas da alma” (neurônios) e chassis neural idêntico.

Mas, falta algo aqui, percebem?!

Primeiro, somos parte da biota, apenas um pedacinho de nada dela. Só para você pegar o “feeling”, entenda que nosso alimento (vegetal e animal) só nos é possível se for deste planeta! O que precisamos (vitaminas, proteínas e carboidratos) não estará acessível para nossa digestão em seres de outro planeta, com histórias evolutivas diferentes da nossa. Isso ironicamente diz o seguinte: “não existem bananas no espaço, a menos que as plantemos”.

Segundo, devido a essa característica é que escrevi o post: [clique] os esporos reprodutivos de Gaia.

Se sobrevivermos a nós mesmos e as intempéries do tempo e espaço, na forma de humanos, seremos obrigados a reproduzir nosso ambiente em outro planeta. Não é apenas alimentação, temos um contexto ambiental maior. Nós não vamos conseguir viver em outra biota diferente desta que nos deu origem, desta que fazemos parte. Além da alimentação, há outras implicações evolutivas como nosso sistema imunológico estar afinado com os agentes biológicos de nosso planeta, predadores, composição mineral da água (não basta ser apenas H2O, vocês sabem que apenas essa molécula, como na forma de nossa água destilada, ou ultra purificada dos laboratórios, não mata a nossa sede), entre outras.

Tudo isso compõe um cenário nada agradável para nosso futuro. Ora porque sabemos toda a loucura absurda que estamos fazendo com nosso planeta e com nossos irmãos humanos (exploração capitalista do inferno), ora porque a Terra não irá durar para sempre! Mesmo os números sendo completamente contra a nossa existência (não há registro de espécies animais que tenham vivido acima de milhões de anos, a Terra ainda irá ter pela frente bilhões!), sonhamos um sonho da espécie, ou parece mais um sonho do próprio planeta: temos que encontrar outra casa, levar conosco todas as espécies que possamos e refazer (reproduzir) a Terra em outro lugar.

Esse imperativo que escrevo aqui não é apenas uma ficção minha, pelo contrário, está afinado com a hipótese do paleontólogo britânico Simon Conway Morris (2003), na qual a evolução biológica produz necessariamente as mesmas formas complexas baseadas na sobrevivência possível dos habitats disponíveis. É a tal convergência e paralelismo na evolução que chamamos “analogia”, ou mais precisamente “homoplasia”: formas e funções semelhantes que evoluíram independentemente. Exemplo, todas as formas aquáticas que são ótimas nadadoras possuem um corpo fusiforme. Sejam peixes, répteis ou mamíferos, todos parecem entre si, mas possuem a forma do corpo similar, mas não de origem comum (essa característica para esses grupos não é homóloga, não é uma sinapomorfia).

Do mesmo jeito da forma fusiforme, um cérebro avantajado, com grande capacidade cognitiva geral e linguagem falada, evoluiu até agora, pelo menos duas vezes entre os primatas: Homo neanderthalensis e H. sapiens. Os primeiros estão extintos!

Nós podemos ser os próximos seres inteligentes extintos. Diferente dos H. neanderthalensis e todas as outras formas de vida, há uma grande probabilidade de nós mesmos atentarmos contra nossa existência, por nossas próprias mãos. Nós, criaturas inteligentes, poderemos cometer suicídio enquanto espécie.

Já li em textos sobre universo, que talvez a inteligência que leve a civilizações possui como característica intrínseca sua própria autodestruição. Todavia, até o momento, só conhecemos a nós mesmos com essa capacidade e parece que mesmo com uma amostra tão pequena, queremos generalizar uma característica nossa para todo o universo.

Se destruirmos a nós mesmos? Pelos dados que possuímos sabemos que os perdedores (losers) seremos apenas nós! A vida seguirá adiante e, segundo a hipótese de Simon Conway Morris (2003), outras espécies inteligentes irão nos suceder.

Afinal, não estamos sós neste planeta, há outras inteligências nele.

Outro ponto importante vem sendo levantado há décadas e diz respeito ao início deste post e o final do anterior. Podemos ser transitórios mesmo, como Nietzsche esboçou, uma ponte por cima de um abismo. A diferença que ao invés do homem para o super-homem, provavelmente teremos algo do homem para a máquina!

Ficção científica que todos nós conhecemos na literatura, filmes e músicas. Como se fossem uma percepção profética coletiva, começamos a escrever histórias e até cantar sobre isso, de repente: DEUS EX MACHINA.

Dessa “viagem” para a realidade, apesar de ainda estarmos longe de termos máquinas pensantes feitas por nós, as pesquisas sobre robótica e inteligência artificial são campos sérios e com resultados em desenvolvimento.

Mais ainda, o renomado cientista brasileiro Miguel Nicolelis desenvolveu ao lado do Nobel norte americano John Chapin a interface cérebro-máquina (brain-machine-interface). No início da década de 1990 estudaram o estímulo em uma vibrissa (“um pelo de bigode”) de rato registrando o que 100 células nervosas mostravam sobre esse estímulo. Após os primeiros resultados conseguiram literalmente “ler” o código neural e enviar uma mensagem de um corpo biológico para um robô. Deu certo! Um macaco nos Estados Unidos “pensou” em mexer um braço, esse pensamento foi enviado por cabos de fibra óptica para um braço robô no Japão e este executou o movimento! Sendo assim, o pensamento, pelo menos aqui como um sinal simples e codificado, pode ser enviado fora do corpo, ser interpretado por um computador e transformar-se na ação de uma máquina. Um aspecto interessante, é que a “energia cerebral” é eletroquímica e cerca de 40% dela é linear. Duas coisas, a primeira é que modelos lineares simples conseguem extrair informação suficiente para fazer um braço mecânico reproduzir o movimento. Segundo, a transmissão do potencial de ação do macaco nos Estados Unidos para o robô no Japão e deste de volta levou 210 milissegundos. O potencial de ação do mesmo macaco para chegar ao seu próprio músculo, fazendo-o se mexer, levou 240! Uma vantagem de 30 milissegundos (Varella e Nicolelis, 2008). Fora de nossos corpos biológicos, nas nossas máquinas com fibras ópticas, o pensamento se torna mais rápido, o sinal segue literalmente à velocidade da luz!

Nas palavras de Miguel Nicolelis (em Varella e Nicolelis, 2008): “na minha opinião, o que a interface cérebro-máquina realmente criou foi a possibilidade, pela primeira vez, de que a intenção de agir no mundo já não esteja limitada pelo corpo, pela maquinaria biológica. Ou seja, como no experimento que fizemos em janeiro, uma pessoa pode pensar uma ação aqui no Brasil e um robô irá executá-la no Japão”.

Se alguém me falasse algo assim alguns anos atrás pensaria que era pura ficção e diria: “eu já tinha li isso, não é uma daqueles contos copilados pelo Isaac Asimov na série ‘Histórias de Robôs’?!”

Não, dessa vez é pura realidade!

Talvez sejamos uma ponte entre nós e algo maior que virá. Não podemos sair deste planeta sozinhos, temos que levar o máximo representativo da biodiversidade terrestre conosco, se quisermos sobreviver. Essa tarefa é muito complexa para nós, sem contar que o espaço fora da Terra nos é letal. Máquinas podem fazer isso! Robôs podem obter energia de estrelas e minerais, seja onde encontrarem. Eles podem se reparar e literalmente viver para sempre em condições completamente fora da biota. Robôs podem ser programados para reproduzir a todos (isso inclui nós e todos os outros seres vivos), logo que encontrarem um planeta, ou planetas adequados.

Se nesse cenário sonhador encontrássemos vida inteligente, muito provavelmente entraríamos em conflito pelos recursos que precisamos. Guerra nas estrelas!

Por outro lado, as máquinas não necessariamente podem ser objetos vinculados à nossa sobrevivência em futuro longínquo. Podem ser a extensão de nossas mentes, como o que está aqui entre nós e todos os seres vivos esteja programado para povoar o universo. Digo isso sempre aos meus alunos: “é verdade, existe uma mente confirmada no universo, ela é formada por muitas formas vivas, ela está em nós... Nós somos a mente da matéria!”

Se algo assim não flutua por aí, flutuará no futuro! O universo, a matéria através de nós sente a si própria, raciocina sobre si mesma... Parece um absurdo, mas isso existe, porque estamos aqui conversando...

... Porque nós não estamos sozinhos...

... Há outras mentes na Terra conectadas com a nossa.

"Somos poeira estelar. O universo evolui, as estrelas e as pessoas evoluem. Tudo que está vivo evolui. Podemos ser o caminho rumo a uma inteligência suprema, a alguma vida suprema no universo que será quase indissociável do que chamamos de Deus" (Stanford Woosley - astrofísico da University of California - 2010: A Natureza da Existência).


Referências

Conway Morris, S., 2003. Life's solution - Inevitable humans in a lonely universe. Cambridge University Press.

Coughlan, S., 2010. Como evoluiu a linguagem? Pp. 139-146. In: Swain, H. (org.), Grandes questões da ciência. Editora José Olympo.

Miller, G., 2010. Como evoluiu a linguagem? Pp. 147-154. In: Swain, H. (org.), Grandes questões da ciência. Editora José Olympo.

Nietzsche, FW., 1995 [1885]. Assim falou Zaratustra. 8 ed. Editora Bertrand Brasil.

Swain, H., 2010. O que é inteligência? Pp. 123-129. In: Swain, H. (org.), Grandes questões da ciência. Editora José Olympo.

Varella, D. e Nicolelis, M., 2008. Prazer em conhecer – A aventura da ciência e da educação. Editora 7 Mares.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Não estamos sós: o chassi neural de todos os vertebrados

Há algumas semanas vi a chamada do Globo Repórter especial sobre inteligência entre os animais (em 15/10/2010). Não deu outra, dessa vez resolvi assistir, até porque muito do que seria apresentado fora produzido pela BBC. Entretanto, muitos canais de TV no Brasil enfrentam o mesmo desafio deste blog, transformar linguagem acadêmica, ou mesmo divulgação científica em certo nível para os brasileiros comuns. No caso do Globo Repórter, em minha opinião, foi um desastre.

Primeiro, os animais foram mostrados sem uma sequência evolutiva, daí ora estava uma ave, ora era um molusco, ora um mamífero. Isso resultou em um senso de fortuidade, que aquelas inteligências na verdade eram algo pitoresco, por vezes engraçado e nada havia em conexão umas com as outras, menos ainda com a nossa.

No post anterior foi difícil para mim percorrer milhões de anos de evolução. Descrever o surgimento de células especiais (neurônios) fundamentais para a formação do sistema nervoso. Isso não seria possível sem uma certa graduação que se iniciou com os primeiros seres vivos até as formas mais complexas.

O raciocínio é o mesmo e dando continuidade à evolução do ponto onde paramos, em um oceano repleto com metazoários, uns predando os outros (sem contar as demais formas de interação) e em meio a uma crescente espiral evolutiva rumo ao aumento de complexidade dessas relações, o sistema nervoso se tornou cada vez mais complexo... De ancestrais vermiformes deuterostomados nós vertebrados emergimos para a existência.

O nosso cérebro seguiu o desenvolvimento dos órgãos sensoriais concentrados na cabeça. Visão, audição, olfato, paladar, tato e eletromagnetismo, todos os seis sentidos estão presentes na cabeça dos primeiros peixes. Importante ainda ressaltar a nossa natureza de simetria bilateral. Desde as primeiras formas de vida predadoras como os vermes marinhos platelmintos e nemertinos que somos assim, um lado de nós é a imagem do outro lado refletida no espelho. Todo o nosso corpo é assim, lateralizado!

Em um mar repleto de predadores é importante demais olhar aos lados. Não apenas olhar (até porque a visão não é assim tão eficaz abaixo d’água) e sim ter todos os sentidos em constante alerta para possíveis ataques, ou mesmo para atacar uma presa.

O capricho do evento estocástico da lateralização de nossos corpos é que ela não é perfeita. Ao invés de cada lado processar diretamente os sinais do ambiente, eles são cruzados ao inverso. Todo o seu lado esquerdo é comandado pela parte direita do seu cérebro, o inverso para seu lado direito. Também não é exclusividade nossa, em todos os vertebrados há sempre um lado “preferido” para a ação. Adivinhem?! A maioria dos vertebrados é destra! Claro, e sempre existe também um canhoto entre nós!

Uma hipótese para esse circuito cruzado é fazer com que o organismo como um todo possa ter a possibilidade de interpretar e reagir a estímulos. Por exemplo, um ataque pela esquerda ao cruzar as conexões até a parte direita informa todo o corpo do animal e não apenas o lado atacado.

Não compliquemos mais essa história anatômica e fisiológica, vamos para o que interessa. A partir dos vertebrados o sistema nervoso se tornou muito mais complexo, sendo constituído por várias partes que se sobrepuseram e complementaram-se no decorrer da história evolutiva.

Por ordem de chegada e em termos didáticos temos (ver Sagan, C., 1997. Os dragões do Eden. Editora Gradiva):

(1) Medula espinhal, rombencéfalo [o bulbo, a ponte e o cerebelo] e mesencéfalo.


Essa é a parte mais arcaica do cérebro a qual contém o mecanismo neural básico para a sobrevivência (regulação cardíaca, circulação sanguínea e a respiração e reprodução). É quase a totalidade dos cérebros de peixes e anfíbios.

(2) Sistema límbico formado por amigdala, tálamo, hipotálamo, hipocampo e áreas específicas (giro cingulado, área tegumentar ventral, área pré-frontal).


O sistema límbico é o centro da formação das emoções, tomada de decisões para sobrevivência (ditas “não-racionais” tipo “lutar-ou-fugir” de um predador) e impulsos para o prazer (nossos vícios com drogas e sexo estão correlacionados ao sistema límbico). Aqui estamos todos nós, répteis (isso inclui as aves) e mamíferos.

(3) Neocórtex (lobos frontal, parietal, temporal e occipital), o qual envolve o restante do cérebro nos mamíferos.

O neocórtex é o que muitas pessoas conhecem como “cérebro”, embora seja apenas parte de um todo. É aqui que está o quê e o porquê de sermos como somos... Quanto maior o neocórtex, maior é a cognição. Nós humanos temos um dos maiores, mas, como bem está escrito na evolução o neocórtex não é uma exclusividade nossa.

Elefantes, golfinhos e, sobretudo, todos os macacos do mundo, nós compartilhamos a mesma plataforma de montagem. Como acontece com a indústria moderna de automóveis, de uma mesma plataforma se pode fazer diferentes carros. As variações nesse intrincado sistema refletem as diferenças entre as espécies de vertebrados.

Agora vamos dar reconhecimento ao primeiro trabalho científico que vislumbrou que nossas emoções humanas na verdade evoluíram a partir de ancestrais não humanos. Charles Darwin em seu clássico “A expressão das emoções no homem e nos animais” (1872; lançado no Brasil pela Companhia das Letras em 2000) foi o primeiro a demonstrar, com base em observações científicas (hoje chamamos essa área do conhecimento biológico de Etologia), que compartilhamos com outros vertebrados sofrimentos, lágrimas, ódio, raiva, alegria, bom humor, amor, devoção, surpresa, horror, vergonha e modéstia. Os dois extremos as lágrimas e o sorriso, já pensamos que eram exclusividades humanas. Hoje sabemos que elefantes choram e chimpanzés riem e muito!

Uma das melhores revisões atuais sobre emoções e cognição nos animais está no livro “Quando os elefantes choram – A vida emocional dos animais” (Masson, JM. e McCarthy, S., 2001. Editora Geração). Aqui você encontrará logo na leitura da contra-capa: um búfalo que patina no gelo para se divertir; um chimpanzé que chora pela morte de sua mãe e morre de tanta tristeza; um gorila tímido que brinca com bonecas quando ninguém olha para ele; corvos que usam pedaços do teto do Kremlin como tobogãs; e a voz de um papagaio africano que diz com estas palavras “Volta aqui! Eu te amo! Sinto muito! Quero voltar pra casa! (leia também: Pepperberg, IM., 2009. Alex e eu: como a relação de amor entre uma cientista e um papagaio revelou os segredos da inteligência animal, Editora Record).

Por que isso ainda nos surpreende? Por que uma rede de TV anuncia um especial sobre inteligência animal como se fosse algo exótico e até “engraçado”?

Como bem sabemos, nós possuímos em comum as mesmas “borboletas da alma” (neurônios) e, entre os vertebrados, compartilhamos o mesmo “chassi neural” (Medula espinhal, rombencéfalo, mesencéfalo, sistema límbico e neocórtex). O que nos faz amar e sermos inteligentes, também está presente na anatomia e fisiologia animal, antes mesmo de sermos o que somos.

Claro, essas palavras escritas aqui, em um ambiente digital de plástico e sílica e transmitidas por cabos de fibra óptica, deixa-nos a sensação de sermos muito diferentes. Além do mais, olhem para nosso prato de comida repleto de cadáveres de animais e plantas. Se reificamos (de reificar, transformar seres em “coisas”) tudo e usamos de nossa fantasia de não sermos deste mundo, os filhos dos deuses, fica fácil de escravizar, matar, cortar em pedaços e comer outros seres vivos.

Seu cão sente emoções verdadeiras por você, o seu gato realmente detesta ser incomodado quando dorme, o pequeno potro de sua fazenda brinca por pura diversão no pasto como se fosse uma criança humana, aquele pequeno asno urrou de dor ao ser espancado na rua, seus olhos encheram-se de lágrimas. Isso não é uma caricatura antropomórfica, cada um de seu jeito, cão, gato, cavalo, asno, humano, todos esses mamíferos possuem mais em comum do que grandes diferenças. Importante ressaltar ainda, diferenças essas só estabelecidas por milhões de anos de evolução que nos separam dos demais vertebrados, invertebrados, plantas e micróbios.

É estranho como somos tão preconceituosos com outras espécies ao ponto de negar a elas a existência de outras inteligências, nem mesmo sentimentos básicos. Não compreender como funciona a mente de um polvo é uma coisa, mas a nossa de vertebrado é outra. Aqui entre os nossos mais semelhantes, a conexão de mentes é máxima. O grito de dor de um porco nos trás terror, ou você ainda não sabe por que construímos os matadouros de animais bem longe do centro das cidades? Se você tiver curiosidade de saber coisas assim, recomendo a leitura do livro “O homem e o mundo natural” (Thomas, K., 1988. Editora Companhia das Letras) para terem idéia de porque comemos o que comemos, como matamos e a escolha de nossos animais de “estimação”.

Em termos de cognição o próximo post será apenas sobre humanos, como muito bem gostamos de fazer, uma atenção especial na origem da consciência, a mente, do que é formado nosso pensamento e os sonhos de ficção científica que agora começam a se realizar, podemos transmitir pensamentos fora do corpo e, quem sabe, em futuro próximo, armazenar registros eternos de pensamentos humanos em máquinas.

Esse será o dia da transcendência para algo diferente da natureza. Será o dia da Inteligência Artificial e das Histórias de Robôs editadas por Isaac Asimov se tornarem realidades. Até lá, continuamos o que somos, mamíferos emocionais, macacos neuróticos e meros trabalhadores explorados.

A importância dos seres humanos hoje reside na ligação deles com a biota. Então, olhe dos lados, leia um pouco e faça a conexão, perceba um mundo cheio de sentimentos. Você não está sozinho, há outras inteligências na natureza.

Referências

Darwin, CR., [1872] 2000. A expressão das emoções no homem e nos animais. Companhia das Letras.

Masson, JM. e McCarthy, S., 1998. Quando os elefantes choram: a vida emocional dos animais. Geração Editorial.

Pepperberg, IM., 2009. Alex e eu: como a relação de amor entre uma cientista e um papagaio revelou os segredos da inteligência animal. Editora Record.

Sagan, C., 1997. Os dragões do eden. Editora Gradiva.

Thomas, K., 1988. O homem e o mundo natural. Companhia das Letras.

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