"Chega a ser absurdo ficar se perguntando se estamos sozinhos no Universo. Não estamos. Nunca estivemos" (Lopes, RJ., 2009 . Além de Darwin. Editora Globo).
Vamos iniciar mais uma série de três textos, dessa vez abordando algo muito bacana: a origem do sistema nervoso, sua evolução e as diversas mentes além da nossa que estão presentes hoje aqui mesmo na Terra.
Se nossa cognição gigante e fluida ainda está sendo compreendida por nós mesmos, há ainda todo um abismo que nos separa das outras mentes presentes na natureza. Após iniciarmos nossos estudos sobre essas infinitas formas de grande beleza garanto para vocês que não precisamos de mundos digitais cheios de cores e efeitos 3D para nos impressionar. Aliás, nenhuma tecnologia cinematográfica ainda é capaz de retratar em detalhes a beleza da vida na Terra. Comparado ao nosso planeta, Pandora é um desenho mal feito!
Já que toquei nesse ponto, em Avatar os Na'vi parecem entender a conexão da vida e saber que não estão sozinhos no seu planeta. Isso eu tiro o chapéu para James Cameron, porque se há algo manifesto em nossa espécie, tão inteligente e dona de si, é sua alienação e absurda falta de humildade em reconhecer que ainda tem muito que aprender. Em palavras mais diretas: após dois séculos de ciência ocidental como a conhecemos hoje, sabemos muito pouco sobre a vida e nem conseguimos, no mínimo, enumerar quantas outras espécies existem hoje ao nosso lado. "O mistério dos mistérios" (segundo Charles Darwin) continua nos desafiando no século XXI!!!
No dia a dia, você sai de casa e volta, encontra pessoas, liga a TV, escuta música, estuda para se profissionalizar... Mal olha ao lado, menos ainda para os céus! Aí compra uma revista, ou vê um vídeo no You Tube sobre ETs e nosso desejo de fazer contato com outras formas de vida inteligentes... O irônico disso tudo é que há formas inteligentes do nosso lado e, pelo simples fato de não serem humanas, quase que ignoramos por completo isso.
"Animais" que muitos acham "instintivos" e/ou "robôs genéticos" são constituídos como nós mesmos. É nossa pura e simples ignorância de entendermos essa conexão com nossa mente, menos ainda, que se somos frutos do mesmo processo de evolução de todas as formas de vida deste planeta... Assim, voltamos ao início desta apresentação, surpreenda-se: NÓS NÃO ESTAMOS SÓS!!!
Como nos atrevemos a gastar tanto dinheiro em projetos como o SETI ("Search for Extra-Terrestrial Intelligence") à procura de uma mente similar a nossa, mas esquecemos que aqui na Terra há miríades de outras mentes que não entendemos?! Esta série de textos trata exatamente disso. No primeiro irei abordar a origem do sistema nervoso e como é viver como um invertebrado marinho, da origem até os mais inteligentes de todos, os polvos e lulas.
No segundo texto trará as mentes aguçadas dos vertebrados e os exemplos de cognição como o papagaio Alex que, por incrível que pareça, deixou-nos a todos surpresos em saber como uma ave pode ser tão inteligente(?!).
No último, não deixaria de reservar apenas para nós primatas. Chimpanzés são idênticos a nós, diferem apenas em grau! Somos maiores em tudo... E isso não quer dizer absolutamente nada!
Recentemente o renomado físico britânico Stephen Hawking [clique] alertou sobre o que poderia acontecer se esse nosso desejo de entrar em contato com mentes alienígenas similares a nossa se realizasse. A história humana, que muito bem conhecemos, já demonstrou na prática o que é possível quando grandes mentes similares se encontraram. Ou uma delas é varrida da face da Terra (exemplo dos neardenthais), ou é escravizada à força. Mais ainda, nos dias de hoje senão somos escravos, somos explorados pelos senhores do Capital.
O paleontólogo britânico Simon Conway Morris deixou claro em seu livro "Life's Solution - Inevitable Humans in a Lonely Universe" (2003 - Cambridge University Press) que nós humanos até podemos ser o primeiro experimento de grande cognição neste planeta e o único que conhecemos no universo, mas, isso não quer dizer o último! Caso nos matemos por coisas tolas como um sistema alienado de vida artificial (Capitalismo), ou o planeta se torne inóspito para mamíferos... A natureza seguirá sem nós e outras grandes mentes poderão surgir.
Espero que não ponhamos tudo a perder e que saibamos aproveitar toda a dádiva que temos. Mas, se erramos ao ponto de não mais existir, pelo menos que outros no futuro aprendam como nós macacos trocamos os pés pelas mãos por tolices.
Feita a apresentação! Venha agora viajar comigo entre a beleza e mentes de nosso planeta. Sinta o mundo pulsar e nossa solidão se dissipar simplesmente por olharmos ao lado. Não há uma mente no universo, há milhares delas só aqui na Terra!!!
Conecte-se... e comunique-se com elas!!!
Não estamos sós: as outras inteligências da Terra!!!
Não percam o I Ciclo de Palestras sobre Biologia Evolutiva da Unidade Acadêmica de Ciências Biológicas - Patos/ PB - Universidade Federal de Campina Grande - UFCG.
Os dois posts anteriores marcaram um dos pontos mais políticos aqui no Macaco Alfa. No primeiro post tentei o meu melhor, como de sempre, isso quer dizer "traduzir informações de livros e artigos científicos em linguagem acessível". Na questão específica do primeiro post (A Barbárie), quatro livros são a chave para entender o cerne do pessimismo, ou mesmo pela esperança de mudanças verdadeiras. As referências são:
Barber, BR., 2009. Consumido – Como o mercado corrompe crianças, infantiliza adultos e engole cidadãos. Editora Record.
Foster, JB., 2005. A ecologia de Marx – materialismo e natureza. Editora Civilização Brasileira.
Lipovetsky, G., 2007. A felicidade paradoxal – Ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo. Companhia das Letras.
Perrault, G. (Org.), 2005. O livro negro do capitalismo. Editora Record.
No segundo post (A Classe Média) está uma síntese da Classe Média brasileira escrita de forma brilhante pelo teólogo e escritor Frei Betto. Eu não conseguiria escrever algo melhor, achei o texto perfeito demais e pela primeira vez postei algo assim na íntegra aqui no Macaco Alfa.
Agora segue este terceiro post para encerrar esse assunto. Bem, aqui estou envolto a uma trilogia não planejada, cuja costura resulta em minha compreensão do mundo. Passei muito tempo de minha vida tentando entender de onde vinha aquilo que identificamos coletivamente como algo prejudicial às nossas vidas... A dor de todo mal.
De certo, entre tantas outras perguntas que me moveram na adolescência, essas eram as piores. O sentido da vida, de onde nós viemos, questões metafísicas como a vida pós-morte... Consegui um bom entendimento de tudo isso com boas leituras, reflexões e até através de minhas pesquisas no mundo dos animais. Entretanto, quando estou no Shopping e sou maltratado pela cor parda de minha pele, quando escuto às bravatas os discursos alienados contra trabalhadores explorados, quando até amigos falam sem parar de como é “bom viver no capitalismo” e sobre a “ditadura dos socialistas” sem terem lido nada, sem ao menos andarem de ônibus para o trabalho... Pode parecer simples, mas foi difícil de entender com precisão a origem, transformação e continuidade de todo esse mal.
Essa minha curiosidade não é uma questão apenas pessoal. Desde 2003 trabalho no interior do Ceará e aqui as coisas são diferentes de onde eu vim. Sou nordestino dos subúrbios do litoral, onde não há seca, onde a Música Urbana é verdadeira, onde proletários das fábricas não faltam por todos os lados.
Aqui hoje no interior do nordeste, quase não há grandes fábricas. A agricultura nem de longe reflete algo para ser classificado de agronegócio. Há muita prestação de serviço de um lado e do outro aposentadorias somadas aos programas de assistência social. Nesse contexto, eu também queria entender o porquê de alguns exultarem orgulho fora de medida em morar aqui, enquanto há, na mesma proporção emocional, uma vontade, e até a prática explícita, de morar nas capitais. Políticos, médicos e até professores universitários preferem ter moradia na capital e só virem aqui no interior para cumprir suas obrigações profissionais.
Nas palavras duras e diretas que já ouvi tantas vezes: “quem tem dinheiro, dinheiro mesmo, mora na capital, seu moço!”
Antes de prosseguir explico que êxodo humano por causa da seca não possui explicações naturais e simplistas. Para entender isso, precisei ler e descobrir que a tal “seca do nordeste” é uma de nossas catástrofes sociais e econômicos, como também foi a escravatura, extermínio dos nativos e outros horrores ligados à colonização. Aprendi com a leitura de textos do Dr. Frederico de Castro Neves (historiador e professor da Universidade Federal do Ceará) que não foi a irregularidade de água como a mídia me passou na década de 1980, foi algo pior e cujas consequências sociais estamos hoje enfrentando.
Sobre isso, peço gentilmente que leiam o texto abaixo (pgs. 77-80 retiradas de Neves, FC., 2007. A seca na história do Ceará. Pp. 76-102. In: Rocha, S. (Org.): Uma Nova história do Ceará. Edições Demócrito Rocha.):
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As Origens da Seca
Há registros de escassez de chuvas desde os mais remotos documentos sobre o território onde se localiza o Ceará. As tribos que habitavam essas terras, periodicamente transferiam suas aldeias para áreas mais úmidas ou próximas à orla marítima, muitas vezes provocando conflitos com outras tribos. Os primeiros colonizadores, pouco adaptados ao clima, viam-se em dificuldades quando ousavam atravessar o sertão em épocas de poucas chuvas. Mesmo assim, a ocupação do território se efetivou, especialmente com base na pecuária, que permitia uma certa mobilidade da “produção” durante as secas.
Até meados do século XIX, contudo, a irregularidade de chuvas que caracteriza o sertão não havia significado um problema tão grande para os setores dominantes. Pelo menos, as cidades e as instituições modernas do poder, estruturadas neste mesmo período, estavam a salvo das agruras da seca. As terras úmidas da periferia do semi-árido, abundantes e pouco povoadas, podiam ser ocupadas pelos grupos de sertanejos que perdiam as suas colheitas de subsistência e também pelo gado dos grandes proprietários. O Piauí e o Cariri eram as áreas mais procuradas por essas migrações periódicas. Muitos grandes proprietários possuíam terras nestas áreas como “reserva” para os tempos de escassez, quando o gado – bem mais valioso – poderia estar protegido.
O gado e a produção de subsistência predominavam na ocupação da terra até o início do século XIX. O algodão – uma planta xerófila que se adapta muito bem ao clima do semi-árido – somente veio fazer parte efetiva da produção sertaneja em meados do século. As primeiras tentativas de plantações algodoeiras datam do final do século XVIII, mas é no século seguinte – especialmente durante a Guerra de Secessão nos EUA (1861-1865) – que o algodão passou a fazer parte integrante e permanente da paisagem sertaneja.
Até então, os homens que habitavam essas terras semi-áridas organizavam-se em fazendas de criação em formas de produção em que a escravidão, se não foi inexistente, não teve o mesmo peso econômico e social que em outras áreas. Dividiam o tempo entre a lida com o gado e uma pequena cultura de subsistência, permitida pelos donos das terras, orgulhosos senhores que mantinham laços paternalistas – baseados na reciprocidade e na lealdade pessoal – com “seus moradores”.
A “quarta” – divisão de resesnascidas entre proprietário das terras e vaqueiros na produção de quatro para um – garantia uma possibilidade, embora remota, de ascensão social para os moradores, que cultivavam, especialmente, plantas de ciclo curto – milho, feijão e mandioca – que garantiam uma colheita rápida, apesar de frágil.
Essa agricultura não representava uma produção que conseguisse uma “reprodução ampliada”, um aumento contínuo das potencialidades produtivas que gerasse um excedente comercializável; mas, por vezes, se a regularidade de chuvas permitisse, alcançava uma “reprodução simples”, em que a família poderia subsistir, em sua pobreza, até o ano seguinte para a próxima colheita. A produção agrícola era, portanto, muito pouco integrada às regras do mercado. O objetivo dessa produção de tipo tradicional, pode-se dizer, era conseguir uma “segurança alimentar”, uma garantia de manutenção dos padrões de pobreza vigentes, ligados aos laços paternalistas de submissão, de lealdade e de proteção.
Em casos de uma eventual quebra desse ciclo, seja pela morte de um dos membros da família ou por uma praga na produção, esses laços, baseados também na caridade cristã, poderiam garantir a sobrevivência dos moradores subitamente levados à miséria. De certa forma, era dever do proprietário proteger os “seus” moradores durante um infortúnio.
A falta de chuvas no período regular, no entanto, destruía imediatamente essas colheitas e ameaçava o gado, desfazendo o círculo da produção tradicional. O proprietário da fazenda destacava alguns homens e deslocava seus bois para outras áreas onde o pasto podia ter-se preservado.
Os homens que ficavam tinham duas alternativas: ou migravam para áreas úmidas e resistentes à irregularidade de chuvas, sendo permitida a sua presença provisória por um beneplácito do proprietário, ou eram acolhidos pelo dono das próprias terras em que trabalhavam, muitas vezes habitando os currais abandonados e esperando sobreviver às custas da caridade do “coronel” e de sua esposa.
Essas alternativas eram difíceis, pois implicavam, tanto uma como outra, em um aprofundamento da submissão e da dependência. Ao mesmo tempo, a permanência deste sistema tornava a convivência próxima com a morte ou com a fome um forte elemento nas estruturas da cultura e religião, já que a mortalidade, tanto nos tempos de chuvas regulares quanto em tempos de seca, era (e é) muito alta.
Ao mesmo tempo, os trajetos migratórios eram árduos e pedregosos, cheios de perigos que vinham de várias origens: fome, doenças e crimes. Muitos animais também não agüentavam os rigores da “retirada” e sucumbiam nos caminhos, exaustos e famintos. As estradas, muitas vezes, transformavam-se em cemitérios a céu aberto.
Mas, apesar desse sofrimento, a escassez de chuvas ainda não representava um problema para o Estado brasileiro que se tornou independente em 1822. Era um fator climático localizado, que não afetava sobremaneira as estruturas do poder e da economia.
Essa situação mudou na metade do século XIX. Neste momento, uma série de fatores concorreu para o “fechamento” das terras disponíveis para a “retirada” dos homens e do gado.
A ocupação das terras próximas ao semi-árido por uma agricultura comercial tem dois momentos de intensificação: 1) a valorização das terras como bem econômico, provocada pela Lei de Terras de 1850, que, ao mesmo tempo, retirou das tribos indígenas remanescentes o controle de algumas áreas protegidas por aldeamentos; 2) o impressionante avanço da cultura algodoeira por toda a província do Ceará, motivado pelo súbito aumento de preços no mercado internacional em função da Guerra de Secessão nos EUA.
Esse avanço de uma agricultura comercial, sedentária, que buscava um excedente mercantil, tornou subitamente impossível a “retirada” dos moradores para terras mais úmidas durante os períodos de irregularidade de chuvas, pois elas não estavam mais “disponíveis” para isso, ocupadas agora com a cultura do algodão e valorizadas monetariamente. A proteção paternalista, devido à dimensão da população que a demandava, tornou-se insuficiente, deixando sem alternativas de sobrevivência uma população de centenas de milhares de pessoas.
Esse foi, contudo, um período de chuvas regulares: entre 1845 e 1877, anos em que as mudanças se intensificavam velozmente, os invernos regulares se sucediam, amenizando ou ocultando os efeitos perniciosos que essas transformações iriam ter sobre as populações do sertão. Por isso, o ano de 1877 se tornou um marco na compreensão do problema da seca e o impacto causado pelas cenas que então se desenrolaram fixou-se profundamente na cultura. Neste momento, a irregularidade de chuvas deixa de ser “apenas” uma questão climática para se tornar uma questão social, que a todos afeta e que o Estado brasileiro não poderá ignorar.
De fato, inaugura-se neste instante a seca tal qual a entendemos hoje: miséria, fome, destruição da produção, dispersão da mão-de-obra, invasões às cidades, corrupção, saques... (Neves, 2007).
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Centenas de milhares de pessoas chegaram às capitais. Milhares de pessoas chamadas de “invasores”, “retirantes” e “flagelados”. É esse povo que irá primeiro ser confinado em Campos de Concentração (só em 1932 foram criados sete apenas no Ceará: Crato, Cariús, Quixeramobim, Ipu, Senador Pompeu e dois em Fortaleza). Depois milhares de pessoas foram enviadas para os seringais amazônicos em 1942 (os seringueiros são nordestinos em sua origem). Daí então surgiu o banditismo por uma questão de classe, como canta Chico Science, no cangaço do sertão e nas "favelas" no sudeste.
A Favela (Cnidoscolus phyllacanthus, família Euphorbiaceae) é uma planta do sertão! Em meio aos conflitos de Canudos (1896-1897), os morros ocupados pelos soldados repletos dessa planta xerófila, entre a miséria, cuja semelhança levou nome aos morros no Rio de Janeiro. Claro, sem simplificar demais, lembrem-se que há uma massa de milhares de ex-escravos, pessoas que foram jogadas à própria sorte junto com os nordestinos da "seca", removidos e concentrados nas periferias. Lembrem-se ainda, o “Bota-Abaixo” dos cortiços no centro do Rio de Janeiro realizado pelo prefeito Pereira Passos entre 1902-1906... levou outros milhares e milhares de pessoas para as periferias.
Isso é passado?
Vejamos a seguinte nota recente na Revista IstoÉ:
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O Triste mapa da violência no Brasil
Foram divulgados na terça-feira 30 os dados do mapa da Violência 2010 – Anatomia dos Homicídios no Brasil. Os números fazem parte de uma triste realidade: de 1997 a 2007, o país registrou 512.216 assassinatos. Outra informação alarmante: o risco de um jovem negro ser vítima de homicídio no Brasil é 130% maior do que o de um jovem branco. O estudo também alerta para a interiorização da violência. No interior dos Estados, as taxas cresceram de 13,5 homicídios (a cada 100 mil habitantes) em 1997 para 18,5 em 2007. Em entrevista à IstoÉ, Júlio Jacobo, autor do estudo explica: “houve uma melhora da eficiência policial nas capitais. Mas o interior cresceu com o fluxo migratório das grandes cidades. Se não forem colocadas barreiras, a tendência natural é de crescimento da violência” (IstoÉ, 7 abril 2010, pg. 27).
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Siga o mesmo raciocínio: as enchentes e os deslizamentos com mortes... são culpa das pessoas que jogam lixo no chão e que “preferem” morar em morros?
Sei que tenho amigos que estão mais preocupados com o futuro do tigre, do panda... da já extinta ararinha azul, pior ainda, se o buraco da camada de ozônio vai aumentar novamente. Mas é por essas e outras histórias e a própria história em si, que não me deixam sorrir, ou ser otimista.
Ou se enfrenta de verdade nossos problemas... ou tudo não passa de cinismo!
É fechar as portas de casa, aumentar o muro, implantar cercas eletrificadas, subir os vidros dos carros e, para quem acredita em seres metafísicos com poderes sobrenaturais, rezar bastante!!!
Frei Betto: radiografia da classe média num país injusto
A população brasileira é, hoje, de 190 milhões de pessoas, divididas em classes segundo o poder aquisitivo. Pertencem às classes A e B as de renda mensal superior a R$ 4.807 – os ricos do Brasil.
Por Frei Betto, no Correio da Cidadania
R$ 4.807 não é salário de dar tranquilidade financeira a ninguém. O aluguel de um apartamento de dois quartos na capital paulista consome metade desse valor. Mas, dentre os ricos, muitos recebem remunerações astronômicas, além de possuírem patrimônio invejável. Nas grandes empresas de São Paulo, o salário mensal de um diretor varia de R$ 40 mil a R$ 60 mil.
Análise recente da Fundação Getúlio Vargas, divulgada em fevereiro último, revela que integram esse segmento privilegiado apenas 10,42% da população, ou seja, 19,4 milhões de pessoas. Elas concentram em mãos 44% da renda nacional. Muita riqueza para pouca gente.
A classe C, conhecida como média, possui renda mensal de R$ 1.115 a R$ 4.807. Tem crescido nos últimos anos, graças à política econômica do governo Lula. Em 2003 abrangia 37,56% da população, num total de 64,1 milhões de brasileiros. Hoje, inclui 91 milhões – quase metade da população do país (49,22%) – que detêm 46% da renda nacional.
Na classe D – os pobres – estão 43 milhões de pessoas, com renda mensal de R$ 768 a R$ 1.115, obrigadas a dividir apenas 8% da riqueza nacional. E na classe E – os miseráveis, com renda até R$ 768/mês – se encontram 29,9 milhões de brasileiros (16,02% da população), condenados a repartir entre si apenas 2% da renda nacional.
Embora a distribuição de renda no Brasil continue escandalosamente desigual, constata-se que o brasileiro, como diria La Fontaine, começa a ser mais formiga que cigarra. Graças às políticas sociais do governo, como Bolsa Família, aposentadorias e crédito consignado, há um nítido aumento de consumo. Porém, falta ao Bolsa Família encontrar, como frisa o economista Marcelo Néri, a porta de entrada no mercado formal de trabalho.
Dos 91 milhões de brasileiros de classe média, 58,87% têm computador em casa; 57,04% frequentam escolas particulares; 46,25% fazem curso superior; 58,47% habitam casa própria. E um dado interessante: o aumento da renda familiar se deve ao ingresso de maior número de mulheres no mercado de trabalho.
Já foi o tempo em que o homem trabalhava (patrimônio) e a mulher cuidava da casa (matrimônio). De 2003 a 2008, os salários das mulheres cresceram 37%. O dos homens, 24,6%, embora eles continuem a ser melhor remunerados do que elas.
Segundo a Fundação Getúlio Vargas, o governo Lula tirou da pobreza 19,3 milhões de brasileiros e alavancou outros 32 milhões para degraus superiores da escala social, inserindo-os nas classes A, B e C. Desde 2003, foram criados 8,5 milhões de novos empregos formais. É verdade que, a maioria, de baixa remuneração.
No início dos anos 90, de nossas crianças de 7 a 14 anos, 15% estavam fora da escola. Hoje, são menos de 2,5%. O aumento da escolaridade facilita a inserção no mercado de trabalho, apesar de o Brasil padecer de ensino público de má qualidade e particular de alto custo.
Quanto à educação, estão insatisfeitas com a sua qualidade 40% das pessoas com curso superior; 59% daquelas com ensino médio; 63% das com ensino fundamental; e 69% dos semi-escolarizados (cf. A Classe Média Brasileira, Amaury de Souza e Bolívar Lamounier, SP, Campus, 2010).
A escola faz de conta que ensina, o aluno finge que aprende, os níveis de capacitação profissional e cultural são vergonhosos comparados aos de outros países emergentes. Quem dera que, no Brasil, houvesse tantas livrarias quanto farmácias!
Hoje há mais consumo no país, o que os economistas chamam de forte demanda por bens e serviços. Processo, contudo, ameaçado pela instabilidade no emprego e o crescimento da inadimplência – a classe média tende a gastar mais do que ganha, atraída fortemente pela aquisição de produtos supérfluos que simbolizam ascensão social.
A classe média ascendente aspira a ter seu próprio negócio. Porém, o empreendedorismo no Brasil é travado pela falta de crédito, conhecimento técnico e capacidade de gestão. E demasiadas exigências legais e trabalhistas, somadas à pesada carga tributária, multiplicam as falências de pequenas e médias empresas e dilatam o mercado informal de trabalho.
Embora a classe média detenha em mãos poderoso capital político, ela tem dificuldade de se organizar, de criar redes sociais, estabelecer vínculos de solidariedade. Praticamente só se associa quando se trata de religião. E revela aversão à política, sobretudo devido à corrupção.
Descrente na capacidade de o governo e o Judiciário combaterem a criminalidade e a corrupção, a classe média torna-se vulnerável aos "salvadores da pátria" — figuras caudilhescas que lhe prometam ação enérgica e punições impiedosas. Foi esse o caldo de cultura capaz de fomentar a ascensão de Hitler e Mussolini.
Reduzir a desigualdade social, assegurar educação de qualidade a todos e aumentar o poder de organização e mobilização da sociedade civil, eis os maiores desafios do Brasil atual.
* Frei Betto é escritor, autor de Calendário do Poder (Rocco), entre outros livros.
Se um dia alguém chegar aqui neste blog e começar a passar seus olhos por essas palavras eu peço que fique por mais alguns minutos, por favor! Continue caminhando com suas órbitas oculares e deixe essas palavras ganharem voz e vida em você.
Eu fiz isso, percorri palavras de um livro chamado Barber, BR., 2009. Consumido - Como o mercado corrompe crianças, infantiliza adultos e engole cidadãos. Editora Record. Ao fazer isso, “ouvi com meus olhos” (na verdade com o cérebro, claro) as palavras de Benjamin R. Barber, teórico político norteamericano e defensor do capitalismo. Ah! Não do capitalismo atual de consumismo pelo consumismo, com seu núcleo de expressão nos EUA, mas de um tipo de retorno ao “etos protestante”, ou mesmo pela mais pura admiração a obra de Max Weber.
Bem, concordo em grande parte com os seis primeiros capítulos desse livro. Escrevo até que o livro é genial e não vai deixar você respirar até terminá-lo. O capitalismo de consumo é a fase de deterioração de toda natureza humana. A vida para quem pode comprar coisas passou a ser determinada por isso. As pessoas passaram a ser escravas de marcas de fantasia sem qualquer vínculo com suas necessidades reais. “Vestir carrões”, porque o carro é você, ter um tênis de marca famosa, porque a marca reflete esporte, saúde e juventude... Nada disso é real de verdade. Automóveis são máquinas de transporte e roupas são vestes. As fantasias humanas de consumo são loucuras de um primata que perdeu seu lugar na natureza. Um macaco alienado!
Tudo isso você encontrará em Barber (2009). Entretanto, eu ando muito incomodado com outras coisas. Vejamos, quem não lembra no início desta década o quanto estávamos (e ainda estamos) assustados com o aumento da violência? Lembram da análise feita e amplamente divulgada pela mídia? O culpado pela violência são as pessoas que compram armas, estas mesmas armas ao invés de prevenir contra crimes, acabavam nas mãos dos “marginais”. A solução? Criamos o Estatuto do Desarmamento (Lei 10826 de 22 de dezembro de 2003) e lá fomos nós todos envolvidos em uma campanha nacional para entregar as armas domésticas. Sete anos após isso, o crime diminuiu? Olhem só para a foto abaixo e respondam se uma arma doméstica faria isso:
Escrevo em caixa alta para não ser confundido ou mal interpretado: EU NÃO DEFENDO ARMAS EM CASA, EU NÃO TENHO E NÃO VOU COMPRAR ARMA ALGUMA, EU DEFENDO A PAZ PARA TODOS!
Ok, mas onde eu quero chegar então? Simples, o discurso falso e covarde que uma sociedade de pequenos burgueses faz para fugir as suas responsabilidades e continuar em seu mundinho inalterado e tranqüilo, pelo menos assim o desejam.
Vejam as fotos abaixo:
Milhões de pessoas mergulhadas na pobreza, milhões de pessoas como eu e você agredidas por duas ações danosas: (1) a falta de tudo (necessidades reais de sobrevivência e cidadania) e (2) o bombardeio da propaganda que gera necessidades falsas e símbolos do glamour consumista. Na falta de tudo, isso, claro, inclui a educação... PRESTE BASTANTE ATENÇÃO NISSO, SEM EDUCAÇÃO = MERGULHAR EM MUNDOS MÍSTICOS TÍPICOS DOS CLÃS PLEISTOCÊNICOS.
Primeiro, quando escrevo educação, não são apenas as escolas caindo aos pedaços com professores mal remunerados (o que ainda é comum no Brasil). Educação interpreto aqui como ter consciência do porquê das coisas, ter o mínimo de conhecimento sobre história, política e ciência. Isso constrói uma visão de mundo! Ou seja, sem conhecimentos básicos, esse “ser-no-mundo” continuará vivo, tentando compreender por que a vida é o que é e, mais ainda, qual o seu objetivo.
Preste atenção em você agora! Lembre-se que sua cognição é tão grande que vez por outra você se pega falando com objetos! A televisão com defeito, o livro que abraça com carinho, ou a porta que chuta com raiva. Sua cognição é tão flexível que você pode literalmente amar o seu carro até mais do que outras pessoas... Afinal, tem gente que espanca e mesmo mata outra por causa de um arranhão, ou amassado na lataria de seu automóvel. Tudo isso não possui vida, tudo isso não irá responder aos seus sentimentos.
Segundo, a propaganda faz parte do narcisismo capitalista, onde os negócios comandam gastos libertinos em falsos desejos, enquanto ignoram as reais necessidades humanas. Somos o que compramos – somos as marcas que consumimos. Comprar e consumir não são um aspecto do comportamento, mas definidores do significado da vida (Barber, 2009).
Muito bem, vamos costurar tudo agora. Milhões de pessoas ignoradas na miséria, entregues à sua própria sorte (incluindo sua cognição estendida que cria mundos místicos, muitos messiânicos e paternalistas), agredidas pelos outdoors e comerciais de pessoas brancas felizes em seus condomínios de luxo, dirigindo tanques urbanos, identificadas por símbolos de falso glamour e, nos casos extremos, literalmente comendo ouro com sorvete!
Agora vamos ao cerne das coisas, ok! A classe média é justamente isso: um etos de covardia e falsa propaganda! Primeiro porque sabe tudo que está errado. Uma educação básica deixa todo mundo sabendo que enquanto houver concentração de renda, a miséria de milhões é a origem da violência e destruição do meio ambiente.
Mas, o que vemos na TV, jornais e conversas nas ruas é um contra-senso. A violência é culpa dos cidadãos que compram armas, as enchentes são culpa das pessoas que jogam lixo no chão, o clima está mudando porque usamos sacolas plásticas, ou mesmo ligamos aparelhos eletrônicos. A culpa é minha, a culpa é sua... Nós sabemos disso! Nós sabemos de toda a miséria, dor e desamparo que causamos a milhões de pessoas... das alterações das condições climáticas e recursos naturais essenciais para nossa existência . Todavia, preferimos nos enganar, tipo, “vamos apagar as luzes por MINUTOS para dizer que queremos um mundo melhor!” Ou outra tolice “ hoje [e apenas hoje] eu não vou usar meu carro por um mundo melhor!”
Covardes! Mentirosos! Todos vocês! O dia inteiro, ano após ano, não há descanso ou pausa para o que fazem. Matam destroem tudo com seus hábitos, trancam-se em condomínios de luxo, fazem o chão tremer com seus SUVs, privatizam a saúde pública e acham que minutos com as luzes apagadas está bom para suas consciências?! Olhem mais fotos do que é real:
Isso não irá parar de crescer!!! Sobretudo no mundo capitalista atual.
Voltemos para as duas forças que estão agindo agora nessa massa de milhões de pessoas. Sem educação, o mundo místico toma conta de todas as explicações possíveis. Da alienação vêm as legiões de fanáticos e explodem em nossas portas, basta ter acesso às armas certas e o Jihad vem aí. Afinal, qual é o motivo para os EUA estarem tão dedicados contra o Irã não se tornar uma força atômica? Por que esse interesse pela paz simplesmente não se reflete na extinção de seu próprio armamento nuclear?! Ou por que não há a mesma pressão para todos os países que já são potências nucleares?! É ingênuo pensar assim, não é?! Afinal, império é império, conhecemos a história das políticas e ações (guerras) necessárias para se manter no poder de dominação de outras nações.
O mesmo serve para tudo mais, queimadas, lixo nas ruas, efeito estufa. É de responsabilidade coletiva, de controle coletivo com política de controle realizada pelo estado. Por mais que desejemos individualmente um mundo melhor. A infraestrutura das cidades, transporte coletivo, saúde pública (inclui saneamento), educação, uso racional de recursos não-renováveis, propaganda e marketing e produtos industriais. Tudo isso deve ser controlado por nós coletivamente e nós somos o estado sócio-econômico que construímos.
Se entregarmos o nosso bem estar coletivo nas mãos de desejos individuais sem controle, teremos nosso atual mundo com seus problemas graves e mais a alienação, a infantilização e a destruição da cidadania.
"É proibido proibir"! Ok, mas sem um controle coletivo, nós como indivíduos raramente produziremos uma sociedade saudável. Vejamos, os chimpanzés regulam uns aos outros em sistema de altruísmo recíproco, um “toma-lá-da-cá”, compartilhamento e uso dos recursos. Um macaco egoísta que não divide sua comida e que age apenas para si, terá poucas chances no grupo que é formado por indivíduos cooperativos recíprocos. Em outras palavras, muitas vezes é surrado e expulso do grupo... Caso contrário, não haveria grupo algum formado por chimpanzés egoístas. Viver em grupo para nós símios é prioridade de sobrevivência. Detectar e punir individualistas está em nossa natureza.
Como já escrevi antes aqui, vivemos em um sistema que é contra a nossa natureza humana de empatia, solidariedade e preservação de nosso meio ambiente. As ações individuais de apagar a luz por minutos, não dirigir por um dia, não usar sacola plástica em uma única compra... São apenas desculpas que usamos para aplacar nossa consciência contra todo o mal que sabemos que estamos fazendo.
Digamos que não estamos dispostos a sacrificar nossas vidas para um bem maior. Sacrificar mesmo, em uma revolução de verdade! Nosso povo está mergulhado em alienação de massas, em meio a um sistema sem pátria de consumismo fantasioso e devastador. Ao olhar de frente para essa realidade, esse abismo monstruoso que aumenta dia a dia, muitos já se preparam para o mundo que estamos construindo.
Um mundo que está trancado em condomínios de segurança máxima. Contra o quê? As milhões de pessoas como eu e você que chegam a serem vistas como um exército sem fim e sem controle, de "mortos vivos canibais" do capitalismo sempre à espreita, sempre batendo às portas dos ricos e afortunados!
Vamos controlar as massas com violência... Se precisar, com o exército e todas as suas armas.
Vamos puxar o gatilho de quem já vive fora de nosso mundo de consumo. Afinal, são excedentes descartáveis do sistema.
Chega de conversa fiada sobre “carros econômicos”, nesse novo mundo é bom andar blindado... Ou vocês acham que já não fabricamos carros para andar nas ruas em plena guerra civil?
Isso é a Bárbarie, isso é o mundo que nós vivemos hoje!
Isso lhe faz feliz?!
Como podemos educar nossos filhos na intenção de sermos um tipo de Sarah Conner, mas na prática somos os T-800 Exterminadores do Futuro?!
Os minutos que você apagou a luz na sua casa por um mundo melhor resolverá?
Essas palavras absurdas, escritas por um tolo, cheias de som e fúria... também não valem à pena sem ação!
Isso tudo compõe a barbárie, isso é o mundo que nós vivemos hoje! E não vai parar, não vai partir, não obedece a sonhos, desejos passivos e necessidades.
Se tudo continuar do jeito que está, não há deuses ou demônios que nos salvem de nós mesmos.
VIVER, SOFRER E MORRER... NO CAPITALISMO SELVAGEM E NA BARBÁRIE!!!
Um vendedor de lanches na fila de um banco, uma criança em um estádio de futebol, um funcionário público perdido em si mesmo e uma Milena inesperada. Esses foram os personagens protagonistas dos Diálogos que selecionei entre encontros reais, mesmo que em síntese e liberdade poética. Todos unidos por assuntos sobre a importância da ciência, aplicação de conhecimento ao nosso dia a dia e inspirações ora profundas, ora sensíveis sobre a vida e a matéria.
Ao fim da série Diálogos só posso escrever que eles nunca terminarão de fato. Afinal, somos seres humanos e temos a linguagem falada como um dos pontos chaves do que somos. Por isso, cantamos e "continuamos falando" (Pink Floyd – "Keep Talking"):
Na prática de verdade... Nós brasileiros estamos muito além do que necessitamos como cidadãos. Temos uma megadiversidade ainda para ser satisfatoriamente descrita, melhorias na saúde, infraestrutura e... há nosso descaso secular com a educação. Como poderemos dialogar com nossos cidadãos sobre os pontos aqui apresentados se remuneramos mal nossos professores e restringimos quase na forma de um apartheid o acesso ao ensino superior?!
Construir hospitais, escolas, creches, esgotos, pontes e estradas? Sim, sim! Mas... Na mesma proporção precisamos dos professores e os frutos deles para que isso seja possível. Precisamos formar mais médicos, enfermeiras, fisioterapeutas, odontólogos, engenheiros, biólogos, químicos, policiais... Todo um país!!!
Não há nada sem a formação de nosso povo! É, eu sei que ouvimos isso todos os dias, mais um clichê, não é?! Todavia, verdades são assim mesmo, batem nas nossas portas até um dia entrarem definitivamente em nossas vidas.
A China foi a civilização à frente de todos os povos a mais de dois mil anos antes de Cristo. Com o passar do tempo em sua rica história milenar a China passou por várias fases. Na mais recente, estamos todos surpresos porque vemos seu atual desenvolvimento atrás apenas dos Estados Unidos e União Européia. Mais ainda, estima-se que nas próximas duas décadas a Grande China poderá ser a maior potência do mundo! Como isso pode ser assim?! Só na China continental, há algumas décadas havia fome e analfabetismo em massa! Tudo mudou a partir das reformas que se iniciaram em 1978, entre elas, obviamente estava a educação como agente estratégico: "As melhores universidades chinesas agem decididamente na atualização da infra-estrutura e do conjunto de capacidades, estabelecendo para tanto parcerias com instituições e empresas ocidentais e requisitando ativamente docentes diplomados no exterior. (...) Hong Kong se orgulha de suas oito universidades, mais do que o dobro das três existentes no final da década de 1970. Essas universidades, algumas de padrão mundial, exercem um papel fundamental na qualificação dos recursos humanos da China; é cada vez maior o número de estudantes da China continental nelas matriculados e muitos graduados acabam trabalhando, direta ou indiretamente, para empreendimentos no continente" (Shenkar, O., 2005. O Século da China. Editora Bookman).
E nós aqui no lado Sul do mapa... nem de longe fizemos o mesmo! Apesar de toda a propaganda feita sobre investimentos no ensino fundamental e médio, nossos professores ainda são muito mal remunerados e as escolas públicas sucateadas. “Que país é esse?” - Continuamos a cantar com muita tristeza!
Os Diálogos que desenhei são possíveis, mas em situações raras. Por quê? Sinto vergonha de escrever que além disso, em nossa realidade, descreveríamos as pessoas que apresentei como especiais. Olhem para Manoel, um vendedor de lanches, ele não é normal! Eu sei, você sabe quase sem querer, que vejo o mesmo que você... nas ruas, nas praças, nos ônibus... Falta de educação, saúde, lazer, respeito, cidadania. Abandonamos nosso povo! Depois ficamos classificando a todos como rudes e pobres de espírito.
Alguns de nós quando conseguem um empreguinho e ascendem, ou permanecem na “classe média apertada”, vão morar em condomínios fechados, pagam uma saúde privada e colocam os filhos em escolas particulares... Esquecem que se não cuidamos da moradia de todos os brasileiros, nossa civilização padece! Se todos não possuem saúde, todos nós adoecemos! Os agentes biológicos não respeitam quem tem, ou não plano de saúde e, para eliminá-los, todos nós temos que estar saudáveis! Se deixamos nosso povo com educação precária... Não há o que reclamar de mortes no trânsito, do lixo na rua, ou do crime organizado. Para mim, a "classe média" é a principal responsável por sua falsa erudição e covardia... Padece por sua própria omissão e espírito de pequeno burguês. Aqui no interior do nordeste, onde tudo é pobre, tenho visto uma "classe média" ainda mais horrível, daquelas endividadas por um carro mediano como um Honda Civic, que exploram a mão de obra de pessoas fragilizadas e vivem de inveja, rancor e mau dizeres por não conseguirem morar no litoral.
Tenho muito orgulho de escrever que eu sou professor dos pobres, dos filhos dos agricultores, dos taxistas, dos comerciários, dos feirantes e das domésticas. Não estou exagerando, perguntem para eles:
Minha primeira equipe de Iniciação Científica ao meu lado no Laboratório de Zoologia da URCA. Da esquerda para direita: Sarahbelle (hoje mestre pela URCA), Suzana (mestranda na UFMA), Samuel (doutorando na UFPB), Felipe (doutorando na UFPB) e eu.
Parte de minha equipe atual em trabalho de Campo. Da esquerda p/ direita: Samuel (mestrando UFPE), Guilherme (estagiário IC - URCA), Israel (mestrando URCA) e Diego (bolsista IC-FUNCAP/ URCA).
Esses meninos e meninas brilhantes que fazem ciência de verdade - aqui no interior do nordeste brasileiro - mudam vidas e logo, logo estarão no meu lugar... Professores em todos os níveis que necessitamos por um mundo melhor e mesmo para tornar os Diálogos sobre ciência algo comum no cotidiano, como nosso feijão com arroz.
Assim encerro a série Diálogos dedicando ela aos meus alunos, cujos mesmos Diálogos no laboratório só me enchem de esperanças por um Brasil melhor e forte!!!
Turma concluinte da Biologia - URCA /2009.2 - No centro está Débora, uma de minhas bolsistas do PIBIC/ CNPq: em baixo, da esquerda para direita, a quinta menina olhando para cima e toda sorriso!
Passo ao meu passo curto e devagar pela alameda da praça. Um dia esplendoroso se manifesta com muita luz, calor, vento e cores das coisas vivas. Ando olhando para locais e coisas que ninguém costuma olhar. Mesmo assim, percebo à minha frente, sentada em um banco, uma mulher com a cabeça entre as suas mãos. Normalmente, e por incrível que pareça, formigas, besouros e pequeninas aranhas chamam mais minha atenção do que meus pares de espécie. Entretanto, aquela mulher de cabelos negros está tão só, tão frágil entre suas mãos, que finjo cansaço e sento na ponta contrária do banco onde ela está.
Como qualquer animal, respeito o espaço dela. Já notaram que não é preciso grandes mentes humanas para fazer isso? É, todos respeitam instintivamente o espaço dos outros. Pelo menos, os animais “irracionais” nos ensinam... Educam em exemplos a nós, grandes chimpanzés religiosos e de pelos ralos. Pequeninos animais na maioria do tempo, respeitam uns aos outros:
Eu tento fazer o mesmo! O mesmo do mesmo! Aproximar-se, respeitosamente e... demonstrar carinho e empatia por essa mulher sozinha.
Quebro o silêncio:
Eu – Bom dia!!! Você sabe que horas devem ser? Meu relógio quebrou!
Maria – Não tenho relógio!
Eu – Ah! Desculpe-me interromper seu silêncio! Posso fazer outra pergunta?
Maria – Olha, por favor, não me incomode, especialmente se você é um daqueles ridículos que não podem ver uma mulher sozinha.
Eu – Eu sou um homem comum, por isso sempre estarei preso à média dessa mesma “normalidade”. Eu sou um desses mesmos “ridículos”. Verdade, mulheres me atraem, mas, não ria de mim, besouros me são muito mais fascinantes.
Maria – Kkkkkkkkkkkkk!!! É só ficar sozinha para atrair ou um tarado, ou um louco!
Eu – Se é o que pensa de mim e todos os outros, tudo bem! Eu compreendo sua estranheza!
Maria – Desculpa! Eu não quis te ofender. Se você é “comum” como disse, embora estranho por essa predileção por besouros, compreenderá minhas reservas e até meu deboche explícito, não é?!
Eu – Certamente! Por favor, eu não sou assim tão estranho. Tenho a pele parda, uso óculos, não sou belo e até baixinho...
Maria – Não entendo aonde você quer chegar!
Eu – Que seria mais fácil inspirar confiança se fosse branco, alto, olhos azuis, simétrico...
Maria – Kkkkkkkk!!! Entendi, eu li esses livros populares, “Por que homens fazem sexo e as mulheres fazem amor?”, ou mesmo um outro, “A culpa é da genética”. Também tem reportagens em revistas e até vídeos no You Tube, ou vendidos em bancas de revistas.
Eu – Ok, mas tem livros melhores do que esses que você citou. Por exemplo, há “Além de Darwin”, que possui um texto direto, simples e brilhante. Se não leu esse livro ainda, eu recomendo! Bem, em todo caso, eu pensei que você iria me dizer que tenho baixa estima, ou complexo de inferioridade!
Maria – Nem de longe! Você é atrevido, está aí tentando conseguir minha atenção. Todo delicado e sensível. Parece o Franz Kafka em pessoa! Isso pode ser um nerd, mas nunca alguém com baixa estima!
Eu – [rsrsrsrs] Eita, que nunca me elogiaram assim! Apenas porque puxei conversa e fui sincero comigo mesmo!
Maria – Quantas pessoas falam o que você me disse sobre prestar atenção em besouros?
Eu – Disso eu sei! Na maioria das vezes converso muito... apenas comigo mesmo!
Maria – Eu também!
Eu – Não falei meu nome, desculpe-me por isso. Chamo-me Waltécio.
Maria – Kkkkkkk!!! Ta explicado tudo, além de nerd, tens um nome estranho!!! Meu nome é Maria! Prazer em te conhecer!
Eu – Pelo menos você está rindo desde que começamos a conversar. Fiquei muito intrigado pela sua solidão e as faces presas às palmas de suas mãos.
Maria – Seja sincero! É porque sou linda, não é?!
Eu – Não raciocinei, apenas senti e agi. Sim, você é muito bela... mas, tem algo sensível demais nessa sua tristeza...Tem algo diferente, ou é coisa do nerd que sou?!
Maria – Primeiro, deixa claro pra mim o seguinte: quer transar comigo, não é?
Eu – Hã?!
Maria – Diz pra mim sinceramente que está de papo furado, estranho e florido para tentar me impressionar? Pintando de intelectual sensível, sobretudo aqui neste Brasil de pobres rudes! Ah! Exatamente como você falou, para compensar sua falta de armas físicas de sedução imediata.
Eu – Putz! Gosto demais do jeito que você fala! Verdade, temos alguns livros em comum, mesmo que apenas de divulgação científica. Eu gostaria de ter uma mulher como você entre os meus braços, não vou mentir! Entretanto, compreenda o que me fez parar e puxar conversa não possui esse objetivo. Ademais, posso ir embora se estiver te incomodando.
Maria – Fica, Waté “rrr” cio! Desculpa minha grosseria! Caso compartilhemos mesmo alguns livros, você entenderá minhas palavras e comportamento.
Eu – Olha o clichê que vou falar agora: compreendo, Maria, “humana demasiada humana”!!!
Maria – Kkkkkk!!! Isso mesmo, seu “besouro demasiado besouro”!!!
Eu – É um filme, um herói brasileiro esse besouro!
Maria – Não, você está mais para escaravelho mesmo!!! Quer dizer, no Brasil chamam de besouro-do-esterco, ou mesmo “rola-bosta”.
Eu – OH NÃO!!! Kkkkkkkkkkkkkkkkk!!!
Maria – Kkkkkkkkkkkkkk!!!
Eu – Por que você está aqui mergulhada em solidão?
Maria – Eu não sei! Sério! Simplesmente parei! O dia de hoje está tão lindo e tem tantas cores. Eu quis parar, fazer valer à pena estar viva. Sentir minha respiração, encontrar em meu corpo a história de todos meus ancestrais e agradecer a todo Acaso e Necessidade por estar... viva!!!
Antes mesmo do fim das palavras de Maria, eu já estava calado em perplexidade. Ela é uma alma sensível.
Eu – Faço isso, mas disfarço sempre! Sabe, nos chamariam de loucos!
Maria – Verdade!
Eu – Ao longe passam os outros, eles devem achar que estamos no mínimo conversando sobre o calor ou, o mais visceral, acertando nossa relação amorosa.
Maria – Tenho pena da maioria desses chimpanzés!
Eu – Sei do que você fala, mas não sinto o mesmo.
Maria – Por quê? Nossa espécie não tem lá sua beleza, assim como os besouros a sua?
Eu – Cada segundo da existência de um besouro é uma manifestação plena. É vida pela vida, sem qualquer parada para reflexão se vale à pena, ou não continuar. Besouros são vida bruta na essência mais sublime, por simplesmente viverem todos seus momentos completamente. Há pessoas que dizem para si mesmas que necessitam possuir coisas para se sentirem vivas. Você sabe, tem gente que está em prantos nesse exato momento, porque o sapato que usa não possui uma campanha publicitária importante, uma marca famosa. Pessoas matam outras, por causa de uma máquina como este celular! Não consigo ter um sentimento de pena de chimpanzés assim.
Maria – Você não deve ter lido muito, tem algo chamado de alienação... Coitados!
Eu – Já li a respeito, mas é parte do que sou. Besouros são muito mais belos do que muitos de minha espécie. Infelizmente!
Maria – Ok! Pelo menos você lamenta!
Eu – Lamento muito, porque nossa espécie possui potencialidade de ser a mão sensível da natureza. Aquela que preserva, aquela que salva, aquela que no momento mais escuro que um dia virá para este nosso planeta, levará suas sementes, toda a nossa história, para outro lugar possível. Isso é sonho de ficção científica, não é?!
Maria – Delírio de nerd é o mais adequado!
Eu – Pensei que você estava triste, ou pior, que estivesse com alguma dor, passando mal.
Maria – Esse é o encontro de duas almas sensíveis, Waté “rrr” cio!
Eu – Eu queria ser João para você falar meu nome direito!
Maria – Kkkkkkkkkkkk!!! O encontro de duas pessoas estranhas, uma delas com um nome mais estranho ainda!!!
Eu – Já tô me sentindo especial de novo, olha aí!!! [rsrsrsrs]
Maria – Tenho que voltar para vida comum, Waltécio. Prazer enorme em jogar conversa fora. Obrigada por perguntar como eu estava me sentindo.
Eu – Fui atrevido e segui meus instintos... E você não notou, mas falou direitinho o meu nome!!! [rsrsrsrs]
Maria – [rsrsrsr] Tá vendo, é aquela velha história de tentativa e erro. Bem, eu também faço isso, sou atrevida e sigo meus instintos. Sinto-me viva na grande maioria das vezes... entre tantos detalhes da vida... A vida de verdade, entendes?
Eu – Entendo, sim!!! Ah! Apaixonei-me por você! Espero voltar a lhe ver um dia.
Maria – Pequeno Kafka brasileiro!
Eu – Milena inesperada!
Maria – Kkkkkkkkkk!!! Agora fiquei vermelha!!!
Eu – Mais viva?!
Maria – Vermelho viva, então!!!
Eu – Até mais ver um dia, Maria-Milena!!! Se por toda a impossibilidade de nossas vidas breves nunca nos cruzarmos novamente, você sabe, quando morrermos nossos corpos serão decompostos e misturados. Devolveremos todos os componentes que pegamos emprestados. O carbono, a água, o hidrogênio e tantos e tantos outros que estão aqui na sua frente reunidos, com individualidade genética, social e histórica. Esse conjunto de coisas e seres que estão vivendo em nossos corpos... Um dia poderão compor seres diferentes! O carbono nas folhas das folhas de relva, a água na chuva torrencial do cerrado e o hidrogênio em asteróides percorrendo o universo. Cada pedaço disso está aqui te falando, mentindo para si mesmo que é Waltécio, que é Maria-Milena, que é besouro, que é lido, que é escrito. Viemos lá da poeira das estrelas... Nem lembramos disso e não seremos nós mesmos quando voltarmos a ser o que somos, sempre fomos...
Maria – ... matéria!
Eu – A matéria!
Nesse momento, como em qualquer conversa que temos, há uma pausa de segundos. Não notou, leitor(a) amigo(a), em cada diálogo, cada conversação, existe o que os pesquisadores da lingüística classificaram de “gap” da linguagem. No gap há um silêncio breve, onde os olhos encontram os outros olhos, uma linguagem corporal ancestral presente em nossa história, antes mesmo da origem da fala. Após isso, o gap é desfeito por Maria.
Maria – Então, tchau Waltécio! A gente se vê!
Eu – Siga em paz, Maria! Para terminar sem te surpreender e sendo o clichê que sou – nesse momento levanto a mão direita, faço com os dedos o sinal de Spock e falo em voz alta – “vida longa e próspera”!!!
Maria – Kkkkkkkk!!! Beijos!!!
Após isso seguimos em direções opostas, nunca mais nos encontramos outra vez. Todavia, sempre me lembrarei dessa doce alma sensível, em cada coleóptero vivo uma Milena inesperada!
Concluiu estágio pós-doutoral (2006) sobre ecologia de endoparasitas pulmonares de vertebrados pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), doutorado (2003), mestrado (1999) e bacharelado (1996) em ciências biológicas (zoologia) pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Atualmente é Professor Associado da Universidade Regional do Cariri - URCA, desenvolve pesquisas com parasitologia de animais silvestres e sobre etnozoologia dos hospedeiros estudados (anfíbios e répteis).
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