domingo, 8 de fevereiro de 2009

Discriminados: Negros

A cor da pele é genética, isso sim, está bem estabelecido e é ensinado nas escolas e universidades do mundo inteiro.

Nossas cores vão do branco albino ao negro ébano, uma gradação de melanina e mestiçagem está entre um extremo ao outro. Variação de cores é comum em outras espécies, por exemplo, as lagartixas noturnas chamadas por aqui de "bribas" (Hemidactylus mabouia) podem ser brancas, ou escuras. Ambas variedades pertencem a mesma espécie. Outro exemplo é o das borboletas européias que possuem cores claras e escuras, após a revolução industrial virou exemplo clássico da seleção natural. Cito para finalizar nosso maior predador neotropical, a onça, que pode ser pintada, ou negra.

Cores da pele, dos pelos, das penas, das asas de uma borboleta, todos os padrões podem ter uma explicação adaptativa para a sobrevivência das espécies, ou mesmo serem importantes na seleção sexual. Neste último caso, vemos bem nítidas e lindos coloridos das penas dos machos nas aves.

Já o primeiro caso é o que se aplica a quantidade de melanina na espécie humana. Hoje sabemos que nascemos na África e depois migramos para os outros continentes. Nossos ancestrais eram negros e a melanina de suas peles era uma das adaptações à vida nas planíces africanas de sol abrasador.

A evaporação das gotículas de suor na pele diminui o calor de nossos corpos. Para isso funcionar, precisamos de uma pele quase glabra. Uma pele nua ao sol abrasador pode desenvolver câncer cutâneo. Pior é o que pode acontecer com as mulheres grávidas, a radiação ultravioleta destrói o ácido fólico, que é fundamental para o desenvolvimento embrionário. Uma pele escura com muita melanina é uma barreira natural contra tudo isso (ver Jablonski, 2004, Jablonski e Chaplin, 2000, 2002) e, claro, permite que o sistema de refrigeração por evaporação do suor funcione. Para Nina Jablonski, nas regiões temperadas há muito menos sol do que nos trópicos. A pele branca segue esse padrão, porque precisamos do sol para formar vitamina D.

Jablonski encontrou uma fórmula convincente da distribuição ancestral humana, com as peles mais escuras nos trópicos e claras em regiões temperadas. A pele e a quantidade de sol são assim relacionadas.

A genética por trás do controle da quantidade de melanina na pele feita por peixes é a mesma para nós humanos. Isso foi publicado em 2005 sob a liderança de Keith C. Cheng (ver Cheng, 2008). Um de seus colaboradores, Mark D. Shriver defende a hipótese contrária ao parágrafo anterior (Wade, 2005). Para Shriver os africanos possuem muito mais melanina do que o necessário para a proteção de raios ultravioleta. Por isso, a cor da pele deve refletir a seleção sexual, na África as mulheres preferiram os homens escuros, na Europa e Ásia as escolhas foram pelos claros.

Em ambos os cenários evolutivos ser negro nas savanas africanas no Pleistoceno é sinônimo de sucesso adaptativo!

Entretanto, sabemos muito bem que a cor da pele foi e é usada como um fator de discriminação. Se você for albino será tratado como um doente e também será discriminado, caso seja negro é certeza te olharem pelo menos uma vez na semana como um humano inferior.

Quando dois povos humanos se encontram e há desigualdade tecnológica e armamentista entre eles, haverá muita dor pela frente. Cor da pele e escravidão são temas unidos pela história, mas vou deixar essa parte para o final deste post. Por enquanto escrevo que através dos milênios, além das nações africanas, muitos povos foram escravizados. Escravidão e exploração humana é algo ainda presente neste século, uma vergonha para nós todos.

Em 1998 eu havia conversado algo sobre discriminação científica com meu orientador, Martin Lindsey Christoffersen. Dessa conversa e outras mais surgiu um artigo que será publicado neste ano na revista História Ciência Saúde Manguinhos. Como o assunto era discriminação, ele me mostrou um livro que havia lido de autoria de J. Philippe Rushton (1997). Tratava sobre evolução, raças humanas e comportamento de forma polêmica. Era um livro síntese e o autor falava logo no prefácio que não conseguiu publicar suas idéias e teve que financiar ele mesmo suas publicações. Rushton dizia que havia sido discriminado, porque ousou abordar tabus sobre as diferenças biológicas das raças humanas. Digo a vocês que não é um livro fácil de ler, não pela linguagem, mas devido os dados apresentados.

Lá estão pesquisas estatísticas expressas em médias, por isso Rushton (1997, 1998) deixou claro que isso não envolve indivíduos, pois estes variam da média. Também escreveu que não existe uma raça padrão para cada dado estudado. Apesar disso, o que foi escrito por ele é combatido até hoje.

Gostei apenas do enfoque evolutivo e que possui coerência com os dados da genética. Primeiro surgimos na África, depois migramos e adquirimos certas características biológicas na adaptação dos ambientes que colonizamos. Apenas isso.

Segundo Rushton a seqüência dos eventos na evolução humana em vias de generalização foi a seguinte: primeiro os negros, depois os brancos e por último os amarelos (orientais).

Negros e amarelos seriam dois extremos. No primeiro caso, haveria maior dimorfismo sexual, maior quantidade de testosterona no sangue e menor QI, entre outras características. Rushton afirma que em média negros são mais agressivos, promíscuos (por serem sexualmente mais ativos) e terem um desempenho intelectual menor. Isso sim é polêmica!

Mesmo assim, Rushton virou best-seller no Japão! Os orientais gostaram de ler que eram os humanos mais evoluídos, pacíficos e inteligentes na Terra.

Bem, quanto a testosterona a mais nos negros, segundo Rushton (1997), isso implica, além da agressividade, uma auto-imagem boa, ou seja, auto-estima em alta. Enquanto os orientais possuem os menores índices de testosterona. Para Rushton isso explica a perseverança dos negros mesmo em condições de vida difíceis, enquanto os orientais por qualquer problema cometem suicídio. Os povos nativos das Américas são descendentes de orientais, talvez essas características hormonais e físicas foram determinante para a resistência negra e a tão falada dificuldade de manter índios escravos. Recordo a vocês que o suicídio entre os índios é muito comum após a destruição de sua cultura e confisco de terras. Os negros resistiram a dificuldades bem mais profundas do que essas. São verdadeiros heróis da resistência, coragem e fé.

Tenho poucos amigos negros e brancos, a maioria de meu mundo social é parda. Embora minha vida não seja uma boa amostra para se entender completamente os seres humanos, é nesse mundo que vivo. Encontrei pessoas de todos os tipos e nunca correlacionei agressividade a cor da pele. Pelo contrário, no ensino médio o único negro da sala era protestante, calmo e vivia me falando de amor ao próximo.

Ademais, a superioridade branca tão falada não passa de uma sorte de estar no lugar certo, na hora certa e adquirir as doenças certas. É o âmago das idéias de Jared Diamond em "Armas, Germes e Aço" (2001). As civilizações mesopotâmicas dominaram o mundo pelos animais que domesticaram, as plantas cultivadas, a tecnologia do aço e a imunidade às doenças que enfrentaram. A varíola e a gripe varreram o Novo Mundo de forma muito mais eficiente do que qualquer exército poderia fazer.

Concordo com Diamond (2001) que não foi uma questão de diferença de QI, ou criatividade. O ambiente e os animais domesticáveis, onde as pessoas vivem é determinante para o tipo de civilização a ser desenvolvida. As doenças foram transmitidas pelo gado bovino, suíno, caprino e ovino (como hoje temos o mal da vaca louca e a gripe aviária), a imunização veio pelos sobreviventes.

Não é uma questão de me fazer politicamente correto, prefiro Diamond a Rushton porque vejo mais coerência nos dados apresentados.

Agora falando de escravidão de pessoas negras e os fatores de discriminação.

Um de meus maiores amigos é o prof. Darlan de Oliveira Reis Júnior, historiador e pesquisador sobre a escravidão. Nos trabalhos de Reis Júnior aprendi que a escravidão foi a mola propulsora da vida econômica brasileira por três séculos. Mais do que isso, ter escravos refletia um padrão social:

"A propriedade de escravos, entretanto, não se limitava a uma classe pequena dominante. Apesar dos ricos fazendeiros terem sido sempre os donos da maioria dos escravos brasileiros, particularmente nos últimos anos, havia muitas pessoas pobres que viviam do trabalho de um ou mais cativos." (Conrad, 1975 apud Reis Júnior, 2006).
Reis Júnior (2006) acrescenta que esse fenômeno de escravos como um bem de consumo acontecia até em municípios como Crato-CE no séc. XIX, onde a presença dos escravos era dita muito baixa.

Imaginem séculos, onde neste país pessoas negras, caboclos e mulatos foram tratados assim, como objetos. Pensei muito nisso quando comprei meu primeiro carro. Vi naquele momento que estava ascendendo socialmente pelos objetos que estava possuindo. Há apenas dois séculos atrás, essa impressão era dada pela compra de outros humanos.

Eu sou pardo e meu avô materno tinha uma pele muito escura. Falam em minha família que a minha bisavó materna foi uma escrava. Nunca fui atrás de confirmar as verdades dessa história. Gosto dela assim e das características do mestiço que sou. Gosto de ter essa identidade brasileira como o mulato que era Machado de Assis, um de meus autores preferidos.

Claro, sei que a vida poderia ter sido mais fácil se tivesse uma pele rosada e olhos azuis. Fazer o quê, senão lutar para ser feliz?! De todos os posts deste Blog a respeito da discriminação humana a cor da pele agrava qualquer um. É só conjugar para sentir as palavras: uma mulher negra, um homossexual negro, um deficiente mental negro, etc.

Um amigo meu me falou certo dia: "seu carro (um Gol) é a sua cara de pobre, se você comprasse um Honda Civic iriam parar e revistar você em toda blitz policial". Isso é uma verdade para mim que sou pardo, imaginem para os negros?!
O racismo está impregnado em todos os setores da sociedade, dos jornais da TV com reporteres brancos até as novelas de casas de luxo e personagens principais... também brancos. Tudo isso neste país crioulo que é o Brasil.

Para finalizar, mesmo sendo piegas, escrevo alguns dos nomes dos maiores negros/ negras que conheço: Martin Luther King, Mohamed Ali, Steve Biko, Mandela, Benedita da Silva, Elza Soares, Gilberto Gil, Chico Cesar e o nosso Pelé!!! Há ainda Barack Hussein Obama, descendente de queniano nascido no Hawaii e que representa uma das maiores esperanças para o povo americano. Um negro no comando do país da Ku Klux Kan... Torço demais por ele, ou mesmo que não seja assassinado.

Èpa Bàbá! Oxalá!!!

Referências
Cheng, KC., 2008. Skin color in fish and humans: Impacts on science and society. Zebrafish, 5(4): 237-242.
Diamond, JM., 2001. Armas, germes e aço. Editora Record.
Jablonski, NG., 2004. The evolution of human skin and skin color, Annual Review of Anthropology 33: 585–623, doi:10.1146/annurev.anthro.33.070203.143955
Jablonski, NG. e Chaplin, G., 2000. The evolution of human skin coloration, Journal of Human Evolution 39: 57–106, doi:10.1006/jhev.2000.0403.
Jablonski, NG., e Chaplin, G., 2002. Skin deep. Scientific American, 287 (4): 74-82.
Reis Júnior, DO., 2006. Trabalhadores no eito: Escravos negros no Crato oitocentista. Documentos Revista do Arquivo Público do Ceará, 1(3): 121-135.
Rushton, JP., 1997. Race, evolution and behavior: A life history perspective. 2nd Special Abridge Edition. Transaction Publishers.
Rushton, JP., 1998. The new enemies of evolutionary science. Liberty, 11(4): 31-35.
Wade, N., 2005. Gene That Determines Skin Color Is Discovered, Scientists Report. NYTimes.com: http://www.nytimes.com/2005/12/16/science/16gene.html

5 comentários:

Darlan Reis disse...

Sugestão para a série "discriminados": os ateus.

Uma das maiores discriminações que acontecem nos dias atuais é a que atinge os ateus.

Que tal, camarada? Aguardo suas palavras.

Waltécio disse...

Eu sou ateu e sei do que você está sugerindo! Anotado para encerrar a série!

Abs,

W.

Darlan Reis disse...

Camarada, leia aí:

http://caderno.josesaramago.org/2009/02/10/ateus/

O velho comunista é bom no que faz!

Linda disse...

Cor de pele nao e razao para se ficar tao entusiasmado acerca de qualquer pessoa, seja branca, amarela, verde, preta, azul ou vermelha. Ficar tao content porque o president tod EUA e negro, nao e bastante.
Se voce le Ingles, voce podera ver que muitos intellectuais (brancos e negros) investigaram Obama minusciosamente e chegaram a conclusao que ele faria o que ele esta fazendo para o povo: NADA.*1

Nos vivemos numa cultura de pretensao ("make believe). *2

Nao somos so os negros que sao discriminados, os indios, as plantas, os animais, a terra, o ceu, as aguas e os proprios brancos porque a poluicao e democratica. Nos precisamos de pessoas que estao disposta a criar uma cultura de prestacao de contas, integridade e transparencia. Esta cultura nao existe. Uma cultura com trasnparencia que presta conta dos seus atos usa o jeitinho so para ter flexibilidade em ajudar o proximo ou a communidade. Mesmo assim de maneira trasnparente.
Escrever acerca de discriminacao nao preclude organizar contra a discriminacao. Minha pergunta: O que e que voce esta fazendo para tirar o neros da miseria e destituticao? Se voce nao esta fazendo nada... fala(escrever) e facil.

*1 - Black Agenda Report - http://www.blackagendareport.com/

ou
Os primeiros 100 dias de Obama na Casa Branca
http://www.blackagendareport.com/?q=content/obamas-first-100-days-black-agenda-report-card

*2 - The culture of Make believe
http://www.derrickjensen.org/published.html#books

Waltécio disse...

Obrigado pelos comentários, Linda!

"Minha pergunta: O que e que voce esta fazendo para tirar o neros da miseria e destituticao? Se voce nao esta fazendo nada... fala(escrever) e facil"

Como escrevi no texto, eu sou pardo, nordestino e filho de pais pobres. Sei que apenas isso não me credencia em termos de ação, mas lhe digo que já senti na pele discriminação... e não foi uma única vez.

Na pequena universidade que trabalho, sou favorável as cotas para negros e pardos. Meu partido apoia incondicionalmente à luta de todos os discriminados, faz reuniões sobre esses assuntos e promulgam soluções na proposta de novas leis, ou o cumprimento de nossa Constituição.

Infelizmente, você está mais do que certa. Em particular faço pouca coisa prática para mudar esse mundo humano (e não é apenas de discriminação que escrevo).

Espero fazer muito mais até onde minhas forças conseguirem. Grandes desafios para mim, você e a humanidade.

Um grande abraço e se cuida!!!

 
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