segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Sobrevivência Humana: Inimigos Biológicos

É exatamente meio dia, você está chegando em casa, prepara-se para o almoço quando de repente escuta o bater na porta: "toc-toc".

Quem será? Por que justamente você foi escolhido para ter visitas na hora do almoço? Que sorte, hein?! Ou o maior azar?!

Agora em 2009 comemoramos 200 anos do nascimento de Charles Darwin e 150 anos pela publicação de sua obra máxima “A Origem das Espécies” (*). Evidências e fatos empíricos da Evolução estão hoje muito bem descritos na literatura. Entre as evidências lista-se a microevolução, onde espécies que surgiram bem diante de nossos narizes, seja por nossa intervenção (hibridação, manipulação genética, etc.), seja por fatores naturais. Um dos exemplos desse último caso compreende a origem de novos vírus letais a nós humanos. No ano de celebração a Charles Darwin, vimos o surgimento de mais uma nova geração de vírus da gripe. Centenas de pessoas estão mortas e muitas outras centenas estão enfermas... Os vírus continuam no ar e evoluem...
O pior disso tudo é que os vírus da gripe não são os nossos únicos inimigos biológicos!!! Bactérias, protozoários, platelmintos, nematelmintos e artrópodes, a lista é muito grande! Olhem apenas para a diversidade de formas e cores das bactérias abaixo:

Caso você tenha lido os posts mais antigos deste blog, lembrará do que eu faço no dia a dia. Pesquiso parasitas das vias respiratórias dos vertebrados:

[clique]
Hipóteses
[clique] Implicações


Já no post anterior (
Sobrevivência Humana: Tudo Mudará para Sempre) ficou mais do que claro que a regra da natureza é a mudança! Nós estamos mudando de lugar no espaço-tempo desde a singularidade do big-bang que deu origem ao universo. Isso ocorre macro e microscopicamente.

Desde o início da vida estamos em uma corrida armamentista contra nossos inimigos biológicos. Isso se chama Teoria da Rainha Vermelha, mudamos para nos tornar mais eficientes, ou apenas enganar nossos predadores e parasitas. Entretanto, essas criaturas fazem o mesmo! O resultado dessa história são gazelas e guepardos velozes com a mesma capacidade.

Se predadores e parasitas (**) forem muito letais, suas presas e hospedeiros sucumbem ao ponto de se extinguirem. No início isso pode não ser tão grave para inimigos generalistas. A maioria dos parasitas que estudo, por exemplo, os de lagartos, parasitam várias espécies ao mesmo tempo. A desvantagem é enfrentar tudo diferente em larga escala: sistemas imunológicos diversos, hábitos alimentares variados e muitos outros micro e macroparasitas que competem pelos mesmos recursos (às vezes o mesmo local de fixação no hospedeiro).

Tornar-se específico possui vantagens nesse contexto, desde que o parasita não seja letal para seu hospedeiro. Isso pode ser a origem de toda a relação mutualística e simbiótica. Da antítese à síntese, segue assim a dialética da natureza!

Quantos inimigos biológicos nós humanos possuímos?

É difícil de responder com números e a estimativa é sempre imprecisa!!! Há milhões de espécies de animais, algas, plantas e fungos que não conhecemos e ainda muito mais de microrganismos do mesmo jeito. Soma-se a isso a evolução: "tudo está em constante modificação"!!

Entretanto, nós que estudamos parasitas sabemos de algumas coisas. Uma das mais importantes: a quantidade de parasitas é diretamente proporcional ao aumento da densidade das populações dos seus hospedeiros. Simples assim, maior o número de hospedeiros, maior o número de parasitas à espreita. Isso vale para nós e toda nossa criação de animais. Dessa forma, conhecemos muito bem de onde vem todas as nossas piores doenças infecciosas desde a revolução agropecuária, não é mesmo? Vivendo todos “juntinhos”, nós em bilhões de indivíduos juntos com animais e plantas domésticas. Tudo isso fica muito melhor ainda... para os parasitas, claro!

O convívio com zoonoses viróticas levou a morte milhões de pessoas. Por exemplo, os europeus sofreram séculos e séculos por causa do sarampo e varíola. Os que sobreviveram levaram consigo Morbillivirus e Orthopoxvirus para as Américas, desencadeando assim uma guerra biológica silenciosa e invisível que foi decisiva para a conquista do Novo Mundo. Sem contato prévio com esses inimigos, os sistemas imunológicos dos ameríndios estavam desprotegidos. Impérios caíram, milhões de pessoas morreram diante dessa força natural. Os europeus tinham razão, eles possuíam uma força divina ao seu lado... Só não sabiam que a natureza dessa força não tinha nada haver com algo metafísico.

Perguntei aos meus alunos no laboratório há 15 dias:

Por que somos a maior população de vertebrados da história deste planeta?

Resposta: porque conseguimos “escapar de nossos inimigos” (***), da mesma forma que animais exóticos e invasores. Além de nossa diversidade imunológica, que já é uma arma muito eficiente, usamos nossa inteligência primata em termos científicos para desenvolver fármacos, saneamento público, vacinação em larga escala, controle de zoonoses e pragas das culturas agropecuárias.

Assim como canta a canção em nosso Hino Nacional, nós humanos somos gigantes pela própria natureza, belos, fortes e impávidos colossos. Todavia, nosso futuro não espelha essa grandeza! Somos bilhões de indivíduos vivendo em grandes centros de alta densidade populacional. Um paraíso para nossos inimigos naturais. Hoje em dia, seguramos a porta de nossas cidades para manter fora delas esses terríveis seres... Mesmo assim, bactérias conseguem viver em reatores nucleares, ou mesmo a temperaturas acima de 95 graus Celsius. Contra criaturas assim, deveríamos esperar que, por seleção natural, aquelas bactérias que combatemos com antibióticos poderiam desenvolver resistência aos nossos medicamentos. O que já aconteceu há décadas!

Os vírus?! Se nossa definição de seres vivos não se encaixa bem a eles, então vamos encarar a realidade do que essas criaturas são: “replicantes moleculares” altamente eficientes e mutáveis.
Esses replicantes não possuem qualquer outro objetivo senão fazerem cópias de si mesmos utilizando para isso nossas células de diferentes maneiras. Como todo parasita novo, ao surgir possuem alta virulência (transmissão e mortalidade), após algumas gerações vivendo juntos, a virulência diminui, ou mesmo pelo simples aumento da resistência imunológica dos hospedeiros, tudo pelo jogo da seleção natural que elimina os vírus muito letais com a morte de parte dos hospedeiros e a sobrevivência dos mais resistentes. Nesse jogo de evolução co-específica, seguimos os caminhos através do espelho de Alice e a Rainha Vermelha, correndo todos juntos e não indo a lugar algum. No saldo final, passamos a conviver nós e eles até o fim dos tempos. Nesse cenário, nós somos as gazelas e eles os guepardos. É bom você correr, porque senão, o bicho pega!

Esperávamos pelo H1N1 e deixamos claro para todos, que ainda haverá mais pandemias ainda neste século. Afortunados os que sobreviverão, mas deveríamos reverenciar aqueles que morreram e morrerão em holocausto, eliminando consigo as primeiras cepas letais dos nossos novos e velhos inimigos biológicos.

Em muitos casos não esqueça de adicionar ainda a essa fórmula viver sem saneamento público, poluição e destruição de ecossistemas. É estranho como de um lado enfrentamos os inimigos com ciência e do outro “liberamos geral” devido ao nosso lindo e maravilhoso sistema sócio-econômico de exclusão social!!! Somos um paradoxo!

O resultado desse paradoxo é que temos explicitamente a distribuição de nossos inimigos biológicos conforme a divisão social. Seguem alguns números "otimistas" disso obtidos aqui na internet: mais de 100 mil pessoas morrem por ano de ascaridíase (lombrigas)!!! Aqui no Brasil estima-se que 14 mil pessoas morrem por ano de doença de Chagas!!! Se você não está sensibilizado com toda essa dor, saiba que apenas no Rio de Janeiro registra-se 800 mortes por ano de tuberculose e em todo o país são cerca de 5 mil mortes por ano.


Todas essas doenças e outras estão ligadas à pobreza e parecem longe demais das TVs e noticiários. Já a gripe A, vem pelo ar, afeta quem viaja muito e está em qualquer lugar. Acomete a “classe média” e os dominantes. É um terror de dois pesos e duas medidas: morram os pobres, salvem os ricos!

Antes de terminar, vamos caminhar pelos “jardins do senhor”, vejamos algumas das criaturas “lindas” que estão a nossa volta há milhões de anos como o mosquito flebótomo e as larvas das moscas
Oestrus ovis:

A dor de cada um está na medida do encontro conflituoso entre nós e eles.

No século XIV enfrentamos a peste negra, no início do século XX foi a gripe espanhola... Milhões de pessoas sucumbiram para eu e você estarmos aqui. Elas não tiveram escolha, apenas falta de sorte ao encontrar com seus velhos e novos inimigos biológicos. Em diferentes épocas e países essas pessoas abriram as portas de suas casas e lá estavam seus inimigos invisíveis. Foram encontros mortais em larga escala!!!

Somos apenas criaturas biológicas como qualquer outra, parasitados e predados por várias espécies de seres vivos.

Todos os dias e noites nossos inimigos biológicos batem à porta: "toc-toc"!!!

A sobrevivência humana segue à evolução das espécies!
---

(*) Aguardem o post do Macaco Alfa comemorativo do Ano Darwin.

(**) Sobre predadores e parasitas é sempre bom ler (ou reler, caso você seja biólogo) as seguintes referências básicas:

Begon, M., Townsend, CR. e Harper, JL., 2006. Ecology - From individuals to ecosystems. 4 ed. Blackwell Publishing.

Bush, AO., Fernández, JC., Esch, GW. e Seed, JR., 2001. Parasitism - The diversity and ecology of animal parasites. Cambridge University Press.

Poulin, R., 2006. Evolutionary ecology of parasites. Princeton University Press.

Obs.: Tentei ser o mais simples possível evitando todo o jargão conhecido por nós biólogos. Se exagerei na simplicidade do texto, compenso com a indicação da literatura básica (não deixem de ler, ok?!).

(***) Alguns artigos legais sobre “escape-to-enemy hypothesis” em animais e plantas:
http://www.springerlink.com/content/1j7502uq634j3r00/fulltext.pdf
http://www.nceas.ucsb.edu/~torchin/pdf/Torchinetal2002_Paras.pdf
http://www.werc.usgs.gov/chis/lafferty.pdf
http://johnprenter.googlepages.com/Prenteretal2004TREE.pdf
http://www.pubmedcentral.nih.gov/picrender.fcgi?artid=1809948&blobtype=pdf
http://www.springerlink.com/content/rrl06r7133437r3x/fulltext.pdf

Notícias relacionadas:
http://cienciahoje.uol.com.br/65653
http://www.anovademocracia.com.br/content/view/2324/105/
http://noticias.ambientebrasil.com.br/noticia/?id=47441
http://www.sidneyrezende.com/noticia/49831+mais+de+mil+pessoas+ja+morreram+por+causa+da+gripe+suina+no+mundo

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Sobrevivência Humana: Tudo Mudará para Sempre

Ontem nós aqui no Brasil vimos pela TV os tufões, tempestades e terremotos que destruíram cidades e mataram milhares de pessoas em países asisáticos. Tudo resultado de forças naturais, acentuadas ou não pela ação humana no planeta.

Em um milhão de anos de nossa existência como seres humanos sobrevivemos a todas as catástrofes naturais até então. Claro, nada em grande escala, mas fomos fortes o suficiente para resistir à glaciação, furacões, tsunamis, secas terríveis... Até agora fazemos parte dos animais “duros de matar”!!!

Ok, grande parte do que for escrito aqui está naquele nível de “conforto” que resulta no nosso “
Ufa! Eu não estarei vivo para ver algo assim!” descrito no post "Sobrevivência Humana: Natureza e Modelos Sócio-econômicos ". No início do livro “Bilhões e Bilhões” (1998), Carl Sagan deixa claro que nossa mente não foi construída pela evolução para previsões sobre nossa vida além de nosso tempo de existência. Compreender eventos de milhões e bilhões de anos é uma novidade para nós.

Hoje em dia temos certezas muito similares as de alguns pensadores da Grécia pré-socrática como Heráclito de Éfeso (540-470 a.C) que já bem sabia: “
não entramos no mesmo rio duas vezes!”. Após mais de mil anos de ensino de Platão/ Aristóteles, onde as coisas do mundo possuíam essências fixas e imutáveis, encontramo-nos aqui na “virada do jogo”, tremendo no íntimo por saber da revelação dessa verdade absurda. Confirmado pela ciência nos séculos XIX e XX: o planeta Terra mudou e continuará mudando!!!

Mesmo se conseguissemos parar todas as emissões de gases, reciclássemos em larga escala nossos dejetos e parássemos completamente com a devastação das florestas tropicais e outros ecossistemas... a Terra ainda assim será muito diferente do que vemos hoje.

Tudo o que você conhece perecerá, tudo irá se transformar em algo completamente diferente!

Você saberia responder qual a maior força de modificações por trás disso? Vulcões, clima, tempestades solares, meteoros? Nenhuma dessas forças é tal como a Deriva dos Continentes através da Tectônica de Placas. Na verdade, muitos desses eventos (vulcanismo, terremotos e mudanças no clima) são causados pela “simples” e contínua dinâmica da Tectônica de Placas, exceto as forças cósmicas como meteoros e tempestades solares.

Compreenda o que é “simples assim”: nosso continente Sul Americano está se deslocando 18 cm por ano rumo ao Oeste... e em 50 milhões de anos estaremos onde hoje é localizada a Oceania! Estaremos separados de todos os outros continentes e... Seremos a Austrália do futuro!


Agora é só usar um princípio comum e amplamente aceito na ciência: o uniformitalismo. A deriva continental, as características físicas e as respostas dos sistemas biológicos a isso deverão ser similares nos 50 milhões de anos no futuro ao que vemos no tempo atual. Assim compreendemos que os cinco eventos de extinção em massa deste planeta estão envolvidos em grande parte as mudanças drásticas resultantes do movimento dos continentes. À exceção a isso é a hipótese amplamante aceita do meteoro que caiu em Yucatán e mudou todo o clima causando à extinção de cerca de 60% da vida multicelular!!!

Parêntese 1: Quando falamos em mudanças de clima e qualquer outro evento classificado por nós como “catastrófico” isso está relacionado apenas à vida de animais e plantas. Já as bactérias são criaturas que beiram à perfeição da matéria viva! Além de eternas em vida, até hoje dominam, moldam este planeta e não estão ameaçadas por qualquer um dos eventos que possam nos exterminar. As bactérias poderão ter um fim definitivo apenas há bilhões de anos à frente com a morte do Sol e devastação completa deste sistema solar. Caso um meteoro grande o suficiente parta esse planeta em pedaços, até no interior de cometas as bactérias poderão sobreviver. Nós não!

Parêntese 2: Lembram-se do post “
Os esporos reprodutivos de Gaia”? Nele escrevi sobre a hipótese Gaia, a qual se correta, podemos, de forma otimista, interpretar a existência humana com o objetivo para a reprodução da Terra através do espaço. Mas, se não formos nós, seres conscientes, os esporos reprodutivos da Terra, muito provavelmente poderão ser bactérias... Talvez de forma mais eficiente ainda do que nós!

Parêntese 3: O parágrafo passado é a base do que se compreende como hipótese da Panspermia, onde as sementes da vida estão espalhadas pelo universo na forma de bactérias, ou algo mais simples como vírus, ou coacervados de RNA, ou seja lá como forem esses “cosmozoários”!

Voltemos para as mudanças naturais de nosso planeta. Se tudo continuar como é hoje, sem a queda de um meteoro, ou o máximo solar com buracos na camada de ozônio, veja abaixo o mapa de nosso mundo em 250 milhões de anos no futuro, apenas considerando o resultado da Deriva Continental:

Isso mesmo!!! Uma nova Pangea será formada!!! É o eterno retorno da Gaia Ciência de Nietzsche.

Essa é uma previsão científica otimista e tema do livro “After Man: A Zoology of the Future (Depois do Homem: Uma Zoologia do Futuro)" publicado em 1981 pelo paleontólogo escocês Dougal Dixon. Foi também a idéia máxima para o famoso documentário da BBC “The Future is Wild” (no Brasil exibido pelo Discovery Channel com o título “Futuro Selvagem”).

Sabendo de tudo isso, confesso que eu fico sempre surpreso com a ingenuidade de alguns de meus alunos na disciplina de Evolução. Todos me ouvem falar repetidamente que o processo da evolução dos sistemas biológicos corresponde à “mudanças no tempo através de descendência”... Para sobreviver às mudanças do planeta nós também temos que mudar, ou deixamos de existir. Entretanto, parte de meus alunos acha que a simples defesa e conservação do atual meio ambiente irá mantê-lo inalterado por tempo indeterminado. Por tudo isso, explico, primeiro, conservar os recursos naturais é uma atitude para nossa sobrevivência, prioritariamente! Segundo, isso não quer dizer de forma alguma conservar um bem imutável. Novamente, não se esqueçam da sabedoria grega: “
tudo muda, tudo se transforma”.

Outros alunos meus também acham que a evolução tem como único mecanismo de ação a seleção natural e interpretam esse mecanismo apenas como uma competição inter e intra-específica (a popular natureza com "dentes e garras rubras de sangue"). Ignoram além disso quase completamente o papel do acaso e as forças ambientais maiores que desafiam a sobrevivência dos sistemas biológicos de forma muito mais perigosa do que vemos em nosso tempo presente, ainda em relativo equilíbrio.

Essa fase de relativo equilíbrio antes das grandes mudanças também já foi proposta em termos do “Equilíbrio Pontuado” pelos paleontólogos norte-americanos Niles Eldredge e Stephen Jay Gould (1972). O registro dos fósseis (com o desaparecimento repentino de vários grupos e surgimento de outros), antes considerado apenas fruto do acaso, foi reinterpretado por Eldredge e Gould como verdadeiro para explicar as grandes mudanças de fauna e flora. Parece que, com regularidade, ocorrem grandes modificações na Terra, as quais são muito rápidas e inicialmente hostis as formas de vida. Resultado: extinção em massa! Os sobreviventes dessas mudanças radicias então multiplicam-se em linhagens descendentes mediante a um novo período de equilíbrio. Em palavras mais comuns, “depois da tempestade, vem a bonança”!!! Ou como na música da banda de norueguesa A-ha: “
Out Blue Comes Green” (expressão que significa algo como “da tristeza surge a esperança”).


O mundo como conhecemos irá mudar completamente! É fato! Mas nós Sobreviveremos? Antes de responder a essa pergunta compreendam que nossa espécie só possui um milhão de anos de idade. Isso não é nada em termos da vida das espécies neste planeta! Por exemplo, artrópodes como os trilobitas viveram mais de 300 milhões de anos antes de serem completamente extintos! Por isso, quando falamos de sobrevivência humana, os dois posts anteriores nos preocupam muito mais do que os eventos catastróficos naturais. Já está mais do que alardeado em todas as línguas e países: nós podemos nos exterminar!!! Nem saímos de nossa infância enquanto espécie... Tão orgulhosos e cheios de vaidades do que somos! Criamos deuses à nossa imagem e semelhança, linguagem, computadores, biotecnologia e... vamos cometer suicídio pela destruição dos recursos naturais e modificação dos ecossistemas que nos mantem vivos?

Por quê? Para manter os padrões de consumo de uma minoria egoísta?! Olha como voltamos para o post anterior? Notaram agora como o cuidado ambiental e os modelos sócio-econômicos que adotamos são importantes para nossa sobrevivência?

Então, respondendo a pergunta inicial sobre nossa sobrevivência... Sim,
se não nos destruirmos antes, muito provavelmente sobreviveremos em mundos climáticos diferentes dos de hoje resultantes da Deriva Continental.

Como sempre há uma conjunção adversativa, segue o “Todavia”... há ainda que se considerar fatores completamente resultantes do acaso. No best seller mundial “Apocalipse 2012” (2007), escrito pelo jornalista norte americano Lawrence E. Joseph, é apresentada a possibilidade do fim de nossa vida como compreendemos hoje por diversos fatores naturais envolvendo principalmente nosso Sol e o espaço. Se realmente a hipótese do máximo solar e da entrada de nosso sistema planetário em uma zona galáctica de maior energia (com um crescente fluxo de matéria que aumenta a atividade do Sol)... então haverá mais instabilidade ambiental do que apenas a deriva continental. Pior, isso está sendo apontado para agora! Daqui a três anos segundo o Calendário Maia... É uma nova sensação fictícia do apocalipse e agora com filme de magníficos efeitos especiais mostrando a destruição de tudo!!!

Isso não passa de sensacionalismo causado por descobertas e divulgação científica. Vocês já se esqueceram de filmes como "Armaggedon" e "Impacto Profundo"?! A ameaça de nosso fim na ficção cinematográfica semelhante à hipótese de extinção dos dinossauros foi moda alguns anos atrás. Em todo caso... sempre saímos bem nessas histórias!!! Na vida real... talvez não tivéssemos a mesma sorte.

A principal força de sobrevivência humana constitui nossa inteligência e versatilidade para usá-la em diversos ecossistemas. Das geleiras até as ilhas vulcânicas... Sobrevivemos até agora! Em mundos bem diferentes deste atual feito de fibra óptica, plástico e virtualidade.

Apenas não esqueçam, quer gostemos ou não disso... Tudo mudará para sempre!!!

Ontem a terra tremeu no Japão...

Links:
http://cienciahoje.uol.com.br/controlPanel/materia/view/1755
http://www.sivatherium.h12.ru/library/Dixon/main_en.htm
http://www.sivatherium.h12.ru/library/Dixon/ch_02_en.htm
http://pt.wikipedia.org/wiki/Tect%C3%B3nica_de_placas
http://pt.wikipedia.org/wiki/The_Future_Is_Wild
http://pt.wikipedia.org/wiki/After_Man:_A_Zoology_of_the_Future
http://pt.wikipedia.org/wiki/Extin%C3%A7%C3%A3o_K-T
http://pt.wikipedia.org/wiki/Equil%C3%ADbrio_pontuado

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Sobrevivência Humana: Natureza e Modelos Sócio-econômicos

ISTOÉ - O capitalismo está entrando em colapso com a crise?
Chomsky - O único lugar onde o capitalismo existe é nos países do Terceiro Mundo, onde ele é imposto à força. (Noam Chomsky em entrevista a revista IstoÉ publicada em 27/02/2009).

Com uma resposta assim, o que me resta escrever sobre o assunto?

Eu sou integrante do Partido Comunista do Brasil - PCdoB e já escrevi algumas vezes aqui sobre a minha decisão e preferência pelo socialismo:
Uma opção particular pelo Socialismo
O exemplo que o sistema esconde
A desumanização do macaco
Leigos e cínicos

Entre esses posts, em
O exemplo que o sistema esconde um de meus grandes amigos, o Prof. Dr. Tassos Lycurgo (UFRN), fez um comentário semelhante à resposta de Chomsky, só que ao contrário. Lycurgo reconheceu que o capitalismo praticado no Brasil não possuium sistema de liberdades com a colocação do ser humano no epicentro axiológico de todas as decisões estatais e da sociedade (políticas, jurídicas, etc.)”, mas em seguida, listou como exemplos de sucesso do capitalismo os países escandinavos.

Nós sabemos muito bem que todo conforto dos países ricos está atrelado à nossa exploração. Isso é tão óbvio que todos nós também sabemos que não há como o planeta suportar por muito tempo a existência de impérios como o americano com seus padrões atuais de consumismo e degradação do meio ambiente sem precedentes na história humana e planetária. Mais ainda, não existe nem a possibilidade de outro país chegar a esse patamar de demanda energética.

Muita gente deve pensar que nós brasileiros somos os únicos responsáveis pelas queimadas na Amazônia, devastação da Mata Atlântica, emissão de gases nocivos para a atmosfera. Sim, pessoas estão por trás disso, mas são todas produtos de um sistema sócio-econômico que envolve a maioria dos países ocidentais. Afinal, capitalismo não possui pátria alguma e é fundamentado na característica mais inumana e antinatural possível: individualismo!

Nós somos animais sociais altruístas-recípocros, quase todos os grandes macacos são assim. Mesmo os orangotangos possuem parte de sua existência com relacionamentos familiares e afetivos, afinal uma mãe e seu filhote, ou uma fêmea nos braços de um macho são pequenos grupos de animais que necessitam um do outro para existir por um determinado tempo. Indo um pouco mais distante, entre os mamíferos, sabemos que a diferença entre animais sociais e os ditos “não-sociais” é uma questão de grau, tempo, intensidade do convívio e comportamento (ver Souto, 2000: 123-124. Etologa: princípios e reflexões. Editora Universitária - UFPE). Dessa forma, viver em grupo, trabalhar, cuidar da coletividade é algo que pré-data a nossa origem como seres humanos.

Individualismo nesse contexto de sobrevivência possui freios e é regulado por indivíduos altruístas-recípocros há milhões de anos. Imaginem a seguinte história fictícia e antropomórfica: nas matas do Congo nasceu algo novo, “um chimpanzé empreendedor” chamado Boris. Ele é individualista, competitivo, agressivo e um acumulador exagerado de recursos. No grupo de sua origem todos cooperavam entre si, mas Boris em alguns anos de vida impõe sua regra de “se dar bem para si e só para si”. Boris se transformou no mais poderoso macaco detentor de quase todas as árvores frutíferas e caça da floresta. Para comer, todos após a ascensão de Boris, tem de pagar a ele de alguma forma. Quando não possuem nada, Boris deixa todos os frutos e carne apodrecerem, não permitindo acesso à alimentação, mesmo que ele já possua muito mais do que necessário em sua vida de bonança.

Notaram que não dá para continuar com essa história? Na realidade se um chimpanzé caçar em grupo, mas não dividir a carne com justiça, esse indivíduo, não importando sua posição no grupo, será penalizado pelos outros nas próximas caçadas. Imaginem o cenário anterior? Ao primeiro sinal de comportamento nocivo ao grupo, Boris seria expurgado, senão surrado até a morte. A sobrevivência de todos não pode ser posta em risco pelo gozo desmedido de um indivíduo.

Essa política dos chimpanzés é conhecida desde o clássico livro de Frans de Waal "
Chimpanzee politics: power and sex among apes" (1982) e essa política de grupo é a chave para compreensão da origem das sociedades humanas. Chimpanzés são nossos irmãos em termos evolutivos, mas pensem bem, se eles são assim, imaginem nós humanos?!

As culturas humanas de caçadores-coletores são formadas por indivíduos imersos em uma coletividade, uns ajudando aos outros pela sobrevivência individual e a de todos ao mesmo tempo. Não existe a figura do “empreendedor” que se faz sozinho.

Drauzio Varella em seu livro "
Por um fio (2004: 158)" descreve assim o sentimento de que certa vez ele sentiu quando estava em estágio na Suécia: “(...) Quanta diferença haveria em nascer num lugar sem gente pobre como Estocolmo e num bairro de operário de São Paulo? (...) Senti uma inveja como as da infância, difícil de entender. (...) Viver naquele país culto, organizado, sem miséria por perto, atraindo olhares admirados das mulheres.” Em meu caso particular, onde nasci e aqui onde trabalho nem São Paulo é! Bastou para mim uma viagem para Curitiba em 1998 e eu senti o mesmo que Drauzio Varella na Suécia. Olhem que Paraíba, Ceará e Paraná são estados de um mesmo Brasil!

A Suécia, Finlândia e Noruega não são bons exemplos do Capitalismo, porque não formam o núcleo dominante, tão pouco a periferia desse sistema. Se olharmos para o centro teremos os Estados Unidos e Inglaterra, sendo o primeiro quase um império monolítico com padrões de consumo e necessidades energéticas muito acima do poder de suporte deste planeta. Várias mentiras foram reveladas com o passar do tempo. A mais escandalosa é que nós no Brasil e outros países estamos em uma fase “em desenvolvimento”, que estamos “no caminho” para nos tornarmos uma potência desenvolvida.

O maior crítico é o economista brasileiro Celso Furtado (leia os clássicos "
Formação econômica do Brasil" de 1959 e "Raízes do subdesenvolvimento" de 2001), o qual demonstrou que essa doutrina econômica do desenvolvimento é uma mentira dos países dominantes para seus explorados. Os Estados Unidos não passaram por nenhuma fase de “subdesenvolvimento, ou em desenvolvimento” para se tornarem o que são. Eles não possuem nada parecido com a história do Brasil. Fomos e somos um povo colonizado.

Realmente, Chomsky e Celso Furtado estão certos, só existe capitalismo de verdade em países pobres e explorados!

No cerne do capitalismo americano está o “American way of life”, onde indivíduos se constroem e vencem por si mesmos. Não conseguir se tornar poderoso e rico lê-se nas entrelinhas: “loser” (perdedor). O indivíduo passa a ser o único responsável pela sua sobrevivência, sucesso e fracasso, algo completamente diferente da natureza primata humana.

Em termos de sobrevivência, necessitamos de modelos sócio-econômicos baseados em nosso comportamento natural de viver em grupo. O capitalismo é um ótimo sistema para uma minoria dominante, que segundo Coniff (2004), é composta e caracterizada por indivíduos “triplo A”: Ávidos, Agressivos e Acumuladores. Segundo o mesmo autor, esses são “os animais mais perigosos e arredios da Terra”, descendentes diretos dos primeiros plutocratas agrícolas.

Não há liberdade nesse sistema capitalista, apenas retórica e discursos falsos. Se continuarmos nessa ilusão social de que podemos fazer tudo sozinhos, condenando milhões de pessoas à miséria, destruindo tudo para mantermos hábitos de consumo supérfluos, vamos nós mesmos criar várias crises econômicas que podem até nos levar para uma vida em meio à barbárie.

Após ter essa certeza, optei pelo socialismo/ comunismo por afinidade às nossas raízes naturais e porque é a única proposta pensada, analisada, com estrutura filosófica e científica (não deixe de ler o clássico "
A ideologia alemã" de Marx e Engels, 1933) que se contrapõe ao modelo capitalista vigente. Em minha opinião, o final do capitalismo é uma questão de sobrevivência humana.

Não estou defendendo erros, ou acertos de um pais ou outro, mas apenas escrevo que há algo mais positivo no socialismo em si e na luta por ele, do que simplesmente desistir e entregar-se ao mundo canibal do capitalismo selvagem. Se há erros nas experiências realizadas, é nossa obrigação corrigi-los. Novamente, nós necessitamos de um modelo sócio-econômico onde todos tenham acesso à educação, saúde e lazer gratuito e de qualidade. Um sistema que priorize o coletivo, as pessoas e, claro, o ambiente.

Sobreviveremos às crises do capitalismo? Sim, mas repito: será em meio à barbárie e caos ambiental.

Por que os chimpanzés sabem que “indivíduos empreendedores, egoístas e acumuladores” são os vilões de verdade, mas nós não? Se vivermos em um mundo de ponta a cabeça, nós que deveríamos ser os heróis, vamos sofrer com esses vilões e ainda acharemos que a culpa é nossa!

No capitalismo sempre sofreremos juntos e nunca sorriremos sozinhos!

Não custa tentar o contrário: vamos sorrir juntos e chorar apenas se sozinhos estivermos!!!

Voltemos às nossas raízes humanas e vamos seguir nossos instintos de animais sociais cooperativos. Chega de lutar contra nossa natureza!

A sobrevivência humana segue seu rumo!!!



Links
http://www.terra.com.br/istoe/edicoes/2051/artigo127063-2.htm
http://titaferreira.multiply.com/market/item/494/Ecologia_e_Socialismo
http://www.marx.org/portugues/marx/1845/ideologia-alema-oe/index.htm
http://www.centrocelsofurtado.org.br/

domingo, 26 de julho de 2009

Sobrevivência Humana: Petróleo e Nossos Hábitos

Vamos todos confessar um para o outro aqui: qual é a principal pergunta feita por nós mesmos quando se fala em uma possível crise mundial?

A resposta: “
Quando isso vai acontecer?!

E as respostas que sempre recebemos em seguida são expressas em milhões de anos para o fim do Sol e até décadas para o fim das reservas de petróleo. O que acontece depois? Fazemos uma longa expiração ("
Ufa!"), sorrimos e deixamos a vida continuar do jeito que está! Afinal, isso será preocupação das gerações futuras.

Do mesmo jeito que herdamos problemas de nossos antepassados (desigualdade social, poluição e destruição de ecossistemas), parece que nós estamos sempre repetindo os erros e negando-se ao mínimo de esforço por um futuro melhor, apesar de não estarmos vivos nele.

Antes de falar do petróleo, o principal ponto deste post, segue um exemplo de como nós temos sido covardes em enfrentar de verdade os mais graves problemas ambientais. No ano passado, eu, os professores Plínio Delatorre (biofísico), Beatriz Tupinambá Freitas (bioquímica), José Carlos Freitas (químico analítico) e nossos alunos fomos convocados pela Justiça Federal para realizarmos uma avaliação técnica-científica de diversos aspectos do depósito de lixo (sig., lixão e não aterro) da cidade de Juazeiro do Norte/ CE (Proc. No. 2000.81.00.014535-6/ Ação Civil pública movida pelo Ministério Público Federal e IBAMA contra o município de Juazeiro). À parte de todos os aspectos técnicos, as fotos abaixo, tiradas no depósito de lixo de Juazeiro do Norte pelo meu orientado, Samuel Cardozo Ribeiro, são bem mais informativas do que qualquer coisa que eu tenha escrito:

Esse é um dos nossos maiores problemas que se repetem no mundo inteiro, décadas a fio. Há dias vimos estarrecidos na TV a importação ilegal de lixo da Inglaterra para o Brasil, prática que reflete bem o início do post: estando eu bem, que se explodam os outros! Nesse caso, uma Inglaterra limpa, um Brasil sujo!

Quero que vocês, meus queridos amigos, entendam definitivamente que se forem em um estabelecimento qualquer e lá estiverem numa campanha contra as sacolas plásticas pela natureza, saiba que deveríamos fazer o mesmo com todos os recipientes plásticos, ou de nada adianta. Você não joga uma sacola, mas alimenta o lixão acima que continuará lá como um leviatã devorando rios, intoxicando os lençóis freáticos da água que bebemos.

Ou temos um programa de reciclagem sério e de larga extensão, ou o que fazemos não passa de uma atitude pequena burguesa. Calma, explico, uma atitude assim é se sentir bem não fazendo quase nada, tipo "
pronto não joguei uma sacola fora hoje", mas os mesmos hábitos no geral continuam. Sendo mais explícito ainda, nós todos sabemos que ninguém deixa de engordar por comer em um rodízio. Empanturrar-se de carne e gordura, depois tomar um “refrigerante diet” não faz diferença, o resultado geral é o mesmo: aumento de peso. Em todos esses casos quem ganha é quem vende, poupa o dinheiro da sacola (crescem os lucros, porque o preço poupado com as sacolas não é diminuído nas compras), ou com a venda do refrigerante diet. A boa ação de melhorar o mundo, ou não aumentar de peso na realidade não foram feitas: os lixões continuam e a obesidade também!!!

Calma novamente, antes de jogarem pedras em mim, ou perguntar, “
pelo menos uma sacola plástica já é algo”. Infelizmente, não é suficiente!!!

Agora, vamos até uma boa pizzaria. Antes da pizza, peça um suco de laranja e quando a pizza chegar peça outro. Você pode fazer isso muitas e muitas vezes, porque laranjas, trigo, queijo e calabresa são recursos renováveis e absolutamente recicláveis!

Pense com o mundo inteiro, quantas vezes nós teremos a oportunidade de irmos a um posto de combustível abastecer nossos automóveis? Meus caros, petróleo não é renovável e um dia terá um fim. Ao que tudo indica e com a produção/consumo atual (75 milhões de barris/dia), segundo o físico sueco Kjell Aleklett (2007) o “peak oil” (capacidade máxima de produção de petróleo) irá acontecer entre 2008-2018! Após isso, a produção entra em declínio e escassez. Em 2050 a produção será insuficiente para a demanda mundial... Dá para imaginar o que é isso? Vocês podem imaginar um mundo assim? Se não, entendam que estamos na Era do Plástico, tudo em nossa volta é derivado de petróleo... Tudo!!! O computador e seus componentes, a seringa e as embalagens de soro fisiológico, a camisinha e os óculos de sol, o gás da cozinha e aquecimento... Tudo! Sem contar que todas as formas de indústria (ressalto a agricultura para vocês não esquecerem) e transporte de seus produtos dependem de petróleo.

Em 2018 eu terei 47 anos, se tiver saúde e sorte, em 2050 estarei vivo com 79 anos. Eu serei um velhinho em plena crise mundial!!!... "OH NÃO"!!!

Há quem aposte o contrário, os economistas Paul Joseph Watson e Alex Jones (2005) acham que a hipótese do "peak oil" é pura falácia da elite para aumentar o quanto quiser o preço do barril de petróleo. Este ainda pode ser muito explorado por mais de um século sem problemas.

Eu não defendo elite, ou aumento de preço algum. Se Watson e Jones estão certos, teremos muito petróleo ainda para queimar, controlado pela indústria mais poderosa do mundo... Mesmo assim, um dia o petróleo acabará certamente (destruirá vários ecossistemas consigo antes disso). A diferença é que vamos continuar empurrando nossos problemas para as gerações futuras.

Todavia, se a hipótese do "peak oil" estiver correta, dessa vez eu não posso expirar em alívio com a frase “Ufa! Não estarei vivo quando isso acontecer”. Irá acontecer comigo, com vocês, e, pior, com meus filhos.

Vocês podem encher esse post com comentários apontando links de pesquisas com fontes de energias alternativas como a elétrica, nuclear, biocombustíveis (a partir de arroz, grama, beterraba, microalgas, cana de açúcar), solar e hidrogênio da água, ou do ar. Nenhuma dessas alternativas até o momento pode substituir em larga escala o consumo atual de petróleo. É mais fácil até imaginar saídas regionais, por exemplo, um combustível x é mais adequado para região y, combustível w para região z. Em transportes globais como aviões e navios devem ter algo comum e potente.

Bem, apesar disso, vemos poucos esforços e interesse das políticas públicas mundiais em enfrentar a nossa dependência atual e a futura recessão do petróleo. Tudo parece como no exemplo dos lixões, muita propaganda, muita atitude de pequeno burguês e nada de resolver os problemas que vão se acumulando dia após dia.

O barril de petróleo custa hoje US$ 48,54, chegou a US$ 150,00 em meados de 2008. Essa oscilação tem haver com o não controle do mercado internacional, sujeito às especulações sórdidas, atrelado e causador de crises econômicas mundiais. Em entrevista nesta semana à revista
Isto É Dinheiro, Kjell Aleklett alertou para um novo ciclo da disparada do preço do petróleo. Isso também foi alertado por Jeroen van der Veer, presidente mundial da Shell.

Se nada for feito, a premiada escritora norte-americana Antonia Juhasz alerta em seu livro “A Tirania do Petróleo (2009, Editora Ediouro)" para a destruição do meio ambiente e as futuras guerras do petróleo ainda mais graves do que as recentes. “
Prevejo que o preço do petróleo mais que se recuperará se os elementos subjacentes que levaram ao aumento não se modificarem: 1) desregulamentação do mercado futuro do óleo bruto; 2) o poder político e econômico sem precedentes das empresas petrolíferas; e 3) a grande dependência mundial em relação ao petróleo, um recurso que, supostamente, atingirá seu pico global em 2020” (Juhasz, 2009: 10).

Falta ainda comentar um dos aspectos que mais afetam meus pares na academia: e nossos automóveis?! Olha, eu não teria problema algum de voltar a andar de ônibus, fiz isso até o ano passado! Muito embora eu conheça professor de ecologia defensor da natureza com carro de consumo absurdo, mas da “moda”! O meu Gol, graças a pesquisa tecnológica brasileira, é Flex e tem um desempenho entre 10 a 13 km/L!!! A faixa de consumo desejada por Barack Obama para a frota de carros dos Estados Unidos em um futuro próximo... longínquo, ou nunca a ser alcançada. Por que isso? Vai de encontro com os hábitos humanos, mergulhados em um sistema de consumo irracional e pela glorificação de coisas fúteis a qualquer custo!!!

Vamos repetir novamente para deixar claro: o que adianta você comprar apenas um caderno de folhas de papel reciclado, se seu carro é um “tanque urbano” que consume mais do que o dobro de outros carros comuns (menos de 6km/L)?! Conforto? Segurança? Duvido muito e pouco me enganam, pois sei muito bem o significado das coisas e como elas estão em íntimo relacionamento com exibição de
status e poder.

O mundo mudará, quer gostemos ou não! No caso específico da indústria do petróleo, ela terá um fim, quer queiramos ou não, neste século, ou no próximo!

É o fim da humanidade? É o Apocalipse? NÃO!

Lembrem-se sempre que hoje há humanos vivendo em diferentes sistemas sócio-econômicos e culturais. Há caçadores-coletores, monges reclusos em seus mundos, humanos modernos extrativistas e até pequenas sociedades auto-sustentáveis.

Agora, se você não imagina um mundo sem o seu “carrão utilitário da moda”, tenha medo, tenha muito medo das mudanças futuras!!! Para esses últimos, já estão sendo vendidos manuais de sobrevivência no mundo sem petróleo. Novos guias de auto-ajuda que vão fazer muita gente estocar gasolina em casa, como fizeram os americanos na construção de casas com abrigos anti-nucleares durante o auge da Guerra Fria.

Ah! Não poderia perder a oportunidade de também responder em público a um aluno meu que fez o seguinte questionamento: “A revolução industrial foi iniciada com máquinas a vapor, por que não poderíamos voltar para essa tecnologia?

Por que nossa demanda energética cresceu demais e o “vapor” era gerado por CARVÃO!!! Apenas aqui no nordeste a produção de carvão, entre outras agressões, custou à destruição de 99% do único bioma exclusivamente brasileiro: a Caatinga!!! Transformamos em lenha e carvão quase que toda a Caatinga!!! As paisagens do nordeste hoje são tomadas por florestas de xique-xique, jurema, mandacaru e sabiá, em áreas de “descanso”. Um mato denso e espinhoso que cresce para ser cortado novamente, enquanto outras áreas são exploradas. Tudo isso muito diferente da Caatinga Arbórea original. Hoje em dia, essa madeira do sabiá e jurema alimenta a produção de tijolos, pães e pizzas!!! Sabem, a borda crocante com catupiry feita no forno à lenha?!... É o sabor do assassinato de nossa Caatinga.

Foto tirada por mim em 2005 de lenha ilegal apreendida pelo IBAMA em Aiuaba - CE.

Espero que tenham entendido que para mudarmos o mundo atual teríamos que fazer muito mais do que apenas evitar uma sacola plástica, uma doação anual de R$ 50,00, ou tomar um refrigerante diet. Mudar o mundo de verdade compreende um esforço coletivo equivalente a uma revolução dos valores e hábitos humanos ocidentais.

Caso não mudemos, sobreviveremos... Mas, em qual tipo de mundo?!

A Sobrevivência Humana continua... !!!

Links:
http://peakoil.org.uk/
http://www.worldproutassembly.org/archives/2007/05/the_myth_of_pea.html
http://www.energybulletin.net/node/29845
http://ar.groups.yahoo.com/group/redgeoecon/message/142
http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u416309.shtml
http://www.nossasaopaulo.org.br/portal/node/256

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Sobrevivência Humana: Apresentação


Vocês já ouviram falar em “peak oil” e o fim da indústria do petróleo?! Sabiam que nosso clima irá mudar radicalmente com ou sem emissões de CO2?! É verdade que pandemias infecciosas estão confirmadas para este século?!
As três perguntas com tons de exclamação envolvem debates atuais sobre (1) recursos não renováveis e crise energética; (2) mudanças naturais (vulcanismo, deriva continental, terremotos, tsunamis, meteoros, inversão magnética dos pólos, máximo solar, etc.) e a ação antrópica para o bem e para o mal; (3) limites biológicos de nossa espécie e todas as ameaças por outros organismos (uns já conhecidos por nós, mas hoje resistentes aos nossos fármacos, outros ainda emergentes).

Ok, ok, não pretendo escrever aqueles textos enormes e muitas vezes chatos sobre “conservação da natureza isso, temos que ser bonzinhos com as flores aquilo”. Afinal, eu sou um biólogo de verdade e não alguém tentando defender ideologias equivocadas, ou mesmo apenas fazer parte da “moda ambientalista” da pequena burguesia. Em meu trabalho com parasitas de animais silvestres tenho visto muita dor na natureza que ainda pode fazer parte de nosso dia a dia humano, apenas citando um dos aspectos do parágrafo anterior.

Quero escrever aqui sobre o que sabemos de verdade, e, onde for possível, as ações de verdade. Por exemplo, leio e escuto com freqüência pessoas que defendem o meio ambiente como se fossem salvar algo para sempre, preservar floras e faunas como se elas fossem sistemas fixos e eternos. Se há algo que é imperioso na história dos sistemas biológicos chama-se mudança. Em outras palavras, evolução para sobreviver e replicar os genes eternos. Nosso planeta mudará de um jeito ou de outro! Claro, nós esperamos que essa mudança não seja para algo hostil à nossa própria sobrevivência.

Só de escrever isso, alguns já ficam de cabelo em pé, mas não confundam um debate sobre a ação nociva de modelos sócio-econômicos humanos (colonialismo/ capitalismo/ imperialismo) com a atividade humana em si sobre a natureza. Nós fazemos parte dela, por ela e para ela. Como qualquer outro ser vivo, somos frutos gerados pela evolução por seleção natural. Nós não somos alienígenas neste planeta!

Em comum acordo, quando éramos apenas caçadores-coletores vivíamos sem sermos os responsáveis pela destruição de ecossistemas e a extinção em massa das espécies. Todavia, sabemos que não somos mais assim, sabemos também que a história não se repete e que mesmo em um chamado mundo “neotribal”, se isso viesse realmente a acontecer, seríamos muito diferentes dos nossos ancestrais das tribos humanas no neolítico.

Nós somos uma espécie que só ocorre neste planeta, ou seja, somos endêmicos da Terra. Hoje não possuímos tecnologia alguma para dominar nosso clima e a evolução das espécies, assim como não podemos fugir daqui para outro lugar. Precisamos de tempo para tentar conseguir avançar nisso, mas tempo é algo que talvez não tenhamos.

Se uma crise global de recursos se estabelecer, como nós nos comportaremos em um mundo quase sem energia elétrica e combustíveis fósseis? Adianto para vocês que nosso comportamento primata para disputa de recursos e território é um só: guerra!

Chimpanzés fazem guerra por território e recursos naturais. Nós, como é de se esperar, fazemos o mesmo, mas de forma muito mais elaborada, entenderam?!

Assim apresento a série Sobrevivência Humana! Nos seis textos que virão abordarei os fatos, exageros e as verdades sobre (1) recursos naturais e crise energética; (2) modelos econômicos e a natureza; (3) fatores naturais (p.e., vulcões, terremotos) e eventos estocásticos da evolução (p.e., extinções em massa, equilíbrio pontuado); (4) doenças infecciosas; (5) limites biológicos dos seres humanos; e (6) a verdadeira ciência contra as previsões esotéricas do fim do mundo.

A vida na Terra é um rio que começou a correr há 3,5 bilhões de anos e chegou até você e a mim, no meio de uma diversidade espetacular” (Varella, 2000: 8). Até quando esse rio da vida continuará correndo? Até quando estaremos nele? Afinal, nada é eterno e tudo se transforma!

A Sobrevivência Humana!
Referência: Varella, D., 2000. Macacos. Publifolha.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Foot of the Mountain


Esse é o mais novo vídeo da banda A-ha que mais influenciou a minha adolescência:


Passados 37 anos, ainda fico surpreso como músicas simples assim me tocam.

Andar por multidões, festas e regojizos de modas nunca me atraíram. Ademais, eu também moro no "pé da montanha"... na Chapada do Araripe... e não troco isso por nenhuma metrópole.

No significado das coisas e memória de meu pai estão a vontade de mudar o mundo para melhor. Que seja então aqui no Cariri Cearense, onde envelhecerei e viverei "on the foot of the mountain".

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Esse post é uma homenagem ao meu pai, proletário (frezador profissional), esportista, um homem como qualquer outro, que lutou com suas forças para vencer todas as dificuldades comuns de nosso Brasil.

Te amo, pai! Nunca te esquecerei!

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Obs.: Aguardem, vem aí a série "Sobrevivência Humana".

quarta-feira, 17 de junho de 2009

 
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