segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

A mesma velha e nova coisa

Foto do amigo e camarada Inácio Carvalho

No final do século XX nós vimos o apogeu do pós-modernismo, uma onda de relatividade pessimista que reduzia todo o conhecimento humano a pontos de vista. Como se ácido acetilsalicílico não tivesse efeito sobre sua dor de cabeça, ou nossos carros funcionassem movidos por retórica e não tecnologia.

Estranho porque um grupo de autores sem imaginação, ou contribuição científica relevante quis chocar o mundo com a idéia de que tudo havia acabado. Para eles era o fim de todas as coisas, o fim da História, o fim da Arte... o fim da Ciência.

Por que isso? Impressionados com a virada de um século? O número 2000 impressionava aos supersticiosos? Talvez uma mistura de tudo isso, ou simplesmente aproveitaram a oportunidade da sensação esotérica crescente naquela época.

Para quem estava lendo um pouco essas idéias em 2000 não foi fácil ser "contra-a-moda". Meu orientador achou muito fascinante tudo e falava em "deconstrução* do conhecimento" (*é assim mesmo que se escreve, sem o "s" - do inglês "deconstruction of knowledgement"). Eu e ele divergimos feio nesse ponto! Sem contar meu amigo Élvio (hoje professor da UEPB), que entrou em crise profunda depois de ler o livro "O Fim da Ciência" de John Hogan.

"O Fim da Ciência" é um livro de entrevistas e todos os cientistas abordados concordaram: há muito ainda por conhecer e mesmo as grandes teorias devem continuar sendo estudadas, nenhum empreendimento humano é capaz ainda de enquadrar toda a realidade deste planeta e pior ainda do universo. Em outras palavras, em apenas dois séculos de ciência como a conhecemos, não poderia ser o fim... ainda estamos no começo de tudo!

Então, de onde veio a idéia do "Fim da Ciência"? Não veio de um cientista... mas do próprio entrevistador, John Hogan, um jornalista!!!

Andei pensando muito nisso nos últimos três anos. O que é novo? Serei repetitivo e não contribuirei com o conhecimento em minha atividade profissional?

Aqui então vão dois lados desse problema: o novo e o velho-novo.

O novo é algo que surge da criatividade e conhecimento prévio. Por exemplo, primeiro a idéia de evolução biológica (Lamarck), depois como ela ocorre (Darwin) e em seguida como é transmitida aos seus descendentes (Mendel). Algo novo e com robustez científica dos séculos IX e XX. Idéias do Equilíbrio Puntuado (Gould) e evolução simbiótica (Margulis) são novidades complementares à teoria da evolução.

Difícil é definir algo completamente novo para nós, por isso, tudo parece velho-novo. Continuando nosso exemplo, a idéia de um mundo que se transforma pode ser ancorada em pensadores gregos como Heráclito e Empédocles. Embora eu concorde com Ernest Mayr que nenhum desses filósofos falaram de evolução biológica como compreendemos hoje. Todavia, há sim um observar da natureza e a conclusão lógica de que o mundo não é fixista.

Essa discussão talvez possa parecer desinteressante para você, meu leitor, mas claro, não vou deixar-te fora disso. Na verdade, a minha preocupação com algo novo não necessariamente se restringia a ciência, mas a música que poderia compor com minha banda (Death Garden), o que de novo poderia escrever (romance), o quão original poderia ser nesse mundo de bilhões de cópias de humanos com histórias de conhecimento milenar.

Estava escutando Legião Urbana dia desses e lembrei dos acordes e arpejos que eles sugaram de bandas como The Smiths e The Cure. Na década de 1980 esse movimento foi classificado como New Wave para alguns, ou Pós-Punk para outros.

As letras e simplicidade da música dos The Smiths influenciaram toda uma geração inglesa até Radiohead. Já The Cure e outras bandas como Bauhaus, Fields of Nephilim e Sisters of Mercy foram as sementes do que conhecemos como Gothic Rock moderno e suas vertentes um pouco mais pesadas como HIM.

Costumava bater boca com fãs do Legião Urbana perguntando "o que de novo eles criaram na onda do rock de então"?

Eram as letras! Elas falavam do cotidiano jovem daquela época, eram particulares do Brasil e universais em outros pontos... claro, eram em português!!!

Isso resolve todos nossos problemas anteriores. Não há fim, mas transformação das coisas sempre. Se hoje você gosta de ler este Blog, é porque ele está contextualizado com seu próprio tempo.... claro, está também em português!!! rsrsrs!!!

As mesmas velhas idéias mais aprimoradas e revividas a cada geração. Sem crises de fim da criatividade e empreendimento humano.

Amo escutar Legião Urbana e The Cure, gosto de ler Dawkins e escrever neste Blog. Tudo são coisas semelhantes, mas diferentes em detalhes.

É a mesma velha e nova coisa!!!

Da mesma forma que você a comer bananas em um sábado de feira-livre ao lado da sua mãe!!!

4 comentários:

Inácio Carvalho disse...

meu camarada waltécio, primeiro obrigado pelo crédito da foto, mas nem precisava pedir, muito menos dar esse valor todo. de todo modo, fico grato.

leio sempre seu blog - as vezes em companhia do meu filho guilherme, fissurado por paleontologia - e acho legal essa sua opção científica-biográfica. a nossa vida também é uma construção científica, objeto de estudo enquanto indiíduos e coletivo. parabéns pelo que vc escreve.

sobre esse post, acho que vc tem razão nesse "mesmo velho novo", a vida é isso, mas o importante é sempre contruirmos o novo, ousarmos abrir novas picadas e construirmos a transformação. afinal somos um permanente ambiente de transformação interna, imagine se não vamos transformar o mundo.

um grande abraço, macaco alfa

Waltécio disse...

Valeu, Camarada!!!

Cuidado com as "macaquices" nas festas de fim do ano, hein?!

Ainda faremos à Revolução!!! Olha aí um novo e velho empreendimento humano... para a melhoria do mundo!!!

Abraço para você e seu filhote Guilherme!!!

W.

Eduardo disse...

Falar em fim da ciência, nessa época aí Elvio comprou pra mim "O Fim da Física" do Stephen Hawking. Uma extensão física do problema que você descreveu no seu post. Na verdade seria uma das possíveis raízes do problema.

Nessa época as supercordas estavam começando a se popularizar em meios não-acadêmicos como uma teoria de grande unificação. Por "grande unificação" você entende a unificação da mecânica quântica e da relatividade geral. Segundo Hawking esse seria o primeiro passo para se escrever uma Teoria do Tudo (carinhosamente chamado de TOE: theory of everything, entre os entusiastas); a equação final, de onde todas as equações poderiam ser deduzidas como um caso particular. Uma única equação capaz de explicar tudo no universo, a resposta final para todas as perguntas; o fim da física/ciência. Esta equação é muito frequentemente chamada pela mídia de divulgação de o SANTO GRAAL DA FÍSICA. Eca.

Claro que hoje em dia o oba-oba passou (ou diminuiu, ao ponto que nunca mais li ou ouvi sobre isso) e todo mundo tem consciência de que mesmo depois de uma unificação (coisa que não deve acontecer tão cedo), construir uma teoria do tudo demoraria eras e mais eras. Gerações e mais gerações de físicos dedicados, com ajuda de vários monolitos como o da Odisséia no Espaço.

Enfim, acho que Elvio estava querendo alguem pra traduzir o livro do Hawking. É um livro fininho e deu pra ler rápido. Está aí a tradução. Que sirva como ilustração. E como alívio para a alma perturbada do meu digníssimo irmão.

P.S.: Vale lembrar que essa história de fim da ciência é recorrente. O caso mais esdrúxulo que eu conheço aconteceu quando Lord Kelvin disse que no final do século XIX já se sabia tudo o que havia pra saber. Exceto por duas pequenas nuvens negras no horizonte da ciência: a dificuldade em obter a curva da radiação emitida por um corpo negro e explicar os resultados do experimento de Michelson-Morley. Dessas duas "pequenas" nuvens negras saíram "apenas" duas igualmente "pequenas" teorias: a teoria quântica e a relatividade especial.

Waltécio disse...

Pois é, Eduardo,

Lord Kelvin tava errado imagina John Hogan?!

É uma idéia muito idiota essa de fim de tudo, porque acabou um século. Temos apenas cerca de 200 anos apenas de ciência como a conhecemos hoje e já terminou?

Há perguntas inquietantes que podem nos levar para muito além do que já nos encontramos.

Por exemplo:

1) O que são e quais as propriedades dos 95% da matéria do universo que ainda não conhecemos?

2) Se a vida possui como propriedade a autopoiese, então, é só disseminá-la em outros planetas que um novo cenário de seres vivos vai se desenvolver. Somos capazes disso?

3) Vida e inteligência artificiais... até onde poderemos chegar?

4) Compreender a evolução das espécies é um passo para desenvolver modelos de manipulação evolutiva de longo prazo e controlar completamente a matéria.

5) Eternidade física é possível (citando apenas as bactérias como exemplo). Poderemos controlar os sistemas genéticos e de desenvolvimento para termos esse "prêmio"?!

6) Desenvolveremos um GenBank da biodiversidade terrestre capaz de ser reproduzido em outros planetas?

Como você muito bem escreveu, geração após geração de pesquisadores ainda virão em levas através de nossa história.

Os deslumbrados com a beleza das primeiras grandes teorias não viram nada ainda.

Espero viver mais uns 37 anos para ver grandes verdades serem descobertas.

Tenho é que cuidar de minha saúde com muita ciência médica e biotecnologia dos fármacos... rsrsr!!!

Abraço,

W.

 
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