sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Ódio, o irmão gêmeo do Amor



Nós humanos aprendemos a não gostar de outros, não há genética para o ódio!!! [Barulho dos fogos e aplausos]... rsrsrs!!!

Mas não posso falar o mesmo da agressão entre indivíduos da mesma espécie.

Sou um grande leitor de Histórias em Quadrinhos e em agosto de 1990 fiquei chocado ao ler nona edição do Sandman ("Histórias na Areia"), leia o trecho escrito por Neil Gaiman (pág. 17):

Morpheus: "Você me fez sofrer. Podia ser minha rainha, mas, em vez disso, escolheu o reino da Avó Morte".

Nada [a rainha] manteve a cabeça baixa.

Morpheus: "Uma vez mais eu vou lhe oferecer meu amor. Uma única vez. Se você me recusar uma terceira vez, condenarei sua alma à dor eterna. Por isso eu pergunto, doce amor... quer ser minha rainha?"

Ela disse não e amargou 10.000 anos no Inferno!!!

Naquele dia e por muito tempo depois, quando eu lembrava dessa história ficava me perguntando o porquê de alguém condenar a tanta dor a pessoa a quem se ama. Só aprendi muitos anos depois, quando me apaixonei com grande intensidade por uma mulher, a tive em meus braços, senti o sabor de seus beijos e a ternura de seu sexo. Mas, quando eu estava completamente perdido de amor, ela me deixou, recusou meu amor. Nos meses que passei entre lágrimas e dor só queria uma coisa: um inferno para poder condená-la por 20.000 anos!!!

Note, querido leitor, que os mecanismos iniciais utilizados foram os mesmos para o amor descrito no post “Amor de Primata”. Toda a bioquímica e fisiologia desencadeada culminaram em um “aborto sentimental”, algo como uma “menstruação com cólicas terríveis”.

Entretanto, o que nos conforta neste Blog é que esse tipo de sentimento negativo é uma resposta secundária ao amor. Caso Morpheus e eu tivéssemos sido plenamente correspondidos, haveria apenas histórias de amor para contar. Morpheus e eu aprendemos a odiar através da recusa.

Odiar também é metabólico e físico. Melhor, nesse nosso exemplo, como é resultado do metabolismo do amor, odiar é catabólico.

Da mesma forma anterior neste Blog, estou me referindo apenas a um sentimento. Pessoas podem confundir ódio com agressão, a raiva pela perda é diferente das guerras.

Em 1993 estagiei por seis meses no Laboratório de Primatologia Tropical da Universidade Federal da Paraíba – UFPB (lá chamávamos simplesmente de “Biotério”) sob orientação da Professora Carmen Alonso. O Biotério é localizado em um fragmento de Mata Atlântica.

Certo dia, todos os estagiários estavam designados para ajudar na vacinação dos macacos. Eu e Alexandre (hoje entomologista e professor da UFRN) éramos responsáveis por realizar observações etológicas de grupos de sagüis (
Callithrix jacchus). Entre os macacos, havia um macho chamado de “Dentinho”, era velho e faltavam dentes nele, por isso a profa. Carmen lhe deu esse nome. Após a vacinação, colocamos Dentinho de volta na gaiola, fechamos a portinhola, mas não percebemos uma coisa: do outro lado, havia outra portinhola... e esquecêssemos de fechá-la.

Dentinho FUGIU!!!

Foi um pânico no Biotério, inicialmente pensei comigo mesmo “ele conseguiu sua liberdade”. Contudo, nossa orientadora, após uma grande bronca, deixou claro para nós que ele morreria em questão de minutos.

Os grupos de sagüis que viviam nos fragmentos de Mata Atlântica na UFPB logo, logo sentiriam o cheiro de Dentinho... viriam todos para MATÁ-LO.

Agora sim, preservar o grupo e seu território (os recursos naturais de sobrevivência e reprodução) contra estranhos (principalmente da mesma espécie) é um comportamento muito comum de animais sociais, algo que designamos como XENOFOBIA.

Se estamos falando de ódio, está aqui uma forma de expressão com base genética. Odiamos os invasores, combatemos, fazemos guerra e exterminamos os “nossos inimigos”. Quando populações de uma mesma espécie disputam os mesmos recursos entre si, chamamos isso de competição intraespecífica (aí matamos indivíduos de nossa espécie). Quando são de espécies diferentes, é competição interespecífica (matamos e exterminamos outras espécies).

Lembram quando escrevi que nós devoramos os
Australopithecus até o extermínio (post “Andamos por aí”)? Aqui está uma provável resposta: matamos todos os nossos concorrentes, até almoçamos eles, se possível!!! Inclua também na lista dos prováveis exterminados pelas nossas mãos os Homo neanderthalensis. Matamos nossos irmãos em competição interespecífica!

Somos todos filhos de Cain!!!

Voltando para o Biotério: o que aconteceu com Dentinho?

Pasmem, depois de tanto procurar olhando para cima, encontramos ele por baixo da gaiola de outro grupo de sagüis. Dentinho fugiu, foi direto para a gaiola do macho que ele odiava, estava agarrado com ele, mordendo seu opositor (com os poucos dentes que tinha). Banhado de sangue do inimigo e com feridas das mordidas que ele levou... Dentinho foi parar na enfermaria.

Pertencer a um grupo é ser leal aos seus e combater outros de fora, no primeiro caso matar um semelhante é crime, mas no segundo é heróico.

Como bem disse Pascal:

Porque me matais? Como! Não ficais do outro lado da água? Meu amigo, se ficásseis deste lado, eu seria um assassino, seria injusto matar-vos da mesma maneira; mas, desde que ficais do outro lado, sou um bravo, e isso é justo.
http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/pascal.html

Dentinho foi tratado e voltou para sua gaiola. Ao lado, um pouco distante estava o outro macho a fitá-lo, fazia displays de agressividade (eriçamento de pêlos)... Dentinho retribuía de sua gaiola o mesmo display que traduzia o ódio mortal pelo seu inimigo!!!

Faces da agressão xenofóbica e do ódio catabólico!

2 comentários:

Darlan Reis disse...

É. Coitado do dentinho. Pelo menos você tinha alguém para amar e odiar, já o dentinho tava só no mundo...

Waltécio disse...

Se não me falha a memória, Dentinho compartilhava a jaula com duas fêmeas!!! Dentinho foi muito amado, excessivamente amado... rsrsrs!!!

 
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