terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Discriminados: Deficientes

Devido à inclusão de mais um tema na lista dos discriminados (ateus), eu resolvi unir em um único post deficientes físicos e mentais, mesmo que eles variem consideravelmente em causas e estrutura comportamental.

Se você nasceu um homem, heterossexual e branco, não sofrerá nenhuma das discriminações postadas anteriormente (mulheres, homossexuais e negros). Entretanto, há uma tênue linha vermelha que pode ser ultrapassada por um acidente, ou algum tipo de doença, onde esse homem pode se tornar deficiente. Em outras palavras, falar de loucos e deficientes físicos nos comove, porque todos nós, por motivo ou outro, podemos ser um dia assim.
Deficiência mental pode ser causada por várias causas, um desenvolvimento embriológico afetado por agentes teratogênicos, síndromes cromossômicas, acidentes envolvendo lesões cerebrais e as doenças relacionadas à velhice que levam a demência.

De forma similar, deficientes físicos podem ser resultado de má formação embriológica, acidentes e devido à senescência de nosso corpo.

Entretanto, ao classificarmos alguns tipos de deficientes como "loucos", essa loucura em si nos fascina por um lado e deixa-nos desconcertados por outro. Loucura é para alguns quebrar regras sociais, ou mesmo correr riscos desnecessários. Por outro lado, não entender e deixar de cumprir regras sociais é comparado ao estado bruto animal, como defecar em praça pública, agredir uma pessoa sem motivos, nadar nu no lago artificial em frente ao Palácio do Planalto.

Já escrevi no post
Realidade, que há forças genéticas e sociais fortíssimas definindo comportamentos médios, onde a maioria forma a regra. Entre nós humanos quão mais longe da média você estiver, menos atrativo será. Isso serve para todos os discriminados, em vias de regra, porque não formam os núcleos da "maioria".

Não vemos com facilidade animais loucos por aí, qualquer desvio exagerado no comportamento é eliminado pela seleção natural. Por exemplo, se baleias líderes perdem a capacidade neurosensorial eletromagética podem guiar todo baleal para a morte na praia. Uma mudança letal no comportamento.
Ter deficiência física também é raro e quase impossível em estado natural. Um pássaro sem uma das asas, uma barata sem antenas, um lobo sem uma das pernas, nenhum sobreviveria por muito tempo.


E nós humanos?

Antes de qualquer coisa saibamos que somos animais socais, isso implica em uma base genética para esse tipo de comportamento. Fácil de entender, imagine-se ter que ir para um local repleto de pessoas que te odeiam. Imaginou? Dá um frio na barriga, não dá? Faça o contrário, imagine um local repleto de pessoas que gostam de você. Aí vem um sentimento de bem estar e até uma vontade de correr urgentemente para esse lugar.

É geneticamente imperioso: temos que ser aceitos em um grupo, ficar só para nós macacos sociais é sofrer de depressão por solidão. É tão forte, que muitos terminam hospitalizados, ou, em extremo, cometendo suicídio.

Solidão pode matar! Na natureza mais ainda. Se um macaco é expulso de um grupo, ele dificilmente será aceito por outro. Não estou escrevendo da migração das fêmeas em
Pan troglodytes, nem das dos machos em Pan paniscus. É o expurgo do macaco ômega... Ficar só é morte certa.



Pessoas com deficiência lutam para serem aceitas. Lutam com todas as forças para tentar levar uma vida normal, mesmo que isso em algumas vezes seja quase impossível.



Três coisas em graus de importância nos fazem preservar indivíduos com algum tipo de deficiência ou doença mental entre nós: amor materno, princípios éticos e auto-preservação por empatia.

Como já escrito neste Blog, amor de mãe é genético e incondicional. Filhos com problemas, em média, não deixam de ser amados como filhos... ou até mais amados ainda, caso sejam frágeis e dependentes.

Por princípios éticos, grande parte dos povos humanos atuais defendem os direitos humanos, sendo o mais básico, o direito à vida. Isso é algo recente e oficializado no século XX (ONU, Declaração dos Direitos Humanos, 10 de dezembro de 1948). Todos conhecemos histórias de povos que não toleram qualquer tipo de deficiência, o exemplo clássico de Esparta, ou nas culturas dos nossos ameríndios.

A empatia é um sentimento genético dos primatas, nós nos colocamos no lugar de outros. É tão forte que, por exemplo, podemos chorar aos prantos em filmes de pura ficção, onde os personagens nem existem, ou mesmo podem nem ser humanos, como a cadela Lassie (décadas de 1950-1970). A empatia no caso das pessoas com deficiência é algo demonstrado também como auto-preservação, pois se não demonstrássemos sentimentos para essas pessoas, podemos nós mesmos a qualquer momento estar entre elas.

Notem que apesar de escrever sobre grupos humanos discriminados, eu não quero dizer que todas essas pessoas sejam perfeitas em sentimentos, moral e ética. Pode haver cafajestes brancos e negros, pervertidos heterossexuais e homossexuais, mulheres e homens cínicos, deficientes físicos e normais misantropos!

Somos todos humanos com virtudes e defeitos!

Vejam Erik, o Fantasma da Ópera, com rosto deformado, não é nada gentil do início ao quase final da história... seu ódio por Raoul é de ciúmes e amor por Christine... Erik é um homem comum, tem o rosto desfigurado, mas apaixonou-se e queria ser correspondido. Como isso não aconteceu, como diria um amigo meu, "o pau comeu".

Isso tem que ser bem compreendido, porque no folclore popular, muitas vezes, alguém com deficiência física é apontado como merecedor do sofrimento e até escárnio. Para ilustrar isso, lembro de uma história de minha infância. A vizinha lá de casa possuía paralisia corporal nas pernas e dificuldades na fala. Cheguei a vê-la caminhando com ajuda da mãe várias vezes. Todavia, com o passar dos anos e a não melhora do quadro, ela passou a ficar reclusa em sua casa.

Quando mudamos para lá, ela já estava assim, mas diziam na rua que foi um acidente de carro responsável por toda essa dor. As pessoas falavam o quanto ela era bonita, quão orgulhosa era, que andava com "homens-de-carro" e nem cumprimentava seus vizinhos. "Deus a castigou", falavam!

Mesmo menino, eu nunca acreditei nisso e lembro muito bem das manhãs que ela acordava, presa na cama por sua deficiência, tinha que gritar por sua mãe para ir ao banheiro. Não eram gritos nada agradáveis de ouvir.

Todos nós podemos estar sujeitos a situações assim e é mais fatalidade do que algum plano cruel divino.

Lembro ainda quando criança do dia em que tentei usar as muletas de uma visita familiar, que estava com a perna quebrada. Queria só ver como era... Minha mãe ficou uma "arara" comigo e quase apanhei feio. Ela não queria ver seu filho usando muletas, nem por brincadeira!

Eu entendo o medo que ela sentiu, até porque, anos depois, seu irmão (Tio Jorge) teve três derrames cerebrais (AVCs) e ficou paralisado. Morreu no quarto derrame e já usava fralda geriátrica. Tio Jorge foi um homem comum, temente a deus, morreu deficiente e completamente dependente de sua esposa.

Em nosso cotidiano é estranho como nos esforçamos para esconder isso de nós mesmos. Construímos manicômios para os loucos, guardamos em casa nossos deficientes... é como se eles não existissem. Estão ausentes na maioria dos romances clássicos, filmes, novelas, nos lugares que andamos, nas repartições públicas, escolas, hospitais, etc.

Onde estão essas pessoas?

Novamente, lembrem-se do tamanho populacional de nossa espécie, somos 6,5 bilhões de indivíduos. Isso significa que 1% desse montante é da ordem de 65 milhões de pessoas!!! Segundo Cristina e Resende (2006), no Brasil são cerca de 24,5 milhões de pessoas com alguma deficiência física. Isso é quase duas vezes mais do que toda a população do Chile!!! Esse dado não inclui os deficientes e doentes mentais.

Em nossa constituição há direitos dos portadores de deficiência física e há lei nacional para que sejam ofertadas e preenchidas vagas no serviço público (artigo 37, VIII, da Constituição da República, princípio da igualdade, art. 5º, caput da CR/88, Lei Federal n° 7853, de 24 de outubro de 1989). Isso deveria ser também aplicado no setor privado.

Entre os loucos famosos, cita-se Van Gogh e mesmo Nietszche, que terminou seus dias entre loucos delírios se auto-identificando como o Deus Dionísio em carne e osso. O personagem que até hoje mais me emocionou foi Forrest Gump. Lembro que em 1994 sai do cinema segurando as lágrimas pensando "é só um filme, não existem 'Forrest Gumps' na vida real". Eu estava enganado?!




Entre os deficientes físicos, não deixo de prestar sempre homenagem a Stephen Hawking. O maior físico contemporâneo, era um homem heterossexual, branco e de sucesso acadêmico. Casou-se, teve três filhos e descobriu que era portador de
esclerose lateral amiotrófica.

No Brasil, há Antônio Francisco Lisboa (o "Aleijadinho") que também é um ilustre exemplo de alguém normal que teve de enfrentar infortúnios da hanseníase (ou outra doença não identificada). Diferente de Stephen Hawking, nosso exemplo brasileiro morreu pobre e abandonado.


Sem contar que eu teria o maior prazer como professor de ter um aluno tão dedicado e brilhante quanto Ricardo Silva de Várzea Alegre -CE:


Minha própria irmã é portadora de Esclerose Múltipla. Ela é casada, tem uma filha linda, é funcionária federal e leva uma vida normal. Controla a doença através do uso de beta-interferon, dieta e uma calma que é só dela.

Sobre tudo isso, acho que minha mãe está certa em uma coisa: tem é muita gente por aí reclamando da vida desnecessariamente. Quer dizer, ela usaria as seguintes palavras "tem gente de bucho cheio reclamando"... rsrsrs!!!

É de responsabilidade humana tornar o mundo melhor em todos os sentidos. Isso implica no combate à qualquer sistema político, social e econômico de exclusão e desumanização, como esse nosso mundo capitalista e alienado em que vivemos.

Ao escrever este post, não tirei da cabeça a propaganda contra o preconceito dos portadores da Síndrome de Down. A música é do Radiohead ("Fake Plastic Trees", 1995) e selecionei esse vídeo para representar todos os discriminados comentados aqui:


Tenham preocupações e ações verdadeiras!
Para saber mais:
http://www.revista.inf.br/contabeis08/pages/artigos/cc-edic08-anoIV-art03.pdf
http://www.icb.ufmg.br/lpf/revista/revista1/volume1_loucura/cap1.htm
http://pt.wikipedia.org/wiki/Deficientes
http://pt.wikipedia.org/wiki/Defici%C3%AAncia_mental

4 comentários:

Marcelo disse...

Surpreendente... os textos apresentados neste blog são de uma riqueza estonteante! bobo daquele que não acompanha!

Waltécio disse...

Obrigado, Marcelo!!!

Um grande abraço, meu amigo!!!

W.

Darlan Reis disse...

Waltécio, mais uma vez você tem razão. Ou se não tem, eu sou seu admirador e seguidor!

E se a pessoa for deficiente como você mostra e pobre, rapaz, o "bicho" pega mais ainda. Aí deixa de ser uma questão só de preconceito e discriminação e some-se a isso as enormes dificuldades de sobrevivência. Tem gente que não tem à disposição os recursos que minimizem a deficiência e nós mesmos já vimos pessoas se arrastando, literalmente, pelas ruas porque não tinham dinheiro para comprar uma cadeira de rodas.
Triste realidade capitalista onde um equipamento como uma cadeira de rodas vira mercadoria.

Waltécio disse...

Camarada... e tem gente que pensa que esse mundo de exploração humana é "natural".

Um dia a casa cai!!!

Abs,

W.

 
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