sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Discriminados: Obesos

Ok, da lista que me dispus a escrever, entre os discriminados, os obesos são comparativamente o grupo mais "light". Muito embora, apenas quem vive nesse mundo sabe o quanto ele é pesado.

No post anterior, escrevi brevemente sobre nossa regra imperiosa de viver em grupo. Qualquer característica sua que te afaste das pessoas, ou seja motivo de piada e escárnio, é uma dor constante. Se for um óculos, há cirurgias hoje que podem reparar seus olhos. No caso dos obesos, também, mas a eficácia de uma operação de redução do estômago nem sempre é tão eficaz, caso os hábitos alimentares não acompanhem essa mudança.

Não é exclusividade humana, porque somos animais, ora! Qualquer mamífero em cativeiro alimentado com comida em excesso se torna obeso. Na imprensa, na qual os humanos parecem ser criaturas de outro planeta, há um ar de surpresa, porque mais de 50% dos cães e gatos domésticos estão com o peso acima do normal. Dizem: "alimentos humanos" dados a esses animais(1). Pizzas, chocolate, bata frita e refrigerante são alimentos manufaturados por nós humanos, mas possuem base natural, amido, açúcares mais simples e água.


Outros animais, além de nós, adoram essas iguarias, da mesma forma que gostamos de alimentos manufaturadas por outras espécies, por exemplo, o mel de abelha.

Então não é surpresa saber que todos nós temos um programa genético para obesidade! Para não engordar em excesso no mundo atual de sedentarismo precisamos nos esforçar muito!!!

Na verdade, a maioria da população mundial hoje está acima de seu peso ideal, apenas no Brasil são 38,6 milhões e destes, 10,5 milhões de pessoas são consideradas obesas (2,3). Isso envolve adultos, adolescentes e crianças!

Por que somos assim? A resposta está em nossa evolução.

Para quem não leu, eis a oportunidade de ler os posts anteriores (é só clicar):
Olhos Pleistocênicos
Anacronismo

Quem já leu, ou melhor ainda, já possuía essa informação através de livros como “A Culpa é da Genética” (Burnham e Phelan, 2002) e “Instinto Humano” (Winston, 2006) está bem ambientado sobre esse assunto.

Simples assim, nossos corpos evoluíram nas planícies africanas do Pleistoceno, migramos e variamos um pouco em outros continentes. Apesar disso, nossa estrutura corporal continua a mesma, somos o mesmo povo pleistocênico.

Nesse nosso ambiente ancestral não existe a revolução tecnológica dos aparelhos refrigeradores de alimentos, ou conservantes industriais.

Somos programados para guardar o máximo de energia possível em nossos corpos na forma de glicogênio e tecido adiposo. Se você é um universitário da área das Ciências Biológicas e da Saúde sabe que cada parte de nossos corpos possui uma demanda e fonte de energia específica. Por exemplo, nosso cérebro funciona 24 horas, de domingo a domingo, seu descanso só se dá na morte. É um tipo de órgão de função contínua, mesmo em estado de torpor (conhecido vulgarmente como dormir), o cérebro continua operando na construção de mundos oníricos, fantasias e delírios subconscientes, às vezes, tão perfeitos que parece realidade. Tudo isso movido à GLICOSE! Esse monossacarídeo é a base de nossa energia metabólica, ele não pode faltar em seu sangue de jeito nenhum, momento algum... caso contrário, seu cérebro reclama e pode até entrar em estado de choque.

É o que acontece quando tomamos um porre grande e desmedido. O fígado entra em ação para desintoxicar o organismo e nesse trabalho acaba consumindo muita glicose. Quando os níveis de glicose sangüínea baixam muito, vem a dor de cabeça, perda de memória e até o coma!

Voltemos para nossa terra natal, lá nas savanas em pleno Pleistoceno. É estabelecido hoje que, entre outros fatores, o consumo de carne e gordura animal foi decisivo para o aumento de nosso cérebro. A carne é rica em energia facilmente digerida e transformada em glicose. É um alimento ideal para nós que precisamos tanto desse monossacarídeo. Não estamos sós nessa fome, chimpanzés também gostam muito de carne e hoje sabemos e temos até filmes dos nossos irmãos caçando macacos, ou predando outros pequenos vertebrados. Há uma diferença genética entre nós e eles, suportamos altos níveis de colesterol, enquanto descobrimos nos zoológicos que excesso de carne para macacos, matam eles muito rápido de problemas cardiovasculares. O efeito nocivo do colesterol em humanos é cumulativo e pode levar décadas para se desenvolver de forma prejudicial.

À parte o colesterol, quais os outros problemas no consumo de carne?

O primeiro e mais óbvio: ela não está disponível facilmente. Tem perna para fugir, dentes e às vezes chifres para se defender. Consumir carne, mesmo de cadáveres já abatidos, é competir com outros animais diretamente, ou indiretamente. Tudo isso requer muito esforço físico e mental.

O segundo problema é que a carne rapidamente apodrece! No Pleistoceno não tínhamos nenhuma tecnologia eficaz de armazenamento. Mesmo depois defumada a carne, ela continuava com um tempo limitado para seu consumo.

No primeiro caso, resolvemos o problema caçando de forma muito eficiente, tais quais nossos irmãos chimpanzés.

No segundo: transformamos o que comemos em gorduras!!! Assim como outros animais, fazemos reservas em nossos corpos. Sua gordura é o refrigerador pleistocênico natural de armazenamento alimentício.

Olhem para si próprios... Fizeram isso?! Compare o tamanho do seu corpo com todas outras espécies de animais hoje vivas. Quer desafio maior? Faça isso incluindo todas as espécies fósseis que você conhece. Feito isso o resultado é um só: a esmagadora maioria das espécies de animais é menor que você. Estamos no célebre grupo dos maiores animais que já andaram neste planeta.

Meus queridos leitores, os músculos de suas pernas são gigantescos comparados aos da perna de um rato. Mas, como entre os animais o grupo de maior diversidade é os Arthropoda, comparando-se agora aos músculos das pernas articuladas desses animais, somos colossais!

Esse nosso corpo gigante não foi feito para estar na frente de TVs e computadores por muito tempo. Temos que usar nossos músculos! No Pleistoceno isso não era problema, porque o principal alimento de nossos cérebros em crescimento tinha que ser tomado de outros, quando carniça, ou caçado. Sem contar na coleta de frutos e raízes, fontes de sacarose e amido (outras fontes de glicose com digestão e armazenamento diferentes do glicogênio da carne).

Comeu, teve um saldo positivo, sobrou energia, nosso corpo guarda em nosso banco de gordura para horas mais difíceis. Em nosso mundo atual, essas "horas mais difíceis" nunca vêm... mas, continuamos armazenando energia.

Há outros fatores, porque parece que também temos um padrão comportamental para quanto menos energia gastarmos na obtenção de alimentos melhor. Sim, a preguiça é mais genética do que se supunha! Voltemos às planícies africanas, matar uma zebra é um esforço muito grande, se um dia de sorte conseguíssemos abater uma apenas com um grito, seria perfeito.

Some tudo agora e o resultado é um só: obesidade!!!

Obesidade tão natural como os pães integrais e a salada verde!!!

A evolução cultural e tecnológica foi rápida demais para nossos corpos que continuam sendo... pleistocênicos! Bioquimicamente estamos programados a guardar todo excesso de energia, comportamentalmente temos o instinto de tentar gastar o mínimo de energia para obter o máximo. Se ficamos no sofá, assistindo TV com controle remoto, comendo macarrão, um pedaço de picanha bem gorda e muito refrigerante... é o paraíso! Gastamos quase nada de energia e todo excesso será guardado... bem guardado em seus quadris!!! Quer mais?! É instintivo e inusitado para as células de seu corpo ter tanta energia disponível que em seu cérebro é secretado endorfinas como recompensa por esse "lanchinho". As endorfinas trazem uma sensação de bem-estar... Por isso, algumas pessoas depressivas costumam comer muito... Elas sentem-se bem, porque a química neural traz uma certa sensação de paz, mesmo engordando.

Agora prestem muita atenção em uma ironia de nossas vidas. As pessoas que possuem obesidade mórbida, aquelas que chamamos de “gordinhas”, podem até comer pouco, mas seus organismos aproveitam o máximo, conseguem guardar com muita eficiência qualquer alimento. É aquela história de “engordo com facilidade”.

É um perigo hoje, mas essas pessoas seriam um sucesso evolutivo nas planícies africanas. Ah! Elas não seriam obesas! Vejam os Massai de hoje, há algum obeso por lá? Mesmo que haja sutis diferenças entre os indivíduos, diferenças de aptidão (uma das condições para a seleção natural ocorrer), eles possuem uma aparência média e não são obesos.

O sucesso evolutivo de ontem, a agonia de hoje!

Há dois séculos avançamos demais em pesquisas em todas as áreas do conhecimento humano. Descobrimos todos os males do acúmulo exacerbado de gordura em nossos copos. Na Idade Média, pessoas gordas eram consideradas saudáveis, bem alimentadas. Era até um dos sete pecados capitais: a gula. Deveria ser punido, não porque fazia mal ao indivíduo obeso, mas sim por ter tanto para si próprio, onde a maioria passava fome. Hoje sabemos que isso não é assim.

As ciências médicas indicaram caminhos da boa saúde: controlar ao máximo nossos instintos. Por isso, é tão difícil fazer dieta!!! Toda vez que você estiver fazendo isso, está lutando contra milhões de anos de evolução de seu próprio corpo, uma história milenar de adaptação falando: coma, coma, coma. Se colocar um grande e suculento filé em sua frente: devore-o. Dá até lágrimas nos olhos de tanto prazer.

Pode-se ficar muito doente por causa do excesso de peso, como também se pode ficar doente por todo e qualquer excesso. Até água em excesso (hiponatremia) mata, como aconteceu há exatamente um ano atrás com o britânico Shaun McNamara(4).

Além de tudo isso, algumas pesquisas indicaram que nós somos relativamente parecidos com nossos amigos. Vestimos roupas semelhantes, ouvimos as mesmas músicas, falamos sobre os mesmos assuntos, temos uma identidade cultural. O corpo meio que acompanha isso, caso tenhamos amigos obesos, tendemos a ganhar peso também. Obesidade parece ser socialmente contagiosa (5).

Isso não implica que para ser magro deve-se ter apenas amigos assim. Apenas é uma constatação que compartilhamos problemas, pior seria enfrentá-los sozinho.

Chegamos a nossa atual sociedade ocidental... alienada e neurótica. Pessoas obesas passaram a ser interpretadas como preguiçosas e doentes. Sem contar toda a mídia de louvor à magreza e corpos irreais criados através do Photoshop.

Não temos mais costureiras e alfaiates, compramos nossas roupas prontas, baseadas em modelos e modas pré-estabelecidas. Nesse mundo, qualquer minoria está fora. Pessoas obesas sabem o que sentem quando vão às compras.

Todos nós temos um(a) amigo(a) que chamamos “gordinho(a)”, muitos deles são bem simpáticos, tão simpáticos que parece uma defesa a toda discriminação que sofrem. Eu prefiro os ranzinzas, como meu grande amigo Eduardo Sérgio Medeiros (hoje professor de Física da UFPB). Quem o conhece sabe do que escrevo: ele fala na cara, é curto e muito grosso. Entretanto, é um amigo sincero e estava sempre presente quando precisávamos.

Em homenagem ao meu amigo gordinho do heavy metal e todos os obesos de coragem deste mundo, segue a música da banda S.O.D. "Seasoning the Obese" ("Temporada dos Obesos"):

Cuidem-se! Isso não quer dizer “saiam para as academias agora”. Apenas tornem suas vidas saudáveis, possuam um bom convívio familiar, amem, sejam amados e tenham amigos. Sejam eles obesos, ou magros!

Sem excessos!!!

2 comentários:

Diego l disse...

Cada dia que passa vc faz o que parece impossível, melhora o blog, até SYSTEM temos agora!!! _\,,/

Waltécio disse...

\,,/

 
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