segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Sobrevivência Humana: Natureza e Modelos Sócio-econômicos

ISTOÉ - O capitalismo está entrando em colapso com a crise?
Chomsky - O único lugar onde o capitalismo existe é nos países do Terceiro Mundo, onde ele é imposto à força. (Noam Chomsky em entrevista a revista IstoÉ publicada em 27/02/2009).

Com uma resposta assim, o que me resta escrever sobre o assunto?

Eu sou integrante do Partido Comunista do Brasil - PCdoB e já escrevi algumas vezes aqui sobre a minha decisão e preferência pelo socialismo:
Uma opção particular pelo Socialismo
O exemplo que o sistema esconde
A desumanização do macaco
Leigos e cínicos

Entre esses posts, em
O exemplo que o sistema esconde um de meus grandes amigos, o Prof. Dr. Tassos Lycurgo (UFRN), fez um comentário semelhante à resposta de Chomsky, só que ao contrário. Lycurgo reconheceu que o capitalismo praticado no Brasil não possuium sistema de liberdades com a colocação do ser humano no epicentro axiológico de todas as decisões estatais e da sociedade (políticas, jurídicas, etc.)”, mas em seguida, listou como exemplos de sucesso do capitalismo os países escandinavos.

Nós sabemos muito bem que todo conforto dos países ricos está atrelado à nossa exploração. Isso é tão óbvio que todos nós também sabemos que não há como o planeta suportar por muito tempo a existência de impérios como o americano com seus padrões atuais de consumismo e degradação do meio ambiente sem precedentes na história humana e planetária. Mais ainda, não existe nem a possibilidade de outro país chegar a esse patamar de demanda energética.

Muita gente deve pensar que nós brasileiros somos os únicos responsáveis pelas queimadas na Amazônia, devastação da Mata Atlântica, emissão de gases nocivos para a atmosfera. Sim, pessoas estão por trás disso, mas são todas produtos de um sistema sócio-econômico que envolve a maioria dos países ocidentais. Afinal, capitalismo não possui pátria alguma e é fundamentado na característica mais inumana e antinatural possível: individualismo!

Nós somos animais sociais altruístas-recípocros, quase todos os grandes macacos são assim. Mesmo os orangotangos possuem parte de sua existência com relacionamentos familiares e afetivos, afinal uma mãe e seu filhote, ou uma fêmea nos braços de um macho são pequenos grupos de animais que necessitam um do outro para existir por um determinado tempo. Indo um pouco mais distante, entre os mamíferos, sabemos que a diferença entre animais sociais e os ditos “não-sociais” é uma questão de grau, tempo, intensidade do convívio e comportamento (ver Souto, 2000: 123-124. Etologa: princípios e reflexões. Editora Universitária - UFPE). Dessa forma, viver em grupo, trabalhar, cuidar da coletividade é algo que pré-data a nossa origem como seres humanos.

Individualismo nesse contexto de sobrevivência possui freios e é regulado por indivíduos altruístas-recípocros há milhões de anos. Imaginem a seguinte história fictícia e antropomórfica: nas matas do Congo nasceu algo novo, “um chimpanzé empreendedor” chamado Boris. Ele é individualista, competitivo, agressivo e um acumulador exagerado de recursos. No grupo de sua origem todos cooperavam entre si, mas Boris em alguns anos de vida impõe sua regra de “se dar bem para si e só para si”. Boris se transformou no mais poderoso macaco detentor de quase todas as árvores frutíferas e caça da floresta. Para comer, todos após a ascensão de Boris, tem de pagar a ele de alguma forma. Quando não possuem nada, Boris deixa todos os frutos e carne apodrecerem, não permitindo acesso à alimentação, mesmo que ele já possua muito mais do que necessário em sua vida de bonança.

Notaram que não dá para continuar com essa história? Na realidade se um chimpanzé caçar em grupo, mas não dividir a carne com justiça, esse indivíduo, não importando sua posição no grupo, será penalizado pelos outros nas próximas caçadas. Imaginem o cenário anterior? Ao primeiro sinal de comportamento nocivo ao grupo, Boris seria expurgado, senão surrado até a morte. A sobrevivência de todos não pode ser posta em risco pelo gozo desmedido de um indivíduo.

Essa política dos chimpanzés é conhecida desde o clássico livro de Frans de Waal "
Chimpanzee politics: power and sex among apes" (1982) e essa política de grupo é a chave para compreensão da origem das sociedades humanas. Chimpanzés são nossos irmãos em termos evolutivos, mas pensem bem, se eles são assim, imaginem nós humanos?!

As culturas humanas de caçadores-coletores são formadas por indivíduos imersos em uma coletividade, uns ajudando aos outros pela sobrevivência individual e a de todos ao mesmo tempo. Não existe a figura do “empreendedor” que se faz sozinho.

Drauzio Varella em seu livro "
Por um fio (2004: 158)" descreve assim o sentimento de que certa vez ele sentiu quando estava em estágio na Suécia: “(...) Quanta diferença haveria em nascer num lugar sem gente pobre como Estocolmo e num bairro de operário de São Paulo? (...) Senti uma inveja como as da infância, difícil de entender. (...) Viver naquele país culto, organizado, sem miséria por perto, atraindo olhares admirados das mulheres.” Em meu caso particular, onde nasci e aqui onde trabalho nem São Paulo é! Bastou para mim uma viagem para Curitiba em 1998 e eu senti o mesmo que Drauzio Varella na Suécia. Olhem que Paraíba, Ceará e Paraná são estados de um mesmo Brasil!

A Suécia, Finlândia e Noruega não são bons exemplos do Capitalismo, porque não formam o núcleo dominante, tão pouco a periferia desse sistema. Se olharmos para o centro teremos os Estados Unidos e Inglaterra, sendo o primeiro quase um império monolítico com padrões de consumo e necessidades energéticas muito acima do poder de suporte deste planeta. Várias mentiras foram reveladas com o passar do tempo. A mais escandalosa é que nós no Brasil e outros países estamos em uma fase “em desenvolvimento”, que estamos “no caminho” para nos tornarmos uma potência desenvolvida.

O maior crítico é o economista brasileiro Celso Furtado (leia os clássicos "
Formação econômica do Brasil" de 1959 e "Raízes do subdesenvolvimento" de 2001), o qual demonstrou que essa doutrina econômica do desenvolvimento é uma mentira dos países dominantes para seus explorados. Os Estados Unidos não passaram por nenhuma fase de “subdesenvolvimento, ou em desenvolvimento” para se tornarem o que são. Eles não possuem nada parecido com a história do Brasil. Fomos e somos um povo colonizado.

Realmente, Chomsky e Celso Furtado estão certos, só existe capitalismo de verdade em países pobres e explorados!

No cerne do capitalismo americano está o “American way of life”, onde indivíduos se constroem e vencem por si mesmos. Não conseguir se tornar poderoso e rico lê-se nas entrelinhas: “loser” (perdedor). O indivíduo passa a ser o único responsável pela sua sobrevivência, sucesso e fracasso, algo completamente diferente da natureza primata humana.

Em termos de sobrevivência, necessitamos de modelos sócio-econômicos baseados em nosso comportamento natural de viver em grupo. O capitalismo é um ótimo sistema para uma minoria dominante, que segundo Coniff (2004), é composta e caracterizada por indivíduos “triplo A”: Ávidos, Agressivos e Acumuladores. Segundo o mesmo autor, esses são “os animais mais perigosos e arredios da Terra”, descendentes diretos dos primeiros plutocratas agrícolas.

Não há liberdade nesse sistema capitalista, apenas retórica e discursos falsos. Se continuarmos nessa ilusão social de que podemos fazer tudo sozinhos, condenando milhões de pessoas à miséria, destruindo tudo para mantermos hábitos de consumo supérfluos, vamos nós mesmos criar várias crises econômicas que podem até nos levar para uma vida em meio à barbárie.

Após ter essa certeza, optei pelo socialismo/ comunismo por afinidade às nossas raízes naturais e porque é a única proposta pensada, analisada, com estrutura filosófica e científica (não deixe de ler o clássico "
A ideologia alemã" de Marx e Engels, 1933) que se contrapõe ao modelo capitalista vigente. Em minha opinião, o final do capitalismo é uma questão de sobrevivência humana.

Não estou defendendo erros, ou acertos de um pais ou outro, mas apenas escrevo que há algo mais positivo no socialismo em si e na luta por ele, do que simplesmente desistir e entregar-se ao mundo canibal do capitalismo selvagem. Se há erros nas experiências realizadas, é nossa obrigação corrigi-los. Novamente, nós necessitamos de um modelo sócio-econômico onde todos tenham acesso à educação, saúde e lazer gratuito e de qualidade. Um sistema que priorize o coletivo, as pessoas e, claro, o ambiente.

Sobreviveremos às crises do capitalismo? Sim, mas repito: será em meio à barbárie e caos ambiental.

Por que os chimpanzés sabem que “indivíduos empreendedores, egoístas e acumuladores” são os vilões de verdade, mas nós não? Se vivermos em um mundo de ponta a cabeça, nós que deveríamos ser os heróis, vamos sofrer com esses vilões e ainda acharemos que a culpa é nossa!

No capitalismo sempre sofreremos juntos e nunca sorriremos sozinhos!

Não custa tentar o contrário: vamos sorrir juntos e chorar apenas se sozinhos estivermos!!!

Voltemos às nossas raízes humanas e vamos seguir nossos instintos de animais sociais cooperativos. Chega de lutar contra nossa natureza!

A sobrevivência humana segue seu rumo!!!



Links
http://www.terra.com.br/istoe/edicoes/2051/artigo127063-2.htm
http://titaferreira.multiply.com/market/item/494/Ecologia_e_Socialismo
http://www.marx.org/portugues/marx/1845/ideologia-alema-oe/index.htm
http://www.centrocelsofurtado.org.br/

domingo, 26 de julho de 2009

Sobrevivência Humana: Petróleo e Nossos Hábitos

Vamos todos confessar um para o outro aqui: qual é a principal pergunta feita por nós mesmos quando se fala em uma possível crise mundial?

A resposta: “
Quando isso vai acontecer?!

E as respostas que sempre recebemos em seguida são expressas em milhões de anos para o fim do Sol e até décadas para o fim das reservas de petróleo. O que acontece depois? Fazemos uma longa expiração ("
Ufa!"), sorrimos e deixamos a vida continuar do jeito que está! Afinal, isso será preocupação das gerações futuras.

Do mesmo jeito que herdamos problemas de nossos antepassados (desigualdade social, poluição e destruição de ecossistemas), parece que nós estamos sempre repetindo os erros e negando-se ao mínimo de esforço por um futuro melhor, apesar de não estarmos vivos nele.

Antes de falar do petróleo, o principal ponto deste post, segue um exemplo de como nós temos sido covardes em enfrentar de verdade os mais graves problemas ambientais. No ano passado, eu, os professores Plínio Delatorre (biofísico), Beatriz Tupinambá Freitas (bioquímica), José Carlos Freitas (químico analítico) e nossos alunos fomos convocados pela Justiça Federal para realizarmos uma avaliação técnica-científica de diversos aspectos do depósito de lixo (sig., lixão e não aterro) da cidade de Juazeiro do Norte/ CE (Proc. No. 2000.81.00.014535-6/ Ação Civil pública movida pelo Ministério Público Federal e IBAMA contra o município de Juazeiro). À parte de todos os aspectos técnicos, as fotos abaixo, tiradas no depósito de lixo de Juazeiro do Norte pelo meu orientado, Samuel Cardozo Ribeiro, são bem mais informativas do que qualquer coisa que eu tenha escrito:

Esse é um dos nossos maiores problemas que se repetem no mundo inteiro, décadas a fio. Há dias vimos estarrecidos na TV a importação ilegal de lixo da Inglaterra para o Brasil, prática que reflete bem o início do post: estando eu bem, que se explodam os outros! Nesse caso, uma Inglaterra limpa, um Brasil sujo!

Quero que vocês, meus queridos amigos, entendam definitivamente que se forem em um estabelecimento qualquer e lá estiverem numa campanha contra as sacolas plásticas pela natureza, saiba que deveríamos fazer o mesmo com todos os recipientes plásticos, ou de nada adianta. Você não joga uma sacola, mas alimenta o lixão acima que continuará lá como um leviatã devorando rios, intoxicando os lençóis freáticos da água que bebemos.

Ou temos um programa de reciclagem sério e de larga extensão, ou o que fazemos não passa de uma atitude pequena burguesa. Calma, explico, uma atitude assim é se sentir bem não fazendo quase nada, tipo "
pronto não joguei uma sacola fora hoje", mas os mesmos hábitos no geral continuam. Sendo mais explícito ainda, nós todos sabemos que ninguém deixa de engordar por comer em um rodízio. Empanturrar-se de carne e gordura, depois tomar um “refrigerante diet” não faz diferença, o resultado geral é o mesmo: aumento de peso. Em todos esses casos quem ganha é quem vende, poupa o dinheiro da sacola (crescem os lucros, porque o preço poupado com as sacolas não é diminuído nas compras), ou com a venda do refrigerante diet. A boa ação de melhorar o mundo, ou não aumentar de peso na realidade não foram feitas: os lixões continuam e a obesidade também!!!

Calma novamente, antes de jogarem pedras em mim, ou perguntar, “
pelo menos uma sacola plástica já é algo”. Infelizmente, não é suficiente!!!

Agora, vamos até uma boa pizzaria. Antes da pizza, peça um suco de laranja e quando a pizza chegar peça outro. Você pode fazer isso muitas e muitas vezes, porque laranjas, trigo, queijo e calabresa são recursos renováveis e absolutamente recicláveis!

Pense com o mundo inteiro, quantas vezes nós teremos a oportunidade de irmos a um posto de combustível abastecer nossos automóveis? Meus caros, petróleo não é renovável e um dia terá um fim. Ao que tudo indica e com a produção/consumo atual (75 milhões de barris/dia), segundo o físico sueco Kjell Aleklett (2007) o “peak oil” (capacidade máxima de produção de petróleo) irá acontecer entre 2008-2018! Após isso, a produção entra em declínio e escassez. Em 2050 a produção será insuficiente para a demanda mundial... Dá para imaginar o que é isso? Vocês podem imaginar um mundo assim? Se não, entendam que estamos na Era do Plástico, tudo em nossa volta é derivado de petróleo... Tudo!!! O computador e seus componentes, a seringa e as embalagens de soro fisiológico, a camisinha e os óculos de sol, o gás da cozinha e aquecimento... Tudo! Sem contar que todas as formas de indústria (ressalto a agricultura para vocês não esquecerem) e transporte de seus produtos dependem de petróleo.

Em 2018 eu terei 47 anos, se tiver saúde e sorte, em 2050 estarei vivo com 79 anos. Eu serei um velhinho em plena crise mundial!!!... "OH NÃO"!!!

Há quem aposte o contrário, os economistas Paul Joseph Watson e Alex Jones (2005) acham que a hipótese do "peak oil" é pura falácia da elite para aumentar o quanto quiser o preço do barril de petróleo. Este ainda pode ser muito explorado por mais de um século sem problemas.

Eu não defendo elite, ou aumento de preço algum. Se Watson e Jones estão certos, teremos muito petróleo ainda para queimar, controlado pela indústria mais poderosa do mundo... Mesmo assim, um dia o petróleo acabará certamente (destruirá vários ecossistemas consigo antes disso). A diferença é que vamos continuar empurrando nossos problemas para as gerações futuras.

Todavia, se a hipótese do "peak oil" estiver correta, dessa vez eu não posso expirar em alívio com a frase “Ufa! Não estarei vivo quando isso acontecer”. Irá acontecer comigo, com vocês, e, pior, com meus filhos.

Vocês podem encher esse post com comentários apontando links de pesquisas com fontes de energias alternativas como a elétrica, nuclear, biocombustíveis (a partir de arroz, grama, beterraba, microalgas, cana de açúcar), solar e hidrogênio da água, ou do ar. Nenhuma dessas alternativas até o momento pode substituir em larga escala o consumo atual de petróleo. É mais fácil até imaginar saídas regionais, por exemplo, um combustível x é mais adequado para região y, combustível w para região z. Em transportes globais como aviões e navios devem ter algo comum e potente.

Bem, apesar disso, vemos poucos esforços e interesse das políticas públicas mundiais em enfrentar a nossa dependência atual e a futura recessão do petróleo. Tudo parece como no exemplo dos lixões, muita propaganda, muita atitude de pequeno burguês e nada de resolver os problemas que vão se acumulando dia após dia.

O barril de petróleo custa hoje US$ 48,54, chegou a US$ 150,00 em meados de 2008. Essa oscilação tem haver com o não controle do mercado internacional, sujeito às especulações sórdidas, atrelado e causador de crises econômicas mundiais. Em entrevista nesta semana à revista
Isto É Dinheiro, Kjell Aleklett alertou para um novo ciclo da disparada do preço do petróleo. Isso também foi alertado por Jeroen van der Veer, presidente mundial da Shell.

Se nada for feito, a premiada escritora norte-americana Antonia Juhasz alerta em seu livro “A Tirania do Petróleo (2009, Editora Ediouro)" para a destruição do meio ambiente e as futuras guerras do petróleo ainda mais graves do que as recentes. “
Prevejo que o preço do petróleo mais que se recuperará se os elementos subjacentes que levaram ao aumento não se modificarem: 1) desregulamentação do mercado futuro do óleo bruto; 2) o poder político e econômico sem precedentes das empresas petrolíferas; e 3) a grande dependência mundial em relação ao petróleo, um recurso que, supostamente, atingirá seu pico global em 2020” (Juhasz, 2009: 10).

Falta ainda comentar um dos aspectos que mais afetam meus pares na academia: e nossos automóveis?! Olha, eu não teria problema algum de voltar a andar de ônibus, fiz isso até o ano passado! Muito embora eu conheça professor de ecologia defensor da natureza com carro de consumo absurdo, mas da “moda”! O meu Gol, graças a pesquisa tecnológica brasileira, é Flex e tem um desempenho entre 10 a 13 km/L!!! A faixa de consumo desejada por Barack Obama para a frota de carros dos Estados Unidos em um futuro próximo... longínquo, ou nunca a ser alcançada. Por que isso? Vai de encontro com os hábitos humanos, mergulhados em um sistema de consumo irracional e pela glorificação de coisas fúteis a qualquer custo!!!

Vamos repetir novamente para deixar claro: o que adianta você comprar apenas um caderno de folhas de papel reciclado, se seu carro é um “tanque urbano” que consume mais do que o dobro de outros carros comuns (menos de 6km/L)?! Conforto? Segurança? Duvido muito e pouco me enganam, pois sei muito bem o significado das coisas e como elas estão em íntimo relacionamento com exibição de
status e poder.

O mundo mudará, quer gostemos ou não! No caso específico da indústria do petróleo, ela terá um fim, quer queiramos ou não, neste século, ou no próximo!

É o fim da humanidade? É o Apocalipse? NÃO!

Lembrem-se sempre que hoje há humanos vivendo em diferentes sistemas sócio-econômicos e culturais. Há caçadores-coletores, monges reclusos em seus mundos, humanos modernos extrativistas e até pequenas sociedades auto-sustentáveis.

Agora, se você não imagina um mundo sem o seu “carrão utilitário da moda”, tenha medo, tenha muito medo das mudanças futuras!!! Para esses últimos, já estão sendo vendidos manuais de sobrevivência no mundo sem petróleo. Novos guias de auto-ajuda que vão fazer muita gente estocar gasolina em casa, como fizeram os americanos na construção de casas com abrigos anti-nucleares durante o auge da Guerra Fria.

Ah! Não poderia perder a oportunidade de também responder em público a um aluno meu que fez o seguinte questionamento: “A revolução industrial foi iniciada com máquinas a vapor, por que não poderíamos voltar para essa tecnologia?

Por que nossa demanda energética cresceu demais e o “vapor” era gerado por CARVÃO!!! Apenas aqui no nordeste a produção de carvão, entre outras agressões, custou à destruição de 99% do único bioma exclusivamente brasileiro: a Caatinga!!! Transformamos em lenha e carvão quase que toda a Caatinga!!! As paisagens do nordeste hoje são tomadas por florestas de xique-xique, jurema, mandacaru e sabiá, em áreas de “descanso”. Um mato denso e espinhoso que cresce para ser cortado novamente, enquanto outras áreas são exploradas. Tudo isso muito diferente da Caatinga Arbórea original. Hoje em dia, essa madeira do sabiá e jurema alimenta a produção de tijolos, pães e pizzas!!! Sabem, a borda crocante com catupiry feita no forno à lenha?!... É o sabor do assassinato de nossa Caatinga.

Foto tirada por mim em 2005 de lenha ilegal apreendida pelo IBAMA em Aiuaba - CE.

Espero que tenham entendido que para mudarmos o mundo atual teríamos que fazer muito mais do que apenas evitar uma sacola plástica, uma doação anual de R$ 50,00, ou tomar um refrigerante diet. Mudar o mundo de verdade compreende um esforço coletivo equivalente a uma revolução dos valores e hábitos humanos ocidentais.

Caso não mudemos, sobreviveremos... Mas, em qual tipo de mundo?!

A Sobrevivência Humana continua... !!!

Links:
http://peakoil.org.uk/
http://www.worldproutassembly.org/archives/2007/05/the_myth_of_pea.html
http://www.energybulletin.net/node/29845
http://ar.groups.yahoo.com/group/redgeoecon/message/142
http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u416309.shtml
http://www.nossasaopaulo.org.br/portal/node/256

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Sobrevivência Humana: Apresentação


Vocês já ouviram falar em “peak oil” e o fim da indústria do petróleo?! Sabiam que nosso clima irá mudar radicalmente com ou sem emissões de CO2?! É verdade que pandemias infecciosas estão confirmadas para este século?!
As três perguntas com tons de exclamação envolvem debates atuais sobre (1) recursos não renováveis e crise energética; (2) mudanças naturais (vulcanismo, deriva continental, terremotos, tsunamis, meteoros, inversão magnética dos pólos, máximo solar, etc.) e a ação antrópica para o bem e para o mal; (3) limites biológicos de nossa espécie e todas as ameaças por outros organismos (uns já conhecidos por nós, mas hoje resistentes aos nossos fármacos, outros ainda emergentes).

Ok, ok, não pretendo escrever aqueles textos enormes e muitas vezes chatos sobre “conservação da natureza isso, temos que ser bonzinhos com as flores aquilo”. Afinal, eu sou um biólogo de verdade e não alguém tentando defender ideologias equivocadas, ou mesmo apenas fazer parte da “moda ambientalista” da pequena burguesia. Em meu trabalho com parasitas de animais silvestres tenho visto muita dor na natureza que ainda pode fazer parte de nosso dia a dia humano, apenas citando um dos aspectos do parágrafo anterior.

Quero escrever aqui sobre o que sabemos de verdade, e, onde for possível, as ações de verdade. Por exemplo, leio e escuto com freqüência pessoas que defendem o meio ambiente como se fossem salvar algo para sempre, preservar floras e faunas como se elas fossem sistemas fixos e eternos. Se há algo que é imperioso na história dos sistemas biológicos chama-se mudança. Em outras palavras, evolução para sobreviver e replicar os genes eternos. Nosso planeta mudará de um jeito ou de outro! Claro, nós esperamos que essa mudança não seja para algo hostil à nossa própria sobrevivência.

Só de escrever isso, alguns já ficam de cabelo em pé, mas não confundam um debate sobre a ação nociva de modelos sócio-econômicos humanos (colonialismo/ capitalismo/ imperialismo) com a atividade humana em si sobre a natureza. Nós fazemos parte dela, por ela e para ela. Como qualquer outro ser vivo, somos frutos gerados pela evolução por seleção natural. Nós não somos alienígenas neste planeta!

Em comum acordo, quando éramos apenas caçadores-coletores vivíamos sem sermos os responsáveis pela destruição de ecossistemas e a extinção em massa das espécies. Todavia, sabemos que não somos mais assim, sabemos também que a história não se repete e que mesmo em um chamado mundo “neotribal”, se isso viesse realmente a acontecer, seríamos muito diferentes dos nossos ancestrais das tribos humanas no neolítico.

Nós somos uma espécie que só ocorre neste planeta, ou seja, somos endêmicos da Terra. Hoje não possuímos tecnologia alguma para dominar nosso clima e a evolução das espécies, assim como não podemos fugir daqui para outro lugar. Precisamos de tempo para tentar conseguir avançar nisso, mas tempo é algo que talvez não tenhamos.

Se uma crise global de recursos se estabelecer, como nós nos comportaremos em um mundo quase sem energia elétrica e combustíveis fósseis? Adianto para vocês que nosso comportamento primata para disputa de recursos e território é um só: guerra!

Chimpanzés fazem guerra por território e recursos naturais. Nós, como é de se esperar, fazemos o mesmo, mas de forma muito mais elaborada, entenderam?!

Assim apresento a série Sobrevivência Humana! Nos seis textos que virão abordarei os fatos, exageros e as verdades sobre (1) recursos naturais e crise energética; (2) modelos econômicos e a natureza; (3) fatores naturais (p.e., vulcões, terremotos) e eventos estocásticos da evolução (p.e., extinções em massa, equilíbrio pontuado); (4) doenças infecciosas; (5) limites biológicos dos seres humanos; e (6) a verdadeira ciência contra as previsões esotéricas do fim do mundo.

A vida na Terra é um rio que começou a correr há 3,5 bilhões de anos e chegou até você e a mim, no meio de uma diversidade espetacular” (Varella, 2000: 8). Até quando esse rio da vida continuará correndo? Até quando estaremos nele? Afinal, nada é eterno e tudo se transforma!

A Sobrevivência Humana!
Referência: Varella, D., 2000. Macacos. Publifolha.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Foot of the Mountain


Esse é o mais novo vídeo da banda A-ha que mais influenciou a minha adolescência:


Passados 37 anos, ainda fico surpreso como músicas simples assim me tocam.

Andar por multidões, festas e regojizos de modas nunca me atraíram. Ademais, eu também moro no "pé da montanha"... na Chapada do Araripe... e não troco isso por nenhuma metrópole.

No significado das coisas e memória de meu pai estão a vontade de mudar o mundo para melhor. Que seja então aqui no Cariri Cearense, onde envelhecerei e viverei "on the foot of the mountain".

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Esse post é uma homenagem ao meu pai, proletário (frezador profissional), esportista, um homem como qualquer outro, que lutou com suas forças para vencer todas as dificuldades comuns de nosso Brasil.

Te amo, pai! Nunca te esquecerei!

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Obs.: Aguardem, vem aí a série "Sobrevivência Humana".

quarta-feira, 17 de junho de 2009

domingo, 14 de junho de 2009

O significado das coisas: entre os dias brancos

Por que fiz isso comigo? Por que pintei meu dia com mais tinta branca do branco vazio que ele já era? Eu não fiz nada hoje, apenas deixei meu tempo se esgotar como se tivesse tanto tempo para desperdiçar. Eu não fiz absolutamente nada hoje, fiquei ali no canto das coisas, estático, entre dormir e acordar, olhar a janela, escutar o som dos poucos automóveis na rua e ir até a geladeira, no máximo de meu esforço físico... Eu não fiz droga alguma hoje! Deveria ser preso por esse crime. Desperdiçar vida deveria ser inafiançável neste sistema solar, sobretudo neste planeta... no dia de domingo.

Vocês sabiam que o dia de domingo não possui qualquer significado para a natureza? Todos os animais e plantas continuam suas rotinas de sobrevivência cheias de significado, repletas de evolução.

Minha espécie evoluiu para o dia de domingo?! Não, o correto é meus antepassados mais recentes, porque ameríndios e tantos outros povos de caçadores-coletores não possuem um dia tão inútil e vazio em suas vidas. Domingo é uma conseqüência, o produto final de nossa evolução cultural. Deveríamos estar todos muito felizes por termos 24 horas vazias formando nosso dia mais branco de cada semana, mas não estamos, por quê?

Algumas pessoas não entendem a necessidade existencial de procurar respostas sobre o que somos e de onde vimos. Outras se satisfazem com a primeira resposta, ou livro que lêem. Eu digo a você meu amigo, uma pesquisa modesta entre livros de divulgação científica, ou um passeio com os olhos pelos artigos científicos disponíveis na internet sempre te levarão à África, nossa terra natal, lar de nossos ancestrais. Se existiu um paraíso para a primeira população humana, foi lá naquelas savanas de campos abertos e grandes árvores esparsas.

Antes de nós, nossos irmãos em cladogênese já possuíam uma vida social de estrutura complexa. Nós e todos os outros primatas, em nossos grupos sociais, vivemos uns com os outros, amando, odiando, sorrindo, chorando. Para nós primatas, não há vida na solidão. Esta é sempre melancólica, sempre nos deixa em estado de depressão, mesmo os misantropos lá no silêncio de seus mundos particulares, com motivos de sobra para guardar suas mágoas de amores passados.

Solidão é o sentimento que descreve bem um dia vazio e branco:

Onde estão as coisas aqui no branco deste dia? Do que vale o carro de luxo, o relógio mais caro, o jeans da moda, o sabonete perfumado e feito artesanalmente só para você? O que isso melhora sua vida em um dia vazio e branco?

Sartre escreveu certa vez: “o inferno são os outros”. Entretanto, o paraíso também é!!! Precisamos de outras pessoas para sermos felizes.

Precisamos de pessoas ao nosso lado e não coisas!!!

É algo hoje estabelecido pela ciência, ou você não ouviu falar nas novas fórmulas de uma vida saudável: resolver tudo em seu bairro (compras, lazer e identidade social). O problema é que isso esteja bem longe da realidade e apenas grupos da “classe média alta” costumam defender essa idéia ao edificarem seus condomínios de luxo privados. Já os mais ricos têm como extremo representado pelo Principado de Mônaco, um mini-país feito apenas para milionários, construído para simular uma vida tribal de abastados contemporâneos.

Há quem até defenda o abandono total desse modo de vida que temos para um retorno às sociedades de pequenos agricultores, ou mesmo caçadores-coletores. Quem possui essa felicidade natural deve ser defendido de nós, seres culturais tecnológicos, produtos da última revolução cultural da solidão e exploração das pessoas mais fracas. Isso é bem representado na música em homenagem ao Timor Leste por Morten Harket (vocalista da banda norueguesa A-ha):

Sandalwood trees are evergreen
Árvores de sândalo são sempre verdes
Cut them down
Cortem-nas
Plant coffee beans
Plantem grãos de café
Build no schools
Não construam nenhuma escola
Construct no roads
Não construam nenhuma estrada
Mark them as fools
Marquem eles como tolos
Let ignorance rule
Deixem a ignorância governar
Leave them stranded on their island
Deixem eles em sua ilha
Treat them to the tune of silence
Tratem eles ao tom delicado do silêncio
Red is the cross that covers out shame
Vermelha é a cruz que cobre nossa vergonha
Every Kingdom, every land
Cada reino, cada terra
Has it's heart in the common man
Tem seu coração no humano comum
Silently the tide shifts the sand
Em silêncio, a maré desloca a areia

Estranho como algumas histórias religiosas refletem nossa realidade. O livro sagrado de todos os cristãos está correto: nós perdemos nosso paraíso!!! Pela ciência, pela glória do capitalismo, pela fantasia de marketing das coisas que somos compelidos a consumir, ou até mesmo viver por elas.

Hoje é domingo, o dia mais branco e mais vazio de todos. Tento escutar o meu CD favorito, o filme mais marcante, ler o romance mais emotivo... tudo para entreter minha mente. Entretenimento de massas é um dos negócios mais lucrativos. Nós evoluímos ao redor de fogueiras, onde os mais velhos contavam histórias fantásticas para todos.

Nós precisamos de histórias para viver.

Também dançávamos e cantávamos a todos os pulmões pela alegria de uma boa safra, ou mesmo em luto pelos nossos entes mais queridos. Até para ir à guerra, quando era inevitável, nós cantávamos todos de mãos dadas, uns com os outros.

Hoje tudo está gravado em linguagem binária de computadores. Bytes, mega, giga, tera, yottabytes do que fomos, o que sobrou de nós mesmos no significado mais profundo das coisas.

Os sóis são indiferentes a nossa existência, todo o universo não está nem aí para nossa dor e finitude. Nós só temos uns aos outros e isso inclui todas as outras formas de vida deste planeta.

Nós somos tão efêmeros, animais tão frágeis como mostra toda a psicologia básica de alguém com orgulho exagerado. A soberba e auto-afirmação das pessoas esnobes, na verdade refletem um complexo de inferioridade agudo. Liderança e qualquer outro papel social são dados pela escolha da maioria, como bem fazem nossos irmãos chimpanzés. Construir isso artificialmente está no âmago de nosso mundo de ilusões e solidão contemporâneas.

Domingo um dia clássico de depressão no mundo ocidental moderno. Ouço o barulho das risadas e choro de meus filhos pela casa. Um dia eles vão partir, assim como eu fiz anteriormente. Meus domingos ficarão mais vazios no futuro e esse vazio poderá se alastrar para os dias da semana em minha aposentadoria. O maior inferno de todos é ter dias brancos espalhados por toda semana.

Não há coisa que se possa comprar com dinheiro capaz de preencher e entreter para esquecer esse vazio.

Pelo menos nos resta a arte, que seus dias brancos sejam como aqueles cantados por Geraldo Azevedo:

Só não esqueça que na música há um clamor por outra pessoa, um amor de paixão, ou um amor de sua família. Mesmo se sua casa for enorme e abarrotada de coisas, mesmo as mais caras possíveis, se não houver alguém nela que te ame... Tudo isso será um nada, vazio e absoluto.

Em um dia branco precisamos de pessoas ao nosso lado. As coisas que possuímos precisam estar mergulhadas nesse significado!

O significado das coisas.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

O significado das coisas: entre o status e a inveja

Como vimos no post anterior, coisas são necessárias para nossa sobrevivência. Associado a isso existe as campanhas publicitárias que decorrem de estudos científicos sobre como usar nosso comportamento humano instintivo e social para promover ilusões de necessidades.

Há um lado bom nisso. Algumas marcas de fantasia se misturam com suas próprias empresas/ indústrias e nos trazem a sensação de segurança na qualidade de seus produtos. Entretanto, quem não ficou surpreso quando soube da adulteração do leite de marca famosa com adicionamento de soda cáustica?! Acho melhor acreditar que devemos ter órgãos de fiscalização eficazes para nossa proteção contra a fraude das coisas. Afinal, adulterar alimentos e remédios deveria ser crime semelhantes à tentativa de assassinato.

Escrevi sobre os extremos de hoje, porque ouro em comida acho insulto demais. Por outro lado, há uma outra categoria de coisas que não está ligada diretamente à nossa sobrevivência. Elas identificam
status e estão ligadas aos padrões de beleza culturais variáveis (a “moda”). Em outras palavras, tudo o que nos dá bem estar deve ser levado a sério para termos uma boa saúde. Entretanto, adoecer de raiva por não comprar aquele jeans famoso, ou até matar para conseguir um “tênis de marca” é aqui o tema deste post.

Antes de prosseguir esclareço o seguinte: compomos uma única espécie (
Homo sapiens), somos todos humanos, mas cada um por sua vez possui individualidade e diferenças de aptidão. Mais ainda, não tiremos da mente que somos animais sociais e vivemos em estruturas baseadas em hierarquias. Isso é um determinante genético, mas moldado por efeitos epigenéticos da própria estrutura social de nossos grupos. Ou seja, nem nós, nem os chimpanzés temos um sistema de castas fixo e fatalista. Chimpanzés literalmente elegem seus líderes e caso esses mesmos líderes se tornem tirânicos, a mesma maioria que os elegeu irá depô-los. Nesse contexto, leituras como o livro “Eu, primata” (Frans de Waal, 2007. Companhia das Letras) deveriam ser obrigatórias para qualquer pessoa que ocupe uma posição de liderança.

Entre os chimpanzés, ocupar a função alfa em um grupo requer toda uma conjuntura de comportamentos e situações. Em humanos isso vai aos extremos, porque somos animais de cognição subjetiva exacerbada (outros escreveriam “complexa”). Nesse contexto, todas as culturas na história humana apresentaram coisas dotadas de símbolos de representação subjetiva para
status e poder das posições na hierarquia do grupo. Colares, brincos, peles, pinturas corporais sempre foram usados como sinais de identificação social e beleza em homens e mulheres.

Identificar-se através de utensílios simbólicos como um dos melhores guerreiros (por exemplo, a lança feita de ossos de mamute do filme 10.000 BC), pode ser semelhante a usar terno e gravata dos executivos, políticos, etc. Todavia, os contextos sociais são muitíssimos diferentes. Hoje em dia jóias, roupas, sapatos e até o tipo de bebida alcoólica em sua mesa podem identificar quem você é, ou pelo menos levantar hipóteses bastante fantasiosas.
A grande maioria de nós acha que as pessoas de poder (isso quer dizer hoje, muito dinheiro) irão aparecer entre nós vestidas de forma diferente com acessórios de beleza inatingíveis aos comuns, por exemplo, com relógios Rolex.

Isso é um tipo de estereótipo das massas incorporado pelo que chamamos "classe média alta" e nos “novos ricos” (ambas classificações equivocadas). Afirmar-se e incorporar uma posição social baseada em quinquilharias extravagantes é reconhecidamente cafona... e tem o efeito contrário, demonstra a origem de dificuldades financeiras, a pobreza que não saiu dos desejos das coisas supérfluas.

Por exemplo, quando homens comuns caricaturam mulheres de posse, normalmente os cartoons são assim:

Pura ilusão... semelhante às paredes das borracharias e propagandas de bebidas alcoólicas! Segundo Conniff (2004): “Com freqüência, as pessoas que estão no alto da hierarquia são seguras demais para sentir qualquer ameaça, ou espertas demais para demonstrarem o que sentem. (...) A exibição pode perder status, na verdade, na medida em que seja compreensível para as massas ignaras. (...) As melhores exibições são feitas numa linguagem privada, que só é conhecida por outros milionários. Uma mulher elegante pode usar um broche que, para a maioria dos olhos, parece ser aço. Mas as pessoas certas saberão que, na verdade, a dona do broche foi comprá-lo em Paris, numa lojinha da Place Vendôme que parece falida, com veludo malva desbotado nas vitrines e nenhuma jóia à mostra, nem tão pouco qualquer letreiro, exceto pela gravação ‘J.A.R.’s’ em vidro espelhado no alto. Ali numa escrivaninha coberta de couro azul surrado, um joalheiro chamado Joel A. Rosenthal tem encontros privados com as mulheres mais ricas do mundo e exerce a arte singular de dar a platina à aparência do aço, e de fazer safiras cor-de-rosa passarem por ametistas corriqueiras. Seu trabalho é tido como arte, mas só as outras pessoas capazes de pagar por ele adivinhariam que uma peça típica pode sair por 30 mil dólares. (...) Surge uma tendência a excluir do sistema os componentes mais baixos da população, até como espectadores cujo aplauso ou humilhação se deve buscar. Ou seja, para os ricos querer impressionar um estranho na rua faz tão pouco sentido quanto um pavão querer impressionar um cachorro” (Conniff, R., 2004: 208-209. A História natural dos ricos. Editora Jorge Zahar).

De cima para baixo na hierarquia, nossos símbolos obedecem às modas que sucedem às gerações e ao tempo. Seu automóvel, o tipo de relógio que usa, o tênis, o jeans desbotado, o celular... a caneta tinteiro de prata, quando tudo isso possui as “marcas certas”, estarão em uma sintonia de detalhes minimamente observados, desejados e invejados!!!

Um pequeno parêntese: quero deixar claro que não considero crime algum comprar coisas de qualidade. Um bom automóvel é equivalente a uma ótima guitarra, seus preços às vezes refletem os materiais de boa qualidade, tecnologia e mesmo os impostos. O problema para mim está nos extremos, como uma guitarra de ouro (sem função alguma, apenas exibição). Além disso, algumas pessoas parecem enlouquecer, ver suas felicidades dependerem dessas coisas... Elas mesmas se transmutarem nessas coisas, ou melhor, se tornarem escravas delas.

Entre a manifestação de sentimentos negativos de desejo das coisas está a inveja do sucesso e posses de outros. Nesta semana li uma reportagem curiosa e muito interessante na
Revista Isto É, cujo título diz tudo: “INVEJA DESVENDADA: pesquisa revela que esse sentimento é processado na mesma região cerebral que a dor física”. Segundo as pesquisas divulgadas nessa reportagem "a inveja é uma emoção dolorosa [física e fisiologicamente falando] e além da insegurança, a baixa auto-estima, o sentimento de incapacidade e a sensação de injustiça são características comuns aos invejosos. É um sentimento muito antigo, que está lá em nossa psique ancestral. Quando isso é positivo fica na esfera da admiração, mas nos casos negativos podem ser bastante destrutivos. Uma pessoa invejosa e hostil quando não consegue ser igual ao objeto da inveja, ou tiver o que ele tem, parte para cima do invejado com a intenção de derrubá-lo. É como se pensasse “se eu não posso ter, você também não terá”. Nesse jogo vale tudo: calúnias, armações, perseguições e, em casos mais extremos, o desejo de morte (Jordão, C. e Rabelo, C., 2009: 68-73. Revista Isto É. 3 JUN/ ano 32, no. 2064).

Click e assista:


Coisas, pessoas e seus símbolos estão misturados em nosso dia a dia e se vivemos em uma era dos extremos, isso sempre estará exagerado e sem medidas reais. Uma luta de classe e revoluções são compreensíveis mediante o sistema de exclusão social em que vivemos. Entretanto, ser agredido fisicamente, ou até assassinado por causa de um "tênis da moda" é algo fora do comum. De certo, temos exemplos clássicos na literatura como o assassinato de Déagol por Sméagol em "O Senhor dos Anéis". Mas, o anel da discórdia (a coisa desejada) entre esses personagens era mágico e poderoso, a inveja e o assassinato de Déagol não podem ser comparados a matar alguém por causa de um "tênis" na vida real:

Não gosto desses programas de fim de tarde sobre "rinhas familiares", entretanto, sobre essa categoria de coisas de consumo tenho a mesma opinião da Regina Volpato:


Por isso é muito importante sempre ter em mente o verdadeiro significado das coisas.

São apenas coisas!!!
 
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